{"id":1663,"date":"2025-05-01T16:18:54","date_gmt":"2025-05-01T19:18:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=1663"},"modified":"2025-05-01T16:19:17","modified_gmt":"2025-05-01T19:19:17","slug":"apesar-e-atraves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2025\/05\/01\/apesar-e-atraves\/","title":{"rendered":"Apesar e atrav\u00e9s: a racializa\u00e7\u00e3o durante o processo de proletariza\u00e7\u00e3o do Brasil e da \u00c1frica do Sul"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por:<\/strong> Murilo Marinho Junior <strong>[1]<\/strong><\/p>\n<p><strong>1. Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Compreender o processo de proletariza\u00e7\u00e3o em regi\u00f5es perif\u00e9ricas \u00e9 essencial para aprofundar a an\u00e1lise das din\u00e2micas hist\u00f3rico-mundiais capitalistas e dos mecanismos de incorpora\u00e7\u00e3o dessas \u00e1reas ao sistema-mundo moderno. Embora Marx tenha descrito esse processo para o contexto europeu, din\u00e2micas similares n\u00e3o podem ser interpretadas da mesma forma em distintas regi\u00f5es do mundo. Rela\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, como o processo de racializa\u00e7\u00e3o do trabalho, produziram resultados variados. O presente artigo busca evidenciar essas diferen\u00e7as e semelhan\u00e7as no processo de proletariza\u00e7\u00e3o nas zonas perif\u00e9ricas, com foco no Brasil e na \u00c1frica do Sul. Pretende-se demonstrar como as intera\u00e7\u00f5es com o centro din\u00e2mico moldaram a forma\u00e7\u00e3o de mercados de trabalho assalariados sem romper com os privil\u00e9gios baseados na ra\u00e7a.\u00a0 Para tanto, analisa-se o fim das rela\u00e7\u00f5es de escravid\u00e3o em ambos os pa\u00edses e suas implica\u00e7\u00f5es na configura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dessas regi\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>2. Proletariza\u00e7\u00e3o Sul-Africana<\/strong><\/p>\n<p>Quando olhamos para a hist\u00f3ria da \u00c1frica do Sul, especialmente durante os primeiros momentos da coloniza\u00e7\u00e3o europeia nos s\u00e9culos XVIII e XIX, n\u00e3o se pode ignorar como os interesses do capital estrangeiro moldaram profundamente a regi\u00e3o. Inicialmente vista apenas como um ponto estrat\u00e9gico para reabastecimento de navios da Companhia Holandesa das \u00cdndias Orientais, a regi\u00e3o acabou se tornando palco de um processo mais amplo de coloniza\u00e7\u00e3o. Esse movimento n\u00e3o surgiu por acaso, pois atendeu diretamente \u00e0s necessidades da expans\u00e3o da economia-mundo capitalista. Para consolidar o dom\u00ednio e estruturar a col\u00f4nia, os administradores holandeses passaram a importar m\u00e3o de obra escravizada, essencial para o desenvolvimento de infraestrutura e para o in\u00edcio da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola em escala comercial noutras \u00e1reas. O crescimento urbano e a forma\u00e7\u00e3o dos primeiros centros coloniais estiveram, portanto, diretamente ligados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do trabalho for\u00e7ado (Pereira, 2012).<\/p>\n<p>Com o avan\u00e7o dos colonos rumo ao interior do territ\u00f3rio sul-africano, iniciava-se uma nova fase da coloniza\u00e7\u00e3o: agora, o objetivo era integrar os povos nativos \u00e0s estruturas necess\u00e1rias para garantir a acumula\u00e7\u00e3o de capital. No come\u00e7o, isso acontecia de forma aparentemente pac\u00edfica, por meio da troca de gado e produtos da ca\u00e7a. No entanto, como aponta Legassick (1977), esse tipo de com\u00e9rcio j\u00e1 era suficiente para desestabilizar as formas tradicionais de produ\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es locais. Mas o processo n\u00e3o parou por a\u00ed. Com o tempo, as rela\u00e7\u00f5es comerciais deram lugar a pr\u00e1ticas muito mais agressivas. Assim, coer\u00e7\u00e3o, invas\u00f5es e apropria\u00e7\u00e3o de terras passaram a fazer parte da rotina colonial, tudo com o objetivo de garantir a subsist\u00eancia dos colonos e expandir seu controle. Ao mesmo tempo, as terras dos nativos come\u00e7aram a ser incorporadas dentro da l\u00f3gica da propriedade privada \u2014 um conceito estranho e imposto \u00e0s sociedades africanas, cujas formas de ocupa\u00e7\u00e3o e uso da terra eram bem diferentes. O que se viu, ent\u00e3o, foi o avan\u00e7o de uma estrutura colonial que, aos poucos, minava as bases da vida comunit\u00e1ria dos povos origin\u00e1rios, ao mesmo tempo em que fortalecia os interesses econ\u00f4micos europeus.<\/p>\n<p>Entre 1792 e 1834, a \u00c1frica do Sul passou por uma verdadeira reconfigura\u00e7\u00e3o do seu \u201cmetabolismo social\u201d. Nesse per\u00edodo, o dom\u00ednio ingl\u00eas sobre a regi\u00e3o se consolida, marcando o fim da hegemonia holandesa e dando in\u00edcio a um novo ciclo de mudan\u00e7as guiado pelos ideais do liberalismo brit\u00e2nico e pelos interesses do imperialismo de livre-com\u00e9rcio. J\u00e1 marcada por uma estrutura social profundamente racializada, a sociedade sul-africana entra em ebuli\u00e7\u00e3o. A chegada dos brit\u00e2nicos n\u00e3o significou uma ruptura com a l\u00f3gica da domina\u00e7\u00e3o, mas sim a sua moderniza\u00e7\u00e3o. Com o avan\u00e7o do liberalismo, novas estruturas pol\u00edticas e econ\u00f4micas foram implantadas para garantir a manuten\u00e7\u00e3o da superioridade dos colonizadores sobre os povos nativos e mesti\u00e7os. Isso se traduziu em pol\u00edticas de restri\u00e7\u00e3o de acesso \u00e0 terra e, principalmente, na transforma\u00e7\u00e3o dessa popula\u00e7\u00e3o em for\u00e7a de trabalho subordinada. Esse processo se intensificou ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o formal da escravid\u00e3o em 1838, quando nativos e imigrantes passaram a compor um ex\u00e9rcito de trabalhadores livres apenas no nome \u2014 explorados de formas diferentes, mas com a mesma finalidade: alimentar a engrenagem do capital. A descoberta de minas de diamantes e ouro nas d\u00e9cadas seguintes apenas acelerou esse processo, colocando a \u00c1frica do Sul em um novo patamar econ\u00f4mico, mas \u00e0s custas de uma desigualdade brutal que deixaria marcas profundas em sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A descoberta das minas de ouro e diamante na \u00c1frica do Sul n\u00e3o trouxe apenas uma explos\u00e3o econ\u00f4mica \u2014 ela provocou tamb\u00e9m uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural na organiza\u00e7\u00e3o social e racial do pa\u00eds. Com uma nova economia tomando forma, a tradicional hierarquia racial precisou se adaptar. Um exemplo claro disso foi o surgimento de uma classe de brancos empobrecidos, que, sem acesso \u00e0 terra \u2014 j\u00e1 escassa e concentrada \u2014 passaram a integrar o mercado de trabalho como assalariados. Era o in\u00edcio da proletariza\u00e7\u00e3o de parte da popula\u00e7\u00e3o branca. Mas o cen\u00e1rio era bem mais complexo para os povos nativos. Ao contr\u00e1rio do que poderia parecer, a transi\u00e7\u00e3o para o trabalho assalariado entre os africanos n\u00e3o aconteceu de forma livre ou natural. A minera\u00e7\u00e3o, por suas caracter\u00edsticas espec\u00edficas de lucratividade, exigia uma for\u00e7a de trabalho abundante, barata e sazonal. Para isso, uma s\u00e9rie de dispositivos jur\u00eddicos e institucionais foi criada, com o objetivo de garantir que o excedente continuasse sendo extra\u00eddo de forma eficiente, mesmo ap\u00f3s o fim formal da escravid\u00e3o. Nesse contexto, os trabalhadores nativos passaram a ser usados como m\u00e3o de obra sazonal: contratados em tempos de alta, dispensados em tempos de crise. Quando n\u00e3o estavam nas minas, eram for\u00e7ados a retornar \u00e0s suas terras \u2014 muitas vezes insuficientes ou degradadas \u2014 para sobreviver da agricultura de subsist\u00eancia. Esse modelo permitia que os empregadores pagassem sal\u00e1rios baix\u00edssimos, j\u00e1 que o custo da reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho era empurrado para as comunidades nativas. Enquanto isso, os sal\u00e1rios dos trabalhadores brancos eram artificialmente elevados, sustentados por pol\u00edticas de transfer\u00eancia do excedente extra\u00eddo dos trabalhadores racializados. Diante disso, cabe at\u00e9 questionar se a classe m\u00e9dia branca sul-africana da \u00e9poca poderia realmente ser chamada de prolet\u00e1ria. Afinal, seus altos sal\u00e1rios n\u00e3o vinham de sua produtividade, mas sim de um sistema profundamente desigual, que concentrava privil\u00e9gios por meio da explora\u00e7\u00e3o de outros. Esse modelo alcan\u00e7a sua forma mais brutal com a formaliza\u00e7\u00e3o do Apartheid \u2014 o regime de desenvolvimento separado que institucionalizou a segrega\u00e7\u00e3o racial como pol\u00edtica de Estado.<\/p>\n<p><strong>3. Proletariza\u00e7\u00e3o Brasileira<\/strong><\/p>\n<p>A chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500, inicialmente n\u00e3o representou uma mudan\u00e7a imediata nas prioridades comerciais de Portugal, que mantinha seu foco nas rotas lucrativas do Oriente. No entanto, a l\u00f3gica imperial exigia mais do que apenas o direito simb\u00f3lico sobre as terras divididas pelo Tratado de Tordesilhas \u2014 era preciso ocupar efetivamente o territ\u00f3rio para garantir sua posse. Assim, a explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais do Brasil come\u00e7ou a se consolidar como forma de manter e financiar a presen\u00e7a portuguesa na regi\u00e3o, integrando o novo territ\u00f3rio \u00e0 l\u00f3gica de um imp\u00e9rio ultramarino. Com o passar do tempo, o Brasil ganhou import\u00e2ncia dentro da estrutura colonial portuguesa, especialmente \u00e0 medida que atividades econ\u00f4micas como a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar passaram a demandar grande quantidade de m\u00e3o de obra. Nesse contexto, a coloniza\u00e7\u00e3o se consolidou com a utiliza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de pessoas escravizadas vindas da \u00c1frica. A explora\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio brasileiro, portanto, n\u00e3o pode ser dissociada do projeto imperial portugu\u00eas nem do sistema escravista, que foi essencial para sustentar economicamente a ocupa\u00e7\u00e3o e a extra\u00e7\u00e3o de riquezas, garantindo os lucros da metr\u00f3pole e mantendo a estrutura colonial baseada na desigualdade e na viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Diferente do que ocorreu na Inglaterra com os <em>enclosures<\/em>, a consolida\u00e7\u00e3o da propriedade privada no Brasil colonial n\u00e3o surgiu por meio de interesses privados, mas a partir das diretrizes da Coroa portuguesa. A distribui\u00e7\u00e3o de terras era feita pelo sistema de sesmarias, adotado oficialmente em 1375 em Portugal e trazido para o Brasil com o objetivo de evitar a ociosidade da terra \u2014 ainda que, na pr\u00e1tica, elas continuassem concentradas nas m\u00e3os de poucos. A exig\u00eancia de recursos para manter essas terras produtivas, imposta desde o governo de Tom\u00e9 de Souza, acabou excluindo grande parte da popula\u00e7\u00e3o pobre, que via na ocupa\u00e7\u00e3o informal a \u00fanica forma de acesso \u00e0 terra. Com a independ\u00eancia do Brasil, o sistema de sesmarias acabou sendo suspenso em 1822. Mesmo com o reconhecimento formal do direito \u00e0 propriedade na Constitui\u00e7\u00e3o de 1824, o acesso \u00e0 terra seguiu se dando majoritariamente pela posse, sem regulamenta\u00e7\u00e3o clara. Foi apenas em 1850, com a promulga\u00e7\u00e3o da Lei de Terras, que o Brasil estabeleceu que o acesso \u00e0 terra s\u00f3 poderia ocorrer por meio da compra, criminalizando ocupa\u00e7\u00f5es. Essa mudan\u00e7a marcou uma virada profunda ao restringir ainda mais o acesso dos mais pobres \u00e0 terra e legalizou a concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, moldando a estrutura agr\u00e1ria desigual que ainda persiste no pa\u00eds (Ghidorsi, Cruz, 2023 ; Silva, 1996).<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o do Brasil de uma economia baseada no trabalho escravo para uma estruturada no trabalho assalariado foi tudo, menos r\u00e1pida ou simples, e esteve delimitado pelas condi\u00e7\u00f5es de acesso \u00e0 terra. Esse processo aconteceu impulsionado muito mais por press\u00f5es externas do que por iniciativa interna. Um dos marcos mais importantes foi a atua\u00e7\u00e3o da Inglaterra, que, j\u00e1 em 1822, come\u00e7ava a pressionar pelo fim do tr\u00e1fico negreiro. Essa press\u00e3o culminou, em 1845, na aprova\u00e7\u00e3o do Tratado de Aberdeen, que autorizava a marinha brit\u00e2nica a interceptar e fiscalizar navios suspeitos de transportar pessoas escravizadas \u2014 uma clara demonstra\u00e7\u00e3o de que o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico j\u00e1 n\u00e3o era tolerado no cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p>Mesmo com leis e tratados sendo aprovados ao longo das d\u00e9cadas, a escravid\u00e3o s\u00f3 foi oficialmente abolida em 1888. Mas o fim formal da escravid\u00e3o n\u00e3o significou, na pr\u00e1tica, o fim da explora\u00e7\u00e3o. A transi\u00e7\u00e3o para o trabalho assalariado ocorreu em um pa\u00eds ainda profundamente marcado pela concentra\u00e7\u00e3o de terra e poder. Muitos dos antigos senhores de escravos se tornaram patr\u00f5es de trabalhadores livres, mas as condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho para essa nova classe continuavam sendo extremamente prec\u00e1rias. A nova ordem mantinha, sob outra forma, a l\u00f3gica de desigualdade e domina\u00e7\u00e3o que estruturou o Brasil durante s\u00e9culos.<\/p>\n<p>O processo gradual de extin\u00e7\u00e3o do trabalho compuls\u00f3rio n\u00e3o foi suficiente para tornar as fazendas espa\u00e7os atrativos aos trabalhadores livres ou rec\u00e9m-libertos, dadas as prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es laborais ali vigentes. Aliado a isso, as possibilidades de encontrar for\u00e7a de trabalho no Brasil, suficiente para a realiza\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da taxa de lucratividade, eram remotas. Onde n\u00e3o imperava o trabalho escravo, os trabalhadores livres estavam inseridos na din\u00e2mica das planta\u00e7\u00f5es, por meio do trabalho de subsist\u00eancia. Dessa forma \u2014 mesmo que juridicamente livres \u2014 esses trabalhadores n\u00e3o constitu\u00edam propriamente um mercado de trabalho capitalista. A imigra\u00e7\u00e3o de trabalhadores europeus foi uma tentativa de encontrar for\u00e7a de trabalho necess\u00e1ria \u00e0 r\u00e1pida expans\u00e3o das planta\u00e7\u00f5es. A imigra\u00e7\u00e3o se baseava no sistema de parcerias, onde os trabalhadores imigrantes eram pagos pela colheita, que era comprada pelo pr\u00f3prio fazendeiro. Entretanto, mesmo com essas condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o foi poss\u00edvel provocar uma imigra\u00e7\u00e3o massiva. Foram necess\u00e1rios mais de 10 anos para que os fazendeiros de caf\u00e9 abandonassem os m\u00e9todos pr\u00e9-capitalistas e oferecer aos trabalhadores condi\u00e7\u00f5es de trabalho baseadas em contratos salariais. A aboli\u00e7\u00e3o progressiva, ao mesmo tempo em que evitava a perda de valor da massa de escravos de um dia para o outro, retardava a introdu\u00e7\u00e3o a transforma\u00e7\u00e3o dos trabalhadores livres e ex-escravizados em trabalhadores assalariados. Fundamenta-se, a partir disso, abordagens ideol\u00f3gicas que buscavam justificar o atraso da introdu\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado e as dificuldades econ\u00f4micas enfrentadas pelo Estado brasileiro. O mito da vadiagem buscava denunciar a pregui\u00e7a, irresponsabilidade e a indisciplina dos trabalhadores livres da economia escravista brasileira. Com o reconhecimento das barb\u00e1ries perpetradas pelo sistema escravista, o mito da vadiagem serviu para refor\u00e7ar a ordem escravocrata frente a resist\u00eancia dos trabalhadores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 disciplina do modelo escravista.<\/p>\n<p><strong>4. Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/strong><\/p>\n<p>Embora Brasil e \u00c1frica do Sul compartilhem uma hist\u00f3ria marcada pela explora\u00e7\u00e3o colonial e pela escravid\u00e3o, a forma como esses processos moldaram seus respectivos mercados de trabalho apresenta diferen\u00e7as profundas \u2014 especialmente no modo como o racismo foi institucionalizado (ou naturalizado) para garantir a manuten\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho ap\u00f3s o fim da escravid\u00e3o formal.<\/p>\n<p>Na \u00c1frica do Sul, a inser\u00e7\u00e3o do capitalismo brit\u00e2nico de livre-com\u00e9rcio nas regi\u00f5es perif\u00e9ricas foi acompanhada por uma forte atua\u00e7\u00e3o estatal. O Estado teve papel central na constru\u00e7\u00e3o de um mercado de trabalho racialmente hierarquizado: criou leis e dispositivos que limitavam as oportunidades para trabalhadores negros, ao mesmo tempo em que reservava os melhores sal\u00e1rios e postos para a popula\u00e7\u00e3o branca. A racializa\u00e7\u00e3o, nesse caso, foi institucionalizada como ferramenta para garantir que o lucro, antes assegurado pelo trabalho compuls\u00f3rio, seguisse sendo extra\u00eddo de forma desigual.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Brasil, o processo foi mais silencioso, por\u00e9m igualmente violento. A longa dura\u00e7\u00e3o da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa consolidou uma cultura em que o racismo foi incorporado \u00e0s estruturas sociais de forma org\u00e2nica, sem a necessidade de um aparato legal expl\u00edcito. As institui\u00e7\u00f5es e o imagin\u00e1rio coletivo naturalizaram uma hierarquia racial que atravessou o fim da escravid\u00e3o. Assim, a transi\u00e7\u00e3o para o trabalho assalariado n\u00e3o representou uma ruptura, mas sim uma continuidade das formas de domina\u00e7\u00e3o herdadas do per\u00edodo colonial.<\/p>\n<p>Dessa forma, o presente texto buscou demonstrar como a proletariza\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra brasileira se d\u00e1 <strong><em>apesar <\/em><\/strong>das condi\u00e7\u00f5es racializadas impostas durante o per\u00edodo colonial. Enquanto na \u00c1frica do Sul, o mercado de trabalho \u00e9 formado <strong><em>atrav\u00e9s <\/em><\/strong>da atitude deliberada do Estado em expandir e criar institui\u00e7\u00f5es que mantiveram o racismo com condicionante do mercado de trabalho.<\/p>\n<p><strong>5. Notas<\/strong><\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong> Mestrando do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina \u2013 UFSC. Este artigo apresenta uma s\u00edntese da monografia do autor intitulada Semelhan\u00e7as e Diferen\u00e7as no Processo de Proletariza\u00e7\u00e3o no Terceiro Mundo: o caso do Brasil e \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p><em>Cr\u00e9ditos da imagem que ilustra o artigo:<\/em> Gang of Captives at Mbame\u2019s \u2013 1865 \u2013 David Livingstone. <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ficheiro:Gang_of_Captives_at_Mbame%E2%80%99s.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\">Wikipedia<\/a>.<\/p>\n<p><strong>6. Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>CRUZ, Aline da; GHIDORSI, Josiane Dillor Brugnera. A influ\u00eancia das sesmarias na estrutura fundi\u00e1ria do Brasil Rep\u00fablica. <strong>Revista Internacional Cosinter de Direito<\/strong>, v. 16, n. 9, p. 1-18.<\/p>\n<p>LEGASSICK, Martin. South Africa: force labor, industrialization, and racial differentiation. In: HARRIS, Richard (comp.). <strong>The Political Economy of Africa<\/strong>. Nova York: Schenkman Publishing Company Inc, 1977. p. 277-300.<\/p>\n<p>MARINHO JUNIOR, Murilo. <strong>Semelhan\u00e7as e Diferen\u00e7as no Processo de Proletariza\u00e7\u00e3o no Terceiro Mundo: o caso do Brasil e \u00c1frica do Sul.<\/strong> 2024. 67 f. TCC (Gradua\u00e7\u00e3o) &#8211; Curso de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, Centro Socioecon\u00f4mico, Universidade Federal de Santa Catarina, Florian\u00f3polis, 2024.<\/p>\n<p>MARX, Karl. <strong>O Capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/strong>. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2023<\/p>\n<p>PEREIRA, Anal\u00facia Danilevicz. <strong>A Revolu\u00e7\u00e3o Sul-Africana<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2012.<\/p>\n<p>SANTOS, F\u00e1bio P\u00e1dua dos. Sistema-mundo moderno, economia de mercado e forma\u00e7\u00e3o do Brasil contempor\u00e2neo.<strong> Economia e Sociedade<\/strong>, v. 33, n. 2, p. e251714, 2024.<\/p>\n<p>SILVA, L\u00edgia Os\u00f3rio. <strong>Terras Devolutas e Latif\u00fandio: efeitos da lei de 1850<\/strong>. 2. ed. Campinas: Editora Unicamp, 1996.<\/p>\n<p>WALLERSTEIN, Immanuel; MARTIN, William G. Peripheralisation of Southern Africa, II: changes in household structure and labor-force formation. <strong>Review (Fernand Braudel Center)<\/strong>. New York, p. 193-207. mar. 1979.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Por: Murilo Marinho Junior<br \/>\nApesar e atrav\u00e9s: a racializa\u00e7\u00e3o durante o processo de proletariza\u00e7\u00e3o do Brasil e da \u00c1frica do Sul<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":680,"featured_media":1664,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[196],"tags":[15,299],"class_list":["post-1663","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-desigualdade","tag-desigualdade-social"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2025\/05\/Imagem-Artigo.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1663","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/680"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1663"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1663\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1668,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1663\/revisions\/1668"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1664"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1663"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1663"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1663"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}