{"id":1696,"date":"2025-11-11T11:20:15","date_gmt":"2025-11-11T14:20:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=1696"},"modified":"2025-11-11T11:20:15","modified_gmt":"2025-11-11T14:20:15","slug":"crises-ficcao-especulativa-e-critica-da-economia-politica-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2025\/11\/11\/crises-ficcao-especulativa-e-critica-da-economia-politica-contemporanea\/","title":{"rendered":"Crises, fic\u00e7\u00e3o especulativa e cr\u00edtica da economia pol\u00edtica contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<p>Por: <strong>Leonardo Dias Nunes<\/strong><\/p>\n<p>The <em>Ministry for the Future<\/em> <strong>[1]<\/strong>, do escritor norte-americano Kim Stanley Robinson, \u00e9 uma obra de fic\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica <em>(cli-fi) <\/em>que combina diferentes registros textuais para construir um enredo futurista em torno de uma quest\u00e3o urgente: como salvar o planeta do aquecimento global. A sa\u00edda proposta na trama gira em torno da cria\u00e7\u00e3o de uma moeda baseada em cr\u00e9ditos de carbono e de uma pol\u00edtica monet\u00e1ria global voltada \u00e0 sustentabilidade.<\/p>\n<p>O romance entrela\u00e7a temas como crise clim\u00e1tica, cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, pol\u00edtica monet\u00e1ria, refugiados ambientais, inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, desigualdade e viol\u00eancia social. Diante dessa combina\u00e7\u00e3o instigante, a leitura da obra de Robinson ganha especial relev\u00e2ncia neste momento em que o Brasil se prepara para sediar a <em>COP30<\/em>, em Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>A conjuntura atual se caracteriza pelas crises m\u00faltiplas no capitalismo contempor\u00e2neo \u2013 econ\u00f4mica, pol\u00edtica, social, demogr\u00e1fica, ecol\u00f3gica e epistemol\u00f3gica \u2013 que corroem a sociabilidade do indiv\u00edduo moderno e o isola em meio \u00e0s incertezas do neoliberalismo <strong>[2]<\/strong>. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise ambiental, pensadoras como Saskia Sassen <strong>[3]<\/strong> e Eduardo S\u00e1 Barreto <strong>[4]<\/strong> lembram que a l\u00f3gica capitalista \u00e9, por natureza, destrutiva do meio ambiente e que, independentemente do regime pol\u00edtico, os Estados nacionais reproduzem essa destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No romance, tudo come\u00e7a com uma onda de calor devastadora na \u00cdndia, respons\u00e1vel por milh\u00f5es de mortes em poucos dias. O trauma coletivo leva \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio para o Futuro, institui\u00e7\u00e3o comandada por Mary Murphy, que busca implementar uma moeda lastreada na captura de carbono. Para tanto, essa <em>policy maker<\/em> precisa negociar com banqueiros, os representantes das for\u00e7as mais poderosas e reacion\u00e1rias do planeta.<\/p>\n<p>Robinson conhece bem as rela\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia econ\u00f4mica e poder. Com uma cr\u00edtica incisiva, ele denuncia um campo do saber que sustenta um <em>status quo<\/em> em crise e que necessita de uma profunda reforma. Ao resenhar o livro, o fil\u00f3sofo Steven Shaviro <strong>[5]<\/strong> observa que essas propostas reformistas presentes no livro representam, na verdade, o realismo de nosso tempo.<\/p>\n<p>Ao longo da narrativa, o autor constr\u00f3i um vasto repert\u00f3rio de cr\u00edticas \u00e0 economia dominante. Ele questiona os limites da economia neocl\u00e1ssica, a incapacidade da macroeconomia em explicar fen\u00f4menos complexos como a infla\u00e7\u00e3o e a contradi\u00e7\u00e3o entre o discurso neoliberal e seus resultados concretos, sobretudo no que tange \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de renda e ao agravamento da desigualdade global.<\/p>\n<p>Um momento a ser destacado ocorre no cap\u00edtulo 64, quando Robinson revisita a ideia de <em>eutan\u00e1sia do rentista<\/em>, proposta por John Maynard Keynes em sua <em>Teoria Geral<\/em>. O autor explora a etimologia do termo <em>eutan\u00e1sia<\/em>, que significa <em>morte suave<\/em>, e enfatiza que o rentista n\u00e3o sofre, tampouco deseja morrer. Assim, para Robinson, Keynes usou um eufemismo para expressar a necessidade radical de eliminar o rentismo como forma de libertar a economia. Seria, portanto, uma revolu\u00e7\u00e3o sem revolu\u00e7\u00e3o, uma reforma profunda do capitalismo.<\/p>\n<p>A trama de <em>The Ministry for the Future<\/em> reflete um mundo atravessado por crises, especialmente a clim\u00e1tica. Embora n\u00e3o seja poss\u00edvel confirmar de forma objetiva, identifica-se afinidades entre as ideias de Robinson e as ideias de Mariana Mazzucato <strong>[6]<\/strong> e Thomas Piketty <strong>[7]<\/strong>, pois o autor tamb\u00e9m observa a necessidade de um Estado empreendedor, capaz de intervir decisivamente para resolver problemas ambientais, e de uma utopia tribut\u00e1ria, baseada na taxa\u00e7\u00e3o do capital global.<\/p>\n<p>Em um contexto em que existe uma imensa dificuldade para imaginar novos futuros poss\u00edveis, a fic\u00e7\u00e3o de Robinson se torna ainda mais relevante porque nos convida a pensar o que ainda n\u00e3o foi pensado, a imaginar horizontes alternativos e a formular pol\u00edticas globais de coopera\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p><em>The Ministry for the Future<\/em>, ainda sem tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas, \u00e9 mais que uma fic\u00e7\u00e3o especulativa sobre o futuro, \u00e9 um exerc\u00edcio cr\u00edtico de imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que antecipa debates centrais que poder\u00e3o ocorrer na <em>COP30<\/em> e provoca uma pergunta fundamental: que tipo de mundo queremos construir a partir das ru\u00ednas do presente?<\/p>\n<p><strong>*<\/strong> Este artigo foi originalmente publicado no site do <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/the-ministry-for-the-future-crises-ficcao-especulativa-e-critica-da-economia-politica-contemporanea\/\">Le Monde Diplomatique \u2013 Brasil<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong> ROBINSON, Kim Stanley. <em>The Ministry for the Future: A Novel<\/em>. Orbit, 2020.<\/p>\n<p><strong>[2]<\/strong> NUNES, Leonardo Dias. <em>Uma teia em constru\u00e7\u00e3o: leituras sobre a crise capitalista<\/em>. Blog Sobre Economia. <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2024\/07\/31\/leituras-crise-capitalista\/\">Link<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[3]<\/strong> SASSEN, Saskia. <em>Expuls\u00f5es: brutalidade e complexidade na economia global<\/em>. Editora Paz e Terra, 2020.<\/p>\n<p><strong>[4]<\/strong> S\u00c1 BARRETO, Eduardo. <em>O capital na estufa: para a cr\u00edtica da economia das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/em>. Rio de Janeiro: Consequ\u00eancia, 2018.<\/p>\n<p><strong>[5]<\/strong> SHAVIRO, Steven. <em>Optimism in the Face of Catastrophe: Kim Stanley Robinson\u2019s The Ministry for the Future<\/em>. Studies in the Fantastic, v.10, n.1, p.108\u2013114, 2020.<\/p>\n<p><strong>[6]<\/strong> MAZZUCATO, Mariana. <em>O Estado Empreendedor: desmascarando o mito do setor p\u00fablico vs. setor privado<\/em>. Portfolio-Penguin, 2014.<\/p>\n<p><strong>[7]<\/strong> PIKETTY, Thomas. <em>O Capital no S\u00e9culo XXI<\/em>. Editora Intr\u00ednseca, 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Livro fic\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica (cli-fi) do escritor norte-americano Kim Stanley Robinson, The Ministry for the Future, ganha especial relev\u00e2ncia neste momento em que o Brasil se prepara para sediar a COP 30.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":680,"featured_media":1699,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[196],"tags":[577,299,232],"class_list":["post-1696","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-crises-conexas-do-capitalismo-contemporaneo","tag-desigualdade-social","tag-neoliberalismo"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2025\/11\/Imagem-Capa-1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1696","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/680"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1696"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1696\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1701,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1696\/revisions\/1701"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1699"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1696"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1696"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1696"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}