{"id":228,"date":"2020-10-07T20:26:29","date_gmt":"2020-10-07T23:26:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=228"},"modified":"2021-02-02T18:47:01","modified_gmt":"2021-02-02T21:47:01","slug":"o-pensamento-economico-da-cepal-uma-apresentacao-didatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2020\/10\/07\/o-pensamento-economico-da-cepal-uma-apresentacao-didatica\/","title":{"rendered":"O pensamento econ\u00f4mico da CEPAL: uma apresenta\u00e7\u00e3o did\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p>Por V\u00edtor Lopes de Souza Alves.<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (CEPAL) \u00e9 uma das cinco comiss\u00f5es econ\u00f4micas regionais da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). Ela foi criada em 1948, com sede em Santiago, no Chile, tendo por objetivo promover o desenvolvimento econ\u00f4mico latino-americano e caribenho. \u00c9 reconhecida sobretudo pela defesa de uma teoria particular do desenvolvimento econ\u00f4mico, que vai de encontro \u00e0s teorias convencionais. Ao contr\u00e1rio destas, que recomendam o livre-mercado e a especializa\u00e7\u00e3o produtiva nos setores que apresentam vantagens comparativas \u2013 no caso da regi\u00e3o, os setores prim\u00e1rios, como agricultura e minera\u00e7\u00e3o \u2013, a teoria cepalina entende que o subdesenvolvimento apenas pode ser superado atrav\u00e9s da industrializa\u00e7\u00e3o conduzida pela interven\u00e7\u00e3o estatal. Entre os te\u00f3ricos respons\u00e1veis pela elabora\u00e7\u00e3o do pensamento cepalino, destacam-se o argentino Ra\u00fal Prebisch (1901-1986) e o brasileiro Celso Furtado (1920-2004).<\/p>\n<p>Este texto prop\u00f5e-se a apresentar, de forma sucinta e objetiva, as ideias fundamentais que comp\u00f5em o pensamento econ\u00f4mico da CEPAL. Pretende-se que ele possa servir como material did\u00e1tico de f\u00e1cil compreens\u00e3o tanto \u00e0queles que desejam conhecer o pensamento cepalino como \u00e0queles que o ensinam.<\/p>\n<p>Tem-se por refer\u00eancia o cap\u00edtulo I, <em>A Concep\u00e7\u00e3o do Sistema Centro-Periferia<\/em>, do livro <em>Teoria do Subdesenvolvimento da CEPAL<\/em>, de autoria do uruguaio Octavio Rodr\u00edguez (1933-2017). Essa obra, lan\u00e7ada em espanhol em 1980 e traduzida para o portugu\u00eas em 1981, re\u00fane de forma sistem\u00e1tica o conjunto de contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que constituem o pensamento da CEPAL. Ela se prop\u00f5e a \u201c<em>passar em revista e sistematizar os diferentes componentes do pensamento cepalino e, sobre essa base, tentar critic\u00e1-lo<\/em>\u201d (Rodr\u00edguez, 1981, p. 15), tratando-se de um excelente material introdut\u00f3rio ao assunto. Seu primeiro cap\u00edtulo, que apresenta os conceitos de centro e periferia, \u00e9 de especial import\u00e2ncia. Tal formula\u00e7\u00e3o, que veio a p\u00fablico por meio de dois documentos-chave datados de 1949 \u2013 <em>El desarrollo econ\u00f3mico de la Am\u00e9rica Latina y algunos de sus principales problemas<\/em> e <em>Estudio econ\u00f3mico de Am\u00e9rica Latina, 1949<\/em> \u2013, constitui o n\u00facleo do pensamento cepalino, a no\u00e7\u00e3o geral a partir da qual foram elaborados e com a qual se articulam os diversos corpos te\u00f3ricos e as diversas recomenda\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica pr\u00f3prios da CEPAL. Pode-se entend\u00ea-la, portanto, como a ideia definidora de um novo paradigma em economia, o da teoria cepalina do subdesenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>A ideia do desenvolvimento desigual<\/strong><\/p>\n<p>Nos escritos da CEPAL, o conceito de desenvolvimento econ\u00f4mico comporta as seguintes defini\u00e7\u00f5es: aumento do bem-estar material, aumento do n\u00edvel da renda real per capita, aumento da produtividade m\u00e9dia do trabalho, adensamento do capital ou aumento da rela\u00e7\u00e3o capital\/trabalho, acumula\u00e7\u00e3o de capital, progresso t\u00e9cnico etc. Em linhas gerais, portanto, esse entendimento \u00e9 similar ao que se faz presente nas teorias do crescimento econ\u00f4mico neocl\u00e1ssica e keynesiana, dada a \u00eanfase na acumula\u00e7\u00e3o de capital e no progresso t\u00e9cnico, bem como a identifica\u00e7\u00e3o entre desenvolvimento e crescimento. Entretanto, h\u00e1 que se ressaltar uma diferen\u00e7a not\u00e1vel: ao contr\u00e1rio desses modelos te\u00f3ricos, a CEPAL n\u00e3o se prop\u00f5e a estudar a acumula\u00e7\u00e3o de capital e o progresso t\u00e9cnico no interior de uma economia capitalista isolada, mas se preocupa sobretudo em compreender como se d\u00e1 a sua difus\u00e3o no \u00e2mbito de um sistema mundial composto por espa\u00e7os econ\u00f4micos diferenciados, denominados centro e periferia.<\/p>\n<p>A CEPAL reconhece que historicamente o desenvolvimento econ\u00f4mico deu-se de forma desigual no centro e na periferia. O quadro 1 a seguir apresenta as caracter\u00edsticas estruturais atribu\u00eddas a cada um desses espa\u00e7os, as quais expressam em <em>termos est\u00e1ticos<\/em> a sua diferencia\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Quadro 1:<strong> Centro x Periferia<\/strong><\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"288\">\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #000080\"><strong>Centro<\/strong><\/span><\/p>\n<\/td>\n<td style=\"text-align: center\" width=\"288\">\n<p><span style=\"color: #993300\"><strong>Periferia<\/strong><\/span><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"288\">\n<p style=\"text-align: center\">Economias em que as t\u00e9cnicas capitalistas de produ\u00e7\u00e3o penetraram primeiro (<strong><span style=\"color: #000080\">Inglaterra e EUA<\/span><\/strong>);<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"288\">\n<p style=\"text-align: center\">Economias que permanecem atrasadas do ponto de vista tecnol\u00f3gico e organizativo (<strong><span style=\"color: #993300\">Am\u00e9rica Latina<\/span><\/strong>);<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"288\">\n<p style=\"text-align: center\">Produz e exporta <span style=\"color: #000080\"><strong>bens industriais<\/strong><\/span>;<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"288\">\n<p style=\"text-align: center\">Produz e exporta <span style=\"color: #993300\"><strong><span style=\"color: #993300\">bens p<\/span>rim\u00e1rios<\/strong><\/span> (alimentos e mat\u00e9rias-primas);<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"288\">\n<p style=\"text-align: center\">Estrutura produtiva <span style=\"color: #000080\"><strong>diversificada<\/strong><\/span>;<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"288\">\n<p style=\"text-align: center\">Produ\u00e7\u00e3o <span style=\"color: #993300\"><strong>especial<span style=\"color: #993300\">izada<\/span><\/strong><\/span> em um ou poucos produtos de exporta\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"288\">\n<p style=\"text-align: center\">Difus\u00e3o <span style=\"color: #000080\"><strong>homog\u00eanea<\/strong><\/span> do progresso t\u00e9cnico pela totalidade do aparelho produtivo;<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"288\">\n<p style=\"text-align: center\">Difus\u00e3o <span style=\"color: #993300\"><strong>heterog\u00eanea<\/strong><\/span> do progresso t\u00e9cnico e economia dual: setor exportador avan\u00e7ado tecnologicamente e de alta produtividade x restante da economia atrasado;<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center\" width=\"288\">\n<p><span style=\"color: #000080\"><strong>Desenvolvido<\/strong><\/span>.<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"288\">\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #993300\"><strong>Subdesenvolvida<\/strong><\/span>.<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: center\">Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do autor a partir de Rodr\u00edguez (1981, p. 37-38).<\/p>\n<p>Em <em>termos din\u00e2micos<\/em>, a diferencia\u00e7\u00e3o entre centro e periferia expressa-se pela exist\u00eancia de uma tend\u00eancia de distanciamento, ao longo do tempo, entre os seus respectivos n\u00edveis de renda per capita, fen\u00f4meno para o qual contribuem tanto a evolu\u00e7\u00e3o desigual das produtividades m\u00e9dias do trabalho como a deteriora\u00e7\u00e3o dos termos de interc\u00e2mbio (DTI). A partir da seguinte equa\u00e7\u00e3o, pode-se compreender de maneira mais direta esse processo:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><span style=\"color: #000000\">y = (<span style=\"color: #993300\">Lp<\/span><span style=\"color: #000000\">.<\/span><span style=\"color: #993300\">Pp<\/span>)\/(<span style=\"color: #000080\">Li<\/span>.<span style=\"color: #000080\">Pi<\/span>)<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\">y: rela\u00e7\u00e3o entre as rendas per capita da periferia e do centro<br><span style=\"font-size: inherit\">Lp: produtividade f\u00edsica m\u00e9dia do trabalho na produ\u00e7\u00e3o de um bem prim\u00e1rio<br><\/span>Pp: pre\u00e7o de um bem prim\u00e1rio<br>Li e Pi: o correspondente para um bem industrial<\/p>\n<p>Por um lado, reconhece-se que o progresso t\u00e9cnico \u00e9 mais acelerado no centro do que na periferia, de modo que \u201c<em>os incrementos da produtividade do trabalho \u2013 consequ\u00eancia da incorpora\u00e7\u00e3o do progresso t\u00e9cnico ao processo produtivo \u2013 s\u00e3o mais intensos na ind\u00fastria do centro do que nos setores prim\u00e1rio-exportadores da periferia, fato que, por sua vez, se reflete na disparidade dos ritmos de aumento das respectivas produtividades m\u00e9dias<\/em>\u201d (Rodr\u00edguez, 1981, p. 38). Tem-se assim que Lp cresce mais lentamente do que Li, o que contribui para a redu\u00e7\u00e3o de y. Por outro lado, identifica-se um decl\u00ednio dos pre\u00e7os dos bens prim\u00e1rios exportados pela periferia relativamente aos pre\u00e7os dos bens industriais por ela importados, isto \u00e9, a imposi\u00e7\u00e3o a ela da DTI, uma vez que os ganhos de produtividade decorrentes da incorpora\u00e7\u00e3o do progresso t\u00e9cnico n\u00e3o se traduzem, na pr\u00e1tica, na redu\u00e7\u00e3o proporcional dos pre\u00e7os de cada um dos bens. \u201c<em>Por defini\u00e7\u00e3o, a deteriora\u00e7\u00e3o dos termos de interc\u00e2mbio implica que o poder de compra de bens industriais de uma unidade de bens prim\u00e1rios de exporta\u00e7\u00e3o se reduz com o transcorrer do tempo.<\/em>\u201d (Rodr\u00edguez, 1981, p. 39). Conforme os documentos da CEPAL, o que se verifica \u00e9 que tanto Pp como Pi apresentam crescimento, sendo, no entanto, o crescimento de Pp mais lento do que o de Pi, o que tamb\u00e9m contribui para a queda de y.<\/p>\n<p>Como se pode notar, em decorr\u00eancia de ambas as tend\u00eancias, a rela\u00e7\u00e3o entre as rendas per capita da periferia e do centro tende se reduzir: a renda per capita da periferia (Lp.Pp) cresce menos rapidamente do que a renda per capita do centro (Li.Pi), passando a representar uma fra\u00e7\u00e3o progressivamente menor desta. H\u00e1 que se ressaltar, no entanto, o resultado particular produzido pela DTI: em raz\u00e3o dela, as rendas per capita da periferia e do centro diferenciam-se com maior intensidade do que as suas respectivas produtividades m\u00e9dias do trabalho, isto \u00e9, a renda per capita da periferia cresce a uma taxa menor do que a sua produtividade, o contr\u00e1rio ocorrendo no centro. Em outras palavras, a DTI faz com que a periferia perca parte dos frutos do seu pr\u00f3prio progresso t\u00e9cnico, transferindo-os para o centro. A esse respeito, Rodr\u00edguez \u00e9 enf\u00e1tico:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">Esse \u00e9 o significado da deteriora\u00e7\u00e3o dos termos de interc\u00e2mbio que realmente interessa do ponto de vista conceitual, e conv\u00e9m reiter\u00e1-lo. Ainda que esse fen\u00f4meno n\u00e3o se produza, s\u00f3 a desigualdade dos ritmos de aumento da produtividade do trabalho j\u00e1 sup\u00f5e que as rendas m\u00e9dias se diferenciem. Se, al\u00e9m disso, a deteriora\u00e7\u00e3o se produz, as rendas m\u00e9dias se diferenciar\u00e3o em medida ainda maior. Expresso em nomenclatura cepalina: a deteriora\u00e7\u00e3o implica no fato de que os frutos do progresso t\u00e9cnico se concentram nos centros industriais. (Rodr\u00edguez, 1981, p. 40).<\/span><\/p>\n<p>Quanto \u00e0s causas que produzem a DTI, estas s\u00e3o explicadas pela CEPAL por meio da teoria das elasticidades. \u00c0 medida que a produtividade e a renda se elevam mundialmente, a demanda mundial cresce e se diversifica, modificando-se a sua composi\u00e7\u00e3o. Admite-se que a demanda por bens industriais cres\u00e7a com maior intensidade do que a demanda por bens prim\u00e1rios, isto \u00e9, que para cada unidade monet\u00e1ria adicional gerada na economia mundial, uma fra\u00e7\u00e3o maior da mesma seja gasta na compra de um bem industrial do que na compra de um bem prim\u00e1rio, fato este que pode ser expresso pela seguinte inequa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><span style=\"color: #000080\">ERi<\/span> &gt; <span style=\"color: #993300\">ERp<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\">ERi: elasticidade-renda da demanda por bens industriais<br>ERp: elasticidade-renda da demanda por bens prim\u00e1rios<\/p>\n<p>A satisfa\u00e7\u00e3o dessa demanda crescente e em diversifica\u00e7\u00e3o requer uma mudan\u00e7a na composi\u00e7\u00e3o setorial da produ\u00e7\u00e3o e do emprego, devendo o produto e a ocupa\u00e7\u00e3o crescerem a taxas mais elevadas no setor industrial do que no setor prim\u00e1rio. Dada a escassa mobilidade internacional da for\u00e7a de trabalho, surge uma tend\u00eancia a se produzirem excessos de m\u00e3o-de-obra na periferia, configurando-se o desemprego estrutural. Por sua vez, esse excedente de trabalho pressiona para baixo os sal\u00e1rios e, consequentemente, os pre\u00e7os dos bens prim\u00e1rios. Paralelamente, tamb\u00e9m contribuem para a DTI: a maior capacidade da for\u00e7a de trabalho do centro para conseguir aumentos salariais, dada sua maior escassez relativa frente ao capital e sua maior organiza\u00e7\u00e3o sindical, e a maior capacidade do empresariado do centro para preservar seus lucros em momentos de recess\u00e3o, dado o fato de a sua produ\u00e7\u00e3o ocupar as etapas finais do processo produtivo, o que lhe permite pressionar o empresariado da periferia a reduzir os pre\u00e7os dos bens prim\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em conclus\u00e3o, sustenta-se que, como resultado das diferen\u00e7as existentes entre centro e periferia, tanto em termos est\u00e1ticos (caracter\u00edsticas estruturais) como em termos din\u00e2micos (diferen\u00e7a das taxas de crescimento da produtividade m\u00e9dia do trabalho, DTI e diferen\u00e7a das taxas de crescimento do n\u00edvel de renda per capita), tem-se que a din\u00e2mica do sistema capitalista, considerado a n\u00edvel mundial, \u00e9 a do desenvolvimento desigual. Observa-se que \u00e9 a pr\u00f3pria desigualdade estrutural que enseja a evolu\u00e7\u00e3o desigual da produtividade, a DTI e o distanciamento entre os n\u00edveis de renda per capita, isto \u00e9, as diferen\u00e7as existentes em termos est\u00e1ticos entre ambos os espa\u00e7os econ\u00f4micos s\u00e3o tais que criam as diferen\u00e7as existentes em termos din\u00e2micos. Estas, por sua vez, atuam no sentido de garantir a reprodu\u00e7\u00e3o das primeiras. Nas palavras de Rodr\u00edguez,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">Esse \u00e9 o tipo de racioc\u00ednio mediante o qual se procura mostrar que existe uma tend\u00eancia \u00e0 desigualdade entre os dois p\u00f3los do sistema centro-periferia, e que esta \u00e9 inerente \u00e0 sua pr\u00f3pria din\u00e2mica. Argumenta-se, em s\u00edntese, que, por um lado, a desigualdade estrutural e, por outro, a diferencia\u00e7\u00e3o entre produtividades e rendas m\u00e9dias atuam uma sobre a outra e se refor\u00e7am reciprocamente. (Rodr\u00edguez, 1981, p. 42-43).<\/span><\/p>\n<p><strong>A fase do desenvolvimento para dentro<\/strong><\/p>\n<p>O panorama descrito na se\u00e7\u00e3o anterior diz respeito \u00e0 fase do desenvolvimento<em> para fora<\/em> da periferia, compreendida entre a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e o in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Posteriormente, algumas ocorr\u00eancias da economia mundial, conjunturais e estruturais, vieram a implicar a sua industrializa\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, ingressando ela na fase do desenvolvimento <em>para dentro<\/em>.<\/p>\n<p>Entre os acontecimentos<em> conjunturais<\/em> que provocaram essa mudan\u00e7a, constam as duas guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945) e a grande depress\u00e3o dos anos 1930. Em virtude dos mesmos, o centro, envolvido pelo esfor\u00e7o de guerra ou em recess\u00e3o, reduziu as suas importa\u00e7\u00f5es de bens prim\u00e1rios da periferia, vindo esta a se defrontar com uma escassez de divisas e uma dificuldade para importar os bens industriais daquele. Dada a restri\u00e7\u00e3o externa, a periferia foi for\u00e7ada a adotar medidas como a desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial, a imposi\u00e7\u00e3o de tarifas \u00e0s importa\u00e7\u00f5es e a proibi\u00e7\u00e3o direta destas. Paralelamente, tamb\u00e9m foram tomadas medidas para evitar a queda dos n\u00edveis de renda e emprego, as quais mantiveram a demanda perif\u00e9rica ao n\u00edvel corrente. Como resultado, surgiram, nos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, for\u00e7as impulsionadoras da industrializa\u00e7\u00e3o substitutiva de importa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Entre as transforma\u00e7\u00f5es<em> estruturais<\/em>, verifica-se a substitui\u00e7\u00e3o da Inglaterra pelos EUA como centro principal da economia mundial, conclu\u00edda na d\u00e9cada de 1920. Ao contr\u00e1rio da Inglaterra, que era bastante integrada ao mercado mundial, os EUA possu\u00edam uma economia relativamente fechada, com um coeficiente de importa\u00e7\u00f5es baixo e declinante. Desse modo, enquanto at\u00e9 1920 houve uma tend\u00eancia para o equil\u00edbrio a longo prazo da balan\u00e7a comercial, a partir desta d\u00e9cada surgiu uma tend\u00eancia ao d\u00e9ficit externo da periferia. Esse desequil\u00edbrio induziu as economias latino-americanas a adotarem medidas restritivas \u00e0s importa\u00e7\u00f5es, o que tamb\u00e9m estimulou a sua industrializa\u00e7\u00e3o substitutiva.<\/p>\n<p>Por fim, um argumento te\u00f3rico e abstrato tamb\u00e9m d\u00e1 conta da industrializa\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica espont\u00e2nea. O crescimento da economia mundial associa-se \u00e0s tend\u00eancias da mudan\u00e7a da composi\u00e7\u00e3o da demanda e do deslocamento setorial da for\u00e7a de trabalho, da produ\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria para a produ\u00e7\u00e3o industrial. Dada a imobilidade internacional da for\u00e7a de trabalho, a periferia deveria, a partir de algum momento, come\u00e7ar a industrializar-se em alguma medida. Caso contr\u00e1rio, ou ela produziria quantidades crescentemente n\u00e3o vend\u00e1veis de bens prim\u00e1rios ou apresentaria uma taxa de desemprego crescente.<\/p>\n<p>Qualquer que seja a import\u00e2ncia relativa atribu\u00edda a cada uma dessas explica\u00e7\u00f5es, o fato \u00e9 que a periferia passou, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, por uma mudan\u00e7a espont\u00e2nea do seu modelo de crescimento: do desenvolvimento <em>para fora<\/em>, baseado nas exporta\u00e7\u00f5es e nos bens prim\u00e1rios, para o desenvolvimento <em>para dentro<\/em>, baseado no investimento e nos bens industriais. Nas palavras de Rodr\u00edguez,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">Na concep\u00e7\u00e3o do sistema centro-periferia, a industrializa\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada um fato real e um fen\u00f4meno espont\u00e2neo, que indica a exist\u00eancia de uma mudan\u00e7a no modelo do crescimento perif\u00e9rico, uma transforma\u00e7\u00e3o do desenvolvimento para fora, baseado na expans\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es, em desenvolvimento para dentro, baseado na amplia\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o industrial. (Rodr\u00edguez, 1981, p. 43).<\/span><\/p>\n<p>Por sua vez, essa industrializa\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica diferiu substancialmente da industrializa\u00e7\u00e3o do centro e apresentou uma s\u00e9rie de dificuldades e problemas pr\u00f3prios, em sua maioria relacionados \u00e0 inadequa\u00e7\u00e3o da tecnologia, isto \u00e9, \u00e0 inconformidade entre as caracter\u00edsticas estruturais da periferia e o padr\u00e3o tecnol\u00f3gico da ind\u00fastria do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Entre eles, podem-se listar:<\/p>\n<ul>\n<li>Aus\u00eancia de uma ind\u00fastria de bens de capital e necessidade de importa\u00e7\u00e3o destes. Consequentemente, as importa\u00e7\u00f5es passam a crescer a um ritmo maior que as exporta\u00e7\u00f5es, ainda baseadas nos bens prim\u00e1rios. Como resultado, tem-se uma tend\u00eancia ao d\u00e9ficit externo;<\/li>\n<li>Introdu\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas capital-intensivas num espa\u00e7o econ\u00f4mico j\u00e1 caracterizado pela superabund\u00e2ncia de m\u00e3o-de-obra. Al\u00e9m disso, a demanda por bens de capital \u00e9 atendida por meio das importa\u00e7\u00f5es, gerando empregos no centro e n\u00e3o na periferia. Como resultado, tem-se uma tend\u00eancia ao desemprego estrutural e, consequentemente, \u00e0 DTI;<\/li>\n<li>Produ\u00e7\u00e3o em grande escala, t\u00edpica da ind\u00fastria do s\u00e9culo XX x baixo n\u00edvel de renda da periferia. Resultado: insufici\u00eancia de mercado (demanda) e subutiliza\u00e7\u00e3o do capital;<\/li>\n<li>Produ\u00e7\u00e3o com elevada densidade de capital (elevada rela\u00e7\u00e3o K\/L), tamb\u00e9m t\u00edpica da ind\u00fastria do s\u00e9culo XX x baixo n\u00edvel de renda per capita e, consequentemente, baixa capacidade de poupar da periferia. Resultado: lentid\u00e3o do processo de acumula\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>Falta de adapta\u00e7\u00e3o da infraestrutura perif\u00e9rica, mais favor\u00e1vel \u00e0 produ\u00e7\u00e3o prim\u00e1rio-exportadora;<\/li>\n<li>Dificuldades relacionadas \u00e0 estrutura da propriedade fundi\u00e1ria, que tendem a limitar a oferta agr\u00edcola, desincentivar o investimento no campo e gerar desemprego.<\/li>\n<\/ul>\n<p>De acordo com Rodr\u00edguez,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">Em s\u00edntese, durante o processo de industrializa\u00e7\u00e3o: perdura deteriora\u00e7\u00e3o dos termos do interc\u00e2mbio; manifestam-se problemas de balan\u00e7o de pagamentos e absor\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra; produzem-se desajustamentos intersetoriais da produ\u00e7\u00e3o (car\u00eancias de infra-estrutura, de oferta agr\u00edcola, etc.) e persistem as dificuldades de utiliza\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o de capital. (Rodr\u00edguez, 1981, p. 47).<\/span><\/p>\n<p>Contrariamente, o processo de industrializa\u00e7\u00e3o do centro, iniciado s\u00e9culos antes, n\u00e3o teve de lidar com nenhum desses problemas, pois o padr\u00e3o tecnol\u00f3gico da ind\u00fastria, que era diverso, evoluiu de forma lenta e gradual e em paralelo com o seu n\u00edvel de renda, a sua ind\u00fastria de bens de capital e a sua infraestrutura.<\/p>\n<p>Enfim, apesar de se industrializar, a periferia persiste em condi\u00e7\u00f5es de subdesenvolvimento e atraso estrutural relativamente ao centro. Embora tenham diversificado a sua estrutura produtiva, as economias latino-americanas n\u00e3o eliminaram a falta de complementaridade entre os setores produtivos e se mantiveram prim\u00e1rio-exportadoras e heterog\u00eaneas. Os aumentos da produtividade m\u00e9dia do trabalho e da renda per capita por elas obtidos, apesar de consider\u00e1veis, n\u00e3o permitiram uma aproxima\u00e7\u00e3o aos n\u00edveis dos pa\u00edses centrais. Em suma, \u201c<em>a estrutura produtiva se vai transformando durante a fase de desenvolvimento voltado para dentro, sem que se consiga eliminar as diferen\u00e7as de estrutura com rela\u00e7\u00e3o ao centro, que se reproduzem em novos n\u00edveis<\/em>\u201d (Rodr\u00edguez, 1981, p. 48).<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que assume a ind\u00fastria como uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o desenvolvimento econ\u00f4mico, a CEPAL reconhece que a industrializa\u00e7\u00e3o experimentada pela periferia no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, mantendo o seu car\u00e1ter espont\u00e2neo e permanecendo entregue \u00e0s for\u00e7as do livre-mercado, estaria fadada a ser lenta e a manifestar a s\u00e9rie de dificuldades anteriormente mencionadas, sendo ineficaz para promover a supera\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de subdesenvolvimento. Assim sendo, o pensamento cepalino entende ser necess\u00e1ria uma pol\u00edtica deliberada de desenvolvimento, ordenada e racionalizada e com recurso \u00e0 planifica\u00e7\u00e3o\/programa\u00e7\u00e3o, reclamando a condu\u00e7\u00e3o pelo Estado da industrializa\u00e7\u00e3o substitutiva de importa\u00e7\u00f5es nos pa\u00edses latino-americanos.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>CEPAL. <em>Estudio econ\u00f3mico de Am\u00e9rica Latina, 1949<\/em>.<br>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/repositorio.cepal.org\/handle\/11362\/1003\">https:\/\/repositorio.cepal.org\/handle\/11362\/1003<\/a>.<\/p>\n<p>PREBISCH, Ra\u00fal. <em>El desarrollo econ\u00f3mico de la Am\u00e9rica Latina y algunos de sus principales problemas<\/em>.<br>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/repositorio.cepal.org\/handle\/11362\/2039\">https:\/\/repositorio.cepal.org\/handle\/11362\/2039<\/a>.<\/p>\n<p>RODR\u00cdGUEZ, Octavio. <em>Teoria do subdesenvolvimento da CEPAL<\/em>. Rio de Janeiro: Forense-Universit\u00e1ria, 1981.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Por V\u00edtor Lopes de Souza Alves. Introdu\u00e7\u00e3o A Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (CEPAL) \u00e9 uma das cinco comiss\u00f5es econ\u00f4micas regionais <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2020\/10\/07\/o-pensamento-economico-da-cepal-uma-apresentacao-didatica\/\" title=\"O pensamento econ\u00f4mico da CEPAL: uma apresenta\u00e7\u00e3o did\u00e1tica\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":623,"featured_media":230,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[196],"tags":[147,143,141,142,144,10,148,146,145],"class_list":["post-228","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-celso-furtado","tag-centro-periferia","tag-cepal","tag-desenvolvimento-economico","tag-deterioracao-dos-termos-de-intercambio","tag-economia","tag-octavio-rodriguez","tag-raul-prebisch","tag-substituicao-de-importacoes"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/10\/Prebisch-e-Furtado.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/228","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/623"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=228"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/228\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":289,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/228\/revisions\/289"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/230"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=228"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=228"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=228"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}