{"id":253,"date":"2020-12-01T19:20:39","date_gmt":"2020-12-01T22:20:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=253"},"modified":"2021-02-02T18:47:25","modified_gmt":"2021-02-02T21:47:25","slug":"a-teoria-geral-de-keynes-uma-apresentacao-didatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2020\/12\/01\/a-teoria-geral-de-keynes-uma-apresentacao-didatica\/","title":{"rendered":"A Teoria Geral de Keynes: uma apresenta\u00e7\u00e3o did\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p>Por V\u00edtor Lopes de Souza Alves.<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Este texto prop\u00f5e-se a realizar uma apresenta\u00e7\u00e3o did\u00e1tica, objetiva e sucinta das principais ideias econ\u00f4micas do economista brit\u00e2nico John Maynard Keynes (1883-1946) presentes na sua obra mais importante, a <em>Teoria geral do emprego, do juro e da moeda<\/em>. Para isso, recorre-se \u00e0 formaliza\u00e7\u00e3o por meio de gr\u00e1ficos, equa\u00e7\u00f5es e esquemas, em geral ausentes na referida obra.<\/p>\n<p>Keynes escreveu a sua <em>Teoria geral<\/em> e a publicou em 1936 tendo em mente um objetivo principal: dar resposta, por meio da elabora\u00e7\u00e3o de uma teoria econ\u00f4mica, aos dois grandes problemas do seu tempo, a recess\u00e3o e o desemprego. Para al\u00e9m da mera compreens\u00e3o te\u00f3rica desses fen\u00f4menos, a teoria keynesiana aponta para a possibilidade de solucion\u00e1-los, reclamando a necessidade da interven\u00e7\u00e3o estatal atrav\u00e9s da ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. As teorias econ\u00f4micas predominantes no in\u00edcio do s\u00e9culo XX n\u00e3o se mostravam capazes de cumprir esse papel. De um lado, a ortodoxia neocl\u00e1ssica, crente nas propriedades de autocorre\u00e7\u00e3o dos mercados, sustentava que a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dar-se-ia naturalmente, desde que n\u00e3o se verificasse nenhuma inger\u00eancia governamental inadequada. De outro lado, o marxismo, reconhecendo na crise dos anos 1930 o aprofundamento das contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo, esperava pelo acirramento da luta de classes como um desdobramento hist\u00f3rico que daria fim a essa forma de organiza\u00e7\u00e3o social. Nesse sentido, escreve Minsky:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">Assim, nos piores dias da depress\u00e3o, a corrente principal de economistas ortodoxos e os marxistas chegaram \u00e0 mesma conclus\u00e3o de pol\u00edtica: dentro de uma economia capitalista nada se poderia fazer de \u00fatil para neutralizar as depress\u00f5es. (Minsky, 2011, p. 20-21).<\/span><\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o da teoria keynesiana realizada a seguir inicia-se com o princ\u00edpio da demanda efetiva, o modelo te\u00f3rico formulado por Keynes para a determina\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do emprego. Mostra-se que, de acordo com este, o n\u00edvel de emprego \u00e9 determinado pela posi\u00e7\u00e3o da curva de demanda agregada, que possui car\u00e1ter expectacional, e que, admitindo-se a possibilidade de defici\u00eancia de demanda efetiva, n\u00e3o existe a garantia do pleno emprego. A seguir, s\u00e3o apresentados os dois componentes da demanda agregada \u2013 o consumo e o investimento \u2013 e os seus respectivos determinantes \u2013 a propens\u00e3o ao consumo, a efici\u00eancia marginal do capital e a taxa de juro. Mostra-se que a propens\u00e3o ao consumo est\u00e1 relacionada \u00e0 chamada lei psicol\u00f3gica fundamental, segundo a qual o consumo corresponde a uma propor\u00e7\u00e3o constante do rendimento; que a efici\u00eancia marginal do capital \u00e9 dada pela rela\u00e7\u00e3o existente entre os conceitos de rendimento prospectivo e de pre\u00e7o de oferta do bem de capital; e que a taxa de juro \u00e9 determinada no mercado monet\u00e1rio, guardando rela\u00e7\u00e3o com o conceito de prefer\u00eancia pela liquidez.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, discorre-se sobre o modelo elaborado por Keynes no cap\u00edtulo 17 da <em>Teoria geral<\/em>, o qual agrega todas as poss\u00edveis decis\u00f5es de portf\u00f3lio dos agentes (bens de capital, t\u00edtulos de d\u00edvida e dinheiro), estabelecendo uma compara\u00e7\u00e3o entre elas por meio do conceito de taxa (monet\u00e1ria) espec\u00edfica de juro. Mostra-se que o dinheiro, por apresentar elasticidades nulas de produ\u00e7\u00e3o e de substitui\u00e7\u00e3o, possui uma taxa espec\u00edfica de juro resistente \u00e0 queda, o que acaba por inviabilizar a produ\u00e7\u00e3o dos bens de capital, impondo-se um limite ao investimento, \u00e0 demanda agregada e ao n\u00edvel de emprego. Por fim, o texto \u00e9 conclu\u00eddo com uma discuss\u00e3o das principais no\u00e7\u00f5es subjacentes \u00e0 teoria keynesiana: a ideia de incerteza, o papel das expectativas na tomada de decis\u00f5es dos agentes econ\u00f4micos, a exist\u00eancia de uma hierarquia de decis\u00f5es entre estes agentes e a n\u00e3o-neutralidade do dinheiro na determina\u00e7\u00e3o do produto e do emprego.<\/p>\n<p><strong>O princ\u00edpio da demanda efetiva<\/strong><\/p>\n<p>O modelo te\u00f3rico proposto por Keynes para a an\u00e1lise da produ\u00e7\u00e3o e do emprego est\u00e1 consubstanciado no princ\u00edpio da demanda efetiva, apresentado no cap\u00edtulo 3 da <em>Teoria geral<\/em>. Graficamente, esse modelo pode ser entendido por meio da rela\u00e7\u00e3o existente entre as curvas descritas por duas fun\u00e7\u00f5es: a de oferta agregada, Z = \u03d5(N), e a de demanda agregada, D = f(N), sendo N o n\u00edvel de emprego:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Gr\u00e1fico 1: <strong>oferta agregada, demanda agregada e n\u00edvel de emprego<br \/>\n<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-259 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/graf-1.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/graf-1.png 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/graf-1-300x180.png 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/strong>Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do autor.<\/p>\n<p>A curva Z indica o pre\u00e7o da oferta agregada da produ\u00e7\u00e3o resultante de cada n\u00edvel de emprego, ou a expectativa de proventos que \u00e9 exatamente suficiente para que os empres\u00e1rios considerem vantajoso contratar e produzir; trata-se de uma curva fixa. A curva D mostra o pre\u00e7o da demanda agregada, ou os proventos que os empres\u00e1rios efetivamente esperam receber do emprego de N homens, entendendo-se por proventos o rendimento agregado esperado por todos os empres\u00e1rios individuais; trata-se de uma curva expectacional, cuja posi\u00e7\u00e3o depende das previs\u00f5es ou das expectativas dos empres\u00e1rios. Perseguindo o objetivo de maximiza\u00e7\u00e3o dos lucros, os empres\u00e1rios decidir\u00e3o por aumentar o emprego sempre que o pre\u00e7o da demanda agregada superar o pre\u00e7o da oferta agregada, isto \u00e9, sempre que D for maior que Z. Assim, o volume de m\u00e3o-de-obra efetivamente contratada, N(e), ser\u00e1 dado pelo ponto E, o ponto de demanda efetiva, em que as fun\u00e7\u00f5es de demanda e oferta agregadas se interceptam e D se iguala a Z, pois \u00e9 neste ponto que as expectativas de lucro dos empres\u00e1rios s\u00e3o maximizadas. Ao valor de D dado por este ponto na fun\u00e7\u00e3o de demanda agregada chama-se a <em>demanda efetiva<\/em>.<\/p>\n<p>A determina\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o e emprego depender\u00e1 sobretudo das expectativas dos empres\u00e1rios quanto \u00e0 posi\u00e7\u00e3o da curva de demanda agregada e, consequentemente, quanto \u00e0 posi\u00e7\u00e3o do ponto de demanda efetiva. De acordo com a teoria cl\u00e1ssica, amparada pela Lei de Say, segundo a qual \u201ca oferta cria a sua pr\u00f3pria demanda\u201d, seria necess\u00e1rio supor que D fosse igual a Z para todos os valores de N, isto \u00e9, que a curva de demanda agregada fosse exatamente igual \u00e0 curva de oferta agregada. Nesse caso, todos os n\u00edveis de emprego constituiriam equil\u00edbrios neutros, e dever-se-ia esperar que as for\u00e7as da concorr\u00eancia entre os empres\u00e1rios elevassem o emprego at\u00e9 o seu valor m\u00e1ximo, constituindo o pleno emprego um ponto de equil\u00edbrio est\u00e1vel. Para Keynes, ao contr\u00e1rio, as curvas de demanda e oferta agregadas n\u00e3o se confundem, e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma garantia de que o volume de emprego determinado pela sua intersec\u00e7\u00e3o venha a corresponder ao pleno emprego. Uma vez que os empres\u00e1rios prevejam uma demanda reduzida, capaz de ser atendida por uma oferta pequena, eles evitar\u00e3o correr o risco da n\u00e3o-realiza\u00e7\u00e3o dos seus produtos, contratando e produzindo pouco. Assim, em decorr\u00eancia de uma <em>defici\u00eancia de demanda efetiva<\/em>, o desemprego involunt\u00e1rio surgir\u00e1 como um dos poss\u00edveis resultados de equil\u00edbrio. Nas palavras de Keynes,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">s\u00f3 haver\u00e1 um n\u00edvel de emprego compat\u00edvel com o equil\u00edbrio, visto que qualquer outro n\u00edvel levar\u00e1 a uma desigualdade entre o pre\u00e7o da oferta agregada do produto como um todo e o pre\u00e7o da sua demanda agregada. Esse n\u00edvel n\u00e3o pode ser <em>superior<\/em> ao pleno emprego [&#8230;]. Mas n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o em geral para esperar que seja <em>igual <\/em>ao pleno emprego. A demanda efetiva associada ao pleno emprego \u00e9 um caso especial, s\u00f3 realizado quando a propens\u00e3o ao consumo e o incentivo para investir se encontrarem numa rela\u00e7\u00e3o particular entre si. (Keynes, 2012, p. 24).<\/span><\/p>\n<p>Para que se possa compreender como se comporta a curva de demanda agregada e, consequentemente, como o n\u00edvel de emprego \u00e9 determinado, \u00e9 necess\u00e1rio investigar os componentes da demanda e os seus determinantes. Para fins de simplifica\u00e7\u00e3o, Keynes considera uma economia fechada e sem governo, em que a demanda \u00e9 composta por apenas duas vari\u00e1veis de gasto: consumo (D1 ou C) e investimento (D2 ou I). De acordo com a sua teoriza\u00e7\u00e3o, o consumo depende da <em>propens\u00e3o ao consumo<\/em> (c), e o investimento depende da <em>efici\u00eancia marginal do capital<\/em> (EMgK) e da <em>taxa de juro<\/em> (r). Essas tr\u00eas vari\u00e1veis constituem, portanto, os tr\u00eas determinantes da demanda agregada e do n\u00edvel de emprego.<\/p>\n<p><strong>A propens\u00e3o ao consumo (c)<\/strong><\/p>\n<p>A teoria do consumo de Keynes est\u00e1 presente na parte III da <em>Teoria geral<\/em>. Sua ideia principal, apresentada no cap\u00edtulo 8, \u00e9 a chamada <em>lei psicol\u00f3gica fundamental<\/em>, segundo a qual \u201c<em>os homens est\u00e3o dispostos a aumentar o seu consumo quando o seu rendimento cresce, embora n\u00e3o no mesmo grau em que aumenta o seu rendimento<\/em>\u201d (Keynes, 2012, p. 87). Isso significa que o padr\u00e3o de vida habitual dos indiv\u00edduos, cuja sustenta\u00e7\u00e3o requer que eles realizem seus gastos em consumo, tende a ser relativamente est\u00e1vel, respondendo apenas imperfeitamente \u00e0s varia\u00e7\u00f5es dos seus rendimentos. Em termos matem\u00e1ticos, essa lei pode ser representada pela fun\u00e7\u00e3o de consumo keynesiana:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>C = c . Y<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; (Equa\u00e7\u00e3o 1)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\">Em que: 0 &lt; c &lt; 1<\/p>\n<p>Keynes admite, por hip\u00f3tese, a exist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o un\u00edvoca (e positiva) entre o n\u00edvel de emprego, N, e o rendimento agregado, Y, de modo que cada n\u00edvel de emprego espec\u00edfico deve determinar sempre um \u00fanico n\u00edvel de rendimento associado (Y = f(N) : Y = \u03b1.N). Al\u00e9m disso, como decorr\u00eancia da regra psicol\u00f3gica, tem-se uma <em>propens\u00e3o ao consumo<\/em> c positiva e inferior \u00e0 unidade, por meio da qual o consumo, C, est\u00e1 positivamente relacionado ao rendimento. A fun\u00e7\u00e3o de consumo, que representa essa rela\u00e7\u00e3o, estabelece que \u00e0 medida que a renda aumenta os gastos em consumo tamb\u00e9m aumentam, por\u00e9m numa magnitude inferior, isto \u00e9, numa propor\u00e7\u00e3o constante e menor que a unidade (C = f(Y) : C = c.Y). Como resultado, deve prevalecer uma rela\u00e7\u00e3o positiva e un\u00edvoca entre o n\u00edvel de emprego e o consumo, tal que volumes crescentes de emprego resultem em gastos em consumo cada vez maiores (C = f(f(N)) ou C = f(N) : C = c.\u03b1.N).<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre o rendimento dos indiv\u00edduos e o seu gasto em consumo corresponde \u00e0 sua poupan\u00e7a, S (S = Y \u2013 C). Uma vez que, quando o rendimento aumenta, o consumo aumenta sempre num montante absoluto inferior, deve aumentar tamb\u00e9m a diferen\u00e7a absoluta entre rendimento e consumo, de forma que um montante crescente da renda seja poupado. Isso significa que, a cada aumento da produ\u00e7\u00e3o e do rendimento associado, apenas uma parcela do produto adicional poder\u00e1 ser adquirida sob a forma de consumo. Assim, para que os empres\u00e1rios n\u00e3o incorram em preju\u00edzos ao aumentarem a sua produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio que a parcela da renda adicional n\u00e3o gasta em consumo seja gasta sob a forma de investimento, o segundo componente da demanda. De fato, os empres\u00e1rios recusam-se a produzir quando consideram que sofrer\u00e3o perdas, o que permite a Keynes concluir que \u201c<em>o emprego s\u00f3 pode aumentar pari passu com um aumento do investimento, a n\u00e3o ser, bem entendido, que se verifique uma mudan\u00e7a na propens\u00e3o ao consumo<\/em>\u201d (Keynes, 2012 p. 88). Uma vez que n\u00e3o haja um volume de investimento suficiente, que equivalha ao total do rendimento poupado a pleno emprego, ter\u00e1 lugar uma defici\u00eancia de demanda efetiva, resultando em desemprego:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">Contudo, quanto maiores forem os nossos rendimentos, maior, infelizmente, ser\u00e1 a margem entre esses rendimentos e o nosso consumo. Por conseguinte, na aus\u00eancia de um expediente in\u00e9dito, n\u00e3o h\u00e1 maneira de resolver o enigma, como veremos, exceto a que consiste num desemprego suficiente para nos manter num estado de pobreza em que a diferen\u00e7a entre o nosso consumo e o nosso rendimento caia a um ponto em que n\u00e3o seja maior do que o equivalente da provis\u00e3o f\u00edsica para o consumo futuro [isto \u00e9, o investimento] que compensa constituir hoje. (Keynes, 2012, p. 94-95).<\/span><\/p>\n<p><strong>A efici\u00eancia marginal do capital (EMgK)<\/strong><\/p>\n<p>Keynes desenvolve a sua teoria do investimento na parte IV da <em>Teoria geral<\/em>. Aquilo que chama de o <em>incentivo para investir<\/em> depende de duas vari\u00e1veis: a <em>efici\u00eancia marginal do capital<\/em>, apresentada no cap\u00edtulo 11, e a <em>taxa de juro<\/em>, discutida no cap\u00edtulo 13.<\/p>\n<p>O conceito de efici\u00eancia marginal do capital requer, para a sua defini\u00e7\u00e3o, a explicita\u00e7\u00e3o de dois outros conceitos: o <em>rendimento prospectivo<\/em> do investimento (Q1, Q2, Q3, &#8230; Qn) e o <em>pre\u00e7o de oferta do bem de capital<\/em> (Po). Quando um empres\u00e1rio opta por investir, adquirindo um bem de capital, ele compara o pre\u00e7o de oferta corrente desse ativo com a s\u00e9rie de rendimentos futuros que espera obter da venda da produ\u00e7\u00e3o propiciada pelo mesmo durante a sua vida \u00fatil. Pelo pre\u00e7o de oferta do bem de capital, entende-se o custo de produ\u00e7\u00e3o ou de reposi\u00e7\u00e3o do ativo, isto \u00e9, o pre\u00e7o que \u00e9 exatamente suficiente para induzir um fabricante a produzir uma unidade adicional do mesmo, e n\u00e3o o pre\u00e7o de mercado a que se pode efetivamente compr\u00e1-lo. O rendimento prospectivo diz respeito a uma s\u00e9rie de anuidades esperada <em>ex-ante<\/em>, isto \u00e9, trata-se das expectativas de retorno que o empres\u00e1rio tem, e n\u00e3o do resultado hist\u00f3rico <em>ex-post<\/em> obtido pelo investimento. Por fim, a efici\u00eancia marginal do capital nada mais \u00e9 do que a rela\u00e7\u00e3o estabelecida entre essas duas vari\u00e1veis. Nas palavras de Keynes,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">defino a efici\u00eancia marginal do capital como sendo a taxa de desconto que faria com que o valor presente da s\u00e9rie de anuidades dadas pelos rendimentos esperados desse capital durante toda a sua exist\u00eancia fosse exatamente igual ao seu pre\u00e7o de mercado (Keynes, 2012, p.120-121).<\/span><\/p>\n<p>Tem-se, portanto, que, para obter a efici\u00eancia marginal do capital, \u00e9 necess\u00e1rio, inicialmente, transformar a s\u00e9rie de rendimentos futuros do investimento, Q1, Q2, Q3, &#8230; Qn, em seu valor presente, VP(Q); ent\u00e3o, ela pode ser determinada como a taxa que iguala esse valor presente ao pre\u00e7o de oferta do bem de capital, Po:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Po . EMgK = VP(Q)<\/strong>&nbsp;&nbsp; ;&nbsp;&nbsp; <strong>EMgK = VP(Q) \/ Po<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; (Equa\u00e7\u00e3o 2)<\/p>\n<p>\u00c0 medida que aumenta o investimento em um dado tipo de capital, sua efici\u00eancia marginal deve cair, pois, simultaneamente, como resultado das press\u00f5es concorrenciais, diminui o seu rendimento prospectivo e aumenta o seu pre\u00e7o de oferta (\u2191I : \u2193Q, \u2191Po : \u2193EMgK). Assim, pode-se tra\u00e7ar, para cada tipo de capital, uma curva que relaciona o volume de investimento e a efici\u00eancia marginal do capital. Agregando-se as curvas de todos os capitais individuais, obt\u00e9m-se a curva que relaciona o investimento agregado com a correspondente efici\u00eancia marginal do capital em geral, a qual se chama curva de demanda do investimento ou curva da efici\u00eancia marginal do capital. Dado que o rendimento prospectivo diz respeito a resultados que s\u00e3o esperados pelos empres\u00e1rios, tem-se que esta \u00e9 uma curva expectacional, cuja posi\u00e7\u00e3o varia de acordo com as mudan\u00e7as nas expectativas.<\/p>\n<p>Os empres\u00e1rios decidem por adquirir um bem de capital sempre que a sua efici\u00eancia marginal for superior \u00e0 taxa de juro corrente da economia, de modo que o retorno obtido pelo investimento produtivo supere aquele que se pode obter pela aquisi\u00e7\u00e3o de um t\u00edtulo de d\u00edvida. Desse modo, conforme Keynes:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">o fluxo efetivo de investimento corrente tende a aumentar at\u00e9 o ponto em que n\u00e3o haja mais nenhuma classe de bem de capital cuja efici\u00eancia marginal exceda a taxa de juro corrente. Em outras palavras, o investimento vai variar at\u00e9 aquele ponto da curva de procura de investimento em que a efici\u00eancia marginal do capital em geral \u00e9 igual \u00e0 taxa de juro de mercado. (Keynes, 2012, p. 122).<\/span><\/p>\n<p>Alternativamente, pode-se dizer que o investimento ser\u00e1 realizado sempre que o pre\u00e7o de demanda do bem de capital, Pd, for superior ao seu pre\u00e7o de oferta, Po:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\">EMgk &gt; r : Pd &gt; Po : ocorre investimento adicional<br \/>\nEMgK = r : Pd = Po : I(e): investimento de equil\u00edbrio<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Gr\u00e1fico 2:<strong> efici\u00eancia marginal do capital, taxa de juro e volume de investimento<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-260 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/graf-2.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/graf-2.png 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/graf-2-300x180.png 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/strong>Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do autor.<\/p>\n<p>Contrariamente \u00e0 teoria cl\u00e1ssica, Keynes n\u00e3o admite que a taxa de juro seja determinada no pr\u00f3prio mercado de investimentos, isto \u00e9, como um equil\u00edbrio entre a oferta de poupan\u00e7a e a demanda de fundos para investir. Tal concep\u00e7\u00e3o, que considera simultaneamente que a taxa de juro determina o volume de investimento e que o volume de investimento determina a taxa de juro, significa um racioc\u00ednio em c\u00edrculo. Uma vez tendo-se admitido que a taxa de juro, juntamente com a efici\u00eancia marginal do capital, \u00e9 respons\u00e1vel por determinar o investimento, torna-se necess\u00e1rio que a sua determina\u00e7\u00e3o seja dada exogenamente ao mercado de investimentos.<\/p>\n<p><strong>A taxa de juro (r)<\/strong><\/p>\n<p>Keynes considera que as prefer\u00eancias psicol\u00f3gicas temporais dos indiv\u00edduos, no que se refere ao uso da renda, envolvem dois conjuntos de decis\u00f5es. Primeiramente, eles devem decidir entre consumir, despendendo a renda no momento presente, e n\u00e3o consumir, reservando uma parte do rendimento sob a forma de um direito sobre o consumo futuro. Em segundo lugar, eles devem decidir sobre a forma como manter esse direito, isto \u00e9, se sob a forma imediata e l\u00edquida de dinheiro ou se sob a forma n\u00e3o imediata de um t\u00edtulo de d\u00edvida ou uma obriga\u00e7\u00e3o que permite o resgate da liquidez ap\u00f3s certo per\u00edodo. A primeira decis\u00e3o diz respeito \u00e0 <em>propens\u00e3o ao consumo<\/em>, a segunda diz respeito \u00e0 <em>prefer\u00eancia pela liquidez<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Esquema 1: <strong>as decis\u00f5es sobre o uso da renda<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-261 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/esq-1.png\" alt=\"\" width=\"541\" height=\"74\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/esq-1.png 541w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/esq-1-300x41.png 300w\" sizes=\"(max-width: 541px) 100vw, 541px\" \/><\/strong>Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do autor.<\/p>\n<p>A teoria cl\u00e1ssica, desconsiderando a possibilidade de que os indiv\u00edduos possam reter dinheiro, entesourar ou preferir liquidez, admite que todo o rendimento n\u00e3o gasto em consumo deve converter-se em fundo dispon\u00edvel para empr\u00e9stimo. Assim, negligenciando a possibilidade da segunda decis\u00e3o, ela deriva a taxa de juro apenas da primeira. Keynes, por sua vez, reconhecendo que os indiv\u00edduos desejam conservar riqueza sob a forma monet\u00e1ria, deriva a taxa de juro da segunda decis\u00e3o. Nas suas palavras,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">a taxa de juro n\u00e3o pode ser uma recompensa da poupan\u00e7a ou da espera ou abstin\u00eancia em si. De fato, se algu\u00e9m passar a entesourar as suas economias sob a forma de dinheiro l\u00edquido, n\u00e3o ganha juros, embora economize tanto quanto antes. Ao contr\u00e1rio, a simples defini\u00e7\u00e3o da taxa de juro nos diz literalmente que esta \u00e9 a recompensa da ren\u00fancia \u00e0 liquidez por um prazo determinado. Em si, a taxa de juro n\u00e3o \u00e9 mais do que o inverso da rela\u00e7\u00e3o existente entre uma soma de dinheiro e o que se pode obter desistindo do controle sobre esse dinheiro em troca de uma d\u00edvida, por um prazo determinado.<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">Desse modo, sendo a taxa de juro a recompensa da ren\u00fancia \u00e0 liquidez, \u00e9 tamb\u00e9m uma medida da relut\u00e2ncia que sente quem possui o dinheiro para alienar o seu controle l\u00edquido sobre o mesmo, o seu direito a dispor incondicionalmente dele. A taxa de juro n\u00e3o \u00e9 o \u201cpre\u00e7o\u201d que estabelece o equil\u00edbrio entre a demanda de recursos para investir e a propens\u00e3o para dispensar o consumo imediato. \u00c9 o \u201cpre\u00e7o\u201d que estabelece o equil\u00edbrio entre o desejo de manter a riqueza em forma l\u00edquida e a quantidade de moeda dispon\u00edvel. (Keynes, 2012, p. 149-150).<\/span><\/p>\n<p>A taxa de juro deve ser determinada, portanto, no mercado monet\u00e1rio, resultando de um equil\u00edbrio entre a oferta e a demanda de dinheiro ou, equivalentemente, de um equil\u00edbrio entre a quantidade de moeda e a prefer\u00eancia pela liquidez. Nesse sentido, baixas taxas de juro implicam excesso de demanda por dinheiro, uma vez que se tem de pagar pouco para acessar a liquidez; por outro lado, altas taxas de juro implicam excesso de oferta de dinheiro, uma vez que os indiv\u00edduos consideram vantajoso abrir m\u00e3o da liquidez pela recompensa que lhes \u00e9 oferecida.<\/p>\n<p>Pelo lado da demanda, Keynes reconhece que os indiv\u00edduos podem preferir liquidez por tr\u00eas motivos, ou que existem tr\u00eas raz\u00f5es para o entesouramento: i) motivo transa\u00e7\u00e3o: opera\u00e7\u00f5es correntes de trocas, ii) motivo precau\u00e7\u00e3o: seguran\u00e7a quanto \u00e0 possibilidade de perdas em empr\u00e9stimos com taxas de juro vari\u00e1veis, e iii) motivo especula\u00e7\u00e3o: prop\u00f3sito de obter ganhos esperando uma alta futura da taxa de juro. Quanto menor for a taxa de juro, menor ser\u00e1 a recompensa pela ren\u00fancia \u00e0 liquidez e menor ser\u00e1 o pre\u00e7o que se deve pagar para acess\u00e1-la, logo, maior ser\u00e1 a prefer\u00eancia pela liquidez; e vice-versa. A curva que relaciona a taxa de juro com a demanda por dinheiro, Md, \u00e9, portanto, negativamente inclinada. Pelo lado da oferta, para fins de simplifica\u00e7\u00e3o, Keynes considera que a quantidade de moeda, Ms, \u00e9 determinada exogenamente pela autoridade monet\u00e1ria. Nesse sentido, pode-se pensar numa curva de oferta vertical. Nas suas palavras,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">Efetivamente, o volume de entesouramento tem de ser igual \u00e0 quantidade de moeda [&#8230;] e a quantidade de moeda n\u00e3o \u00e9 determinada pelo p\u00fablico. A \u00fanica coisa que a propens\u00e3o do p\u00fablico a entesourar pode conseguir \u00e9 fixar a taxa de juro que torne o desejo global de entesourar igual aos ativos l\u00edquidos dispon\u00edveis. (Keynes, 2012, p. 156).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Gr\u00e1fico 3: <strong>taxa de juro, oferta de dinheiro e demanda por dinheiro<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-262 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/graf-3.png\" alt=\"\" width=\"622\" height=\"286\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/graf-3.png 622w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/graf-3-300x138.png 300w\" sizes=\"(max-width: 622px) 100vw, 622px\" \/><\/strong>Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do autor.<\/p>\n<p>Dado que as motiva\u00e7\u00f5es de precau\u00e7\u00e3o e especula\u00e7\u00e3o para a prefer\u00eancia pela liquidez respondem ao estado da incerteza quanto ao futuro da taxa de juro, tem-se que a curva de demanda por dinheiro possui car\u00e1ter expectacional, devendo a sua posi\u00e7\u00e3o variar conforme as mudan\u00e7as nas expectativas.<\/p>\n<p><strong>O modelo geral do cap\u00edtulo 17<\/strong><\/p>\n<p>No cap\u00edtulo 11 da <em>Teoria geral<\/em>, para a determina\u00e7\u00e3o do investimento, Keynes considera um modelo de escolha dual, em que os indiv\u00edduos devem decidir entre duas poss\u00edveis formas de alocar a sua riqueza: i) aquisi\u00e7\u00e3o de bens de capital, remunerada pelo rendimento prospectivo destes, e ii) aquisi\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos de d\u00edvida, remunerada pelo juro que estes rendem. No cap\u00edtulo 13, para a determina\u00e7\u00e3o da taxa de juro, um segundo modelo de escolha dual \u00e9 apresentado, no qual os propriet\u00e1rios de riqueza optam entre i) conservar suas posses sob a forma monet\u00e1ria (preferindo liquidez ou entesourando), sem nada receberem por isso al\u00e9m do acesso \u00e0 liquidez, e ii) adquirir t\u00edtulos de d\u00edvida (emprestando), recebendo juro.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo 17, Keynes apresenta um modelo geral em que todas essas formas alternativas de aloca\u00e7\u00e3o da riqueza s\u00e3o simultaneamente consideradas: bens de capital, t\u00edtulos de d\u00edvida e dinheiro. A fim de estabelecer um meio de compara\u00e7\u00e3o entre todas elas, Keynes trabalha com o conceito de <em>taxa espec\u00edfica de juro<\/em>, segundo o qual todo ativo particular possui uma rentabilidade medida em termos de si mesmo, calculada por meio de uma rela\u00e7\u00e3o entre o seu pre\u00e7o <em>spot<\/em> (\u00e0 vista) e o seu pre\u00e7o <em>forward<\/em> (futuro ou a termo). \u201c<em>Assim, para cada bem duradouro temos uma taxa de juro calculada em termos do pr\u00f3prio bem \u2013 uma taxa de juro do trigo, uma taxa de juro do cobre, uma taxa de juro da habita\u00e7\u00e3o, ou at\u00e9 uma taxa de juro da siderurgia.<\/em>\u201d (Keynes, 2012, p. 202). Reduzidas ao dinheiro como padr\u00e3o comum de medida, as taxas espec\u00edficas de juro dos diferentes ativos passam a ser tomadas como <em>taxas monet\u00e1rias espec\u00edficas de juro<\/em>, podendo assim ser efetivamente comparadas entre si. Conforme Keynes, existem quatro atributos que comp\u00f5em as taxas monet\u00e1rias espec\u00edficas de juro de todos os ativos, presentes em maior ou menor grau em todos eles:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\">q: rendimento ou produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nc: custo de carregamento ou manuten\u00e7\u00e3o<br \/>\nl: pr\u00eamio de liquidez<br \/>\na: valoriza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria<\/p>\n<p>A taxa monet\u00e1ria espec\u00edfica de juro \u00e9 dada pela seguinte equa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>r = q \u2013 c + l + a<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; (Equa\u00e7\u00e3o 3)<\/p>\n<p>Todos os componentes da taxa monet\u00e1ria espec\u00edfica de juro s\u00e3o vari\u00e1veis esperadas e, portanto, est\u00e3o sujeitos a terem os seus valores alterados em decorr\u00eancia das mudan\u00e7as nas expectativas. O rendimento (q) deriva dos resultados produtivos dos ativos, tanto na forma de bens como na de servi\u00e7os. O custo de carregamento (c) resulta do desgaste ou da deprecia\u00e7\u00e3o f\u00edsica sofridos pelos ativos. O pr\u00eamio de liquidez (l) reflete aquilo que os indiv\u00edduos est\u00e3o dispostos a pagar pela comodidade e seguran\u00e7a proporcionadas pelos ativos l\u00edquidos, resultantes da sua facilidade de convers\u00e3o sem perda de valor em todos os demais ativos. A valoriza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria (a) indica as altera\u00e7\u00f5es dos pre\u00e7os dos ativos, ou os ganhos de capital por eles proporcionados.<\/p>\n<p>Conforme Keynes, os bens de capital caracterizam-se por um pr\u00eamio de liquidez nulo e por um rendimento que excede o custo de carregamento: r(k) = q \u2013 c + a. Sua taxa monet\u00e1ria espec\u00edfica de juro equivale \u00e0 efici\u00eancia marginal do captial: r(k) = EMgK. Por sua vez, o dinheiro, sendo o mais l\u00edquido dos ativos, caracteriza-se por apresentar o maior pr\u00eamio de liquidez entre todos eles e por ter os demais atributos nulos: r(m) = l. Sua taxa monet\u00e1ria espec\u00edfica de juro equivale \u00e0 taxa de juro monet\u00e1ria: r(m) = r.<\/p>\n<p>A precifica\u00e7\u00e3o dos ativos d\u00e1-se por meio dos movimentos da demanda dos propriet\u00e1rios da riqueza, que procuram aloc\u00e1-la na forma dos ativos de maior rentabilidade. Assim, sempre que, por exemplo, um bem de capital apresentar uma taxa monet\u00e1ria espec\u00edfica de juro superior \u00e0s dos demais ativos, a demanda convergir\u00e1 para ele, o seu pre\u00e7o de demanda ser\u00e1 maior que o seu pre\u00e7o de oferta e ele ser\u00e1 objeto de nova produ\u00e7\u00e3o. Conforme a riqueza v\u00e1 migrando para os bens de capital mais rent\u00e1veis, passando estes a ter a sua oferta aumentada, as suas taxas, que inicialmente eram superiores, v\u00e3o-se reduzindo, igualando-se \u00e0s taxas inferiores dos demais ativos. Esse processo ocorre em decorr\u00eancia das mesmas causas que levam \u00e0 queda da efici\u00eancia marginal do capital quando do aumento do investimento, mencionadas no cap\u00edtulo 11: o aumento do pre\u00e7o de oferta do bem de capital e a redu\u00e7\u00e3o do seu rendimento prospectivo. No equil\u00edbrio, as taxas de todos os ativos igualam-se, desaparecendo qualquer vantagem entre as alternativas.<\/p>\n<p>A mais alta das taxas monet\u00e1rias espec\u00edficas de juro, sendo aquela que \u201cdita a lei\u201d da aloca\u00e7\u00e3o da riqueza e da produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m a de maior import\u00e2ncia: \u00e9 ela que a taxa de qualquer outro ativo deve superar para que este seja demandado e se torne objeto de nova produ\u00e7\u00e3o. Segundo Keynes,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">a taxa de juro do ativo que declina mais lentamente \u00e0 medida que o estoque de ativos em geral aumenta \u00e9 a que acabar\u00e1 por eliminar a produ\u00e7\u00e3o lucrativa dos outros [&#8230;]. \u00c0 medida que a produ\u00e7\u00e3o se expande, as taxas espec\u00edficas de juro descem a n\u00edveis em que um ativo ap\u00f3s o outro cai abaixo da norma vigente da produ\u00e7\u00e3o lucrativa, at\u00e9 que, finalmente, uma ou mais taxas espec\u00edficas de juro ficam em um n\u00edvel superior \u00e0 efici\u00eancia marginal de qualquer ativo. (Keynes, 2012, p. 207).<\/span><\/p>\n<p>Dando sequ\u00eancia ao racioc\u00ednio, Keynes afirma que o dinheiro possui duas caracter\u00edsticas especiais que tornam a sua taxa monet\u00e1ria espec\u00edfica de juro, a taxa de juro monet\u00e1ria, resistente \u00e0 queda: elasticidades nulas de produ\u00e7\u00e3o e de substitui\u00e7\u00e3o (Ep = Es = 0). Dado que a oferta monet\u00e1ria \u00e9 fixa, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que maiores quantidades de dinheiro sejam produzidas quando a demanda por dinheiro aumenta (Ep = 0); al\u00e9m disso, dado que o dinheiro cumpre uma fun\u00e7\u00e3o \u00fanica, a de oferecer liquidez plena, ele n\u00e3o possui substitutos, n\u00e3o podendo a sua demanda ser desviada para outros ativos (Es = 0). Portanto, as for\u00e7as que levam \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das taxas de todos os ativos n\u00e3o operam no caso do dinheiro, e a taxa de juro monet\u00e1ria, sendo resistente \u00e0 queda, torna-se em algum momento a mais alta das taxas monet\u00e1rias espec\u00edficas de juro, inviabilizando a produ\u00e7\u00e3o de qualquer ativo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">Assim, um aumento da taxa monet\u00e1ria de juro retarda a produ\u00e7\u00e3o de todos os objetos cuja oferta \u00e9 el\u00e1stica, sem estimular a produ\u00e7\u00e3o da moeda (que, por hip\u00f3tese, \u00e9 perfeitamente inel\u00e1stica). A taxa monet\u00e1ria de juro, ao dar o tom para todas as demais taxas de juro de mercadorias, refreia o investimento na produ\u00e7\u00e3o dessas mercadorias sem conseguir estimular o investimento necess\u00e1rio para produzir moeda que, por hip\u00f3tese, n\u00e3o pode ser produzida. (Keynes, 2012, p. 212).<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\">r(k) = q \u2013 c + a &gt; r(m) = l : EMgk &gt; r : Pd &gt; Po : ocorre investimento adicional<br \/>\nr(k) = q \u2013 c + a = r(m) = l : EMgK = r : Pd = Po : I(e): investimento de equil\u00edbrio<\/p>\n<p>A taxa de juro monet\u00e1ria estabelece, portanto, um limite ao investimento, sendo determinante para a forma\u00e7\u00e3o da demanda agregada e para a defini\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o e emprego. Al\u00e9m disso, conforme Keynes, n\u00e3o h\u00e1 nada que assegure que a taxa de juro monet\u00e1ria vigente, cujo valor reflete a import\u00e2ncia socialmente conferida \u00e0 liquidez a cada momento, seja consistente com o volume de investimento que garante o pleno emprego:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">A nossa conclus\u00e3o pode ser enunciada na forma mais geral (tomando a propens\u00e3o ao consumo como dada) da seguinte maneira: o fluxo de investimento n\u00e3o pode continuar se expandindo quando a mais alta das taxas de juro espec\u00edficas de todos os bens dispon\u00edveis, medidas por certo padr\u00e3o, for igual a mais alta das efici\u00eancias marginais de todos os bens, medida pelo mesmo padr\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">Numa situa\u00e7\u00e3o de pleno emprego essa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 necessariamente satisfeita. Mas tamb\u00e9m pode ser satisfeita antes de ser alcan\u00e7ado o pleno emprego [&#8230;]. (Keynes, 2012, p. 213).<\/span><\/p>\n<p>De forma po\u00e9tica, esse racioc\u00ednio est\u00e1 expresso na seguinte passagem, um tanto mais conhecida:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">Isso quer dizer que o desemprego se desenvolve porque as pessoas querem a lua \u2013 os homens n\u00e3o conseguem emprego quando o objeto dos seus desejos (isto \u00e9, o dinheiro) \u00e9 uma coisa que n\u00e3o se produz e cuja demanda n\u00e3o pode ser facilmente restringida. N\u00e3o h\u00e1 outro rem\u00e9dio sen\u00e3o persuadir o p\u00fablico de que a lua e o requeij\u00e3o s\u00e3o praticamente a mesma coisa, e p\u00f4r a trabalhar uma f\u00e1brica de requeij\u00e3o (isto \u00e9, um banco central) sob o controle do poder p\u00fablico. (Keynes, 2012, p. 213).<\/span><\/p>\n<p><strong>Algumas conclus\u00f5es: a incerteza, o papel das expectativas, a hierarquia de decis\u00f5es e a n\u00e3o-neutralidade do dinheiro<\/strong><\/p>\n<p>O reconhecimento de que a a\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos indiv\u00edduos \u00e9 guiada por suas expectativas, formadas num ambiente de incerteza sobre o futuro, constitui uma caracter\u00edstica distintiva do pensamento de Keynes com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria cl\u00e1ssica. A seguinte passagem permite uma reflex\u00e3o sobre como as expectativas atuam no interior do modelo te\u00f3rico keynesiano:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-size: 10pt\">se estivermos tentados a afirmar que a moeda \u00e9 a bebida que estimula a atividade do sistema, n\u00e3o nos esque\u00e7amos de que, enquanto se bebe e n\u00e3o bebe, podem surgir muitos percal\u00e7os no caminho. Embora seja esperado que, <em>coeteris paribus<\/em>, um aumento da quantidade de moeda reduza a taxa de juro, tal n\u00e3o ocorrer\u00e1 se a prefer\u00eancia do p\u00fablico pela liquidez subir mais do que a quantidade de moeda [ver gr\u00e1fico 3]. Embora se possa esperar que, <em>coeteris paribus<\/em>, uma baixa da taxa de juro estimule o fluxo de investimento, tal n\u00e3o acontecer\u00e1 se a escala da efici\u00eancia marginal do capital descer mais rapidamente que a taxa de juro [ver gr\u00e1fico 2]. E, embora se possa esperar que, <em>coeteris paribus<\/em>, um aumento do fluxo de investimento fa\u00e7a aumentar o emprego, tal n\u00e3o ocorrer\u00e1 se a propens\u00e3o ao consumo estiver em queda [ver gr\u00e1fico 1]. (Keynes, 2012, p. 155).<\/span><\/p>\n<p>Tomando por base os tr\u00eas gr\u00e1ficos anteriormente apresentados, essa passagem pode ser analisada da forma como segue. Em primeiro lugar, um aumento da oferta monet\u00e1ria (deslocamento de Ms para a direita) n\u00e3o necessariamente reduzir\u00e1 a taxa de juro, posto que uma altera\u00e7\u00e3o das expectativas pode ampliar a prefer\u00eancia pela liquidez (deslocamento de Md para cima e para a direita). Em segundo lugar, uma queda da taxa de juro (deslocamento de r para baixo) n\u00e3o necessariamente ampliar\u00e1 o volume de investimento, posto que uma altera\u00e7\u00e3o das expectativas pode reduzir o rendimento prospectivo esperado e a demanda por investimento (deslocamento de EMgK para baixo e para a esquerda). Em terceiro lugar, um aumento do investimento (deslocamento de D para cima) n\u00e3o necessariamente aumentar\u00e1 o n\u00edvel de emprego, posto que pode ser compensado por uma queda da propens\u00e3o a consumir e do consumo (deslocamento de D para baixo); nesse caso, a melhora da expectativa de demanda causada por um aumento do investimento \u00e9 frustrada por uma piora causada pela queda do consumo. Em suma, depreende-se dessa an\u00e1lise que, para Keynes, as vari\u00e1veis macroecon\u00f4micas t\u00eam os seus valores determinados pelas expectativas que os indiv\u00edduos formam sobre o futuro, de modo que as mudan\u00e7as das expectativas, resultantes do estado vari\u00e1vel da incerteza, resultam em altera\u00e7\u00f5es do comportamento macroecon\u00f4mico.<\/p>\n<p>Avan\u00e7ando-se nesse racioc\u00ednio, pode-se demonstrar que as duas vari\u00e1veis que constituem o interesse principal de Keynes, o n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o e o n\u00edvel de emprego, s\u00e3o obtidas como o resultado final de uma hierarquia de decis\u00f5es tomadas em bases expectacionais. De forma imediata, o produto e o emprego resultam da <em>decis\u00e3o de produzir e contratar<\/em>, tomada pelos empres\u00e1rios produtores com base nas suas expectativas de demanda (expectativas de curto prazo, discutidas por Keynes no cap\u00edtulo 5 da <em>Teoria geral<\/em>). Estas expectativas de demanda, por sua vez, fundamentam-se na <em>decis\u00e3o de gastar<\/em>, que se divide em duas outras decis\u00f5es: a <em>decis\u00e3o de consumir<\/em> e a <em>decis\u00e3o de investir<\/em>. A decis\u00e3o de consumir, tomada pelo conjunto da sociedade, \u00e9 est\u00e1vel e n\u00e3o-aut\u00f4noma relativamente \u00e0 renda, n\u00e3o requerendo maiores considera\u00e7\u00f5es. A decis\u00e3o de investir, tomada pelos empres\u00e1rios investidores com base nas suas expectativas acerca dos rendimentos futuros dos investimentos (expectativas de longo prazo, discutidas no cap\u00edtulo 12), \u00e9 inst\u00e1vel e aut\u00f4noma relativamente \u00e0 renda, sendo de maior import\u00e2ncia. Tem-se, por fim, com base no modelo geral do cap\u00edtulo 17, que a decis\u00e3o de investir est\u00e1 subordinada \u00e0 decis\u00e3o sobre como alocar a riqueza, isto \u00e9, \u00e0 <em>decis\u00e3o de portf\u00f3lio<\/em>: o investimento, caracterizado pela aquisi\u00e7\u00e3o de um bem de capital, constitui apenas uma das formas de aloca\u00e7\u00e3o da riqueza pass\u00edveis de escolha pelos propriet\u00e1rios, alternativa \u00e0s possibilidades de aquisi\u00e7\u00e3o de t\u00edtulo e de entesouramento.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Esquema 2: <strong>a hierarquia de decis\u00f5es<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-270 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/esq-2-1.png\" alt=\"\" width=\"452\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/esq-2-1.png 452w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/esq-2-1-300x168.png 300w\" sizes=\"(max-width: 452px) 100vw, 452px\" \/><\/strong>Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do autor.<\/p>\n<p>Duas conclus\u00f5es emergem das ideias at\u00e9 aqui apresentadas nesta se\u00e7\u00e3o. Em primeiro lugar, tem-se que o modelo te\u00f3rico keynesiano apresenta uma economia <em>demand-led<\/em>, em que a produ\u00e7\u00e3o ou a oferta s\u00e3o orientadas pela demanda esperada. De modo geral, a produ\u00e7\u00e3o leva tempo e n\u00e3o \u00e9 feita por encomenda (exceto quando regulada por contratos), e os empres\u00e1rios produtores, objetivando maximizar o seu lucro monet\u00e1rio, apenas produzem aquilo que esperam efetivamente vender ou realizar no futuro, guiando-se por suas expectativas de demanda. Nesse caso, ao contr\u00e1rio do que apregoa a Lei de Say, n\u00e3o \u00e9 a oferta que cria a sua pr\u00f3pria demanda, mas a demanda esperada pelos empres\u00e1rios produtores que faz surgir a oferta. Em segundo lugar, dada a estabilidade pr\u00f3pria da decis\u00e3o de consumir, tem-se que a decis\u00e3o de investir, que \u00e9 inst\u00e1vel, constitui a mais importante das decis\u00f5es de gasto, sendo diretamente respons\u00e1vel pelas flutua\u00e7\u00f5es da demanda agregada e, consequentemente, dos n\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o e emprego. Tem-se, assim, que o resultado econ\u00f4mico de maior relev\u00e2ncia para o conjunto da sociedade, o n\u00edvel de emprego, depende da a\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de um grupo restrito de pessoas, os empres\u00e1rios investidores. Depreende-se disso a preponder\u00e2ncia do capital frente ao trabalho: o n\u00edvel de emprego n\u00e3o resulta de um equil\u00edbrio do mercado de trabalho, em que empres\u00e1rios e trabalhadores negociam entre si, mas \u00e9 determinado unilateralmente pelos empres\u00e1rios, que visam apenas a maximizar os seus lucros monet\u00e1rios e n\u00e3o t\u00eam nenhuma considera\u00e7\u00e3o pelo pleno emprego.<\/p>\n<p>Por fim, a considera\u00e7\u00e3o do dinheiro como uma forma particular de riqueza, isto \u00e9, um ativo alternativo aos demais, sujeito ao desejo e \u00e0 demanda dos propriet\u00e1rios, em suma, a considera\u00e7\u00e3o da prefer\u00eancia pela liquidez ou da possibilidade do entesouramento constitui uma outra caracter\u00edstica distintiva do pensamento keynesiano relativamente \u00e0 teoria cl\u00e1ssica. O dinheiro, sendo portador de plena liquidez, constitui um ref\u00fagio contra a incerteza e afeta motivos e decis\u00f5es, em particular a decis\u00e3o de investir. A defici\u00eancia de demanda efetiva, que tem por resultado a determina\u00e7\u00e3o de um n\u00edvel de emprego inferior ao pleno emprego, resulta unicamente do fato de que os empres\u00e1rios investidores podem optar por entesourar em vez de adquirir bens de capital. Esse fato pode ser entendido, conforme o modelo geral do cap\u00edtulo 17, atrav\u00e9s da ideia de que a taxa de juro monet\u00e1ria imp\u00f5e um limite ao investimento. O dinheiro n\u00e3o pode, pois, ser considerado como um mero meio de troca ou um facilitador neutro das trocas; ele cumpre um papel fundamental na economia, uma vez que \u00e9 da prefer\u00eancia pela liquidez ou do entesouramento que o desemprego resulta. Um desejo maior por entesourar dinheiro implica menores volumes de investimento, menor demanda agregada e menor n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o e emprego; e vice-versa. Alternativamente, maiores montantes de dinheiro entesourado significam que uma parcela maior do rendimento gerado pelo processo produtivo n\u00e3o \u00e9 gasta na aquisi\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o corrente, implicando defici\u00eancia de demanda efetiva. A cada piora do quadro expectacional, resultante de um agravamento da incerteza, maior se torna o valor conferido pelos agentes econ\u00f4micos ao dinheiro, crescendo o pr\u00eamio de liquidez e a taxa de juro monet\u00e1ria. Paralelamente, menores se tornam o investimento, a demanda agregada e os n\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o e emprego.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>KEYNES, John M. <em>Teoria geral do emprego, do juro e da moeda<\/em>. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012 [1936].<\/p>\n<p>MINSKY, Hyman P. <em>John Maynard Keynes<\/em>. Campinas: Unicamp, 2011 [1975].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Por V\u00edtor Lopes de Souza Alves. Introdu\u00e7\u00e3o Este texto prop\u00f5e-se a realizar uma apresenta\u00e7\u00e3o did\u00e1tica, objetiva e sucinta das principais ideias econ\u00f4micas do economista brit\u00e2nico <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2020\/12\/01\/a-teoria-geral-de-keynes-uma-apresentacao-didatica\/\" title=\"A Teoria Geral de Keynes: uma apresenta\u00e7\u00e3o did\u00e1tica\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":623,"featured_media":257,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[196],"tags":[166,10,168,171,167,172,170,164,165,173,169],"class_list":["post-253","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-demanda-efetiva","tag-economia","tag-eficiencia-marginal-do-capital","tag-expectativas","tag-funcao-de-consumo-keynesiana","tag-hierarquia-de-decisoes","tag-incerteza","tag-keynes","tag-macroeconomia","tag-nao-neutralidade-do-dinheiro","tag-preferencia-pela-liquidez"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2020\/12\/Keynes-2.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/623"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=253"}],"version-history":[{"count":21,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1515,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253\/revisions\/1515"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/257"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=253"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=253"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=253"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}