{"id":360,"date":"2021-02-01T16:21:47","date_gmt":"2021-02-01T19:21:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=360"},"modified":"2021-02-03T13:42:42","modified_gmt":"2021-02-03T16:42:42","slug":"as-propostas-de-reforma-social-de-keynes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2021\/02\/01\/as-propostas-de-reforma-social-de-keynes\/","title":{"rendered":"As propostas de reforma social de Keynes"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Por V\u00edtor Lopes de Souza Alves.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Ap\u00f3s elaborar, ao longo de quase toda a <i>Teoria geral do emprego, do juro e da moeda<\/i>, a sua teoria sobre a determina\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de emprego numa economia capitalista \u2013 limitando-se, at\u00e9 ent\u00e3o, a adotar uma abordagem <i>positiva<\/i> \u2013, Keynes finaliza a sua obra propondo um conjunto de medidas de pol\u00edtica econ\u00f4mica que considerou apropriadas para enfrentar os problemas do capitalismo \u2013 passando, portanto, a assumir uma postura <i>normativa<\/i>. Com efeito, o cap\u00edtulo 24, que encerra o livro, intitulado <i>Notas finais sobre a filosofia social a que poderia levar a Teoria geral<\/i>, destina-se \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o dessas medidas e \u00e0 discuss\u00e3o sobre as suas consequ\u00eancias pr\u00e1ticas e a viabilidade de sua aplica\u00e7\u00e3o efetiva.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Keynes inicia o cap\u00edtulo reconhecendo que o capitalismo, uma vez existindo num regime de livre-mercado ou <i>laissez-faire<\/i>, tende a apresentar dois grandes problemas: o <b>desemprego<\/b> e a <b>desigualdade de riqueza e renda<\/b>. Nas suas pr\u00f3prias palavras,<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\">Os defeitos flagrantes da sociedade econ\u00f4mica em que vivemos s\u00e3o a sua incapacidade para proporcionar o pleno emprego e a sua arbitr\u00e1ria e n\u00e3o equitativa reparti\u00e7\u00e3o da riqueza e dos rendimentos. (Keynes, 2012, p. 339).<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Assim sendo, na vis\u00e3o do autor, o combate a esses males indesej\u00e1veis requereria a tomada de pol\u00edticas p\u00fablicas com o objetivo de mitig\u00e1-los, dependendo, portanto, da interven\u00e7\u00e3o estatal. Nesse sentido \u00e9 que Keynes vem a defender, ao longo do cap\u00edtulo, tr\u00eas principais medidas econ\u00f4micas: a tributa\u00e7\u00e3o progressiva, a eutan\u00e1sia do rentista e a socializa\u00e7\u00e3o do investimento.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Essas proposi\u00e7\u00f5es, apresentadas em seus pormenores a seguir, devem ser entendidas do ponto de vista da teoria econ\u00f4mica anteriormente constru\u00edda por Keynes. Esta considera que os volumes de produ\u00e7\u00e3o e emprego s\u00e3o determinados pelo n\u00edvel da demanda efetiva, a qual se comp\u00f5e, numa economia fechada e sem governo, de duas vari\u00e1veis: o consumo (C), determinado pela propens\u00e3o ao consumo (c), e o investimento (I), determinado pela efici\u00eancia marginal do capital (EMgK) e pela taxa de juro (r), que conjuntamente perfazem o incentivo para investir.<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote1sym\" name=\"sdfootnote1anc\"><sup>1<\/sup><\/a><\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\">&#8230;<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">A primeira medida defendida por Keynes \u00e9 a <b>tributa\u00e7\u00e3o progressiva<\/b>. Nos termos propostos pelo autor, essa pol\u00edtica consistiria na substitui\u00e7\u00e3o, pelo governo, dos impostos <i>indiretos<\/i>, a exemplo daqueles que incidem sobre o consumo de bens e servi\u00e7os, por impostos <i>diretos<\/i>, como os que incidem sobre a renda (sobretudo as mais elevadas) e o patrim\u00f4nio (especialmente sob a forma de heran\u00e7as). Uma tal altera\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o da receita tribut\u00e1ria acabaria por tornar a tributa\u00e7\u00e3o mais <i>progressiva<\/i>, no sentido de que se passa a onerar proporcionalmente mais os indiv\u00edduos mais ricos e menos os mais pobres.<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote2sym\" name=\"sdfootnote2anc\"><sup>2<\/sup><\/a><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Um resultado \u00f3bvio dessa pol\u00edtica \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade de renda e riqueza, uma vez que os mais ricos passam a ter uma fra\u00e7\u00e3o maior dos seus rendimentos e de suas posses confiscada pelo Estado, o contr\u00e1rio ocorrendo com os mais pobres. Al\u00e9m disso, no entanto, ela tamb\u00e9m tem por efeito uma diminui\u00e7\u00e3o do desemprego, em decorr\u00eancia do fato de que ela promove um aumento da propens\u00e3o ao consumo da sociedade. Via de regra, os mais pobres destinam uma parcela maior do seu rendimento \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de gastos em consumo, comparativamente aos mais ricos. Assim, ao se realizar uma redistribui\u00e7\u00e3o da renda no sentido de aumentar a dos mais pobres e diminuir a dos mais ricos, a sociedade como um todo deve passar a consumir mais. Por sua vez, esse aumento do consumo ocasiona um aumento da demanda agregada, com consequ\u00eancias sobre o crescimento da produ\u00e7\u00e3o e do emprego.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Ademais, Keynes tamb\u00e9m reconhece que, estando-se abaixo do pleno emprego, o investimento n\u00e3o \u00e9 estimulado, mas inibido, por uma baixa propens\u00e3o ao consumo e, consequentemente, uma alta propens\u00e3o \u00e0 poupan\u00e7a. Em outros termos, a for\u00e7a propulsora do investimento n\u00e3o se encontra na ren\u00fancia ao ato de gastar, mas na pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o de despesas pela coletividade. Assim, o aumento do consumo obtido atrav\u00e9s de uma reforma tribut\u00e1ria, ao inv\u00e9s de ocasionar uma queda do investimento, deve contribuir, na realidade, para o seu crescimento, o que consiste num est\u00edmulo adicional \u00e0 atividade econ\u00f4mica. Evidencia-se, em oposi\u00e7\u00e3o ao que era de senso comum \u00e0 \u00e9poca, que a acumula\u00e7\u00e3o de capital e o crescimento econ\u00f4mico n\u00e3o dependem da concentra\u00e7\u00e3o de riqueza e renda, mas, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o favorecidos por uma redu\u00e7\u00e3o da desigualdade.<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\">Assim, a nossa linha de racioc\u00ednio leva-nos \u00e0 conclus\u00e3o de que, nas condi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, o crescimento da riqueza n\u00e3o depende da abstin\u00eancia dos ricos como se costuma supor, muito pelo contr\u00e1rio, e o mais prov\u00e1vel \u00e9 que seja impedida por ela. \u00c9 assim eliminada uma das principais justificativas sociais da grande desigualdade de riqueza. (Keynes, 2012, p. 340).<\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\">&#8230;<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Keynes deu \u00e0 sua segunda e mais ousada proposta o nome de <b>eutan\u00e1sia do rentista<\/b>. Tal objetivo deveria ser atingido atrav\u00e9s de uma redu\u00e7\u00e3o da taxa de juro, com o intuito de estimular o investimento e a acumula\u00e7\u00e3o de capital. \u00c9 subentendido que a taxa de juro \u00e9 determinada exogenamente pela autoridade monet\u00e1ria, isto \u00e9, que o Banco Central tem o poder de fazer prevalecer a taxa de juro que desejar, devendo para isso modificar a quantidade de moeda em circula\u00e7\u00e3o por meio de uma pol\u00edtica monet\u00e1ria.<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote3sym\" name=\"sdfootnote3anc\"><sup>3<\/sup><\/a> Assim sendo, seria conveniente reduzir a taxa de juro at\u00e9 o n\u00edvel em que, dada a curva da efici\u00eancia marginal do capital, o incentivo para investir fosse tal que promovesse o montante \u00f3timo de investimento, compat\u00edvel com o pleno emprego.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Al\u00e9m de seu efeito direto sobre a elimina\u00e7\u00e3o do desemprego, essa medida tamb\u00e9m seria de grande contribui\u00e7\u00e3o para reduzir a desigualdade de riqueza e renda, uma vez que teria por consequ\u00eancia uma diminui\u00e7\u00e3o, ou at\u00e9 mesmo, num caso espec\u00edfico, uma anula\u00e7\u00e3o, dos ganhos auferidos pelos capitalistas. Keynes adota a concep\u00e7\u00e3o de que o rendimento relacionado ao capital resulta de sua escassez relativa, de modo que, atuando-se no sentido de promover a sua abund\u00e2ncia, as rendas capitalistas poderiam ser reduzidas ou at\u00e9 mesmo eliminadas. Uma redu\u00e7\u00e3o da <i>taxa de juro<\/i>, ao provocar um aumento do investimento, deve levar a uma amplia\u00e7\u00e3o do estoque de capital, ocasionando tamb\u00e9m uma queda da <i>efici\u00eancia marginal do capital<\/i>, o equivalente na terminologia keynesiana para a taxa de lucro.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Portanto, os capitalistas de todos os tipos viriam a ser afetados. No que se refere aos <i>empres\u00e1rios<\/i>, cujos ganhos derivam da aquisi\u00e7\u00e3o de bens de capital, seria razo\u00e1vel que a efici\u00eancia marginal do capital ca\u00edsse at\u00e9 o n\u00edvel em que a sua remunera\u00e7\u00e3o passasse a cobrir apenas a deprecia\u00e7\u00e3o devida ao desgaste e \u00e0 obsolesc\u00eancia dos bens de capital, al\u00e9m de uma certa margem para compensar os riscos e o exerc\u00edcio da habilidade, do julgamento e da supervis\u00e3o. J\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o aos <i>rentistas<\/i>, cuja renda decorre do empr\u00e9stimo de dinheiro ou, o que \u00e9 o mesmo, da aquisi\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos, a taxa de juro poderia ser reduzida ao limite de zero, de modo a tornar imposs\u00edvel a sua exist\u00eancia ou, como diz Keynes, provocar a sua eutan\u00e1sia.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Consequentemente, haveria uma situa\u00e7\u00e3o em que o ganho capitalista apenas teria permiss\u00e3o para existir sob a forma de <i>lucro<\/i>, mas n\u00e3o mais sob a forma de <i>juro<\/i>, e em que a pr\u00f3pria grandeza do lucro estaria contida dentro de estreitos limites. Em outras palavras, para que um capitalista pudesse valorizar o capital, n\u00e3o lhe bastaria mais a mera propriedade do dinheiro, uma vez que ele n\u00e3o mais disporia da possibilidade de emprest\u00e1-lo de forma rent\u00e1vel; ser-lhe-ia preciso, necessariamente, contratar trabalhadores e produzir e vender mercadorias. Isso seria condizente tanto com uma menor taxa de desemprego, ou mesmo com a erradica\u00e7\u00e3o deste, como com menores \u00edndices de desigualdade de riqueza e renda. Keynes acreditava que o aspecto do rentista (o investidor sem fun\u00e7\u00e3o) pudesse ser uma fase transit\u00f3ria capitalismo, pass\u00edvel de ser eliminada em uma ou duas gera\u00e7\u00f5es mediante o avan\u00e7o da acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\">Ora, embora esse estado de coisas seja perfeitamente compat\u00edvel com um certo grau de individualismo, ainda assim implicaria a eutan\u00e1sia do rentista e, consequentemente, a eutan\u00e1sia do opressivo poder cumulativo do capitalista para explorar o valor de escassez do capital. (Keynes, 2012, p. 342).<\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\">&#8230;<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Por fim, a terceira e \u00faltima proposi\u00e7\u00e3o keynesiana trata-se da <b>socializa\u00e7\u00e3o do investimento<\/b>. Ainda que defendesse a redu\u00e7\u00e3o da taxa de juro como meio para estimular o investimento, Keynes reconhece como sendo improv\u00e1vel que a pol\u00edtica monet\u00e1ria, por si s\u00f3, fosse suficiente para promover o volume de investimento de pleno emprego. Este ainda dependeria de a\u00e7\u00f5es adicionais por parte do Estado, no sentido de socializar o investimento. Keynes n\u00e3o \u00e9 expl\u00edcito quanto ao significado que atribui a essa express\u00e3o; no entanto, dado o sentido geral das suas reflex\u00f5es, \u00e9 poss\u00edvel fazer suposi\u00e7\u00f5es quanto ao que ele tinha em mente ao empreg\u00e1-la. Pode-se pensar que tal socializa\u00e7\u00e3o diga respeito, por exemplo, \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de investimentos p\u00fablicos via empresas estatais ou via contrata\u00e7\u00e3o p\u00fablica, por meio de licita\u00e7\u00f5es, de investimentos privados, sobretudo em \u00e1reas que, em virtude de suas peculiaridades, n\u00e3o s\u00e3o atrativas \u00e0 iniciativa privada, como a infraestrutura vi\u00e1ria, energ\u00e9tica e de saneamento.<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote4sym\" name=\"sdfootnote4anc\"><sup>4<\/sup><\/a> Uma outra possibilidade encontra-se na pr\u00e1tica de alguma coopera\u00e7\u00e3o entre a esfera p\u00fablica e a privada, por exemplo no que se refere \u00e0 execu\u00e7\u00e3o de planejamento p\u00fablico para coordenar e guiar os investimentos privados.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">O que se pode afirmar com exatid\u00e3o \u00e9 que Keynes se op\u00f4s a uma interven\u00e7\u00e3o estatal que fosse al\u00e9m do estritamente necess\u00e1rio para promover o pleno emprego. O autor afirma n\u00e3o haver justificativa para um socialismo de Estado abrangendo a maior parte da economia, cabendo ao governo apenas determinar o montante \u00f3timo de investimento e a taxa b\u00e1sica de remunera\u00e7\u00e3o dos bens de capital aos seus detentores. Assim, \u00e9 certo que a socializa\u00e7\u00e3o do investimento n\u00e3o possui o significado de uma ampla expropria\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o, com a supress\u00e3o de sua propriedade privada.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Keynes reconhece que o livre mercado, embora seja incapaz de assegurar o pleno emprego, possui a virtude de realizar uma aloca\u00e7\u00e3o eficiente dos recursos que emprega. O problema do sistema ent\u00e3o existente n\u00e3o \u00e9 que ele faz mau uso dos fatores de produ\u00e7\u00e3o utilizados, mas sim que ele n\u00e3o utiliza todos os fatores dispon\u00edveis; \u00e9 o <i>volume<\/i> e n\u00e3o a <i>dire\u00e7\u00e3o<\/i> do emprego efetivo o respons\u00e1vel pelo seu colapso. Esse racioc\u00ednio \u00e9 ilustrado por meio de um exemplo: numa sociedade em que h\u00e1 10 milh\u00f5es de trabalhadores, dos quais apenas 9 milh\u00f5es est\u00e3o empregados, o problema n\u00e3o est\u00e1 no fato de que esses 9 milh\u00f5es estejam empregados em atividades mal orientadas, mas no fato de que 1 milh\u00e3o est\u00e1 desempregado.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Destarte, deve-se admitir que, uma vez que se tenha logrado, atrav\u00e9s da interven\u00e7\u00e3o estatal, estabelecer o pleno emprego, a teoria cl\u00e1ssica (liberal) retoma a sua validade. Pondo-se de lado a quest\u00e3o da determina\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o, a escola cl\u00e1ssica est\u00e1 correta em sua an\u00e1lise sobre a maneira como o interesse particular determina o que especificamente \u00e9 produzido, em que propor\u00e7\u00e3o os fatores de produ\u00e7\u00e3o se combinam para tal fim e como o valor da produ\u00e7\u00e3o obtida \u00e9 distribu\u00eddo entre eles, sendo verdadeira a sua concep\u00e7\u00e3o a respeito da concilia\u00e7\u00e3o entre o interesse privado e o interesse p\u00fablico. Portanto, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio abandonar por completo as concep\u00e7\u00f5es da teoria cl\u00e1ssica sobre as vantagens do livre mercado, cabendo apenas preencher as suas lacunas, indicando-se os meios exigidos pelo livre jogo das for\u00e7as econ\u00f4micas a fim de se realizar a potencialidade m\u00e1xima da produ\u00e7\u00e3o. Embora o pleno emprego exija, para ser assegurado, o estabelecimento de controles centrais, n\u00e3o h\u00e1 outra raz\u00e3o para socializar a vida econ\u00f4mica, sendo desej\u00e1vel que ainda subsista uma grande amplitude para o exerc\u00edcio da iniciativa e da responsabilidade privadas. O individualismo pode, assim, seguir produzindo as suas vantagens tradicionais: as vantagens de efici\u00eancia (relacionadas \u00e0 descentraliza\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es, ao jogo do interesse pessoal e \u00e0 responsabilidade individual), a liberdade pessoal (o campo para o exerc\u00edcio das escolhas pessoais) e a variedade da vida (o resultado da liberdade de escolhas pessoais).<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Keynes afirma que a ado\u00e7\u00e3o das suas sugest\u00f5es de pol\u00edtica por Estados democr\u00e1ticos (ele devia ter em mente o seu pr\u00f3prio pa\u00eds, a Inglaterra, mas n\u00e3o somente) permitiria aos mesmos, tanto quanto havia sido poss\u00edvel aos regimes autorit\u00e1rios (uma prov\u00e1vel refer\u00eancia impl\u00edcita ao nazi-fascismo alem\u00e3o e italiano e ao socialismo russo), resolver o problema do desemprego, sem que isso implicasse, no entanto, um sacrif\u00edcio de dois valores importantes: a efici\u00eancia e a liberdade. De fato, num contexto em que j\u00e1 n\u00e3o se podia mais tolerar o desemprego causado pela crise dos anos 1930 e em que era forte a press\u00e3o social por novos arranjos pol\u00edticos e econ\u00f4micos, a amplia\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es do governo por ele defendida, ainda que pudesse parecer uma transgress\u00e3o do individualismo, constitu\u00eda, na realidade, o \u00fanico meio de evitar a destrui\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas pr\u00f3prias das democracias, que asseguram o exerc\u00edcio da iniciativa individual.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Ademais, um importante m\u00e9rito do novo sistema defendido por Keynes est\u00e1 no fato de que ele poderia evitar as guerras, sendo mais favor\u00e1vel \u00e0 paz do que o antigo. Uma vez que as na\u00e7\u00f5es tivessem aprendido a manter o pleno emprego apenas por meio de sua pol\u00edtica interna, elas n\u00e3o precisariam mais recorrer \u00e0 luta acirrada pela conquista de mercados externos e pelo super\u00e1vit comercial como meio de aliviar a mis\u00e9ria interna e evitar o desemprego cr\u00f4nico ou intermitente. Assim, seria desfeita esta que \u00e9 a principal causa econ\u00f4mica das guerras, t\u00edpica do regime de <i>laissez-faire<\/i> da segunda metade do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\">Concebo pois que uma socializa\u00e7\u00e3o abrangente do investimento ser\u00e1 o \u00fanico meio de assegurar uma situa\u00e7\u00e3o aproximada de pleno emprego, embora isso n\u00e3o implique que se excluam todo o tipo de compromissos e dispositivos pelos quais o Estado possa cooperar com a iniciativa privada. (Keynes, 2012, p. 344).<\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\">&#8230;<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">O cap\u00edtulo 24 \u00e9 finalizado com a afirma\u00e7\u00e3o de Keynes de que as suas ideias, estando corretas, deveriam adquirir for\u00e7a e tornar-se influentes com o tempo, contribuindo para isso a exist\u00eancia, \u00e0 sua \u00e9poca, de uma j\u00e1 mencionada expectativa p\u00fablica por uma nova abordagem dos problemas econ\u00f4micos. Isso, no entanto, n\u00e3o deveria ocorrer imediatamente, mas s\u00f3 depois de certo intervalo temporal, posto que os funcion\u00e1rios p\u00fablicos, os pol\u00edticos e os agitadores, em geral maiores de 25 ou 30 anos, n\u00e3o se deixam influenciar por teorias novas e n\u00e3o aplicam as ideias mais recentes. Ainda assim, o autor acreditava no poder das ideias e na sua capacidade de prevalecer sobre os interesses em contr\u00e1rio:<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\">Mas, abstraindo desse estado de esp\u00edrito contempor\u00e2neo, as ideias dos economistas e dos fil\u00f3sofos pol\u00edticos, sejam elas certas ou erradas, t\u00eam um alcance mais poderoso do que habitualmente se pensa. De fato, o mundo \u00e9 governado por elas, e pouco mais.<br>Os homens pr\u00e1ticos que se julgam livres de qualquer influ\u00eancia intelectual s\u00e3o habitualmente escravos de algum economista morto. Os desvairados que ocupam posi\u00e7\u00f5es de autoridade, que ouvem vozes a pairar no ar, destilam os seus frenesis dos escritos deixados por algum escriba acad\u00eamico uns anos antes. (Keynes, 2012, p. 348-349).<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">Keynes faleceu em 1946, e o seu pensamento teve, de fato, uma enorme relev\u00e2ncia p\u00f3stuma. As suas ideias da <i>Teoria geral<\/i>, de 1936, deram base, juntamente com as suas propostas sobre as rela\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias e financeiras internacionais apresentadas no encontro de Bretton Woods, em 1944, para a emerg\u00eancia, no p\u00f3s-II Guerra Mundial, dos estados de bem-estar social, que se caracterizaram por um vigoroso crescimento econ\u00f4mico, pela proximidade do pleno emprego e por uma expressiva redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais, num contexto de harmonia e coopera\u00e7\u00e3o internacionais entre os pa\u00edses capitalistas. N\u00e3o \u00e9 um exagero afirmar que as contribui\u00e7\u00f5es de Keynes constitu\u00edram a influ\u00eancia te\u00f3rica mais decisiva para o per\u00edodo que ficou conhecido como a Era de Ouro do capitalismo ou, tamb\u00e9m, como os Trinta Anos Gloriosos, compreendidos entre 1945 e 1975.<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote5sym\" name=\"sdfootnote5anc\"><sup>5<\/sup><\/a> Por sua vez, a partir do final da d\u00e9cada de 1970, o abandono das ideias keynesianas e a ascens\u00e3o do neoliberalismo fizeram com que o capitalismo retomasse, a n\u00edvel global, uma trajet\u00f3ria similar \u00e0quela existente \u00e0 \u00e9poca em que Keynes viveu, com uma profus\u00e3o de crises, uma eleva\u00e7\u00e3o do desemprego, um aumento das desigualdades e um acirramento das tens\u00f5es internacionais.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">\u00c0 guisa de conclus\u00e3o, pode-se dizer que a filosofia social e pol\u00edtica de Keynes, manifesta, entre outros textos, no cap\u00edtulo 24, veio a situar-se numa posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria entre as duas grandes correntes te\u00f3ricas existentes em seu tempo, colocando-se como uma alternativa a ambas: o liberalismo e o marxismo. Por um lado, ao contr\u00e1rio da vertente liberal, Keynes compreendeu que o capitalismo n\u00e3o \u00e9 um sistema econ\u00f4mico harm\u00f4nico, opondo-se \u00e0 ideia de que o livre funcionamento dos mercados conduziria naturalmente \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o do bem-estar material. Por outro lado, malgrado reconhecesse, tal como a vertente marxista, a natureza problem\u00e1tica e defeituosa do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, n\u00e3o chegou a ser, como esta, um adepto da aboli\u00e7\u00e3o dessa forma de organiza\u00e7\u00e3o social e de sua substitui\u00e7\u00e3o pelo comunismo.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\"><a name=\"_GoBack\"><\/a>Em termos marxianos, ainda que n\u00e3o tenha defendido, tal como Marx, a supera\u00e7\u00e3o da forma do trabalho assalariado como fonte de valoriza\u00e7\u00e3o capitalista, Keynes advogou uma atua\u00e7\u00e3o do Estado que levasse \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do grau de explora\u00e7\u00e3o do trabalho, isto \u00e9, a uma queda da taxa de mais-valor. E embora n\u00e3o tenha sido um partid\u00e1rio da extin\u00e7\u00e3o do regime do capital como um todo, pleiteou o fim de uma forma particular de capital, o capital portador de juros (caracterizado pelo circuito D-D&#8217;), apenas concedendo permiss\u00e3o para existir ao capital industrial ou em fun\u00e7\u00e3o (cujo ciclo \u00e9 D-M-D&#8217;). Tanto quanto Marx, por\u00e9m, teve como inaceit\u00e1vel a exist\u00eancia do ex\u00e9rcito industrial de reserva, a massa de trabalhadores desempregados oriunda do funcionamento normal do capitalismo. Em s\u00edntese, em vez de uma transforma\u00e7\u00e3o completa das rela\u00e7\u00f5es sociais existentes, Keynes defendeu a perman\u00eancia dessas rela\u00e7\u00f5es, por\u00e9m com ajustes que permitissem atenuar as assimetrias por elas produzidas. Nesse sentido \u00e9 que se afirma que, em vez de uma <i>revolu\u00e7\u00e3o<\/i> do sistema, foi favor\u00e1vel \u00e0 sua <i>reforma<\/i>.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">O ponto de vista do reformismo \u00e9 bem expresso por uma passagem do in\u00edcio do cap\u00edtulo 24:<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: 10pt;font-family: Arial, Helvetica, sans-serif\">Pessoalmente, creio haver justificativa social e psicol\u00f3gica para grandes desigualdades de rendimentos e de riqueza, embora n\u00e3o para disparidades t\u00e3o grandes como as existentes na atualidade. Existem valiosas atividades humanas que requerem o m\u00f3vel do ganho pecuni\u00e1rio e a envolv\u00eancia da propriedade privada de riqueza para poderem dar plenamente os seus frutos. Ademais, a possibilidade de ganhar dinheiro e fazer fortuna pode canalizar para vias comparativamente inofensivas certas inclina\u00e7\u00f5es perigosas da natureza humana [&#8230;]. Contudo, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, para estimular essas atividades e satisfazer essas inclina\u00e7\u00f5es, que o jogo seja jogado com apostas t\u00e3o altas como agora. Apostas menores levariam igualmente ao mesmo resultado, desde que os jogadores se habituassem a elas. A tarefa de modificar a natureza humana n\u00e3o deve ser confundida com a de administr\u00e1-la. \u00c9 certo que, na comunidade ideal, os homens podem ser ensinados, acostumados ou formados a desinteressar-se do jogo, mas, enquanto o homem comum, ou at\u00e9 uma fra\u00e7\u00e3o importante da comunidade, estiver fortemente dependente da paix\u00e3o do ganho, a sabedoria e a prud\u00eancia da arte pol\u00edtica devem permitir a pr\u00e1tica do jogo, embora sujeito a certas regras e limita\u00e7\u00f5es. (Keynes, 2012, p. 341).<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\"><b>Refer\u00eancia<\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 12pt\">KEYNES, John M.&nbsp;<i>Teoria geral do emprego, do juro e da moeda<\/i>. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2012 [1936].<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: 10pt;font-family: Arial, Helvetica, sans-serif\">&#8230;<\/span><\/p>\n<div id=\"sdfootnote1\">\n<p class=\"sdfootnote\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote1anc\" name=\"sdfootnote1sym\">1<\/a> A teoria econ\u00f4mica de Keynes foi apresentada numa <span style=\"color: #0563c1\"><u><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2020\/12\/01\/a-teoria-geral-de-keynes-uma-apresentacao-didatica\/\">publica\u00e7\u00e3o anterior<\/a><\/u><\/span> neste blog.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote2\">\n<p class=\"sdfootnote\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote2anc\" name=\"sdfootnote2sym\">2<\/a> Uma tributa\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria a essa, que onera proporcionalmente mais os mais pobres e menos os mais ricos, \u00e9 chamada de <i>regressiva<\/i>.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote3\">\n<p class=\"sdfootnote\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote3anc\" name=\"sdfootnote3sym\">3<\/a> Isso \u00e9 v\u00e1lido para a taxa de juro de curto prazo, associada aos t\u00edtulos p\u00fablicos, mas n\u00e3o para as taxas de juro de longo prazo, as quais, no entanto, s\u00e3o em alguma medida influenciadas por aquela. <i>Coeteris paribus<\/i>, uma pol\u00edtica monet\u00e1ria expansionista aumenta a quantidade de moeda e reduz a taxa de juro, e uma pol\u00edtica monet\u00e1ria contracionista diminui a quantidade de moeda e eleva a taxa de juro.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote4\">\n<p class=\"sdfootnote\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote4anc\" name=\"sdfootnote4sym\">4<\/a> Em geral, a execu\u00e7\u00e3o de projetos nessas \u00e1reas requer vultosos montantes de investimentos iniciais, cujo retorno s\u00f3 pode ser obtido em horizontes temporais muito alongados. Por essa raz\u00e3o, elas n\u00e3o costumam ser do interesse de investidores privados.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote5\">\n<p class=\"sdfootnote\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: 10pt\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote5anc\" name=\"sdfootnote5sym\">5<\/a> \u00c9 verdade que as na\u00e7\u00f5es social-democratas n\u00e3o chegaram a aplicar todas as medidas aqui apresentadas, tendo faltado principalmente na ado\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia do rentista, e que elas tamb\u00e9m executaram pol\u00edticas n\u00e3o tratadas aqui, como o fornecimento de servi\u00e7os p\u00fablicos gratuitos de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o de sistemas p\u00fablicos de previd\u00eancia. Um tratamento aprofundado do capitalismo do p\u00f3s-II Guerra vai al\u00e9m do escopo deste texto.<\/span><\/p>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Por V\u00edtor Lopes de Souza Alves. 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