{"id":766,"date":"2021-11-05T17:36:24","date_gmt":"2021-11-05T20:36:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=766"},"modified":"2021-11-05T17:36:26","modified_gmt":"2021-11-05T20:36:26","slug":"tres-principios-adicionais-de-uma-economia-monetaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2021\/11\/05\/tres-principios-adicionais-de-uma-economia-monetaria\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas princ\u00edpios adicionais de uma economia monet\u00e1ria"},"content":{"rendered":"\n<p>Por V\u00edtor Lopes de Souza Alves.<\/p>\n<p>Uma <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2021\/07\/31\/cardim-de-carvalho-e-o-conceito-de-economia-monetaria\/\">publica\u00e7\u00e3o anterior<\/a> deste <em>blog<\/em> tratou do conceito de <em>economia monet\u00e1ria<\/em>, tal como apresentado por Fernando Cardim de Carvalho. Viu-se que tal concep\u00e7\u00e3o, que afirma a n\u00e3o neutralidade da moeda, constitui a pedra angular da teoria econ\u00f4mica de Keynes e do paradigma p\u00f3s-keynesiano. A seu respeito, Cardim de Carvalho formula <strong>seis princ\u00edpios fundamentais<\/strong>: 1) princ\u00edpio da produ\u00e7\u00e3o; 2) princ\u00edpio da estrat\u00e9gia dominante; 3) princ\u00edpio da temporalidade dos processos econ\u00f4micos; 4) princ\u00edpio da n\u00e3o ergodicidade ou incerteza; 5) princ\u00edpio da coordena\u00e7\u00e3o; e 6) princ\u00edpio das propriedades da moeda. (Carvalho, 1992; 2020).<\/p>\n<p>O professor Giuliano Contento de Oliveira, do Instituto de Economia da Unicamp, em artigo apresentado no 14\u00ba Encontro da Associa\u00e7\u00e3o Keynesiana Brasileira (AKB), sugere a ado\u00e7\u00e3o de <strong>tr\u00eas princ\u00edpios adicionais<\/strong> de uma economia monet\u00e1ria. Ao faz\u00ea-lo, visa a complementar os seis princ\u00edpios j\u00e1 mencionados e contribuir para uma melhor compreens\u00e3o do conceito. Esses tr\u00eas princ\u00edpios j\u00e1 est\u00e3o presentes na obra de Keynes ou s\u00e3o suscitados por ela e foram desenvolvidos por autores p\u00f3s-keynesianos. (Oliveira, 2021). Segue abaixo uma exposi\u00e7\u00e3o sucinta dos mesmos.<\/p>\n<p><strong>1) Princ\u00edpio da endogenia da oferta de moeda<\/strong><\/p>\n<p>A oferta de moeda \u00e9 end\u00f3gena. Os bancos s\u00e3o capazes de criar moeda <em>ex nihilo<\/em> (a partir do nada), atrav\u00e9s de uma opera\u00e7\u00e3o cont\u00e1bil. Operando o sistema de reservas fracion\u00e1rias, eles podem manter como reserva apenas uma fra\u00e7\u00e3o do volume de dep\u00f3sitos que det\u00eam sob sua guarda, convertendo o restante em empr\u00e9stimos. Em tempos de estabilidade, a <em>moeda banc\u00e1ria ou escritural<\/em> disp\u00f5e de <em>status<\/em> equivalente e exerce as mesmas fun\u00e7\u00f5es que a <em>moeda estatal de curso for\u00e7ado<\/em>.<\/p>\n<p>Assim como os demais agentes econ\u00f4micos, os bancos possuem prefer\u00eancia pela liquidez e respondem ao estado geral de expectativas. Num contexto de baixa incerteza, eles emprestam moeda; noutro de alta incerteza, eles ret\u00eam moeda (racionamento de cr\u00e9dito). Portanto, os bancos possuem um comportamento pr\u00f3-c\u00edclico, influenciando a demanda efetiva no sentido de potencializar as altas e baixas dos ciclos de neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Por fim, deve-se reconhecer que a endogenia da oferta de moeda n\u00e3o invalida as propriedades da moeda indicadas por Keynes: as nulas elasticidades de produ\u00e7\u00e3o e substitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>2) Princ\u00edpio da hierarquia de moedas<\/strong><\/p>\n<p>As diferentes moedas oferecem diferentes graus de liquidez aos seus detentores e, por conseguinte, a ordem monet\u00e1ria \u00e9 organizada de forma hier\u00e1rquica.<\/p>\n<p>A hierarquia de moedas possui duas dimens\u00f5es. No plano <em>dom\u00e9stico<\/em>, tem-se que a moeda estatal de curso for\u00e7ado encontra-se em posi\u00e7\u00e3o privilegiada relativamente \u00e0s moedas privadas (moeda banc\u00e1ria ou escritural). No plano <em>internacional<\/em>, a moeda do pa\u00eds hegem\u00f4nico (atualmente, o D\u00f3lar dos EUA) \u00e9 considerada superior \u00e0s demais moedas nacionais. Por ser utilizada majoritariamente nas transa\u00e7\u00f5es entre os pa\u00edses e exercer as tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas da moeda (unidade de conta, meio de troca e reserva de valor) em \u00e2mbito global, ela constitui a moeda-reserva da economia mundial. As demais moedas nacionais possuem diferentes graus de conversibilidade internacional.<\/p>\n<p>Em contextos de instabilidade e crise, os agentes buscam converter as moedas menos l\u00edquidas em moedas mais l\u00edquidas, trocando a moeda privada pela moeda estatal e a moeda nacional pela moeda hegem\u00f4nica. Isso traz consequ\u00eancias mais danosas para os pa\u00edses perif\u00e9ricos, que tendem a sofrer mais com a instabilidade monet\u00e1ria e financeira.<\/p>\n<p><strong>3) Princ\u00edpio do endividamento e da instabilidade financeira<\/strong><\/p>\n<p>Uma economia monet\u00e1ria \u00e9 inevitavelmente uma economia de cr\u00e9dito, em que os agentes financiam seus gastos atrav\u00e9s da tomada de empr\u00e9stimos. De acordo com Minsky, a economia pode ser entendida como um sistema de balan\u00e7os inter-relacionados: aos d\u00e9bitos de uns correspondem os cr\u00e9ditos de outros. Disso resulta a instabilidade financeira de natureza end\u00f3gena, isto \u00e9, decorrente do funcionamento normal da economia.<\/p>\n<p>A estrutura financeira subjacente \u00e0 economia sofre mudan\u00e7as ao longo do ciclo de neg\u00f3cios. Os per\u00edodos de otimismo e expans\u00e3o ensejam a redu\u00e7\u00e3o das margens de seguran\u00e7a e o aumento do endividamento dos agentes, com a emerg\u00eancia de estruturas financeiras fr\u00e1geis e a forma\u00e7\u00e3o de um rastro de d\u00edvidas. O cr\u00e9dito, portanto, dinamiza o ciclo econ\u00f4mico: por um lado permite a acelera\u00e7\u00e3o do processo de acumula\u00e7\u00e3o, por outro refor\u00e7a a instabilidade do sistema e acentua suas crises.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">***<\/p>\n<p>O texto do professor Giuliano pode ser acessado na \u00edntegra clicando <a href=\"https:\/\/www.even3.com.br\/anais\/akb2021\/375278-sobre-os-principios-de-uma-economia-monetaria-da-producao\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>CARVALHO, F. J. C. Mr. Keynes and the post keynesians: principles of macroeconomics for a monetary production economy. Aldershot: Edward Elgar, 1992.<\/p>\n<p>CARVALHO, F. J. C. Keynes e os p\u00f3s-keynesianos: princ\u00edpios de macroeconomia para uma economia monet\u00e1ria de produ\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Alta Cult, 2020.<\/p>\n<p>OLIVEIRA. G. C. Sobre os princ\u00edpios de uma economia monet\u00e1ria da produ\u00e7\u00e3o. Anais do 14\u00ba Encontro Internacional da Associa\u00e7\u00e3o Keynesiana Brasileira. 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><\/div>","protected":false},"author":623,"featured_media":767,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[196],"tags":[317,316,342,343,164,165,341],"class_list":["post-766","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-economia-monetaria","tag-economia-pos-keynesiana","tag-hierarquia-de-moedas","tag-instabilidade-financeira","tag-keynes","tag-macroeconomia","tag-moeda-endogena"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2021\/11\/639.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/766","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/623"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=766"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/766\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":768,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/766\/revisions\/768"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/767"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=766"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=766"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=766"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}