{"id":82,"date":"2019-03-27T14:41:24","date_gmt":"2019-03-27T17:41:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=82"},"modified":"2021-02-02T18:42:07","modified_gmt":"2021-02-02T21:42:07","slug":"nacao-e-unidade-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2019\/03\/27\/nacao-e-unidade-nacional\/","title":{"rendered":"Na\u00e7\u00e3o e unidade nacional"},"content":{"rendered":"<p>Na\u00e7\u00e3o. O termo tem ganhado os holofotes novamente. Desde a ascend\u00eancia do neoliberalismo nos anos 1980 (em nosso caso, mais tardio, 1990), os Estados nacionais perderam prest\u00edgio no interior das ideias econ\u00f4micas predominantes, embora isto n\u00e3o ocorresse, necessariamente, nas pr\u00e1ticas econ\u00f4micas. Seguindo um binarismo segundo o qual mais Estado significa menos mercado e segundo o qual n\u00e3o h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre Estado e mercado no \u00e2mbito econ\u00f4mico, teoricamente entendia-se que os mercados haviam superado as amarras do Estado.<\/p>\n<p>Contudo, a realidade nos mostra que os Estados continuaram a ter consider\u00e1vel protagonismo e que, portanto, a expans\u00e3o da sociedade de mercado continuou abra\u00e7ada \u00e0 exist\u00eancia de Estados nacionais. Afora o binarismo ing\u00eanuo ou desleal, mesmo autores filiados \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o do liberalismo econ\u00f4mico reconhecem a import\u00e2ncia do Estado para a expans\u00e3o da economia de mercado. O Estado deve criar o quadro institucional apropriado \u00e0 expans\u00e3o dos neg\u00f3cios. Este quadro institucional pode ter significados concretos distintos, a depender do momento hist\u00f3rico. Por exemplo, o Estado deve ser respons\u00e1vel por criar mecanismos de financiamento e constru\u00e7\u00e3o dos fios que formam a teia de rela\u00e7\u00f5es comerciais, seja internamente ou com outros pa\u00edses. Se o Estado o far\u00e1 atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de empresas p\u00fablicas ou se o far\u00e1 dando incentivos para as empresas privadas j\u00e1 existentes, depender\u00e1 da conjuntura hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Seja como for, desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, o Estado precisa justificar, ao menos no plano das ideias, a pertin\u00eancia da pol\u00edtica perpetrada. E aqui entra a na\u00e7\u00e3o. O Estado pode argumentar, \u00e0 moda do imp\u00e9rio ingl\u00eas sob Disraeli, que a expans\u00e3o sobre outros povos mostra a pujan\u00e7a daquele que domina, seu esp\u00edrito esclarecido ou, para usar termo mais atual, sua capacidade inovadora. Neste sentido, qualquer indiv\u00edduo genuinamente representante da nacionalidade merece receber os frutos do dom\u00ednio comercial de \u201cseu\u201d Estado. E, assim, o ideal de pertencimento segundo a nacionalidade supera clivagens internas como, por exemplo, entre ricos e pobres<em>.<\/em><\/p>\n<p>Acontece que, no caso de Estados menos poderosos, a capacidade de expans\u00e3o de seus dom\u00ednios comerciais \u00e9 mais restrita, dependendo ou de sua for\u00e7a para enfrentar Estados poderosos ou de sua habilidade para galgar posi\u00e7\u00f5es no guarda-chuva do Estado hegem\u00f4nico da vez. Para estes Estados menos poderosos, coloca-se o dilema da na\u00e7\u00e3o <em>ou<\/em> da unidade nacional. Embora as falas sempre remetam ao termo \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d, a distin\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para entendermos a posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do atual poder executivo federal no Brasil.<\/p>\n<p>Em nosso pa\u00eds, a na\u00e7\u00e3o, tal como pensada nos anos 1950, reporta-se ao ideal de homogeneidade social: a supera\u00e7\u00e3o da segrega\u00e7\u00e3o social que vem desde a estratifica\u00e7\u00e3o escravista. Nos anos 1920-30, no entanto, a na\u00e7\u00e3o foi utilizada, por autores que passaram distantes da semana de arte moderna, como subterf\u00fagio para defender a unidade nacional: o tema central n\u00e3o era a supera\u00e7\u00e3o da segrega\u00e7\u00e3o social, mas a reconcilia\u00e7\u00e3o entre as elites. A tarefa de decidir o que era melhor para o povo caberia \u00e0 elite, uma vez que: considerava-se que havia incapacidade c\u00edvica da popula\u00e7\u00e3o; argumentava-se que o conv\u00edvio entre os dois pa\u00edses, o dos pobres e o dos ricos, era pac\u00edfico gra\u00e7as aos ensinamentos civilizat\u00f3rios da fam\u00edlia patriarcal.<\/p>\n<p>Chegando aos tempos mais recentes, cabe-nos assinalar que a luta do povo pela homogeneidade social emergiu, de fato, atrav\u00e9s das reivindica\u00e7\u00f5es de distintos movimentos, como, por exemplo, daqueles que representam a valoriza\u00e7\u00e3o do legado da afro-di\u00e1spora; do movimento LGBT e do movimento feminista. Embora isto n\u00e3o signifique, necessariamente, consenso diante de todas as pautas, as for\u00e7as demandam redu\u00e7\u00e3o das desigualdades econ\u00f4micas, igualdade legal e respeito \u00e0 diversidade.<\/p>\n<p>Contra isto foi erigida novamente a ideia de \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d como unidade nacional. O discurso do novo presidente durante a posse do Ministro da Defesa deixa claro: \u201co povo, em sua grande maioria, quer hierarquia, quer respeito, quer ordem e quer progresso\u201d. Por fim, ficou manifesto que esta manuten\u00e7\u00e3o da unidade nacional, o retorno da fam\u00edlia (patriarcal) como agente civilizat\u00f3rio, est\u00e1 diretamente relacionada \u00e0s novas exig\u00eancias para a expans\u00e3o da economia de mercado, como fica vis\u00edvel nas falas do Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores: \u201cMenos Estado e mais na\u00e7\u00e3o\u201d; \u201cA na\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 o \u00fanico lugar onde a economia livre e a sociedade aberta podem se juntar\u201d; \u201cSe n\u00e3o h\u00e1 na\u00e7\u00e3o, fam\u00edlia, cultura, hist\u00f3ria, her\u00f3is ou tradi\u00e7\u00e3o, a economia n\u00e3o pode ganhar o cora\u00e7\u00e3o das pessoas\u201d. Que tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 esta sen\u00e3o a escravista? Que fam\u00edlia \u00e9 esta sen\u00e3o a patriarcal? Que economia livre \u00e9 esta, sen\u00e3o aquela que garante um dos mais vexat\u00f3rios padr\u00f5es de concentra\u00e7\u00e3o da riqueza?<\/p>\n<p>Nestas terras perif\u00e9ricas, a plasticidade da elite para modernizar seus padr\u00f5es de consumo caminha de par com a sedimentada segrega\u00e7\u00e3o social. Desta maneira, m\u00ednimos questionamentos a esta tradicional ordem social s\u00e3o considerados perturbadores; e toda demanda social, em vez de ser acolhida pelo espa\u00e7o p\u00fablico, deve esperar a benevol\u00eancia da elite no \u00e2mbito da \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d e da \u201cfam\u00edlia\u201d. Mant\u00e9m-se a unidade nacional, a identidade entre as elites distantes do povo, e a na\u00e7\u00e3o segue fraturada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ulisses Rubio Urbano da Silva<\/strong>, Graduado em Ci\u00eancias Econ\u00f4micas pela UNESP. Mestre e Doutor em Desenvolvimento Econ\u00f4mico pelo Instituto de Economia da UNICAMP, enfatizando estudos em Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica. Pesquisas em Pensamento Econ\u00f4mico Brasileiro. Atualmente leciona Economia e disciplinas da \u00e1rea de gest\u00e3o no IFSP campus S\u00e3o Jo\u00e3o da Boa Vista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Na\u00e7\u00e3o. O termo tem ganhado os holofotes novamente. 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