You Don’t Know Jack – O Filme

Em 2010 foi lançado o filme You Don’t Know Jack, estrelado por Al Pacino. O filme conta a história real de Jack Kevorkian (mais conhecido como dr. Morte), um médico patologista americano que defendia o direito a morte assistida para pacientes em condições clínicas muito severas.

Ele oferecia aos pacientes interessados as condições para o suicídio assistido, técnica na qual o paciente manuseia algo que permite que substâncias letais sejam introduzidas no organismo, mas de forma a não lhe causar dor.

No filme a controversa problemática da eutanásia é ilustrada através dos depoimentos dos pacientes que procuravam o médico, demonstrando o desejo que essas pessoas tinham de por fim a um sofrimento que já era irremediável e que só se prolongaria, tornando as vidas delas uma agonia e as das pessoas à sua volta, tendo que enfrentar a situação de ver alguém amado em uma situação miserável de saúde.

Kevorkian foi preso em 1999 por injetar ele mesmo uma substância em seu último paciente, que não tinha condições de se auto-administrar a substância. Ele documentou a morte do paciente e conseguiu exibí-la num dos programas de maior audiência da televisão americana, sendo acusado de homicídio posteriormente. Ele reportou ter auxiliado 130 pacientes com tal procedimento, mas somente na última ele ousou desafiar a lei de forma mais direta e em 2007 teve o direito de liberdade condicional concedida pela sua idade avançada.

Um dos seus maiores inimigos mostrado no filme buscava incriminá-lo incansavelmente por acreditar que a legalização da eutanásia seria contrária à sua fé religiosa, e que ele não gostaria que seus filhos vivessem em um mundo assim. No filme um grupo de manifestantes religiosos vão à casa do médico protestar, insultando-o e batendo em seu carro, sendo que a líder do grupo tenta forjar documentos para incriminá-lo também em um momento posterior no filme.

O filme coloca na mesa questões muito relevantes e controversas: quem tem o direito de dizer quando alguém deve morrer? As pessoas tem o direito de escolher se querem morrer ou não? O sofrimento de uma pessoa e sua vontade de morrer são relevantes? Isso é encargo de uma entidade sobrenatural que alguns chamam de deus? Dependendo da perspectiva, muitas respostas podem ser oferecidas.

Em uma fala do filme, o médico diz que antigamente na medicina o transplante de órgãos era visto como errado por uma grande parte dos médicos, e foi proibido por causa de dogmas religiosos. Ele diz algo como “e você sabe porque isso foi proibido? Por causa da noção distorcida de que existe um deus todo poderoso que deseja o nosso sofrimento”.

Não é exclusivo desse assunto o embate entre a medicina e a religião. Seja na eutanásia, no aborto, na pesquisa de células tronco ou na utilização de métodos contraceptivos, muitas vezes a posição religiosa pretende ser vista como igualmente, se não superiormente, válida à posição médica ou científica. Ao passo que a medicina e a ciência se transformaram e evoluiram drasticamente nos últimos dois séculos, muitos dogmas religiosos permaneceram estagnados desde que foram “criados”.

Algumas facções ou grupos dentro das grandes religiões se adaptaram às novas descobertas e muitos permaneceram fiéis às mesmas idéias propostas, no caso do cristianismo, há mais de dois mil anos atrás.

Um exemplo: as afirmações propostas pela religião cristã não nasceram da observação minuciosa, do uso da razão, da verificação e do estudo sistemático de algum tema, e sim de um livro escrito por homens há muito tempo atrás que supostamente representa às palavras de uma entidade sobrenatural que monitora todas as pessoas do mundo e está pronta para castigá-las caso seja desobedecida, como a própia bíblia descreve muito bem. “Homossexualidade é errado porque é errado, porque está escrito no meu livro. A prática sexual sem fins reprodutivos é errada, porque no livro da minha religião diz que é errado, portanto não se devia usar contraceptivos”. “Ninguém tem o direito de tirar a vida de outra pessoa, só deus é quem decide a hora certinha”.

Estes sáo posicionamentos muito confortáveis para um cidadão de classe média, com saúde, condição financeira e uma família para lhe dar suporte. Será que essa mesma pessoa defenderia tal opinião se descobrisse ter uma doença rara de caráter hereditário e sem cura, que vagarosamente consumiria suas habilidades motoras e fisiológicas, infringindo-lhe uma dor e sofrimento inacabáveis que o impediriam de desfrutar da liberdade e do prazer que ele sempre pôde desfrutar?

E, ao mesmo tempo, sem poder fazer nada, ver seus amigos e familiares se mobilizando para sustentar e prolongar esse sofrimento, enquanto eles também sofrem e dedicam seu tempo, mesmo que não haja qualquer chance de recuperação, no caso de esta ser uma doença realmente incurável? Se colocando em tal situação, já não é tão fácil aceitar tal fardo.

O filme Menina de Ouro também já havia explorado a eutanásia em um contexto diferente, o que ajudou a reavivar o tema. A opnião mais justa e relevante sobre a eutanásia é a de pessoas perfeitamente saudáveis, ou a de pessoas que estão morrendo e sofrendo nas macas dos hospitais? Estas pessoas devem ser obrigadas a se agonizar por meses até que a doença às consumam completamente? Porque valorizar crenças e opiniões ao invés do sofrimento humano nesse tipo de questão? Ficam ai as perguntas para serem respondidas.

Discussão - 1 comentário

  1. […] um trecho de um discurso feito pelo ativista depois que foi eleito.Você não conhece o Jack (2010)Estrelado por Al Pacino, este filme conta a história real de Jack Kevorkian (mais conhecido como dr. Morte), um médico patologista […]

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