Qual é o Boneco Bom, o Branco ou o Negro?

Segue um vídeo curto sobre um estudo clássico de preconceito em crianças onde são feitas perguntas a elas acerca de dois bonecos – um negro e um branco. Os resultados desse tipo de estudo sistematicamente apontam para um padrão – os bonecos negros são maus, feios e menos preferíveis, enquanto os bonecos brancos são bons, bonitos e mais preferíveis.

Esses resultados são encontrados para crianças brancas e, infelizmente, para crianças negras também. Os resultados indicam um determinado padrão de internalização de um esteriótipo negativo em relação aos negros desde cedo, quando comparado ao esteriótipo de brancos. Que tipo de consequências será que esse pareamento tem para essas crianças no futuro? Veja o vídeo abaixo.

Discussão - 11 comentários

  1. Daniel F. Gontijo disse:

    Isso é triste. Qual seria a explicação para esse tipo de tendência de resposta?

  2. Marcos A. Rodrigues Jr disse:

    Chamar o negro de mau e o branco de bom é uma prática cultural reforçada socialmente em nossa comunidade ocidental (no japão a cor que simboliza o mau é a branca). A criança desde nova em desenhos, filmes e contos tem o a cor preta condicionada a estímulos verbais como mau, feio, etc. Como isso é feito em diversos contextos, formam-se classes de equivalências entre esses adjetivos e o recém formado conceito de "negro". Além dos estímulos dessas classes de equivalência também serem generalizados para outras coisas não pretas, mas com características de objetos que compartilham, traços faciais característicos da etnia proveniente da África como narizes achatados, lábios grossos, cabelo crespo, etc. As raízes do preconceito estão na cultura e em como são reforçadas as práticas deste, isso está muito além de apenas um processo "racional".

  3. Marcos A. Rodrigues Jr disse:

    Visitem meu blog sobre Análise do Comportamentohttp://funcionalanalise.blogspot.com/

  4. Emerson Luís disse:

    Concordo que o preconceito deve ser combatido. E deve ser combatido em todas as suas formas.Perguntas como "QUAL boneca é bonita?" ou "boa" induzem a criança a escolher uma. O mais adequado seria perguntas como "SE" uma boneca é "boa". A experiência é cientificamente enviesada e inválida.* * *

  5. André Rabelo disse:

    Daniel, grande parte dos estudos que exploraram esse paradigma entendiam essa tendência como o resultado de uma associação da categoria "pessoas negras" com adjetivos pejorativos como pobres, desavantajado culturalmente, ladrão e de um modo geral mais negativamente do que com a categoria "pessoas brancas". Esses conceitos negativos estavam mais associados aos negros e eram mais acessíveis do que outros conceitos em um momento de interação com um negro. Eu penso que não há como separar esses esteriótipo da história que os negros viveram por muitos anos como escravos também. A visão que se tinha nessa época dos escravos possivelmente foi absorvida por muitas culturas, porém não foram completamente atualizadas após a emancipação deles. Sem dúvida por ser um fenômeno tão multifacetado e complexo, o preconceito deve resultar da interação de uma miríade de variáveis, dificilmente podendo-se apontar uma como a causa única de algo dessa complexidade, porém buscar na cultura, na história, nos padrões de associação cognitiva, nos estímulos pareados e no desenvolvimento cognitivo das crianças são caminhos muito promissores para encontrar uma resposta a essa pergunta.abraço,André

  6. André Rabelo disse:

    Olá Marcos, obrigado pelo comentário!Achei bacana tua explicação, mas se me permite, fiquei na dúvida quanto a algumas de suas afirmações e gostaria de comenta-las.Chamar o negro de mau é uma prática reforçada socialmente no ocidente? Hardly so, na minha opnião. Se fosse assim, a linha de pesquisa em preconceito não enfrentaria um de seus maiores obstáculos desde o seus primórdios: as pessoas difcilmente demonstram honestamente seu preconceito em público ou quando são perguntadas sobre o tema, "é errado ter um preconceito". Se essa prática fosse tão reforçada assim as pessoas entrariam no laboratório e sairiam falando tudo o que acham sobre negros, nos detalhes mais sórdidos, e definitivamente não é o que se relata em estudos sobre esteriótipo e preconceito.Essa dificuldade levou os psicólogos sociais a desenvolverem estratégias que conseguissem burlar o efeito da norma social implícita contra preconceito, sendo que por volta dos anos 90 houve um "boom" quando os psicólogos adaptaram idéias e métodos da psicologia cognitiva para responder a perguntas da psicologia social. Quanto ao preconceito ser muito mais do que um processo racional, concordo plenamente contigo e esse é um achado que vem sendo sistematicamente refinado e constatado na linha de pesquisa sobre preconceito. O preconceito como é entendido hoje por muitos pesquisadores tem um caráter muito mais automático, rápido e afetivo do que controlado, lento e racional.Parabéns pelo teu blog, não o conhecia. Ja estou seguindo ele!um abraço,André

  7. André Rabelo disse:

    Obrigado pelo comentário, Emerson!Não entendo o que vc quer dizer com "cientificamente enviesado". Como se trata de um estudo empírico, é claro que ele se baseia em princípios científicos, porém não existe uma "visão de como funciona o preconceito" na ciência, fundamentalmente falando, para que os pesquisadores estejam tentando corroborar algo que a ciência afirmaria, confirmando algum viés. O método científico é uma forma de investigar, não postulados precisos sobre o que são as coisas (como o preconceito) e o que se deve encontrar quando estudamos elas.Quanto á sua crítica do método, vc apresenta mais uma alternativa, além da do estudo, de como operacionalizar o teste de "outras" hipóteses. Os pesquisadores precisavam induzir a criança a escolher, pois queriam saber exatamente isso – quando forem pedidas para escolher e categorizar bonecos, qual será a tendência dessas crianças?Essa foi a operacionalização que os pesquisadores escolheram para estudar o preconceito, mas ela, como qualquer outra tentativa de operacionalização, tem suas limitações e vantagens. Para o que se propõe este estudo, penso que a experiência é válida, mas ela tem suas limitações de método como qualquer outro estudo teria.um abraço,André

  8. Marcos A. Rodrigues Jr disse:

    André, o preconceito é amplamente reforçado sim, só que ao mesmo tempo surgiram grupos com práticas sociais de combate ao que se chama de "preconceito" tornando o se comportar de forma preconceituosa em publico punida (até com leis), fazendo esse preconceito que antes era publico ir para um nível privado.É o mesmo processo pelo qual não lemos mais em voz alta, antes o liamos, mas com o tempo passamos a ler privadamente por ausência de reforçadores pelo ler em voz alta e algumas punições por isso (- leia mais baixo menino não ve que to assistindo TV!!!)Acho que as pesquisas são muito validas, mas dizer que isso é um processo cognitivo é uma inferência sem provas. O preconceito é social, e envolve variáveis genéticas, da histórica de vida do sujeito e culturais. Obrigado por me segui no Blog!!!

  9. André Rabelo disse:

    Marcos, como vc mesmo disse, se “surgiram grupos com práticas sociais de combate ao que se chama de “preconceito” tornando o se comportar de forma preconceituosa em publico punida (até com leis)”, então ele não é socialmente reforçado (se a palavra socialmente está relacionada ao que a sociedade representa), pois existem leis dessa sociedade que punem e muitas pessoas dessa sociedade reprimem essa prática. Se em alguma época no passado ele foi reforçado pela sociedade, isso é outra história, julgo que o presente não é assim.

    Dizer que é um processo cognitivo (e é claro que a explicação não se resume a isso apenas) não é uma inferência completamente sem provas na minha opnião, pois já existe uma quantidade razoável de evidências que apoiam esse modelo e demonstram sua utilidade e validade. Se o modelo ainda não está consolidado e completamente desenvolvido é pq o processo de construção teórica demanda tempo, e 30 anos no tempo da ciência é uma quantidade ínfima.

    Os últimos anos de desenvolvimento desse modelo apontam para uma tendência cada vez maior de mapear regiões cerebrais especializadas no processamento de determinados tipos de informação, então quem sabe nos próximos anos falar em processos cognitivos não se torne algo mais adequado.

  10. Marcos disse:

    Oi André,

    Socialmente reforçado, acho que é um termo muito genérico, concordo com vc, vamos operacionalizar isso.

    O que quis dizer foi que determinadas agências sociais (família, etc) podem reforçar alguns comportamentos incluídos no rotulo preconceito, em contrapartida outras agências do que também se compõem a sociedade punem os mesmos comportamentos instalados e mantidos por outras agências da sociedade.

    O que acontece nesse caso é um conflito de práticas culturais preconceito x combate ao preconceito.

    E somente as consequências para a cultura a longo prazo podem dizer qual será selecionado.

    A boa noticia é que esse conflito se iniciou a muitos anos atrás, (Zumbi, M. Luther King, etc…)

    E a prática do preconceito vem perdendo seu nicho para a da igualdade racial.

    Dizer que o preconceito está dentro do cérebro é o mesmo que dizer que a luz está dentro da lâmpada, ou que o fogo está na tocha antes dessa ascender.

  11. André Rabelo disse:

    Nesse sentido concordo mais com vc, a família tem um papel fundamental no reforçamento desse tipo de comportamento.

    hhehehehe
    me divirto com esse velho embate entre cognitivismo e behaviorismo que vc havia comentado em outro post. Me restrinjo a dizer que ninguém está afirmando, de forma tão simples, que o preconceito está dentro do cérebro, e ,se estivesse afirmando algo como isso, realmente seria a mesma coisa que dizer que a luz está dentro da lâmpada =)

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