Instintos, Sociedade e as Causas da Violência

Autores: Felipe Carvalho e André Rabelo

Texto também publicado no blog NERDWORKING

A doutrina da Tábula Rasa se espalha por todos os assuntos que nos remetem ao ser humano. Com isso, seus adeptos tem a esperança de que os males da sociedade sejam resolvidos; através de crenças que nos dizem que todo tipo de comportamento é aprendido. A violência, palavra que sintetiza com sucesso um dos grandes medos atuais de todo homem que caminha por esse planeta, também recebe explicações politicamente corretas, mas que não servem para perscrutar o fenômeno cientificamente nem descobrir suas reais causas. A falta de sucesso em resolver o problema da violência é a evidência mais forte de que confundir ideologia e política com ciência não é algo produtivo.

Violência: Panorama Geral
Os noticiários nos bombardeiam com notícias sobre guerras, assaltos, maridos batendo em suas esposas, mulheres abandonando seu filhos em latas de lixo, assassinatos, enfim, temos a sensação de que nunca vivemos tempos tão ruins. Muitos antropólogos salientam essa visão popular ao se mostrarem adeptos da doutrina do “bom selvagem”.

Segundo eles, a raça humana é naturalmente pacífica e todo o comportamento violento é socialmente aprendido, e que, inclusive, é uma criação recente. Para exemplificar eles dão exemplos de tribos ainda existentes, que vivem isoladas do mundo globalizado, no estilo caçador-coletor (assim como nossos ancestrais viveram).

Esses povos primitivos (no sentido não de inferioridade, mas de estilo de vida antigo) são uma verdadeira janela para o entendimento do nosso passado. Achados arqueológicos e pesquisas com esses atuais caçadores-coletores mostram que a quantidade de baixas resultantes de guerra e violência em geral superam de longe as taxas observadas ao redor do mundo (Bamforth, 1994). O registro arqueológico nos mostra o nosso passado sangrento: esqueletos com marca de escalpo, afundamentos ósseos provocados por machados e pontas de flecha (muitas ainda incrustadas), armas com machadinhas e clavas que não são úteis para caçar mas ótimas para homicídios e pinturas rupestres mostrando grupos de homens abatendo uns aos outros com lanças e flechas (Keeley, 1996; Walker, 2001).

ResearchBlogging.orgOs dados indicam que antes mesmo do aparecimento do homo sapiens sapiens, as outras espécies que o antecederam já se trucidavam de forma grotesca, indicando que a violência é algo visto há pelo menos 800 mil anos (Fernández-Jalvo et al., 1996). Isso contradiz fortemente os antropólogos da paz, que diziam (alguns ainda dizem) que essas tribos só praticavam guerras rituais, que terminava assim que o primeiro homem caísse ferido.

“A história da raça humana é a guerra. Exceto por breves e precários intervalos, nunca houve paz no mundo; e muito antes de a história começar, o conflito assassino era universal e interminável.”

Essa frase de Winston Churchill pode refletir a vida de um homem que vivenciou diversos períodos periclitantes da história humana, como a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, e que, de fato, participou deles. Mas sua reflexão se mostra correta hoje, à luz das evidências. E ela serve também para os nossos dias (embora sejamos bem mais pacíficos que nossos ancestrais). Veja, por exemplo, o ano  de 2001, quando houve os ataques terroristas aos EUA. Mesmo antes do ataque e da onda de conflitos no Oriente Médio que se seguiu, a Lista de Conflitos Mundiais catalogava 65 áreas de violência sistemática, de Albânia e Argélia a Zâmbia e Zimbábue (National Defense Council Foundation, Alexandria, Va.). De fato, vivemos tempos mais pacíficos, visto que, nas sociedades ocidentais, as taxas de homicídio têm diminuído de dez a cem vezes no milênio passado (FBI Uniform Crime Reports, 1999).

Apesar desses dados, o presente não nega nosso passado sanguinário. Da próxima vez que você sair na rua (talvez seja preciso só dar uma olhada nas pessoas da sua casa e trabalho), conte quantos pescocinhos adornados com uma cruz você vê. A cruz, antes de ser relacionada a Jesus Cristo, é um símbolo milenar da criatividade humana para construir engenhocas capazes de proporcionar uma morte extremamente torturante e dolorosa.

O que a tábula rasa diz
Existe a preocupação séria com relação às medidas que devem ser tomadas para diminuir a violência, mas a partir do momento em que essa preocupação se foca em dar respostas politicamente corretas e não em descobrir as causas reais do problema, ficamos estacionados. Nesse caso, a resposta correta é que a violência não tem relação com a natureza humana. Talvez o grau máximo de dogmatismo representado pelas ciências sociais foi a Declaração de Sevilha, segundo a qual é “cientificamente incorreto” afirmar que os humanos possuem um “cérebro violento” ou que sua evolução selecionou a violência (Seville, 1990).

Veja essa frase de Ortega y Gasset, cuja palavra “guerra” pode ser substituída por diversas outras, como sexualidade, instinto materno, amor e tantos quanto sua imaginação lhe permitir (está de acordo com o que ouço de pessoas, professores e alunos, ligados à área das ciências sociais): “A guerra não é um instinto, mas uma invenção” (Ortega y Gasset, 1932/1985, epílogo). Recentemente, a Declaração das Nações Unidas sobre a Eliminação da Violência Contra Mulheres anunciou que “a violência é parte de um processo histórico, e não natural nem nascida de determinismo biológico”.

As Causas Que Não Causam
A violência, como sintoma social de algo que também pertence à cultura e à sociedade, é frequentemente tida como consequência da pobreza, discriminação, ignorância e doença, como disse Lyndon Johnson. Outras vezes, um dos indicadores citados é a educação, o que inclui o tipo de brincadeiras às quais as crianças são expostas. Aí entra o video game, por exemplo. “A violência é um comportamento aprendido. Todo brinquedo é educativo. A questão é: o que você quer que seus filhos aprendam?” (Daphne White, 2000). Veja essa outra declaração:

Então por que os EUA são mais violentos que outras democracias ocidentais industrializadas? Por causa de nossa predisposição cultural à violência. Socamos, espancamos, apunhalamos e fuzilamos uns anos outros porque é nosso imperativo cultural fazê-lo . (colunista do Boston Globe)

Alguns dados interessantes que temos aqui no Brasil contradizem a tese de que a violência é uma consequência da pobreza. Um trabalho publicado em 2008 pela parceria entre a Rede de Informação Tecnológica Latino Americana (Ritla), o Instituto Sangari e os ministérios da Justiça e da Saúde, com o título “Mapa da violência dos municípios brasileiros 2008″ traz dados que contradizem esse tipo de alegação. Entre os vários resultados que o estudo aponta, um deles foi que estados como o Maranhão, o Piauí e o Rio Grande do Norte estão entre os que possuem os municípios menos violentos se comparados com os municípios de outros estados como o Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal. Se compararmos a renda per capita desses estados fica difícil estabelecer relações entre violência e pobreza, visto que, por exemplo, o Piauí é o estado com a menor renda per capita do Brasil, mas não é o mais violento, como pode ser visto na tabela do artigo com os municípios mais violentos.

Raciocínio Circular
Inúmeras causas são postuladas. É claro que todas elas possuem alguma participação no comportamento agressivo em geral, mas não necessariamente a relação é de causa-consequência. Não preciso citar as outras hipóteses defendidas por diversos outros estudiosos porque todas elas possuem uma lógica circular essencial. Se pensarmos um pouco nós conseguimos percebê-la facilmente, mas, talvez, os antolhos usados por alguns cientistas sociais seja o bastante para cegá-los. A lógica geralmente pregada é a seguinte: nossa sociedade é violenta porque são apregoados valores violentos, brincadeiras violentas e programas de TV violentos. E os programas de TV e jogos violentos existem porque a sociedade é violenta. Em contrapartida, o que dizer de outras influências que atravessam as crianças?

“As crianças americanas são expostas a modelos violento, obviamente, mas também são expostas a palhaços, pregadores, cantores de música folk e drag queens; a questão é por que as crianças acham algumas pessoas mais dignas de imitação do que outras.” (Pinker, 2002).

Achei esse trecho do livro de Pinker, Tábula Rasa: A Negação Contemporânea da Natureza Humana, sensacional porque ele sintetiza muito bem a lógica falha dos argumentos que levam em conta puramente os aspectos sociais. Por que diabos os homens são mais propensos que mulheres a se envolver em assaltos, assassinatos e atos violentos em geral? Se as influências midiáticas são a resposta, então por que os homens recebem essa influência e as mulheres não? Por que homens aprendem o comportamento agressivo de seus pais muito mais do que as mulheres?

As questões de gênero são especiais para esse assunto porque elas nos mostram que, apesar de muitas vezes estarem expostos às mesmas condições culturais, homens e mulheres agem diferente, revelando aí algo que está além da simples aprendizagem. Pinker fala especificamente sobre os americanos, e mostra em seu livro que os fatores tido como responsáveis pela disseminação da agressividade não condizem com os fatos. Em post anterior, também mostrei pesquisas sobre a correlação entre violência e jogos eletrônicos. As pesquisas mostram, ao contrário do esperado, que “A ocorrência de episódios violentos envolvendo jovens de 12 a 15 anos está diminuindo desde 1997, quando foi lançada a primeira versão do GTA.”

Novamente, como defendi nos posts Inato x Aprendidoem parceria com André Rabelo , terminarei dizendo que sermos realistas quanto aos estudos é a melhor arma que temos para lutar contra aspectos da sociedade e do ser humano que julgamos prejudiciais. Cair num viés moralista ao invés de tentarmos descobrir os antecedentes da violência é uma ilusão que nos prejudica. Portanto, se quisermos tentar erradicar (ou, de maneira mais realista, diminuir maximamente) a violência, temos que seguir por esse caminho e distinguir ideologia política de ciência.

Referências:

Bamforth, D. B., “Indigenous people, indigenous violence: Precontact warfare on the North American Great Plains”, Man, nº 29, pp. 95-115, 1994.

Keeley, L. H., War before civilization: The myth of the peaceful savage, Nova York, Oxford University Press, 1996.

Walker, P. (2001). A bioarchaeological perspective on the history of violence Annual Review of Anthropology, 30 (1), 573-596 DOI: 10.1146/annurev.anthro.30.1.573

Fernandez-Jalvo, Y., Diez, J., de Castro, J., Carbonell, E., & Arsuaga, J. (1996). Evidence of Early Cannibalism Science, 271 (5247), 277-278 DOI: 10.1126/science.271.5247.277

National Defense Council Foundation, Alexandria, Va., www.ndcf.org/index.htm

FBI Uniform Crime Reports, 1999

Ortega Y Gasset, J., The revolt of the masses, Notre Dame, Ind., University of Notre Dame Press, 1932/1985.

Pinker, S. (2002). Tábula Rasa: A Negação Contemporânea da Natureza Humana.

Discussão - 11 comentários

  1. Marcos disse:

    Felipe e André, não estou aqui pra defender a teoria da tabula rasa, mas também gostaria de relativizar um pouco a opinião de Pinker (da qual não concordo também).

    “a questão é por que as crianças acham algumas pessoas mais dignas de imitação do que outras.” (Pinker, 2002)”.

    É tudo uma questão de se avaliar qual sujeito produz melhores consequencias boas imediatas para si mesmo no momento.

    Um garoto tenderá a copiar um valentão que espanca o amiguinho por este produzir uma consequencia boa imediata para si próprio muito mais rapidamente que outro garoto que tenta dialogar para resolver um conflito.

    A parte inata da violência que acredito é um padrão fixo de resposta (ver etologia) de atacar qualquer coisa proxima de voce quando você está sob condições desagradaveis, punitivas e ou de dano ao organismo.

    Existe inclusive um experimento que foi feito com ratos brilhantemente exposto por Skinner em seu Além da Liberdade e da Dignidade (livro mau compreendido dele).

    O que acontece é que estes padrões de agressão são muito simples, e conforme a história de aprendizado do organismo, poderá ou não, ser selecionado e fortalecido, tomando formas mais elaboradas e complexas (como a agressão verbal).

  2. Bosco disse:

    Ótimo blog, já está nos favoritos.

  3. André Rabelo disse:

    @Marcos, obrigado pelo comentário! Como eu e Felipe ja discutimos extensamente nos dois textos sobre inato x aprendido, não faz sentido pensar no desenvolvimento de um organismo sem a sua interação com o ambiente, e não adianta ter quaisquer tendências comportamentais sem o input ambiental para estimular, ativar e modificar o comportamento de um organismo. Nosso objetivo no presente texto é criticar, com evidências e argumentos, a crença difundida do “reducionismo cultural”, que acaba criando pressões políticas e consequentemente entraves para um entendimento mais abrangente da natureza humana.

    um abraço,
    André

  4. André Rabelo disse:

    @Bosco, obrigado pelo comentário! Que bom que gostou do blog, espero que continue acompanhando!

    um abraço,
    André

  5. “A parte inata da violência que acredito é um padrão fixo de resposta (ver etologia) de atacar qualquer coisa proxima de voce quando você está sob condições desagradaveis, punitivas e ou de dano ao organismo. ”

    Marcos, vc acabou de descrever algo muito coerente, mas que também é coerente com a idéia de que existe algum tipo de substrato biológico (inato) que faz todos nós (principalmente os homens) terem reações potencialmente violentas em certas situações. Como vc mesmo disse. Não vejo como isso contraria a idéia de Pinker, sobre o inatismo desse aspecto.

    “O que acontece é que estes padrões de agressão são muito simples, e conforme a história de aprendizado do organismo, poderá ou não, ser selecionado e fortalecido, tomando formas mais elaboradas e complexas (como a agressão verbal).”

    Concordo…Bom, talvez vc tenha entendido que a nossa proposta e a de Pinker também, é que a violência seria um comportamento totalmente inato. As pessoas seriam programadas para serem violentas e tal. Bom, não é tão simples assim. Eu sei bem dessa incompreensão porque enfrento isso quase todo dia na UFRJ rs. O que essa idéia que inclui a biologia expõe é quase o que vc mesmo disse acima, mas em outras palavras. A nossa biologia é uma espécie de matéria-prima que o ambiente pode ir moldando mais ou menos em cada aspecto individual. Acho que o comentário acima do André também acrescentaria a esse meu comentário…então, quem não leu ainda, leia!

    Grande abraço, Marcos!

  6. André Rabelo disse:

    @Felipe C Novaes, fiquei também com a impressão de que não existe verdadeira contradição entre o que apontamos no texto e o comentário do Marcos. A dificuldade é que, como estamos falando de um lado da moeda, parece que não damos lugar para o outro, mas tinha a esperança de que depois dos dois textos que escrevemos sobre inato x aprendido ficasse claro que nem nós, nem o Pinker, defendemos algo como “nascemos violentos, prontos para guerrear independente do ambiente em que vivemos”.

    um abraço,
    André

  7. Devanil disse:

    Olá André, ótimo texto para o debate, super importante para leigos como eu formarem uma opinião.

    Talvez não seja um extremo (tábula rasa) nem outro (totalmente definido geneticamente ou historicamente).

    O documentário Zeitgeist: Moving Forward mostra alguns especialistas em violência dos EUA que defendem a tese que: sim, temos a violência “dentro” de nós. Mas ela precisa do ambiente para se manifestar, mostra uns exemplos. Muito interessante você dar uma olhada:

    http://www.youtube.com/watch?v=4Z9WVZddH9w

    Abraços, e parabéns pelo blog 🙂

  8. André Rabelo disse:

    @Devanil, obrigado pelo comentário!
    Eu ja assisti ao Zeigeist moving forward. Tenho minhas restrições quanto ao movimento como um todo, mas essa parte específica achei que foi bem explorada pelo que lembro.

    E Devanil, estamos sentindo falta de atualizações no amor a ciência!! Queremos mais! hahaha
    é sério, não deixa a peteca cair não! Por sinal, onde ou com quem vc bolou o design do blog? ficou mt legal mesmo, até pensava em bolar algo novo pro meu blog, uma dica seria bem vinda!

    um abraço,
    André

  9. Pois é… acho que não foi a violência que aumentou, mas o sentimento. O ser humano passou a se espantar com o próprio comportamento da espécie.
    .
    Acho que já falei tanto aqui hoje (e olha que estou no trabalho!) que meus dedos estão encurtando as opiniões… Rsrs

  10. Fazer faculdade faz você pensar, ou você pensar te leva à fazer faculdade?!?! Rsrsrs…
    Eu questiono e gosto de discutir tudo… E meio que duvido de tudo, como Descartes…
    Então estive pensando sobre essa questão também =D

  11. @Isabella Ferraz, acho que o espanto do homem com os comportamentos de sua espécie- principalmente a violência – sempre existiram, ou pelo menos existem há muito tempo. Talvez uma evidência disso sejam as próprias religiões, que pregam a não-violência, apesar de muitas vezes contribuírem na prática para mais atos violentos ainda. Ah, claro…não são todas as religiões que tem a proposta preponderante, ao menos teoricamente, da não não-violência.

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