Cientistas Desde Cedo

Um número crescente de evidências têm apontado que mesmo crianças muito novas possuem uma capacidade de identificar padrões estatísticos sofisticados e relações causais em suas interações com o ambiente, e que muitos aspectos centrais do pensamento científico já estão presentes mesmo em etapas iniciais do desenvolvimento infantil humano. Isso é o que o psicólogo cognitivo Frank Keil da Universidade Yale relata em um artigo publicado recentemente na revista Science (Keil, 2011). Alguns exemplos comentados no artigo serão brevemente ilustrados a seguir.

Os cientistas recorrem diariamente a uma vasta gama de habilidades cognitivas essenciais para a realização do seu ofício como quando detectam correlações, inferem causas e descrevem mecanismos para explicar suas observações. O que é mais impressionante nos recentes estudos sobre desenvolvimento cognitivo é que muitas dessas habilidades podem ser observadas em crianças nos seus primeiros meses de vida.

ResearchBlogging.orgPodemos encontrar um exemplo disso na forma como crianças adquirem linguagem. Uma criança aprendendo a usar a linguagem precisa perceber a frequência com que certas sílabas ocorrem assim como “inferir padrões emergentes de ordem superior a partir dessas sílabas” (Keil, 2011). Um estudo de 2009 demonstrou que crianças com 5 meses de idade  aprendendo uma linguagem eram capazes de identificar os sons das sílabas assim como padrões visuais associados com cada sílaba.

Esse estudo consistia na apresentação computadorizada de padrões de sílabas e formas (i.e. um padrão “ABB” com formas correspondendo às sílabas “di ga ga”). Quando era apresentado um novo padrão com novas sílabas (i.e. um padrão “ABA” com formas correspondendo às sílabas “le ko le”), as crianças olhavam por mais tempo para as formas do que se as novas sílabas estivessem no padrão anterior (i.e. “ABB”). Esse resultado indica que as crianças identificaram essa mudança como uma correlação diferente.

Outros estudos tem encontrado que crianças fazem interpretações causais de maneira similar à adultos, indicando que certas sequências de eventos eliciam automaticamente pensamentos causais em todas idades, e que crianças de 11 meses foram capazes de expandir suas inferências para relações causais mais abstratas e sutis ao observar animações com objetos animados e inanimados.

Mais velhas, essas crianças aprimoram mais ainda suas habilidades cognitivas e aprendem a grande utilidade de manipular variáveis para separar relações causais de relações meramente correlacionais.

Um estudo de 2007 demonstrou que crianças pré-escolares eram capazes de compreender relações de causa e efeito quando apresentadas com uma caixa composta por engrenagens e um disjuntor ao manipular os componentes observando as consequências. Esse tipo de raciocínio é um dos fundamentos mais básicos do método experimental, onde algumas variáveis são mantidas constantes enquanto outras são manipuladas.

Alguns estudos indicam que as crianças também são sensíveis a padrões causais mais abstratos relacionados com domínios específicos como a biologia e a psicologia. Um estudo identificou que, embora crianças pré-escolares não conheçam os detalhes biológicos envolvidos na digestão de alimentos, a maior parte deles entende que a comida ingerida é transformada e que o resultado dessa transformação é vital para que o corpo cresça e se movimente.

Também se observa que mesmo crianças muito novas possuem intuições e expectativas sobre padrões esperados que são usadas, na maior parte das situações de aprendizagem, para restringir a grande extensão de relações possíveis entre variáveis em uma dada situação. As crianças apresentam um viés essencialista quando lidam com seres vivos, mas não quando lidam com objetos – elas presumem que algo que não podemos ver causa aquilo que podemos ver, e essa coisa é a essência daquilo que vemos. Esse viés reflete um princípio muito presente em boa parte das ciências formais (i.e. microestruturas).

Esses dados tem importantes implicações para a educação científica. Ao reconhecer que as crianças já levam para as salas de aula uma grande quantidade de habilidades estatísticas e inferenciais, os professores poderiam adequar suas práticas de ensino visando o melhor aproveitamento das mesmas. Alguns estudos já vêm obtendo evidências de que determinadas estratégias educacionais podem beneficiar significativamente as crianças ao priorizar, por exemplo, uma aula de ciências que demonstre a ligação entre certos mecanismos e seus respectivos padrões causais de ordem superior, que as crianças já estão familiarizadas.

Os resultados aqui aprensentados se somam aos já comentados anteriormente no blog sobre as incríveis capacidades que vem sendo evidenciadas em crianças muito novas, como noções rudimentares de física, de psicologia, de julgamento moral e de preferência por explicações intencionais da natureza (teísmo intuitivo). É possível encontrar mais detalhes do trabalho de Keil na página do seu Laboratório de Cognição e Desenvolvimento.

Referências:

Keil, F. (2011). Science Starts Early. Science, 331 (6020), 1022-1023 DOI: 10.1126/science.1195221

Discussão - 9 comentários

  1. […] Cientistas Desde Cedo TweetFonte: Ciência – Uma Vela no Escuro […]

  2. MUITO BOM, cara!

    Vou republicar no LP em agosto! 😀

    Abraço!

    P.S.: Tem um vídeo do Neil deGrasse Tyson em que ele falava sobre a criação de crianças (entre outras coias). Disse ele: “SAIA DO CAMINHO DELES. Crianças são cientistas naturais, então se eles quiserem trazer lixo para sua casa e fazer uma bagunça, deixe-os fazer isto” (algo assim – e por aí vai)

    • André Rabelo disse:

      Legal Mário, que bom que gostou! Interessante esse vídeo q vc comentou, fiz uma busca mas não o achei… se tiver o link me passa depois!

      abraço!

  3. Muito legal!

    Ah! “possíveis entre variáveis em uma dada situações”, no antepenúltimo parágrafo! Substituir, eu suponho, por dadaS, ou SITUAÇÃO.

    😉

  4. André Rabelo disse:

    @Isabella Ferraz, corrigido! obrigado!

    abraço!

  5. Jacques disse:

    Dizem que as crianças sabem tudo.
    E parece que é verdade.
    Elas procuram descobrir como o mundo funciona de forma analítica e prática, até chegar um adulto e xingá-la por sujar a roupa.
    Sorte que não são todos os pais que agem assim.
    Valeu.

  6. André Rabelo disse:

    @Jacques, obrigado pelo comentário!
    pois é, essas criancinhas danadas deixam os pais delas de cabelos em pé. a repressão da curiosidade e do comportamento exploratório infantil é uma coisa muito ruim, mas muitas vezes esses pais acabam não tendo muitas opções também… é complicado!

    um abraço,
    André

  7. Devanil disse:

    O vídeo que o Mário falou é esse: http://www.youtube.com/watch?v=iWTzk2xiKP8

    Realmente: Saiam do caminho das crianças 🙂 Se possível, apenas auxilie.

  8. André Rabelo disse:

    @Devanil, valeu por compartilhar o vídeo! por sinal, é um vídeo mt legal, não só na parte que ele fala sobre crianças. o q eu fico pensando é o desastre na casa dele se ele realmente deixava os filhos sairem fazendo qualquer coisa, sem contar nos perigos das crianças engolirem coisas e ficarem engasgadas, pegar doenças… mas admiro o fato dele ter conseguido dar tanta liberdade para os seus filhos!

    abraço!

Envie seu comentário

Seu e-mail não será divulgado. (*) Campos obrigatórios.

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM