Como adivinhar de verdade o que alguém está pensando

Lendo pensamentos no cérebro

Quem nunca brincou de tentar adivinhar o que outra pessoa estava pensando? Será que conseguiremos algum dia pedir para alguém pensar em alguma coisa e então adivinhar, sem que a pessoa fale absolutamente nada? Ao que parece, os primeiros passos para isso acontecer estão sendo dados pelo pessoal do Gallant Lab, na Universidade da Califórnia, Berkeley.

Eu já havia traduzido um texto aqui no blog comentando sobre o artigo publicado na revista Current Biology onde o pessoal deste laboratório conseguiu, a partir de registros da atividade neural dos participantes, reconstituir de maneira aproximada as imagens que os participantes observavam. Neste link, tem o vídeo comparando as reconstituições obtidas com as imagens que de fato os participantes olharam.

ResearchBlogging.orgDesta vez, os destemidos membros deste laboratório publicaram um estudo na revista PLoS Biology onde eles conseguiram, novamente a partir da atividade neural, reconstruir palavras nas quais os participantes estavam pensando. Em outras palavras, eles conseguiram adivinhar a palavra que a pessoa estava pensando só a partir da atividade elétrica do cérebro dos participantes! Sim, é isto mesmo, você não está lendo nada errado!

Para alcançar este feito, os pesquisadores utilizaram um técnica invasiva de registro neural. Os registros  eletrocorticográficos (ECoG) são obtidos através de eletrodos colocados na superfície do cérebro, após uma incisão no crânio. Eu até pensei em trazer uma imagem para deixar mais claro como isso funciona, mas as imagens eram meio desagradáveis…

Após colocar estes fiozinhos na cabeça de 15 voluntários, os cientistas mediram a atividade elétrica de populações de neurônios em resposta a diversas palavras e frases emitidas por uma voz feminina gravada. A partir destes dados, os pesquisadores desenvolveram  um algoritmo (programa de computador) capaz de relacionar padrões de atividade neural com as estimulações auditivas. Com este algoritmo em mãos, eles mostraram então listas de palavras aos voluntários e pediram que eles escolhessem uma palavra  e pensassem nela. A partir da atividade neural dos voluntários enquanto pensavam na palavra e do algoritmo desenvolvido, os cientistas foram capazes de descobrir com uma grande acurácia as palavras nas quais os voluntários estavam pensando.

Apesar de ser um resultado assustador para alguns que querem proteger seus pensamentos, esta pesquisa pode beneficiar muitas pessoas que, por algum motivo, não conseguem controlar os músculos envolvidas na fala, apesar de não ter os mesmos prejuízos em sua capacidade cognitiva. Pessoas com paralisias graves como as que ocorrem em casos de tetraplegia, por exemplo, poderiam se comunicar utilizando um aparelho capaz de reconstruir as suas falas. Esta pesquisa, além de estimular nossas imaginações futuristas e contribuir para a melhor compreensão de como alguns processos cognitivos ocorrem no cérebro, pode ajudar algumas pessoas a voltar a falar com o simples pensamento!

Referências

Pasley, B., David, S., Mesgarani, N., Flinker, A., Shamma, S., Crone, N., Knight, R., & Chang, E. (2012). Reconstructing Speech from Human Auditory Cortex PLoS Biology, 10 (1) DOI: 10.1371/journal.pbio.1001251

Discussão - 6 comentários

  1. Devanil disse:

    Não sei porque, mas sempre penso em Orwell, Aldous Huxley, Ignácio de Loyola Brandão e outros quando leio essas coisas.

    Que ela pode trazer benefícios, isso é inegável. Todas as descobertas trazem. Mas quem decide o que fazer com isso são os humanos. Até escrevi sobre isso quando falei de Admirável Mundo Novo (http://devanil.com/?p=1950)

    Se o conhecimento traz problemas, não é a ignorância que os resolve – Isaac Asimov

  2. André Rabelo disse:

    Devanil,

    lembro do seu comentário sobre o estudo anterior do pessoal deste lab, hehehe

    Concordo que a discussão sobre os limites da ciência é delicada e importante. Pagamos caro no passado pela imprudência. Não consigo pensar em qual a solução para a questão: restringir o que os cientistas podem pesquisar, regular melhor a utilização destes conhecimentos com diretrizes éticas rigorosas… não sei, mas a ideia de “censura preventiva” na ciência não me soa bem.

    Abraço!

  3. André Rabelo disse:

    Devanil,

    acho que esta matéria do Guardian vai te interessar, trata exatamente do que estamos discutindo aqui:

    http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2012/feb/09/neuroscience-ethical-dilemmas

    Abraço!

  4. Bacana demais, André! Imagino que a lista de palavras apresentada aos voluntários (e que corajosos, já que permitiram que abrissem seus crânios!) continha palavras que passaram antes pelos testes correlacionais padrões neurais/estímulos auditivos, certo? Algo como “já temos uma ideia dos padrões neurais que respondem a certos estímulos sonoros (palavras faladas específicas), então, agora, podemos pedir que as pessoas selecionem uma dessas palavras e, pela atividade neural, deduzimos qual foi sua escolha”. O passo seguinte, e isso me deixaria muito excitado (no bom sentido, é claro), seria passarem a deduzir palavras que não precisaram passar por uma lista (embora pudessem ter algum tipo de controle sobre a palavra escolhida). Mas acho que levarão mais alguns anos para decodificar os padrões silábicos, fonêmicos e tônicos que compõem as palavras em geral.

    Parabéns pela matéria! Abraços!

  5. André Rabelo disse:

    Daniel,

    foi exatamente esse o procedimento! Esqueci de incluir um detalhe: os voluntários já precisariam fazer a incisão cirúrgica por conta dos seus tratamentos médicos de qualquer jeito. O lance é que esse tipo de pesquisa normalmente se aproveita desta oportunidade para fazer este tipo de estudo, pegando carona (já que, se não fosse assim, muitos comitês de ética poderiam encrencar com o procedimento).

    Pois é, a possibilidade q vc levantou seria algo talvez possível no estágio mais avançado desta linha de pesquisa. Será difícil deduzir algo sem nenhum controle prévio, mas talvez isso se torne tão sofisticado que consideradas algumas coisas pudessemos fazer estimativas bem aproximadas e cada vez com menos variáveis sendo controladas. De fato isso vai demandar uma melhor compreensão do processamento linguístico.

    Valeu! Abraço meu caro!

  6. comcordo com tudo isso se meu comentario nao chega eu sou vou a gradaser
    beijo

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