{"id":410,"date":"2011-10-18T12:57:50","date_gmt":"2011-10-18T15:57:50","guid":{"rendered":"http:\/\/cienciaumavelanoescuro.haaan.com\/?p=410"},"modified":"2011-10-18T12:57:50","modified_gmt":"2011-10-18T15:57:50","slug":"ser-otimista-e-saudavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/socialmente\/2011\/10\/18\/ser-otimista-e-saudavel\/","title":{"rendered":"Ser otimista \u00e9 saud\u00e1vel?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_416\" style=\"width: 256px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/socialmente\/wp-content\/uploads\/sites\/238\/2011\/10\/pollyana1.gif\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-416\" class=\"size-large wp-image-416  \" style=\"margin-left: 10px;margin-right: 10px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/socialmente\/wp-content\/uploads\/sites\/238\/2011\/10\/pollyana1-730x1024.gif\" alt=\"\" width=\"246\" height=\"344\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-416\" class=\"wp-caption-text\">Romance protagonizado por &quot;Pollyanna&quot;, uma menina cuja filosofia de vida \u00e9 sempre encontrar algo para ficar contente<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8220;Pense positivo&#8221;, &#8220;vai dar tudo certo, voc\u00ea vai ver&#8221;, &#8220;isso n\u00e3o vai acontecer com a gente, a probablidade \u00e9 muito pequena&#8221;. Estes exemplos s\u00e3o familiares para voc\u00ea? J\u00e1 ouviu isso de algu\u00e9m hoje (ou ontem)? \u00c9 cotidiano observar a capacidade que muitos de n\u00f3s possuem de ser extremamente otimista, mesmo quando existem evid\u00eancias claras de que deveriamos estar mais preocupados com o que est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Seja em rela\u00e7\u00e3o ao cont\u00e1gio de doen\u00e7as, ao furto de bens ou \u00e0 acidentes graves, o ser humano parece tender a ver tais riscos como distantes de si e improv\u00e1veis. Ser otimista j\u00e1 foi relacionado em alguns estudos com uma s\u00e9rie de efeitos psicol\u00f3gicos ben\u00e9ficos, como menor ansiedade e melhor bem-estar. Este excesso de confian\u00e7a, todavia, pode nos tornar ainda mais vulner\u00e1veis do que j\u00e1 somos, exatamente por pensarmos que n\u00e3o corremos certos riscos e n\u00e3o tomarmos a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias de precau\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O otimismo pode ser entendido tanto como uma superestima\u00e7\u00e3o de eventos futuros positivos quanto uma subestima\u00e7\u00e3o de eventos negativos futuros [1]. O que alguns estudos recentes tem indicado \u00e9 que n\u00f3s somos propensos a apresentar um otimismo exagerado, &#8220;irrealista&#8221;, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 eventos futuros [1,2]. Na psicologia social, uma propens\u00e3o similar \u00e0 esta j\u00e1 havia sido identificada nos anos 1970 e batizada de <strong>cren\u00e7a em um mundo justo<\/strong> [3]. Obviamente, esta cren\u00e7a (a de que o mundo \u00e9 inerentmente justo) \u00e9 bem otimista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade cruel que salta aos nossos olhos diariamente, quando lemos ou ouvimos um notici\u00e1rio. De acordo com esta ideia, as pessoas acreditam que o mundo \u00e9 fundamentalmente justo e que coisas ruins acontecem com pessoas ruins &#8211; todos passam pelo que merecem [4].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border: 0pt none;margin-left: 10px;margin-right: 10px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/socialmente\/wp-content\/uploads\/sites\/238\/2012\/01\/rb2_large_gray2.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" width=\"70\" height=\"85\" \/><\/a><\/span>A tend\u00eancia de ver o mundo por lentes cor-de-rosa foi investigada em dois artigos publicados este m\u00eas na revista <em>Nature<\/em> [1,2]. Para n\u00e3o me alongar muito, comentarei apenas sobre o trabalho de Sharot, Korn e Dolan, que buscou uma melhor compreens\u00e3o dos princ\u00edpios computacionais e biol\u00f3gicos que sustentam nossas predi\u00e7\u00f5es enviesadamente otimistas sobre eventos futuros\u00a0 [1]. Mesmo quando apresentadas com evid\u00eancias que contradizem suas expectativas otimistas, as pessoas tendem a mant\u00ea-las, mesmo em casos envolvendo fatores de risco para doen\u00e7as. Como resultado deste vi\u00e9s cognitivo, as pessoas podem se comportar de maneira menos cautelosa, como por exemplo, praticando menos sexo seguro. Os cientistas queriam saber como as pessoas mantinham o seu excessivo otimismo mesmo quando s\u00e3o expostas a informa\u00e7\u00f5es que desafiam claramente suas cren\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para isto, eles registraram o funcionamento cerebral dos participantes por meio de um aparelho de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica funcional (fMRI) enquanto os participantes estimavam a probabilidade de que viveriam 80 eventos adversos diferentes, como, por exemplo, adquirir a doen\u00e7a de Alzheimer ou ter o carro roubado. Ap\u00f3s uma primeira estimativa de um determinado evento, era apresentada aos participantes a probabilidade m\u00e9dia real de que aquele evento ocorresse com algu\u00e9m do mesmo contexto cultural dos participantes, e ent\u00e3o era pedido aos participantes que estimassem novamente a probabilidade de viver aquele evento para averiguar se os participantes &#8220;atualizavam&#8221; suas expectativas de acordo com as probabilidade m\u00e9dias apresentadas. O interesse cient\u00edfico era ainda maior por este fen\u00f4meno, pois, segundo os autores, ele n\u00e3o \u00e9 explicado devidamente por teorias de aprendizagem tradicionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os pesquisadores encontraram evid\u00eancias de que o otimismo se relacionava com uma menor codifica\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es indesej\u00e1veis sobre o futuro em uma regi\u00e3o do c\u00f3rtex frontal, enquanto que participantes com escores maiores no tra\u00e7o de otimismo eram piores na atualiza\u00e7\u00e3o de erros indesej\u00e1veis na estima\u00e7\u00e3o nesta mesma regi\u00e3o cerebral, mas n\u00e3o em uma outra tamb\u00e9m relacionada no processamento de erros. A diferen\u00e7a no quanto os participantes &#8220;atualizaram&#8221; suas expectativas n\u00e3o foi explicada pelo n\u00edvel de adversidade dos eventos,\u00a0 nem pela familiaridade ou pelas experi\u00eancias passadas com aquele evento, mas sim pelos <strong>erros de estimativa<\/strong> (que equivaliam \u00e0 estima\u00e7\u00e3o inicial menos a probabilidade m\u00e9dia real apresentada), sendo que a rela\u00e7\u00e3o era mais forte para informa\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis a uma vis\u00e3o otimista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em outras palavras, quando a probabilidade m\u00e9dia real apresentada era menor do que a estimativa inicial do participante (o risco era menor do que o participante imaginava), era mais comum os participantes atualizarem suas expectativas na segunda estimativa; mas quando a probabilidade real era maior do que a estimativa inicial dos participantes (o risco era maior do que o participante imaginava), a tend\u00eancia era que eles n\u00e3o atualizessem suas expectativas na segunda estimativa, desprezando a nova informa\u00e7\u00e3o em favor do seu otimismo. Os autores sugerem que o princ\u00edpio computacional que mediou o otimismo irrealista no experimento foi o sinal de aprendizagem fornecido pelos erros de estimativa que teriam impactos diferentes a depender da dire\u00e7\u00e3o mais ou menos otimista da informa\u00e7\u00e3o. Esta conclus\u00e3o tamb\u00e9m foi corroborada pelos dados obtidos neste mesmo experimento com o\u00a0contraste chamado <a href=\"http:\/\/fr.wikipedia.org\/wiki\/Signal_BOLD\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">BOLD<\/a> (<em>Blood Oxygen Level-Dependent<\/em>), um sinal que indica a varia\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de oxig\u00eanio nas hemoglobinas do sangue em fun\u00e7\u00e3o da atividade neural. O estudo ofereceu um mecanismo interessante para compreender o otimismo irrealista e demonstrou como nossos vi\u00e9ses cognitivos podem manter esse otimismo mesmo em face de informa\u00e7\u00f5es desencorajadoras, deixando-nos mais vulner\u00e1veis a certos riscos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/socialmente\/wp-content\/uploads\/sites\/238\/2011\/10\/condom.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-417\" style=\"margin-left: 10px;margin-right: 10px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/socialmente\/wp-content\/uploads\/sites\/238\/2011\/10\/condom.jpg\" alt=\"\" width=\"248\" height=\"149\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/socialmente\/wp-content\/uploads\/sites\/238\/2011\/10\/condom.jpg 460w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/socialmente\/wp-content\/uploads\/sites\/238\/2011\/10\/condom-300x180.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/socialmente\/wp-content\/uploads\/sites\/238\/2011\/10\/condom-200x120.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 248px) 100vw, 248px\" \/><\/a>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, entretanto, de que sem algum otimismo poderemos nos tornar demasiadamente ap\u00e1ticos e fatalistas, mas o otimismo em excesso pode nos colocar em uma situa\u00e7\u00e3o perigosa por acharmos que estamos a salvo de males que n\u00e3o estamos e, como o estudo comentado anteriormente indica, esta tend\u00eancia \u00e9 muito poderosa. Uma s\u00e9rie de eventos danosos como a prolifera\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis, acidentes de tr\u00e2nsito ocasionados pela ingest\u00e3o de \u00e1lcool e furtos de bens pessoais s\u00e3o extremamente beneficiados pelo nosso vi\u00e9s cognitivo de cometer erros de estimativa, ou seja, pela expectativa ing\u00eanua de que aquilo nunca aconteceria conosco. Infelizmente, muitos de n\u00f3s precisam viver este tipo de experi\u00eancia para reconhecer os riscos que corriam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Saber que temos uma tend\u00eancia <del>irracional <\/del>irrealista e robusta de esperar o melhor dos eventos pode nos tornar mais atentos \u00e0s nossas intui\u00e7\u00f5es e precavidos, portanto estudos desta\u00a0 natureza podem nos trazer uma grande contribui\u00e7\u00e3o social e at\u00e9 mesmo econ\u00f4mica imediata &#8211; os pesquisadores citam trabalhos que indicam que erros na estimativa foram uma das causas da <strong>crise mundial financeira de 2008<\/strong>, resultante de uma expectativa otimista irrealista sobre os riscos financeiros envolvidos naquele contexto. Quantos outros poss\u00edveis erros de estimativa j\u00e1 n\u00e3o andaram influenciando os rumos das nossas vidas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>[1] <span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Nature+Neuroscience&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1038%2Fnn.2949&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=How+unrealistic+optimism+is+maintained+in+the+face+of+reality&amp;rft.issn=1097-6256&amp;rft.date=2011&amp;rft.volume=&amp;rft.issue=&amp;rft.spage=&amp;rft.epage=&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.nature.com%2Fdoifinder%2F10.1038%2Fnn.2949&amp;rft.au=Sharot%2C+T.&amp;rft.au=Korn%2C+C.&amp;rft.au=Dolan%2C+R.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology%2C+Evolutionary+Psychology%2C+Cognitive+Neuroscience\">Sharot, T., Korn, C., &amp; Dolan, R. (2011). How unrealistic optimism is maintained in the face of reality. <span style=\"font-style: italic\">Nature Neuroscience<\/span> DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1038\/nn.2949\" rev=\"review\">10.1038\/nn.2949<\/a><\/span><\/p>\n<p>[2] Johnson, D., &amp; Fowler, J. (2011). The evolution of overconfidence. Nature, 477 (7364), 317-320 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1038\/nature10384\" rev=\"review\">10.1038\/nature10384<\/a><\/p>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Journal+of+Social+Issues&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1111%2Fj.1540-4560.1973.tb00104.x&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Belief+in+a+Just+World+and+Reactions+to+Another%27s+Lot%3A+A+Study+of+Participants+in+the+National+Draft+Lottery&amp;rft.issn=00224537&amp;rft.date=1973&amp;rft.volume=29&amp;rft.issue=4&amp;rft.spage=73&amp;rft.epage=93&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fdoi.wiley.com%2F10.1111%2Fj.1540-4560.1973.tb00104.x&amp;rft.au=Rubin%2C+Z.&amp;rft.au=Peplau%2C+A.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CSocial+Psychology\">[3] Rubin, Z., &amp; Peplau, A. (1973). Belief in a Just World and Reactions to Another&#8217;s Lot: A Study of Participants in the National Draft Lottery. <span style=\"font-style: italic\">Journal of Social Issues, 29<\/span> (4), 73-93 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1111\/j.1540-4560.1973.tb00104.x\" rev=\"review\">10.1111\/j.1540-4560.1973.tb00104.x<\/a><\/span><\/p>\n<p>[4] Fiske, S. T. (2010).<em> Social beings : Core motives in social psychology<\/em>. New York: Wiley.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Pense positivo&#8221;, &#8220;vai dar tudo certo, voc\u00ea vai ver&#8221;, &#8220;isso n\u00e3o vai acontecer com a gente, a probablidade \u00e9 muito pequena&#8221;. Estes exemplos s\u00e3o familiares para voc\u00ea? 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