Por Laura Cristina
Neste próximo dia 15 de março, o filme brasileiro O Agente Secreto, concorrerá a quatro indicações no Oscar (melhor filme, melhor filme internacional, melhor escolha de elenco e melhor ator). Lançado em 2025, sob direção de Kleber Mendonça Filho, e protagonizado por Wagner Moura, o longa-metragem retrata o cenário político brasileiro durante a ditadura militar na década de 1970, em Recife (PE). Nesse contexto, a história traça relações do meio social com o mar.

O principal tópico está na análise do espaço mediante o continente e o litoral, no qual as barreiras naturais de Recife definem a logística da fuga e do esconderijo do protagonista Marcelo (Wagner Moura), professor e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) perseguido pelo regime. A ciência oceanográfica permite interpretar o filme através da circulação das variações da maré que, no contexto da narrativa, simboliza a instabilidade do solo político e o cenário de refúgio do agente secreto, Marcelo. Isso pode ser percebido na obra desde o início, no momento em que um tubarão morto é encontrado com uma perna humana dentro de seu abdômen, cena que atribui ao animal à truculência da ditadura.
A perna se torna o personagem a Perna Cabeluda, lenda urbana retratada na cidade pernambucana, à época, para sinalizar censura nos jornais e a violência da ditadura militar.
O mar, em sua vastidão, é o elemento que oferece a resistência necessária à captura do fugitivo, enquanto a zona de arrebentação atua como a fronteira psicológica entre a identidade civil e o anonimato da espionagem.
Enquanto o personagem navega pela clandestinidade, as marés e as correntes dos rios e mares surgem como rotas de fuga ou armadilhas naturais, evidenciando como o conhecimento técnico sobre o litoral era, naquela época, uma questão de sobrevivência e poder em locais utilizados para ocultação de cadáveres em um ambiente de perseguição e tortura aos que se opunham ao regime instaurado entre os anos de 1964 a 1985.
O oceano revela que o terreno onde o personagem de Wagner Moura pisa é tão instável e mutável quanto as alianças políticas da época, com o relevo invisível ditando as regras dos líderes como opressores dos civis que exerciam importante atuação em manifesto da liberdade social e democrática. A dinâmica das marés e a morfologia do litoral recifense servem como um palco principal exercido pelo aparato de vigilância do Estado durante o período em questão; assim como o oceano exerce coerção sobre os corpos em profundidade, o regime político exerce uma força constante sobre o indivíduo em situação de ilegitimidade e ocultação de memória e arquivos.
O filme foi ovacionado pelo cinema nacional e internacional. A repercussão reside no contraste político do Brasil que, embora não esteja mais sob regime militar, ainda dispõe de medidas como censura, opressão e sucateamento de estruturas públicas, como educação, pesquisa, saúde e lazer, direitos básicos do indivíduo e da sociedade. A obra destaca, também, o abalo social enraizado na estrutura política mundial, na qual perseguições, golpes, ditaduras e violência constantes se tornaram banais ao longo dos anos, aparecendo, inclusive, em forma de entretenimento. É um alerta de atenção, bem como um chamado para o reconhecimento da história que, por muitas vezes, é silenciada e boicotada pela grande mídia e quem a comanda.
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