Por Laura Cristina

Cartaz do filme O Agente Secreto, para campanha nos Estados Unidos, contextualiza relações sociais da trama com o mar. Fonte: Instagram @oagentesecreto_filme

A perna se torna o personagem a Perna Cabeluda, lenda urbana retratada na cidade pernambucana, à época, para sinalizar censura nos jornais e a violência da ditadura militar.

O mar, em sua vastidão, é o elemento que oferece a resistência necessária à captura do fugitivo, enquanto a zona de arrebentação atua como a fronteira psicológica entre a identidade civil e o anonimato da espionagem.

Enquanto o personagem navega pela clandestinidade, as marés e as correntes dos rios e mares surgem como rotas de fuga ou armadilhas naturais, evidenciando como o conhecimento técnico sobre o litoral era, naquela época, uma questão de sobrevivência e poder em locais utilizados para ocultação de cadáveres em um ambiente de perseguição e tortura aos que se opunham ao regime instaurado entre os anos de 1964 a 1985. 

O oceano revela que o terreno onde o personagem de Wagner Moura pisa é tão instável e mutável quanto as alianças políticas da época, com o relevo invisível ditando as regras dos líderes como opressores dos civis que exerciam importante atuação em manifesto da liberdade social e democrática. ​A dinâmica das marés e a morfologia do litoral recifense servem como um palco principal exercido pelo aparato de vigilância do Estado durante o período em questão; assim como o oceano exerce coerção sobre os corpos em profundidade, o regime político exerce uma força constante sobre o indivíduo em situação de ilegitimidade e ocultação de memória e arquivos.

O filme foi ovacionado pelo cinema nacional e internacional. A repercussão reside no contraste político do Brasil que, embora não esteja mais sob regime militar, ainda dispõe de medidas como censura, opressão e sucateamento de estruturas públicas, como educação, pesquisa, saúde e lazer, direitos básicos do indivíduo e da sociedade. A obra destaca, também, o abalo social enraizado na estrutura política mundial, na qual perseguições, golpes, ditaduras e violência constantes se tornaram banais ao longo dos anos, aparecendo, inclusive, em forma de entretenimento. É um alerta de atenção, bem como um chamado para o reconhecimento da história que, por muitas vezes, é silenciada e boicotada pela grande mídia e quem a comanda.

O Blog Um Oceano tem parceria com a Rede Ressoa Oceano


Juliana Di Beo

sou bióloga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e bolsista Mídia-Ciência Fapesp pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp. Atuo com comunicação científica para fortalecer a cultura oceânica e o acesso aberto ao conhecimento na Rede Ressoa Oceano.

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