{"id":23,"date":"2008-09-08T11:00:36","date_gmt":"2008-09-08T14:00:36","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/universofisico\/2008\/09\/confuso-se-quer-ser-cientista-vai-se-acostumando\/"},"modified":"2008-09-08T11:00:36","modified_gmt":"2008-09-08T14:00:36","slug":"confuso-se-quer-ser-cientista-vai-se-acostumando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/universofisico\/2008\/09\/08\/confuso-se-quer-ser-cientista-vai-se-acostumando\/","title":{"rendered":"Confuso? Se quer ser cientista, vai se acostumando&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\">Se voc\u00ea quer realmente por a m\u00e3o na massa da pesquisa cient\u00edfica, prepare-se para se sentir a pessoa mais burra da Terra, mesmo depois da gradua\u00e7\u00e3o, do mestrado, do doutorado, do p\u00f3s-doutorado, do p\u00f3s-p\u00f3s-p\u00f3s-doutorado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\"><a href=\"http:\/\/lablogatorios.com.br\/universofisico\/2008\/08\/26\/novo-portal-explica-fisica-para-fisicos\/\">Escrevi semana retrasada<\/a> sobre a enxurrada de informa\u00e7\u00e3o sobre a qual os f\u00edsicos vivem hoje. Claro que o problema n\u00e3o \u00e9 exclusividade dos f\u00edsicos, nem dos cientistas. Temos que lidar com tanta informa\u00e7\u00e3o, tanta coisa para ler e assistir, que se sentir meio confuso e burro \u00e0s vezes \u00e9 natural.<\/span><\/p>\n<p><!--more CONTINUE LENDO--><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\">As pessoas, ali\u00e1s, l\u00eaem jornal justamente para diminuir essa confus\u00e3o. Pelo menos isso \u00e9 o que pensa o escritor de ci\u00eancia <a href=\"http:\/\/www.guardian.co.uk\/profile\/timradford\">Tim Radford<\/a>, citado por <a href=\"http:\/\/www.eso.org\/%7Elchriste\/\">Lars Christensen<\/a> em seu <a href=\"http:\/\/www.springerlink.com\/content\/w41gwj0761041276\/\">livro sobre comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/a>. Se o assunto \u00e9 t\u00e3o enrolado quanto um prato de macarronada, <\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\">Radford recomenda que <\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\">o jornalista pegue apenas um fio inteiro de macarr\u00e3o, de prefer\u00eancia cheio de \u00f3leo, alho e molho de tomate escorrendo, para escrever a respeito. Radford diz que &#8220;o leitor ficar\u00e1 agradecido por ter recebido a parte simples e n\u00e3o o todo complicado. Isso porque a) o leitor sabe que a vida \u00e9 complicada, mas fica grato por ter ao menos uma parte dele explicada claramente, e b) porque ningu\u00e9m j\u00e1 leu uma hist\u00f3ria come\u00e7ando com &#8216;o que segue \u00e9 inexplicavelmente complicado&#8230;&#8217; &#8220;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\">Infelizmente, muitos livros-texto de ci\u00eancia, por mais que o autor se esfor\u00e7e para ser claro e consiso, <em>precisam<\/em> come\u00e7ar com a frase <\/span><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\">&#8220;o que segue \u00e9 inexplicavelmente complicado&#8230;&#8221; Por que, muitas coisas em ci\u00eancia, ningu\u00e9m, nem mesmo os pr\u00f3prios cientistas, entende direito.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\">&#8220;Na ci\u00eancia, sentir-se confuso \u00e9 essencial  para progredir. Na verdade, uma  indisposi\u00e7\u00e3o em se sentir perdido, pode assassinar a criatividade no momento em que ela desperta&#8221;, escreve K. C. Cole, em <a href=\"http:\/\/cjrarchives.org\/issues\/2006\/4\/cole.asp\">um ensaio no Columbia Journalism Review<\/a>. &#8220;Um matem\u00e1tico certa vez me contou que ele achava que era esse o motivo de os jovens matem\u00e1ticos fazerem as grandes descobertas. Matem\u00e1tica pode ser dif\u00edcil, ele disse, mesmo para as grandes mentes por ai. Os matem\u00e1ticos podem gastar horas tentando entender uma linha de equa\u00e7\u00f5es. Durante todo o tempo, eles se sentem est\u00fapidos e deslocados. Ent\u00e3o um dia, esses jovens matem\u00e1ticos tornam-se reconhecidos, tornam-se professores, ganham secret\u00e1rias e escrit\u00f3rios. Eles n\u00e3o querem mais se sentir est\u00fapidos. E eles param de fazer grandes trabalhos.&#8221; <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\">Veja o que diz o Pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica de 1959, <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Richard_Feynman\">Richard Feynman<\/a>, a respeito de se sentir confuso, <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=lytxafTXg6c\">neste v\u00eddeo no YouTube<\/a>. &#8220;Quando voc\u00ea pensa em algo que n\u00e3o entende, voc\u00ea tem um sentimento terr\u00edvel, desconfort\u00e1vel de confus\u00e3o&#8221;, diz Feynman. Ele compara esse sentimento ao desepero de um macaco que tenta de todos os jeitos juntar dois peda\u00e7os de madeira para formar uma vara que alcan\u00e7e a banana fora de sua jaula. Juntar dois pauzinhos est\u00e1 no limite da intelig\u00eancia do macaco, assim como est\u00e1 para n\u00f3s entender leis da natureza como a eletrodin\u00e2mica qu\u00e2ntica, descoberta entre outros por Feynman. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\">Mesmo quando os fatos foram cuidadosamente observados e uma teoria para explic\u00e1-los cuidadosamente descrita, o sentimento de confus\u00e3o parece inevit\u00e1vel. &#8220;Mesmo quando voc\u00ea descobre a verdade, voc\u00ea sente que n\u00e3o entende o significado dela, voc\u00ea n\u00e3o acredita, acha aquilo maluco demais para aceitar&#8221;, diz Feynman <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5VMu14mBXAs\">em outro v\u00eddeo, no YouTube<\/a>. &#8220;Voc\u00ea tem que aceitar por que \u00e9 a maneira que a natureza funciona. N\u00f3s a examinamos cudiadosamente e \u00e9 assim que ela parece. Voc\u00ea n\u00e3o gosta? <em>Go somewhere else!<\/em> V\u00e1 para outro universo, onde as leis s\u00e3o mais simples, mais filosoficamente agrad\u00e1veis, mais f\u00e1ceis psicologicamente.&#8221; <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\">Nesse sentido, a ci\u00eancia \u00e9 a ant\u00edtese do jornalismo, que precisa, para vender o jornal, apresentar uma vers\u00e3o agrad\u00e1vel da realidade ao leitor. A teoria de K. C. Cole, de por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil vender hist\u00f3rias de ci\u00eancia aos editores, \u00e9 que eles pr\u00f3prios, treinados para proteger o leitor da confus\u00e3o, se sentem confusos diante de coisas como a energia escura ou o emaranhamento qu\u00e2ntico. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\">&#8220;N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 que os editores n\u00e3o sejam inteligentes o suficiente para entender ci\u00eancia. De fato, \u00e9 o contr\u00e1rio: eles est\u00e3o acostumados demais a se sentirem inteligentes, e portanto n\u00e3o conseguem lidar com o fato de n\u00e3o entenderem ci\u00eancia. E por se sentirem desconfort\u00e1veis com a sensa\u00e7\u00e3o de consfus\u00e3o, os leitores acabam ficando no escuro sobre um universo de pesquisa que elude explica\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis&#8221;, escreve Cole. &#8220;A ci\u00eancia \u00e9 inerentemente incerta. O que faz a for\u00e7a da ci\u00eancia  \u00e9 que essas incertezas est\u00e3o ai, abertas, ditas e quantificadas. \u00c9 essencial saber n\u00e3o s\u00f3 o que os cientistas sabem, mas tamb\u00e9m o que eles n\u00e3o sabem. Isso \u00e9 um conceito que n\u00e3o \u00e9 familiar aos editores acostumados com pol\u00edtica ou esportes.&#8221; <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;font-family: times new roman\">Quem pode culp\u00e1-los? Esse sentimento de confus\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m a base das melhores hist\u00f3rias de terror. &#8220;A mais antiga e mais forte emo\u00e7\u00e3o da humanidade \u00e9 o medo. E o medo mais antigo e mais forte \u00e9 o medo do desconhecido&#8221;, dizia <a href=\"http:\/\/www.hplovecraft.com\/\">H. P. Lovecraft.<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea quer realmente por a m\u00e3o na massa da pesquisa cient\u00edfica, prepare-se para se sentir a pessoa mais burra da Terra, mesmo depois da gradua\u00e7\u00e3o, do mestrado, do doutorado, do p\u00f3s-doutorado, do p\u00f3s-p\u00f3s-p\u00f3s-doutorado. Escrevi semana retrasada sobre a enxurrada de informa\u00e7\u00e3o sobre a qual os f\u00edsicos vivem hoje. 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