Internet emburrifica as pessoas?

Eu ouvi/li (primeiro ouvi num dos milhares de podcasts que escuto semanalmente, depois li os artigos) um debate interessante sobre o uso da Internet e seus efeitos.
De um lado, o autor do artigo Is google making us stupid? (O google está nos deixando burros?), Nicholas Carr, argumenta que nossa atenção (e capacidade de concentração) está diminuindo, pois estamos sendo constantemente bombardeados por links para clicar, por outras páginas abrindo, muita informação em pouco tempo e também uma facilidade enorme em obter qualquer informação num piscar de olhos (Quantas e quais línguas o rei Juan Carlos fala? Qual o maior números de pregadores de roupa que alguém colocou na cara? Qual a circunferência da Terra? E quem a mediu pela primeira vez?). Ou seja, não precisamos mais absorver fatos e dados, basta ter uma conexão com a Rede por perto e pronto, automaticamente sabemos de tudo!
No outro extremo da discussão, Jonathan Grudin, pesquisador de interação entre humanos e computadores da Microsoft, diz que a invenção dos livros foi criticada por Sócrates como sendo uma má idéia! De repente, uma tradição oral se perdeu; ninguém precisaria mais decorar centenas de milhares de versos ouvidos só uma vez nem todos dependeriam da memória alheia para obter informação.
Dali em diante bastava escrever e esperar que outrem lesse.
“Que tipo de futuro é esse? Será que gostaríamos de viver nele?”, perguntou Carr em algum momento da rusga, precipitando Grudin a proferir uma das melhores frases que ouvi recentemente: “Quem tem que gostar do futuro são as pessoas que viverão nele, não nós!”, e partiu para concluir que esse argumento foi usado (não lembro por quem) quando carros estavam começando a se tornar populares e que nenhum dos retrógrados moradores do século 18 continua vivo para continuar reclamando do futuro dos outros.
Nós gostamos e somos nós que vivemos aqui!

Eu acho bom ter Internet comigo. Convivo com ela já há mais de dez anos e tenho acompanhado sua evolução e gosto do que tenho visto.
Uma ferramenta que não existia quando eu nasci (nem quando era criança) mas que hoje em dia permeia quase tudo em nossas vidas. Como telefones celulares.
Hoje, nós, pessoas do momento presente, não somos coisa alguma sem nossas “modernidades”.
Até 1995, não precisávamos estar o tempo todo em contato com o resto do mundo.
Tudo funcionava com linhas fixas e faxes e ligar só quando desse a hora de chegar em casa e anotar num papelzinho para lembrar depois e agendas telefônicas.
Hoje nós só rodamos se tivermos nossos telefones em vista ou em nossos bolsos para podermos incomodar os outros a qualquer momento (e se acontecer uma emergência?), podemos mandar mensagens instantâneas por computador ou telefone e faz MUITO tempo que eu não pego um papel para escrever alguma coisa.
Quando inventarem o teletransporte (não se animem, é pouco provável e está sendo usado aqui só como ilustração exagerada), as pessoas do século 25 indagarão: “Mas como aqueles simplórios se locomoviam? Passavam realmente horas e horas dentro de caixas de metal lacradas sem reclamar? E se fosse urgente?”
Outra frase boa que ouvi há muito:
“Computadores foram inventados para resolver os problemas que nós não tínhamos antes de sua invenção.”
Eu concordo com isso, mas gosto de viver hoje em dia.
E vocês, o que acham?

Discussão - 7 comentários

  1. Mas e a resposta à questão inicial? A internet emburrece, ou não? Eu acho que a internet, como outras tecnologia, pode apenas exacerbar a tendência natural das pessoas: um estúpido usará a internet de forma moderna e eficientemente estúpida; um nerd de livros terá pela primeira vez a chance não só de conseguir gratuitamente uma cópia do Beowulf mas talvez até de aprender rudimentos de inglês arcaico.

  2. Igor Santos disse:

    Não há resposta, pelo menos não agora.
    É uma pergunta do tipo “carros nos deixam preguiçosos?”
    O importante não é a resposta à pergunta, mas a discussão gerada.

  3. João Carlos disse:

    “A internet emburrece as pessoas?”… Só para responder com uma pergunta: “Qual foi o primeiro livro impresso?…”

  4. Igor Santos disse:

    Vou resistir à tentação e vou esperar…
    Mas acho que já sei a resposta.

  5. Isis disse:

    Jamais!!!!! Aliás, o contrário. A pessoa que tem acesso à internet só fica burra se quiser. E a capacidade de concentração não está diminuindo. Quando vemos ou lemos algo interessante, vamos até o fim. Agora, o que acho completamente enlouquecedor é a quantidade de informação que encontramos. Mais aí… é assunto para outro post.

  6. Moçada, há um pressuposto no texto do Carr derivado do velhão MacLuhan: “cada nova invenção tecnológica modifica nossa arquitetura mental”. Assim, especular sobre as conseqüências da Internet para o modo como nos relacionamos à informação e o conhecimento é um tema recorrente. Um exemplo: o valor da informação. Antes da Internet nossos pais gastavam uma quantia razoável com enciclopédias. Eu me lembro da Universal, com livros de capa dura azul, mas havia também a Barsa. Era importante possuir uma pequena e simples base de dados variados à mão para consulta ou para subsidiar trabalhos escolares. Conhecer era, ao mesmo tempo, acumular informação e processá-la, tendo em vista a solução de algum problema (mesmo que fosse de interação social – “vocês sabiam que os cachorros não enxergam certas cores? Me passa o vinho aí”).
    Com o desenvolvimento da Internet essa operação de acumular e acessar informação deixou de ser relevante. Não é preciso nem mesmo decorar. Um artigo da Wired chegou mesmo a afirmar que as teorias estão se tornando obsoletas. Faça data minning primeiro, explique depois. Ou, noutras palavras, correlações são mais interessantes e, talvez, mais importantes do que causalidades.
    Assim, o mérito da reflexão do Carr é o de introduzir a questão do futuro no desenvolvimento tecnológico do presente. Esta dimensão, digamos, não-científica desnaturaliza o que nunca foi realmente natural: o desenvolvimento tecnológico do homem.

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