“Como a gente sabe como os cachorros enxergam?”

Um amigo meu me perguntou isso várias vezes e nunca esperou para ouvir a resposta, ficava tão indignado com a impossibilidade da certeza da informação que ia logo embora jogar bola, resmungando “quem foi que disse?”.
Antes de mais nada (fora o que eu já disse aí em cima), os cachorros são animais noturnos por natureza. Eles só foram domesticados por nós há mais ou menos quinze mil anos e ainda não deu tempo deles evoluirem o aparato visual para visão diurna.
No escuro não dá para ver cores (tente escolher uma camisa pela cor, de noite, sem acender uma luz), então é mais vantagem desenvolver mais os sentidos que não dependem de luz, como olfato e audição [1].
Na parte dos olhos dos mamíferos que capta luz, existem dois tipos de células que fazem isso; cones e bastonetes.
Os cones são responsáveis por captar cores e pela visão detalhada (visão direta) enquanto os bastonetes existem para detectar movimento (visão periférica) e para visão noturna.
Nós temos três tipos de cones nos nossos olhos, mas os cachorros só possuem cones azuis e verdes. Eles não enxergam vermelho e muito pouco verde (que misturado com azul fica amarelo).
espectro
O espaço que sobra na retina canina é compensado com muito mais bastonetes, fazendo-os se adaptar melhor a condições de pouca luz. Os cachorros percebem movimento bem melhor que nós e o mundo deles também é bem mais claro por causa dessa quantidade extra de células receptoras de luz e movimento.
Mas ao mesmo tempo o mundo deles é menos colorido e mais borrado, pela falta de células captadoras de cor e de traços finos.
A evolução fez os cães assim e a ciência médica e veterinária descobriram o resto.
Não é que alguém tenha chegado prum cachorro e dito “Ei, de que cor é essa maçã?” e riu depois que ele respondeu “Preta!” e ficou abanando o rabo com a língua para fora por ter interagido com uma pessoa.
Não é assim que Ciência funciona.
Finalmente, os cachorros não enxergam em preto e branco, eles só não vêem a cor vermelha nem os detalhes das coisas, então nem adianta mostrar aquela escultura em argila bem trabalhada de Chico Barreiro que eles não vão saber apreciá-la.
Acho que é isso mesmo.
——
ATUALIZAÇÃO: [1] O que eu escrevi ficou meio estranho mesmo, meio fora do rumo e dando a impressão de propósito, mas o Luiz Bento me corrigiu: “A ausência de luz não é uma pressão seletiva forte para cores, então organismos que nasçam de forma aleatória com uma visão para cores mais desenvolvida não terão vantagem perante os outros. Já os que nascem com qualquer desvio para um sentido como olfato e audição mais desenvolvida terão uma vantagem reprodutiva e irão passar essa característica para os seus descendentes.”
Valeu!

Discussão - 18 comentários

  1. Luiz Bento disse:

    Belo post Igor, matou uma curiosidade minha de infância que nunca corri atrás para saber 🙂
    Só um detalhe. Evolutivamente não é porque no escuro não dá para ver cores que é mais vantagem desenvolver outros sentidos. A ausência de luz não é uma pressão seletiva forte para cores, então organismos que nasçam de forma aleatória com uma visão para cores mais desenvolvida não terão vantagem perante os outros. Já os que nascem com qualquer desvio para um sentido como olfato e audição mais desenvolvida terão uma vantagem reprodutiva e irão passar essa característica para os seus descendentes.
    É que ficou uma impressão meio estranha da expressão “é mais vantagem desenvolver”.
    Abraços!

  2. Claudia disse:

    Entao brinquedos de cachorros nao precisam ser coloridos. E o daltonismo nos humanos? Alguém sabe como funciona?

  3. Igor Santos disse:

    Obrigado pela correção Luiz.
    Queria me justificar dizendo que escrevi esse texto antigamente, mas não tem desculpa mesmo, foi um deslize.
    Maldito estado de constante vigilância!!!
    =¦¤þ

  4. Igor Santos disse:

    Eu estenderia a sua conclusão dizendo que as cores de brinquedos de crianças também importam muito pouco. A diversão proporcionada é mais interessante.
    E daltonismo é, mais comumente, uma falha em um ou mais dos receptores no olho, mas pode também ser causado por lesões cerebrais e até traumas psicológicos (não sou especialista no assunto mas leio muito Oliver Sacks).

  5. Kim disse:

    Meu monitor está sem os pixels vermelhos, então ficaram bem parecidas as duas faixas de luz…

  6. A composição dos receptores na retina é informação importante, mas não crucial. A capacidade dicromática de discriminação de cores é evidenciada por testes comportamentais. P.e.:
    Neitz et al. 1989. Color vision in the dog. Visual Neuroscience 3: 119-125
    http://www.neitzvision.com/images/cvdog.pdf
    ————–
    []s,
    Roberto Takata

  7. Vanner Boere disse:

    Eu acho que tem uma parte da informação está incompleta e eu gostaria de contribuir. Se o espectro de cores possíveis de serem vistos por cães pode se besear na estrutura da retina, o mesmo não se pode dizer sobre a “percepção” de cores. Isso porque a informação da energia luminosa é transmitida ao cérebro por muitas vias e para várias das suas regiões, que processam a informação (estímulo visual) de alguma forma diferente de humanos. Ainda são poucos e não definitivos os estudos que testam percepção de cores em cães. Esse é um campo aberto de pesquisa na área de neurociências e comportamento.
    Vanner Boere (etologiabrasil.blogspot.com)

  8. Fernando disse:

    Igor, até o presente dia eu jurava de pés juntos que os cães só enxergavam em preto e branco. Gostei muito do seu artigo, claro, objetivo e didático como todo o texto científico deveria ser. Parabéns e continue a escrever.

  9. Jorge disse:

    Luiz escreveu: “então organismos que nasçam de forma aleatória com uma visão para cores mais desenvolvida não terão vantagem perante os outros. Já os que nascem com qualquer desvio para um sentido como olfato e audição mais desenvolvida terão uma vantagem reprodutiva e irão passar essa característica para os seus descendentes.”
    Assim pode-se pensar que originalmente a capacidade de ver em cores seria a mesma, valos simplificar, para humanos e cachorros. E humanos foram selecionados para ver em cores e cachorros para ouvir. Por outro lado, ver a noite pode ser pressão sim para deixar de ver em cores. Imaginemos que o sistema para ver em cores seja mais dispendioso para ser desenvolvido e mantido, se houver uma mutação para ver em branco e preto, que ao final, o organismo tenha o mesmo resultado prático com o um sistema mais simples e menos dispendioso. Haveria sim uma pressão para deixar de enxergar em cores. Embora possivelmente bem menos relevante do que a pressão seletiva para ouvir melhor. Ou seja, não há fatos suficientes para descartar a primeira hipótese, é melhor deixá-la como uma possibilidade, por enquanto menos provável, mas não morta.

  10. luiza disse:

    os cachorros nao enxergam preto e nem branco eles enxergam igual a nos !

  11. Igor Santos disse:

    Então reiôsse, porque eu enxergo tanto preto quanto branco. Logo, cachorros já não vêem o mundo como eu.

  12. marcelle disse:

    minha cachorrinha tem 2 meses mas acho que ela nao enxerga
    o que eu faço?

  13. Igor Santos disse:

    Joga fora e compra outra?

  14. Karina disse:

    Nossa , que dó … Cachorro não vê as mesmas cores que nós … Ruim hein … ‘-‘
    Mas sua postagem ficou 10 , parabéns .

  15. r@f@el@ disse:

    legal me ajudou bastante!!!!!!

  16. hudson disse:

    a visao do cachorro e fraca

  17. hudson disse:

    o cachorro encherga as cores fracas e os humanos as cor fortes

Envie seu comentário

Seu e-mail não será divulgado. (*) Campos obrigatórios.

Categorias

Skip to content

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM