{"id":143,"date":"2017-03-31T16:43:08","date_gmt":"2017-03-31T19:43:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/?p=143"},"modified":"2017-03-31T17:19:11","modified_gmt":"2017-03-31T20:19:11","slug":"os-enigmas-de-macunaima-e-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2017\/03\/31\/os-enigmas-de-macunaima-e-brasil\/","title":{"rendered":"Os enigmas de Macuna\u00edma e do Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Enigma, claro enigma. H\u00e1 diversas refer\u00eancias, quando tratamos de pensamento social, \u00e0s perguntas sem respostas. Na cole\u00e7\u00e3o &#8220;Int\u00e9rpretes do Brasil&#8221;, lan\u00e7ada em 2000 pela Editora Nova Aguilar, lemos na frase que encerra o pref\u00e1cio de Silviano Santiago: &#8220;Brasil, o nosso claro enigma&#8221;. Nove anos depois, a colet\u00e2nea organizada por Andr\u00e9 Botelho e Lilia Schwarcz, intitulada &#8220;Um enigma chamado Brasil: 29 int\u00e9rpretes e um pa\u00eds&#8221;, tem como formula\u00e7\u00e3o de abertura a frase atribu\u00edda a Tom Jobim:\u00a0o<em>\u00a0Brasil n\u00e3o \u00e9 para principiantes.<\/em>\u00a0Mas ser\u00e1 que existe\u00a0algum pa\u00eds para principiantes?<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ser t\u00edtulo de livro de Carlos Drummond de Andrade, lan\u00e7ado em 1951, e de cole\u00e7\u00e3o da editora paulistana Duas Cidades, &#8220;claro enigma&#8221;\u00a0expressa uma dubiedade recorrente nas formula\u00e7\u00f5es sobre a &#8220;identidade nacional&#8221;. Essa percep\u00e7\u00e3o da indefini\u00e7\u00e3o dos contornos identit\u00e1rios marca parte significativa das linhagens interpretativas de intelectuais no Brasil. Citando o Manifesto Antrop\u00f3fago (1928):\u00a0<em>Tupy<\/em> or <em>not tupy<\/em>, that is the question. No mesmo ano do lan\u00e7amento do Manifesto, Paulo Prado publicou &#8220;Retrato do Brasil : ensaio sobre a tristeza brasileira&#8221;\u00a0e M\u00e1rio de Andrade, &#8220;Macuna\u00edma&#8221; e &#8220;Ensaio sobre a M\u00fasica Brasileira&#8221;. Tamb\u00e9m em 1928,\u00a0Tarsila do Amaral pintou &#8220;Abaporu&#8221;, que ilustra as capas das edi\u00e7\u00f5es mais recentes do &#8220;cl\u00e1ssico&#8221; livro de S\u00e9rgio Buarque: &#8220;Ra\u00edzes do Brasil&#8221;. Seis anos ap\u00f3s a Semana de Arte de 1922, o movimento havia sofrido\u00a0v\u00e1rias fraturas e o cen\u00e1rio pol\u00edtico no pa\u00eds havia ficado turbulento\u00a0com os levantes militares em 1922 (18 do Forte) e em\u00a01924, al\u00e9m das movimenta\u00e7\u00f5es da Coluna Prestes.<\/p>\n<p>Chegamos ao\u00a0momento mais importante da postagem: em 2015, o Instituto CPFL convidou o professor Jos\u00e9 Miguel Wisnik, autor de &#8220;O coro dos contr\u00e1rios: a m\u00fasica em torno da Semana de 22&#8221; (1977)\u00a0e &#8220;Veneno Rem\u00e9dio &#8211; o Futebol e o Brasil&#8221; (2008) e professor aposentado da USP, para uma apresenta\u00e7\u00e3o no Caf\u00e9 Filos\u00f3fico. Na confer\u00eancia &#8220;M<span class=\"clip_info-title\">acuna\u00edma e o enigma do her\u00f3i \u00e0s avessas&#8221;, Wisnik, de forma muito did\u00e1tica, apresenta as din\u00e2micas \u00a0entre o texto de M\u00e1rio de Andrade, o contexto de sua publica\u00e7\u00e3o e sua reverbera\u00e7\u00e3o nas formas de se pensar o pa\u00eds.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><iframe title=\"macuna\u00edma e o enigma do her\u00f3i \u00e0s avessas, com jos\u00e9 miguel wisnik (vers\u00e3o tv cultura)\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/164416196?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"500\" height=\"422\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture; clipboard-write\"><\/iframe><\/p>\n<p>Acredito que um problema da edi\u00e7\u00e3o do programa, exibido na TV Cultura, foi a inser\u00e7\u00e3o de trechos do filme &#8220;Macuna\u00edma&#8221; para meramente ilustrar, sem uma an\u00e1lise espec\u00edfica e rigorosa do material f\u00edlmico. Dirigido por Joaquim Pedro de Andrade em 1969, o filme\u00a0foi um marco do discurso cinematogr\u00e1fico\u00a0aleg\u00f3rico no Brasil. A an\u00e1lise minuciosa de Ismail\u00a0Xavier em\u00a0<em>Alegorias do Subdesenvolvimento: Cinema Novo, Tropicalismo e Cinema Marginal<\/em>, especialmente no cap\u00edtulo &#8220;Macuna\u00edma: as Ilus\u00f5es da Eterna Inf\u00e2ncia&#8221;, demonstra com precis\u00e3o como a interpreta\u00e7\u00e3o de Joaquim Pedro sobre a raps\u00f3dia de M\u00e1rio de Andrade\u00a0dialoga com as quest\u00f5es de seu tempo. Ali\u00e1s, naquela conjuntura hist\u00f3rica, marcada pela restri\u00e7\u00e3o das liberdades e pelo fechamento da esfera p\u00fablica ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o do<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/AIT\/ait-05-68.htm\"> Ato Institucional n.5<\/a>\u00a0durante a presid\u00eancia do <a href=\"http:\/\/cpdoc.fgv.br\/producao\/dossies\/FatosImagens\/AI5\">General Costa e Silva<\/a>, a jornada do &#8220;her\u00f3is \u00e0s avessas&#8221; ganhou novas camadas de sentido. No filme, a alegoria de um pa\u00eds marcado por ondas de moderniza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria \u00e9 expressa, segundo a an\u00e1lise de Ismail Xavier, pela lei da ca\u00e7a. \u00a0Ainda segundo o autor, parece relevante notar como uma das quest\u00f5es centrais do filme \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o\u00a0a respeito das condi\u00e7\u00f5es &#8220;sui generis&#8221; da integra\u00e7\u00e3o do &#8220;jeito brasileiro&#8221; ao mundo da t\u00e9cnica\u00a0&#8211; simbolizado nas m\u00e1quinas ou nos aparelhos dom\u00e9sticos &#8211; e do\u00a0capital &#8211; sobretudo\u00a0nas a\u00e7\u00f5es do &#8220;her\u00f3i de nossa gente&#8221; contra o gigante\u00a0Venceslau Pietro Pietra<em>.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Enigma, claro enigma. H\u00e1 diversas refer\u00eancias, quando tratamos de pensamento social, \u00e0s perguntas sem respostas. 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