{"id":158,"date":"2017-04-10T16:27:14","date_gmt":"2017-04-10T19:27:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/?p=158"},"modified":"2017-04-10T16:33:14","modified_gmt":"2017-04-10T19:33:14","slug":"o-mestre-de-apipucos-o-encontro-de-joaquim-pedro-com-freyre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2017\/04\/10\/o-mestre-de-apipucos-o-encontro-de-joaquim-pedro-com-freyre\/","title":{"rendered":"O Mestre de Apipucos: o encontro de Joaquim Pedro com Freyre"},"content":{"rendered":"<p>Nascido em 1932, Joaquim Pedro de Andrade ainda era um jovem cineasta quando recebeu a incumb\u00eancia de dirigir dois curtas encomendados pelo Instituto Nacional do Livro, \u00f3rg\u00e3o vinculado ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura. Em 1959, ele estreou como diretor de cinema com &#8220;O Mestre de Apipucos&#8221; e &#8220;O Poeta do Castelo&#8221;, ambos produzidos pela Saga Filmes.\u00a0Joaquim Pedro foi s\u00f3cio dessa produtora at\u00e9 1960 e, em 1965, fundou a Filmes do Serro, respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o de &#8220;Bras\u00edlia, Contradi\u00e7\u00f5es de Uma Cidade Nova&#8221;\u00a0(1967), &#8220;Macuna\u00edma&#8221; (1969) (quem tiver interesse, pode conferir a <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2017\/03\/31\/os-enigmas-de-macunaima-e-brasil\/\">postagem <\/a>anterior do blog) e &#8220;Os Inconfidentes&#8221; (1972).\u00a0Filho de Rodrigo Melo Franco de Andrade e afilhado de Manuel Bandeira, Joaquim Pedro possu\u00eda grande afinidade ou la\u00e7os de parentesco\u00a0com alguns dos intelectuais que agitavam o cen\u00e1rio intelectual brasileiro desde a Semana de Arte Moderna de 1922. Seu pai foi um dos organizadores do\u00a0Servi\u00e7o do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (SPHAN)\u00a0e diretor de Patrim\u00f4nio dessa institui\u00e7\u00e3o de 1937 a 1969.<\/p>\n<p>Em formato de 35mm, &#8220;O Mestre de Apipucos&#8221; e &#8220;O Poeta do Castelo&#8221;, ambos filmados em preto e branco, receberam narra\u00e7\u00e3o de seus protagonistas,\u00a0respectivamente,\u00a0Gilberto Freyre e Manuel Bandeira. Produzido como homenagem a Freyre, &#8220;O Mestre de Apipucos&#8221;\u00a0\u00e9 um curta com 8 minutos de dura\u00e7\u00e3o, restaurado recentemente pela parceria entre Filmes do Serro, TeleImage, Trama, Cinemateca Brasileira e Secretaria do Audiovisual (Minist\u00e9rio da Cultura).<\/p>\n<p><iframe title=\"O Mestre de Apipucos - 1959 - Gilberto Freyre\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Gc_ATR9QpZw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Em 1959, &#8220;Casa-Grande &amp; Senzala&#8221; completara 26 anos da publica\u00e7\u00e3o da primeira edi\u00e7\u00e3o e seu autor seria retratado pelo filme de Joaquim Pedro, cineasta ent\u00e3o com 27 anos, como grande intelectual brasileiro. O curta\u00a0\u00e9 um exemplo de como a encena\u00e7\u00e3o no cinema document\u00e1rio cria sentidos para a constru\u00e7\u00e3o de personagens. Em uma cena, quando Freyre est\u00e1 sentado confortavelmente em uma poltrona de seu escrit\u00f3rio, a c\u00e2mera flagra aquilo que sua m\u00e3o escreve no papel em branco: &#8220;um livro que algu\u00e9m precisa escrever \u00e9 este: uma hist\u00f3ria da vida de estudante no Brasil&#8221;. O\u00a0intelectual exerce o controle naquele universo de livros. Ali\u00e1s, ele sempre parece estar na fun\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o\u00a0ou de supervis\u00e3o de atividades em sua resid\u00eancia. Quase no final da primeira metade, o curta come\u00e7a a revelar novas personagens. A primeira a entrar em cena, tendo ao fundo azulejos portugueses do s\u00e9culo XVIII, \u00e9 Maria Magdalena Guedes Pereira, casada com Freyre desde 1941. Logo depois, Manuel entra no quadro servindo o &#8220;caf\u00e9 com leite frugal&#8221; para o casal Gilberto e Magdalena. Sobre Manuel, a &#8220;voz off&#8221;\u00a0do autor cumpre fun\u00e7\u00e3o explicativa: &#8220;h\u00e1 muitos anos com a nossa fam\u00edlia&#8221;.<\/p>\n<p>Na segunda metade do curta, pela primeira vez fora de sua propriedade de Apipucos, Freyre aparece\u00a0deitado na praia de Boa Viagem, lendo um livro. O movimento de c\u00e2mera leva nosso olhar das ondas do\u00a0mar para as areias da praia. Enquadrando por inteiro o corpo de Freyre, ap\u00f3s ele se levantar, a c\u00e2mera transforma o mar em pano de fundo para um\u00a0coment\u00e1rio sobre as mem\u00f3rias de inf\u00e2ncias. Nessa\u00a0sequ\u00eancia, a &#8220;voz off&#8221; afirma: &#8220;n\u00e3o me canso de olhar as cores desse mar, onde nado desde menino&#8221;. Ainda na praia, ap\u00f3s uma refer\u00eancia ao &#8220;peixe ou cozido que me espera&#8221;, Freyre repousa sua m\u00e3o na barriga. H\u00e1 um corte para um plano fechado: o peixe na panela ocupa quase por completo a tela. Aparece ent\u00e3o a &#8220;cozinheira Bia&#8221;, quem prepara o peixe sob &#8220;dire\u00e7\u00e3o de Magdalena&#8221;.<\/p>\n<p>Durante os 8 minutos de dura\u00e7\u00e3o, apenas quatro pessoas entram em cena:\u00a0Bia, Manuel, Magdalena e, obviamente, Gilberto Freyre. Ele, isso \u00e9 importante ressaltar, cumpre o papel de protagonista das a\u00e7\u00f5es ou de condutor. At\u00e9 quando n\u00e3o est\u00e1 realizando a a\u00e7\u00e3o (cozinhar, por exemplo), \u00e9 Freyre quem aparece como avaliador da qualidade da &#8220;cavala-perna-de-mo\u00e7a, o melhor peixe de Pernambuco&#8221;. Depois de sua visita \u00e0 cozinha, Freyre prepara uma batida: os cortes alternam &#8220;planos m\u00e9dios&#8221; e, depois, &#8220;planos fechados&#8221; de Bia e de Freyre. O \u00e1pice desse momento do curta \u00e9 quando, ap\u00f3s avaliar positivamente a batida, Freyre experimenta e tamb\u00e9m aprova o peixe preparado por Bia.<\/p>\n<p>Do in\u00edcio ao fim, a\u00a0narrativa torna fic\u00e7\u00e3o a rotina de um escritor brasileiro. No bloco final, deitado em uma rede do Cear\u00e1 \u00a0enquanto fuma um cachimbo, Freyre l\u00ea um livro fora de sua &#8220;especialidade&#8221;. Magdalena entra no quadro, senta-se em uma cadeira e come\u00e7a a costurar. Aparece, ent\u00e3o, o t\u00edtulo do livro nas m\u00e3os do intelectual: &#8220;Poesias&#8221; de Manuel Bandeira, sexta edi\u00e7\u00e3o aumentada, publicado pela Livraria Jos\u00e9 Olympio Editora em 1955. Essa \u00e9 a \u00faltima cena do curta &#8220;O Mestre de Apipucos&#8221;.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/lounge.obviousmag.org\/vagotonia\/assets_c\/2015\/01\/Captura%20de%20tela%20inteira%2016012015%20234347.bmp-miniatura-800x594-86887.jpg\" alt=\"Resultado de imagem para manuel bandeira poeta do castelo\" \/><\/p>\n<p>O curta &#8220;O Poeta do Castelo&#8221; apresenta as prosaicas a\u00e7\u00f5es de Manuel Bandeira com o pr\u00f3prio poeta proclamando os seus versos em <em>off<\/em>. \u00a0Uma\u00a0angula\u00e7\u00e3o\u00a0<em>contra-plong\u00e9e<\/em>\u00a0acentua o gigantismo dos pr\u00e9dios\u00a0na introdu\u00e7\u00e3o do curta. Enquanto assistimos\u00a0Bandeira esquentando o leite comprado em uma mercearia, ouvimos os versos de &#8220;Testamento&#8221;. De uma janela semicerrada, \u00e9 poss\u00edvel ver o poeta sentar-se em uma cadeira para comer fatias de p\u00e3o e beber leite. A posi\u00e7\u00e3o da c\u00e2mera e o enquadramento\u00a0<em>plong\u00e9e \u00a0<\/em>possibilitam que o p\u00fablico veja uma pequena estante com livros, elemento de cena que certamente contrasta com a monumentalidade do gabinete de Freyre em Apipucos. Dentro do apartamento, no entanto, a panor\u00e2mica horizontal realiza uma mensura\u00e7\u00e3o dos livros situados nas\u00a0estantes.<\/p>\n<p>O tom prosaico marca &#8220;O Mestre de Apipucos&#8221;, contudo essa caracter\u00edstica \u00e9 extrapolada em &#8220;O Poeta do Castelo&#8221;. Esse\u00a0curta apresenta o poeta de pijama, deitado em sua cama, escrevendo \u00e0 m\u00e1quina, consultando um exemplar do dicion\u00e1rio Larousse. Depois, enquanto ouvimos &#8220;Vou-me Embora pra Pas\u00e1rgada&#8221;, surge em cena Manuel Bandeira se vestindo. Durante todo o curta, o poeta interage com poucas pessoas: um merceeiro, um jornaleiro\u00a0e, al\u00e9m deles, algu\u00e9m abra\u00e7ado pelo poeta na avenida\u00a0Presidente Wilson, cidade do Rio de Janeiro<em>. <\/em>Enquanto caminha por essa avenida, j\u00e1 na parte final do curta, vemos no fundo do plano o <em>Petit Trianon<\/em>, sede da Academia Brasileira de Letras (ABL). Eleito para a ABL em 1940, Manuel Bandeira \u00e9 apresentado no curta &#8220;O Poeta do Castelo&#8221; como um escritor do prosaico. Na sequ\u00eancia final, um <em>tilting<\/em> (movimento de c\u00e2mera que vai do ch\u00e3o ao c\u00e9u) assume\u00a0um poste como elemento central\u00a0do quadro.\u00a0Quase imposs\u00edvel maior prova de banalidade. Tal movimento de c\u00e2mera conjuga-se com os versos iniciados com a express\u00e3o &#8220;vou-me embora&#8221;.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/payload476.cargocollective.com\/1\/1\/41502\/11830489\/OCaseiro_JdA_2016__800.jpg\" \/><\/p>\n<p>A\u00a0exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Gilberto Freyre: vida, forma e cor&#8221;, realizada entre maio e julho de 2016 na Caixa Cultural em S\u00e3o Paulo, tinha como tema a rela\u00e7\u00e3o do escritor com as artes visuais. Segundo a proposta da curadoria, a exposi\u00e7\u00e3o era organizada em m\u00f3dulos: &#8220;Mundo de imagens&#8221;, &#8220;Escritor de formas e cores&#8221;, &#8220;Contamina\u00e7\u00f5es criativas&#8221; e &#8220;Ecos&#8221;. Em um v\u00eddeo divulgado pelo canal do Grupo Editorial Global, h\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Z-ZvYJacPcU\">entrevistas <\/a>com Fernanda Ar\u00eaas Peixoto, Leonardo Borges e Jos\u00e9 Lira, trio respons\u00e1vel pela concep\u00e7\u00e3o\u00a0da exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No primeiro espa\u00e7o dessa exposi\u00e7\u00e3o, um\u00a0v\u00eddeo chamou minha aten\u00e7\u00e3o: &#8220;O Caseiro&#8221;. A proposta de Jonathas de Andrade, artista nascido em Macei\u00f3 e radicado em Recife, era tecer uma rela\u00e7\u00e3o intertextual com &#8220;O Mestre de Apipucos&#8221;. O v\u00eddeo de 8 minutos em <em>loop<\/em> tamb\u00e9m foi apresentado no Wexner Center for the Arts da Universidade de Ohio State em janeiro de 2017 e\u00a0recebeu, \u00a0nessa ocasi\u00e3o, uma <a href=\"http:\/\/wexarts.org\/sites\/default\/files\/thecaretaker_layout_box_january2017.pdf\">an\u00e1lise <\/a>\u00a0sobre a ilus\u00f3ria &#8220;democracia racial&#8221;. O mito torna-se menos cr\u00edvel se estivermos atentos a quem aparece (ou n\u00e3o aparece) na tela servindo \u00e0 fam\u00edlia de Freyre. Efeito real\u00e7ado pela contiguidade dos dois monitores, a\u00a0sincroniza\u00e7\u00e3o dos cortes de &#8220;O caseiro&#8221; e &#8220;O Mestre de Apipucos&#8221; busca for\u00e7ar os paralelismos\u00a0e os &#8220;contrastes nas quest\u00f5es de classe e ra\u00e7a, e revelam a\u00e7\u00e3o do tempo sobre a arquitetura, bem como sobre as ideias e a figura hist\u00f3rica de Freyre&#8221;. Por esse motivo, o v\u00eddeo foi definido no <a href=\"http:\/\/cargocollective.com\/jonathasdeandrade\/o-caseiro\">portf\u00f3lio <\/a>do artista\u00a0como &#8220;obra em di\u00e1logo&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Nascido em 1932, Joaquim Pedro de Andrade ainda era um jovem cineasta quando recebeu a incumb\u00eancia de dirigir dois curtas encomendados pelo Instituto Nacional do <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2017\/04\/10\/o-mestre-de-apipucos-o-encontro-de-joaquim-pedro-com-freyre\/\" title=\"O Mestre de Apipucos: o encontro de Joaquim Pedro com Freyre\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":69,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"editor_plus_copied_stylings":"{}","pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[6,9,5],"class_list":["post-158","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ideias-e-intelectuais","tag-dialogando-na-academia","tag-freyre","tag-sociologia-da-cultura"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/users\/69"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=158"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":176,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158\/revisions\/176"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=158"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=158"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=158"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}