{"id":370,"date":"2019-04-24T21:31:26","date_gmt":"2019-04-25T00:31:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/?p=370"},"modified":"2024-06-08T18:42:26","modified_gmt":"2024-06-08T21:42:26","slug":"musica-sociabilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2019\/04\/24\/musica-sociabilidade\/","title":{"rendered":"M\u00fasica, espa\u00e7os de sociabilidade e sociologia"},"content":{"rendered":"<p>Em 1906, a American Sociological Association (ASA) realizou, em Rhode Island<em>,<\/em> o seu primeiro encontro anual. Mais de cem anos depois, a sociologia mudou muito o seu escopo, pois a disciplina acompanhou transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sociodemogr\u00e1ficas e est\u00e9ticas. A ASA continua a promover esses eventos, no entanto, o tipo de programa\u00e7\u00e3o mostra o n\u00edvel de complexidade da produ\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica contempor\u00e2nea, mais extensa e heterog\u00eanea do que no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Esta brev\u00edssima introdu\u00e7\u00e3o serve apenas para come\u00e7ar a desenvolver o tema desta postagem: a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00fasica, espa\u00e7os de sociabilidade e sociologia. Por que escrevi sobre a ASA? A resposta \u00e9 a fascinante performance do &#8220;All Star Jazz Quartet&#8221; da sociologia em 2009, quando Becker, Douglas Mitchell, Robert Faulkner e Don Bennett tocaram juntos em um dos momentos de confraterniza\u00e7\u00e3o dos congressistas.<\/p>\n<p>Nesse ano, o congresso da ASA foi sediado em San Francisco, com o tema &#8220;The New Politics of Community&#8221;. A programa\u00e7\u00e3o completa est\u00e1 dispon\u00edvel <a href=\"http:\/\/www.asanet.org\/sites\/default\/files\/2009_am_final_program_missing_front_matter.pdf\">aqui<\/a>, quem tiver interesse, poder\u00e1 conferir as mesas com Howard Becker como debatedor: uma sobre a interse\u00e7\u00e3o entre cultura e economia e outra sobre os desafios da integra\u00e7\u00e3o de an\u00e1lises quantitativas e qualitativas. Nas ci\u00eancias sociais, o caso mais citado de pesquisador com atividade musical \u00e9 Howard Becker.<span id=\"eow-title\" class=\"watch-title\" dir=\"ltr\" title=\"Howie Becker, Douglas Mitchell, Robert Faulkner, and Don Bennett Jazz Jam session at ASA\">\u00a0Como soci\u00f3logo que estudou as conven\u00e7\u00f5es do inconvencional, sucinta defini\u00e7\u00e3o apresentada no perfil publicado por Adam Gopnik na revista <em><a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/2015\/01\/12\/outside-game\">The New Yorker<\/a><\/em>, Becker \u00e9 o principal exemplo de cientista social que alia a produ\u00e7\u00e3o intelectual com sua atividade musical. Em seu site, ele divulga seus textos, suas fotos de juventude e suas m\u00fasicas: <a href=\"http:\/\/www.howardsbecker.com\/music.html\">http:\/\/www.howardsbecker.com\/music.html<\/a>.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><iframe title=\"Howie Becker, Douglas Mitchell, Robert Faulkner, and Don Bennett Jazz Jam session at ASA\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aMAjVtpz88o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Com Faulkner, trompetista que apresentou suas habilidades no v\u00eddeo acima, Becker tamb\u00e9m publicou <em>&#8220;Do You Know&#8230;?&#8221;: The Jazz Repertoire in Action <\/em>em 2009, ano do congresso acima citado. Em rela\u00e7\u00e3o ao livro, o t\u00edtulo do primeiro cap\u00edtulo (como m\u00fasicos fazem m\u00fasica juntos) j\u00e1 indica qu\u00e3o pertinente \u00e9 este trabalho, mais uma das muitas publica\u00e7\u00f5es de Faulkner e Becker sobre arte e rela\u00e7\u00f5es sociais. E tem mais jazz no site com informa\u00e7\u00f5es sobre as atividades de Faulkner: <a href=\"http:\/\/www.robertfaulkner.org\/jazz.html\">http:\/\/www.robertfaulkner.org\/jazz.html<\/a>.<\/p>\n<p>No Brasil, al\u00e9m do grande conjunto de compositores e int\u00e9rpretes que ingressaram na carreira acad\u00eamica, tornando-se assim docentes nos departamentos de m\u00fasica, tamb\u00e9m podemos citar exemplos de especialistas em outras \u00e1reas de pesquisa que lapidaram a sua voca\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Nascidos, respectivamente, em 1948 e 1951, Jos\u00e9 Wisnik (do Departamento de Letras Cl\u00e1ssicas e Vern\u00e1culos) e Luiz Tatit (aposentado do Departamento de Lingu\u00edstica), ambos com carreira na FFLCH da USP, possuem grande reconhecimento como compositores, com atua\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima a nomes consagrados como N\u00e1 Ozzetti, Palavra Cantada (a dupla formada por Sandra Peres\u00a0e\u00a0Paulo Tatit) e Guinga.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas duas trajet\u00f3rias baseadas em um tra\u00e7o de voca\u00e7\u00e3o ambivalente (com as palavras e os sons), h\u00e1 outros modos de rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica. Essa express\u00e3o art\u00edstica tem aprecia\u00e7\u00e3o multiforme, sempre dependente e condicionada pelo g\u00eanero ou pelo estilo de apresenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 maior a difus\u00e3o dos conhecimentos musicais do que o de outras express\u00f5es art\u00edsticas (dan\u00e7a e artes pl\u00e1sticas, por exemplo). Classificamos como m\u00fasica um show naqueles festivais com milhares de pessoas, todas assistindo em p\u00e9 em um aut\u00f3dromo, assim como o concerto de uma camerata. Pararei agora com a tergiversa\u00e7\u00e3o para chegar ao ponto central. Express\u00f5es musicais promovem ajuntamentos de pessoas e, evidentemente, tamb\u00e9m fomentam clivagens a partir dos gostos e formam panoramas coletivos ou horizontes compartilhados. Mem\u00f3ria, espa\u00e7os de sociabilidade e trajet\u00f3rias s\u00e3o temas interconectados de duas experi\u00eancias recentes que aproximam m\u00fasica e sociologia.<\/p>\n<p>O lan\u00e7amento do primeiro CD do soci\u00f3logo Renato Ortiz, com 12 composi\u00e7\u00f5es autorais, \u00e9, ao mesmo tempo, uma estreia no universo musical e um retrato memorial\u00edstico. &#8220;Paris, S\u00e3o Paulo&#8221; (2019), cujas faixas contam com pequenas introdu\u00e7\u00f5es que contextualizam cada composi\u00e7\u00e3o, imprime forte tom pessoal \u00e0 experi\u00eancia musical do autor. Cada m\u00fasica ilumina alguns momentos dos itiner\u00e1rios de Ortiz, passando por S\u00e3o Paulo, Paris e Jo\u00e3o Pessoa, misturando temporalidades, costurando refer\u00eancias intertextuais. De acordo com a minha avalia\u00e7\u00e3o, ao CD, quase todo gravado somente com voz e viol\u00e3o de modo bastante &#8220;intimista&#8221;, faltou uma maior aposta na inser\u00e7\u00e3o de instrumentos que, com novos arranjos, valorizariam as can\u00e7\u00f5es e na inclus\u00e3o de vocais de apoio.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel ouvir este \u00e1lbum aqui: <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/2GdhvCQBGHZkk0pKXJcRnV\">https:\/\/open.spotify.com\/album\/2GdhvCQBGHZkk0pKXJcRnV<\/a>.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, foi criado um conjunto musical cuja base de seu <em>fandom <\/em>est\u00e1 sediada no Instituto de Estudos Sociais e Pol\u00edticos (IESP). Quem me avisou sobre a forma\u00e7\u00e3o desse grupo de pagode foi Victor Piaia, assim como eu, um egresso da FGV. O perfil oficial do &#8220;Humilde Mal\u00edcia&#8221; no Instagram o define como &#8220;o maior grupo de pagode das ci\u00eancias sociais do Brasil (e do mundo)&#8221;. Esses meus &#8220;companheiros de gera\u00e7\u00e3o&#8221; possuem um repert\u00f3rio (ou um horizonte de refer\u00eancias, uma teia de cita\u00e7\u00f5es e de resson\u00e2ncias) bastante diferente das paisagens sonoras evocadas no \u00e1lbum &#8220;Paris, S\u00e3o Paulo&#8221;. Quais clivagens explicam tal diferencia\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>https:\/\/www.instagram.com\/p\/Bu1aNEKFIOs\/<\/p>\n<p>Engajamento em determinadas pr\u00e1ticas culturais, origem de classe, gera\u00e7\u00e3o, g\u00eanero, trajet\u00f3rias de ascens\u00e3o social, tipo de socializa\u00e7\u00e3o, escolaridade, inser\u00e7\u00e3o na paisagem sonora, identifica\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial, nacionalidade, l\u00edngua(s) falada(s) no domic\u00edlio familiar: quais fatores conformam tais diferen\u00e7as dos &#8220;universos de refer\u00eancia&#8221; (extremamente diversos) em um mesmo per\u00edodo hist\u00f3rico? Mesmo entre contempor\u00e2neos, em quaisquer contextos, a experi\u00eancia musical \u00e9 t\u00e3o heterog\u00eanea quanto as formas de experi\u00eancia social. Pensar as express\u00f5es musicais e os espa\u00e7os de sociabilidade, por um vi\u00e9s sociol\u00f3gico, significa entender em que medida a <em>cultura<\/em> (mais especificamente, o conjunto de bens culturais) serve como indicadores que nos classificam, nos aproximam e nos distanciam. Em <a href=\"http:\/\/www.revistas.usp.br\/cadernosdecampo\/article\/view\/50063\/54192\">texto<\/a> sobre John Blacking, e sua &#8220;avers\u00e3o [&#8230;] \u00e0s an\u00e1lises formais dos sons&#8221;, Elizabeth Travassos sumariza os bin\u00f4mios abordados por esse autor, figura fundamental da etnomusicologia:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>A inter-rela\u00e7\u00e3o entre m\u00fasica, cogni\u00e7\u00e3o, afeto,<\/em><br \/>\n<em>cultura e sociedade foi expressa por Blacking<\/em><br \/>\n<em>numa ret\u00f3rica de bin\u00f4mios (processos e<\/em><br \/>\n<em>produtos musicais, estruturas profundas e de<\/em><br \/>\n<em>superf\u00edcie, habilidade humana e sistema cultural).\u00a0<\/em><\/p>\n<p>E, ainda segundo a autora, Blacking assim definia a &#8220;intelig\u00eancia musical&#8221;:<\/p>\n<div style=\"text-align: center\"><em>A intelig\u00eancia musical<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><em>agrega indiv\u00edduos em grupos, coordena a\u00e7\u00f5es,<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><em>integra os hemisf\u00e9rios do c\u00e9rebro. Em apoio \u00e0<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><em>hip\u00f3tese do valor evolucion\u00e1rio da m\u00fasica, <\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><em>citava o ensaio de Alfred Schutz sobre a atividade<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><em> musical conjunta: evid\u00eancia da capacidade<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><em>humana de entrar em fluxos intersubjetivos, a<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><em>m\u00fasica em conjunto sup\u00f5e uma sintoniza\u00e7\u00e3o<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><em>m\u00fatua (<\/em>mutual tuning-in<em>) n\u00e3o-verbal cujo <\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><em>en<\/em><em>tendimento seria de grande valor para a sociologia, <\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><em>j\u00e1 que \u00e9 quase um paradigma da rela\u00e7\u00e3o<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><em>social.<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: center\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Em 1906, a American Sociological Association (ASA) realizou, em Rhode Island, o seu primeiro encontro anual. 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