{"id":525,"date":"2021-04-04T08:19:30","date_gmt":"2021-04-04T11:19:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/?p=525"},"modified":"2021-04-04T08:19:32","modified_gmt":"2021-04-04T11:19:32","slug":"alimentacao-gosto-e-pertencimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2021\/04\/04\/alimentacao-gosto-e-pertencimento\/","title":{"rendered":"Alimenta\u00e7\u00e3o, gosto e pertencimento, por Talitha Ferreira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais uma vez abrirei as portas deste blog para uma convidada. A postagem de hoje foi elaborada pelas m\u00e3os de Talitha A. Ferreira, integrante do <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/pt-br.facebook.com\/gebunicamp\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/pt-br.facebook.com\/gebunicamp\/\" target=\"_blank\">GEBU<\/a> e discente do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia da Unicamp. Ap\u00f3s defender a disserta\u00e7\u00e3o em 2018, ela come\u00e7ou a cursar o doutorado nessa institui\u00e7\u00e3o. Quem quiser conferir o trabalho apresentado para a conclus\u00e3o do mestrado dessa pesquisadora, basta clicar <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/repositorio.unicamp.br\/jspui\/handle\/REPOSIP\/332431?mode=full\" target=\"_blank\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/repositorio.unicamp.br\/jspui\/handle\/REPOSIP\/332431?mode=full\">aqui<\/a>. Ao p\u00fablico dos blogs artesanais de cientistas sociais, sugiro tamb\u00e9m visitar o material publicado por Talitha no <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/descozinhando952968334.wordpress.com\/about\/\" target=\"_blank\">Descozinhando<\/a>. Este texto publicado no <em>V\u00e9rtice<\/em>, uma conversa sobre alimenta\u00e7\u00e3o, gosto e identidade, foi segmentado em tr\u00eas blocos: a) <em>Um menu de temas<\/em>, b) <em>O manejo do gosto<\/em> e c) <em>Comer e pertencer<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Um menu de temas para a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica a partir da interdisciplinaridade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando transformamos alimentos em comidas, revestimos o ato de \u201ccomer\u201d de uma mir\u00edade de cren\u00e7as, gestos, regras, gostos, valores ou pre\u00e7os que, em alguma medida, s\u00e3o coletivamente compartilhados e est\u00e3o socialmente amparados. Por isso, afirmamos nas ci\u00eancias humanas, quase sem titubear, que &#8220;comer \u00e9 cultura&#8221; e \u00e9 a dimens\u00e3o social da necessidade biol\u00f3gica de alimentar-se. Essa afirma\u00e7\u00e3o aparece na obra de autores como Claude L\u00e9vi-Strauss, Mary Douglas, Marcel Mauss, Sidney Mintz, Marshall Sahlins. Nos cursos de ci\u00eancias sociais, as leituras desses autores raramente ocorrem por conta do tema alimenta\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Comer \u00e9 cultura&#8221;, pois n\u00e3o comemos todos os alimentos que reconhecemos como comest\u00edveis. Alguns n\u00e3o comemos porque n\u00e3o acessamos financeiramente, outros porque n\u00e3o gostamos. \u00c0s vezes nem podemos comer de tudo, como ocorre com os judeus e os mu\u00e7ulmanos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 carne de porco, ou com os cat\u00f3licos e o consumo de carnes vermelhas na P\u00e1scoa, considerados tabus. Da mesma forma, n\u00e3o comemos de qualquer maneira ou em qualquer lugar. Por vezes, preferimos comer um alimento preparado de determinada forma, e n\u00e3o outra. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A transforma\u00e7\u00e3o do gosto e do julgamento est\u00e9tico &#8211; que podem definir o que comemos ou deixamos de comer &#8211; em reflex\u00e3o te\u00f3rica ocorreu destacadamente a partir do s\u00e9culo XVIII e por meio da filosofia. No s\u00e9culo XVIII, Edmund Burke (1729-1797), David Hume (1711-1776) e Immanuel Kant (1724-1804) debru\u00e7aram-se, de diferentes formas, sobre os atributos que operamos para classificar e, por vezes, hierarquizar o mundo a partir das pr\u00f3prias classifica\u00e7\u00f5es que criamos. No in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, e no caldo aristocr\u00e1tico que permitiu a institucionaliza\u00e7\u00e3o da gastronomia tal qual a conhecemos, o jurista Jean-Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826) escreveu o tratado \u201cA fisiologia do gosto\u201d que, no limite, \u00e9 uma defesa dos prazeres \u00e0 mesa. Contudo, foi a partir da metade do s\u00e9culo XX que o gosto e o julgamento se descolaram do vasto plano das subjetividades, consolidando-se como objetos que dizem respeito aos processos de sociabilidade e, portanto, \u00e0s pr\u00f3prias explica\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas. Raymond Williams, em <em>A longa revolu\u00e7\u00e3o<\/em> (1961) e em <em>Palavras-chave<\/em> (1976), assim como Norbert Elias em <em>O processo civilizador <\/em>(1939), s\u00e3o fundamentais autores desses debates. Pierre Bourdieu, especialmente na obra <em>A distin\u00e7\u00e3o<\/em> (1979), sistematizou e demonstrou como se organizam socialmente e se estabelecem as rela\u00e7\u00f5es intrincadas entre gosto, julgamento est\u00e9tico, poder, trajet\u00f3rias e pr\u00e1ticas culturais, incluindo o comer.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe um ac\u00famulo de reflex\u00f5es pr\u00f3prias ao dom\u00ednio da sociologia que podem amparar as nossas an\u00e1lises contempor\u00e2neas sobre a transforma\u00e7\u00e3o do &#8220;alimentar-se&#8221; em &#8220;comer&#8221; a partir do gosto. Vale refor\u00e7ar que o caminho deste ac\u00famulo n\u00e3o \u00e9 trivial, pois nem sempre os autores tratam o comer como principal objeto de seus escrut\u00ednios. O exerc\u00edcio que proponho aqui, contudo, \u00e9 o de buscarmos outras perspectivas para somarmos \u00e0s nossas an\u00e1lises de modo que elas possam nos ajudar a evidenciar as facetas de complexidade desta rela\u00e7\u00e3o profunda e estrutural entre a forma\u00e7\u00e3o dos gostos e a alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/brazil-400278_1920-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-533\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/brazil-400278_1920-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/brazil-400278_1920-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/brazil-400278_1920-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/brazil-400278_1920-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/brazil-400278_1920-678x509.jpg 678w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/brazil-400278_1920-326x245.jpg 326w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/brazil-400278_1920-80x60.jpg 80w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/brazil-400278_1920.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Gostos e sabores na floresta: os saberes amaz\u00f4nicos. Imagem de&nbsp;Rosa Maria&nbsp;divulgada no Pixabay.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O manejo do gosto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tr\u00e2nsito humano entre o &#8220;alimentar-se&#8221; e o &#8220;comer&#8221; diz tamb\u00e9m respeito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e \u00e0 continuidade de um vasto repert\u00f3rio de alimentos e gostos, ou seja, diz respeito \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o de um repert\u00f3rio que foi compartilhado numa larga escala de tempo e espa\u00e7o. Quando sa\u00edmos do dom\u00ednio espec\u00edfico da sociologia e do comer enquanto uma pr\u00e1tica cultural contempor\u00e2nea dentre tantas outras, percebemos que este repert\u00f3rio foi composto por sele\u00e7\u00f5es criteriosas e pela classifica\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de uma diversidade de plantas, fungos e animais como alimentos e comidas, que atravessaram as hist\u00f3rias humanas e evolutivas, chegando, em alguma medida, at\u00e9 os dias atuais. Em <em>Pegando fogo <\/em>(2009), o primat\u00f3logo Richard Wrangham argumenta que a forma\u00e7\u00e3o dos corpos e c\u00e9rebros humanos foi um resultado direto do dom\u00ednio do fogo e, consequentemente, da nossa rela\u00e7\u00e3o com o ato de cozinhar. Preferir alimentos cozidos aos crus, segundo o autor, foi o que proporcionou o ganho e o ac\u00famulo cal\u00f3rico necess\u00e1rios ao tipo de racioc\u00ednio e organiza\u00e7\u00e3o que s\u00e3o t\u00e3o espec\u00edficos \u00e0 nossa esp\u00e9cie.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outro sentido, \u00e9 raro pensarmos que para comer uma tapioca ou um tacac\u00e1 hoje, por exemplo, muitos ind\u00edgenas morreram intoxicados pelo cianeto que algumas variedades de mandioca concentravam\/concentram. E pensar sobre isso \u00e9 raro justamente porque as atuais cultivares de mandioca est\u00e3o devidamente manejadas, selecionadas e catalogadas segundo o conhecimento tradicional (nas ro\u00e7as cultivadas dentro de aldeias e outras comunidades) ou o conhecimento cient\u00edfico (nos almanaques e tratados de biologia, bot\u00e2nica e etnobot\u00e2nica). \u00c9 fascinante perceber que este vasto e longevo repert\u00f3rio alimentar &#8211; apesar das mudan\u00e7as bruscas e recentes, advindas da industrializa\u00e7\u00e3o e do ultraprocessamento dos alimentos na contemporaneidade &#8211; vem sendo constru\u00eddo h\u00e1 dezenas de milhares de anos. Considerando os atuais ind\u00edcios paleoantropol\u00f3gicos, os primeiros <em>Homo sapiens<\/em> deixaram a \u00c1frica, para caminhar e comer pelo mundo, h\u00e1 mais de 100 mil anos, como lemos em <em>Assim caminhou a humanidade<\/em>. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/cassava-5578528_1920-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-535\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/cassava-5578528_1920-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/cassava-5578528_1920-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/cassava-5578528_1920-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/cassava-5578528_1920-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/cassava-5578528_1920.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>O &#8220;doutorado das matas&#8221; foi brilhantemente descrito na toada &#8220;O caboclo sacaca&#8221;, composi\u00e7\u00e3o de Marcos Lima e Eder Lima. A mandioca. Imagem de&nbsp;Dian A. Yudianto&nbsp;divulgada no Pixabay.&nbsp;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje sabemos que partes da floresta amaz\u00f4nica, que j\u00e1 foram descritas como &#8220;virgens&#8221;, &#8220;intocadas&#8221; e &#8220;impenetr\u00e1veis&#8221;, s\u00e3o imensos jardins milenares, compostos por castanheiras, ingazeiros e bacuparizeiros, dentre outras \u00e1rvores frut\u00edferas que tem sido manejadas e selecionadas h\u00e1 mil\u00eanios por povos origin\u00e1rios e seus descendentes. O tema das florestas manejadas e antropog\u00eanicas do Brasil ecoa desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000, a partir de investiga\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas lideradas por Michael J. Heckenberger na d\u00e9cada anterior, principalmente na regi\u00e3o do Xingu. Desde ent\u00e3o, dados e informa\u00e7\u00f5es foram acumulados e trazem mais perspectivas para pensarmos o papel da rela\u00e7\u00e3o humanos-plantas nas diversas organiza\u00e7\u00f5es sociais e tamb\u00e9m na alimenta\u00e7\u00e3o humana. No texto \u201cCastanha, pinh\u00e3o e pequi ou a alma antiga dos bosques do Brasil\u201d, o arque\u00f3logo Eduardo G\u00f3es Neves compartilha dados e reflex\u00f5es em torno da import\u00e2ncia desta intera\u00e7\u00e3o humanos-plantas na forma\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica e do cerrado. Esse artigo faz parte do livro <em>Vozes Vegetais: diversidade, resist\u00eancias e hist\u00f3rias da floresta<\/em> (2020), organizado por Joana Cabral de Oliveira (Departamento de Antropologia\/Unicamp), em colabora\u00e7\u00e3o com outros pesquisadores.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"575\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/rio-1841419_1920-1024x575.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-528\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/rio-1841419_1920-1024x575.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/rio-1841419_1920-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/rio-1841419_1920-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/rio-1841419_1920-1536x863.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/rio-1841419_1920-678x381.jpg 678w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/rio-1841419_1920.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Rio Guapor\u00e9. Imagem de luis deltreehd&nbsp;divulgada no Pixabay.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estudos interdisciplinares, como os desenvolvidos pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos em Agrobiodiversidade (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/interabiogrupo.wixsite.com\/interabio\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/interabiogrupo.wixsite.com\/interabio\" target=\"_blank\">InterABio<\/a>), demonstram que as variedades de milho na Am\u00e9rica do Sul est\u00e3o sob manejo h\u00e1 mais de 6 mil anos. A colet\u00e2nea de artigos <em>Pr\u00e1ticas e saberes sobre agrobiodiversidade: a contribui\u00e7\u00e3o de povos tradicionais <\/em>(2018)<em> <\/em>reitera o argumento do gosto pela diversidade de plantas por parte de povos tradicionais e ind\u00edgenas. Diversidade alimentar e est\u00e9tica, pois as variadas plantas embelezam o ambiente. Isso significa que a biodiversidade de hoje &#8211; ou que ainda nos resta hoje &#8211; d\u00e1 pistas sobre os apetites e gostos de outrora.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-5380772_1920-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-529\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-5380772_1920-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-5380772_1920-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-5380772_1920-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-5380772_1920-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-5380772_1920.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Milho. Imagem de Francisco Morales divulgada no Pixabay.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"767\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-4496878_1920-1024x767.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-531\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-4496878_1920-1024x767.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-4496878_1920-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-4496878_1920-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-4496878_1920-1536x1151.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-4496878_1920-678x509.jpg 678w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-4496878_1920-326x245.jpg 326w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-4496878_1920-80x60.jpg 80w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/corn-4496878_1920.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>A diversidade do milho.  Imagem de&nbsp;Larry White&nbsp;divulgada no Pixabay.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o cozinhar, por meio do manejo do fogo e do ambiente, incluindo as florestas, \u00e9 uma das marcas da nossa esp\u00e9cie, parece curioso pensar que estamos construindo o nosso repert\u00f3rio alimentar e as suas m\u00faltiplas classifica\u00e7\u00f5es h\u00e1 tempos. Talvez seja poss\u00edvel, nesta escala de tempo long\u00ednqua e profunda, que tenha sido compartilhado este repert\u00f3rio at\u00e9 mesmo com outras esp\u00e9cies do g\u00eanero <em>Homo<\/em>, como os denisovanos, o <em>Homo<\/em> <em>floresiensis <\/em>e o <em>Homo<\/em> <em>neandertalensis<\/em>, extintas por raz\u00f5es ainda desconhecidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Comer e pertencer<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As maneiras de produzir e consumir comidas ao redor do mundo s\u00e3o extremamente diversas, apesar de o modo de vida considerado hegem\u00f4nico &#8211; citadino, capitalista e contempor\u00e2neo &#8211; reduzir drasticamente as nossas atuais possibilidades de transformar v\u00e1rios alimentos em comidas. Mesmo assim, essa mir\u00edade de modos de comer est\u00e1 sempre amparada por uma rede de sentidos &#8211; que inclui regras, valores e possibilidades &#8211; compartilhada e, ao mesmo tempo, transcendente a uma pr\u00e1tica individual de ingerir algo. O comer e o gosto que desenvolvemos em torno dele estabelecem, ent\u00e3o, la\u00e7os com outras quest\u00f5es, as quais dizem respeito ao pertencimento e ao compartilhamento desses mesmos sentidos at\u00e9 no nosso cotidiano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De um modo geral, as ci\u00eancias sociais entendem que as identidades s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es que articulam, de modo simult\u00e2neo e din\u00e2mico, pertencimento e n\u00e3o pertencimento. Identidades estabelecem o que \u00e9 &#8220;de dentro&#8221; e o que \u00e9 &#8220;de fora&#8221;, tanto do ponto de vista individual, quanto coletivo. Por esse motivo, as identidades entram na conta da forma\u00e7\u00e3o dos repert\u00f3rios alimentares. Os exemplos da culin\u00e1ria brasileira costumam ser bons para pensarmos os movimentos em torno dessa articula\u00e7\u00e3o e a sobreposi\u00e7\u00e3o de parte das suas din\u00e2micas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A depender de onde estivermos, cuscuz, inhame e car\u00e1 s\u00e3o alimentos diferentes. Cuscuz paulista \u00e9 cozido no caldo, direto na panela, e n\u00e3o no vapor, como o cuscuz nordestino. Inhame, em S\u00e3o Paulo, \u00e9 chamado de car\u00e1 em Pernambuco e Goi\u00e1s. Uma pessoa que mora na regi\u00e3o Sul do pa\u00eds pode passar anos, ou at\u00e9 uma vida, sem comer uma cagaita, ou um cajuzinho do cerrado, enquanto outra pessoa, nascida no Tocantins, pode n\u00e3o reconhecer uma grumixama ou um buti\u00e1: ainda que todas estas plantas sejam classificadas como nativas, como &#8220;brasileiras&#8221;. Poucos de n\u00f3s, que vivemos nas grandes cidades e compramos praticamente tudo o que comemos e consumimos, sabemos que os Kuikuro, na regi\u00e3o do Xingu, fazem sal a partir de plantas e cultivam uma esp\u00e9cie rara de pequi, sem espinhos, como mostram Maira Smith e Carlos Fausto no artigo \u201c<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1981-81222016000100087&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=pt\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1981-81222016000100087&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=pt\" target=\"_blank\">Socialidade e diversidade de pequis (<em>Caryocar brasiliense<\/em>, Caryocaraceae) entre os Kuikuro do alto rio Xingu (Brasil)<\/a>\u201d. Ali, os pequizeiros passam de pai para filho, sedimentando as hist\u00f3rias familiares na floresta e, simultaneamente, atualizando-as no territ\u00f3rio ocupado pela etnia <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Kuikuro\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Kuikuro\" target=\"_blank\">Kuikuro<\/a>. Enquanto isso, v\u00e1rios povos da Amaz\u00f4nia rionegrina, como os <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Baniwa\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Baniwa\" target=\"_blank\">Baniwa<\/a>, os <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Koripako\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Koripako\" target=\"_blank\">Koripako <\/a>e os <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Tukano\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Tukano\" target=\"_blank\">Tukano<\/a>, escolhem dezenas de variedades de pimentas para deixar a comida mais &#8220;ardosa&#8221; e usam algumas formigas como especiarias.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/flower-2824012_1920-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-541\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/flower-2824012_1920-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/flower-2824012_1920-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/flower-2824012_1920-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/flower-2824012_1920-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/flower-2824012_1920-678x509.jpg 678w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/flower-2824012_1920-326x245.jpg 326w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/flower-2824012_1920-80x60.jpg 80w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2021\/03\/flower-2824012_1920.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Flor do pequizeiro. Imagem de Ot\u00e1vio Souza Junio divulgada no Pixabay.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses exemplos apontam que as rela\u00e7\u00f5es estabelecemos entre a hist\u00f3ria, o gosto, o comer e as identidades nem sempre s\u00e3o expl\u00edcitas e exigem que desloquemos nossas quest\u00f5es entre diferentes tempos, espa\u00e7os, s\u00edmbolos, explica\u00e7\u00f5es, sentidos e organiza\u00e7\u00f5es sociais. Numa escala de tempo maior e mais profunda, contudo, percebemos a ocorr\u00eancia de aproxima\u00e7\u00f5es e de perman\u00eancias, inclusive por meio do compartilhamento de um repert\u00f3rio alimentar baseado na classifica\u00e7\u00e3o de variados seres e na sedimenta\u00e7\u00e3o de gostos ligados a eles. As escolhas provenientes deste repert\u00f3rio maior e destas classifica\u00e7\u00f5es moldaram nossos corpos, mentes e ambientes que nos cercam. As investiga\u00e7\u00f5es sobre o tema da alimenta\u00e7\u00e3o podem ganhar outras dimens\u00f5es a partir de investidas interdisciplinares, que nos levam a repensar e a questionar, com cada vez mais frequ\u00eancia, a aparente obviedade da consensual afirma\u00e7\u00e3o que &#8220;comer \u00e9 cultura&#8221;. Conforme vimos, h\u00e1 muitas <em>naturezas<\/em> em evid\u00eancia nestes terrenos. Resta-nos, enquanto cientistas sociais, identific\u00e1-las e traz\u00ea-las \u00e0 pauta das nossas an\u00e1lises contempor\u00e2neas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Mais uma vez abrirei as portas deste blog para uma convidada. A postagem de hoje foi elaborada pelas m\u00e3os de Talitha A. Ferreira, integrante do <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2021\/04\/04\/alimentacao-gosto-e-pertencimento\/\" title=\"Alimenta\u00e7\u00e3o, gosto e pertencimento, por Talitha Ferreira\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":69,"featured_media":502,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"editor_plus_copied_stylings":"{}","pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[2,3],"tags":[6,5],"class_list":["post-525","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-labirintos-das-pesquisas","category-notas-academicas","tag-dialogando-na-academia","tag-sociologia-da-cultura"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2019\/12\/GEBU-1.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/525","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/users\/69"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=525"}],"version-history":[{"count":18,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/525\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":549,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/525\/revisions\/549"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/media\/502"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=525"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=525"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=525"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}