{"id":567,"date":"2021-07-13T01:08:03","date_gmt":"2021-07-13T04:08:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/?p=567"},"modified":"2021-07-13T01:21:25","modified_gmt":"2021-07-13T04:21:25","slug":"centrao-ou-arenao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2021\/07\/13\/centrao-ou-arenao\/","title":{"rendered":"Centr\u00e3o ou aren\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p>Ele era, no in\u00edcio da carreira, apenas uma celebridade da TV que fazia uma parte da popula\u00e7\u00e3o rir. Antes de virar presidente, praticava o mesmo of\u00edcio de grande parte de sua fam\u00edlia. Quando entrou na pol\u00edtica, com discurso em prol da moraliza\u00e7\u00e3o, ele alinhavou seu programa de governo com discursos sobre f\u00e9 e combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Candidato declaradamente crist\u00e3o, se consagrou na elei\u00e7\u00e3o por um pequeno e novo partido de proposi\u00e7\u00f5es nacionalistas e conservadoras. Grande parte de seus colegas de partido eram militares reformados. Conseguiu se eleger por pregar a moraliza\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica no pa\u00eds, mais uma rep\u00fablica latino-americana exausta da &#8220;velha pol\u00edtica&#8221;. Foi o mais votado no primeiro turno e derrotou um partido de inspira\u00e7\u00e3o social-democrata no segundo. Naquela conjuntura da vota\u00e7\u00e3o para presidente, o seu pa\u00eds registrava in\u00fameras den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, as quais atingiram inclusive o processo eleitoral, e era conhecido internacionalmente pela elevada taxa de homic\u00eddio intencional. Durante o s\u00e9culo XX, a hist\u00f3ria dessa rep\u00fablica teve v\u00e1rias rupturas com a ordem democr\u00e1tica, sucessivos golpes, ascens\u00e3o de presidentes militares e alto grau viola\u00e7\u00e3o de direitos civis. Representando a &#8220;nova pol\u00edtica&#8221;, Jimmy Morales venceu a elei\u00e7\u00e3o presidencial na Guatemala em 2015.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Jimmy Morales Responde \u00bfPor qu\u00e9 estoy en Pol\u00edtica?\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pq8SxvlvzLk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Durante a campanha, a primeira pergunta da pe\u00e7a publicit\u00e1ria \u2013 \u201cpor que estou na pol\u00edtica?\u201d \u2013 d\u00e1 t\u00edtulo ao v\u00eddeo e explica ao eleitorado porque o artista famoso na televis\u00e3o se arriscou para concorrer ao cargo de presidente. Ao final da propaganda, o candidato nacionalista pergunta ao p\u00fablico: &#8220;quer uma Guatemala diferente?&#8221;. O ent\u00e3o humorista e secret\u00e1rio-geral do partido Frente de Convergencia Nacional (FCN) tinha como mote parar com as pilh\u00e9rias dos guatemaltecos acerca das pr\u00f3prias derrotas (inclusive no futebol). Desse modo, poderia ser constru\u00eddo um caminho sem os &#8220;guatemaltecos maus&#8221;, resgatando uma honra nacionalista. O seu slogan da campanha foi &#8220;Ni corrupto, ni ladr\u00f3n&#8221;, uma op\u00e7\u00e3o de voto para derrotar os &#8220;maus pol\u00edticos&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>Em 2017, ap\u00f3s ser acusado de financiamento eleitoral il\u00edcito, o presidente Jimmy Morales considerou <em>persona non grata<\/em> o diretor da Comisi\u00f3n Internacional contra la Impunidad en Guatemala. Durante o seu mandato, esse presidente-humorista entrou em conflito com uma comiss\u00e3o da ONU e o Minist\u00e9rio P\u00fablico da Guatemala, institui\u00e7\u00f5es que apuravam irregularidades no financiamento de sua campanha. Come\u00e7aram ent\u00e3o os protestos de rua, criticados prontamente por associa\u00e7\u00f5es de empres\u00e1rios do pa\u00eds. Ent\u00e3o, o presidente-humorista expulsou o diretor da comiss\u00e3o da ONU, que investigava complexos esquemas de corrup\u00e7\u00e3o. Surgiu uma onda de tens\u00f5es internas para saber como o presidente deveria seguir a constitui\u00e7\u00e3o e como poderia agir em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Comiss\u00e3o Internacional contra a Impunidade. No meio de uma crise pol\u00edtica em 2018, a melhor op\u00e7\u00e3o de marketing pol\u00edtico foi ligar as c\u00e2meras e entrar em um<a data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Rqg78SS0KQM&amp;fbclid=IwAR390UTMc30oOElghFA1bPmmFtMYZKWo4MbJtP2CSr-wIMPhakniv3CJXR4\" rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Rqg78SS0KQM&amp;fbclid=IwAR390UTMc30oOElghFA1bPmmFtMYZKWo4MbJtP2CSr-wIMPhakniv3CJXR4\" target=\"_blank\"> <em>fast food<\/em><\/a>. <\/p>\n\n\n\n<p>Cruzarei a fronteira para citar brevemente El Salvador, cujo universo partid\u00e1rio se assemelha ao do pa\u00eds vizinho. O principal partido de direita, Alianza Republicana Nacionalista (ARENA), foi fundado em 1981 e venceu as elei\u00e7\u00f5es de 1989, 1994, 1999 e 2004. O partido esquerdista Frente Farabundo Mart\u00ed para la Liberaci\u00f3n Nacional venceu duas elei\u00e7\u00f5es consecutivas, em 2009 e 2014. Nayib Bukele, sem poder se candidatar pelo seu partido, o Nuevas Ideas criado em 2018,  precisou concorrer pelo GANA. Os egressos da ARENA e de outras organiza\u00e7\u00f5es da direita salvadorenha formaram Gran Alianza por la Unidad Nacional (GANA) em 2010, partido vencedor das elei\u00e7\u00f5es de 2019 com o candidato Bukele. Nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2018, GANA foi o terceiro partido com mais vit\u00f3rias nos munic\u00edpios de El Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p>A direita no Brasil, desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, re\u00fane os \u201cconservadores reformadores do Estado\u201d e os \u201cliberais reformadores\u201d. Esses sustentam uma agenda de defesa dos direitos individuais, da propriedade privada e da redu\u00e7\u00e3o das travas burocr\u00e1ticas, aqueles dependem da bandeira da gest\u00e3o eficiente nos servi\u00e7os p\u00fablicos para angariar votos em suas bases conservadoras (da aristocracia dos pol\u00edticos de bem incorrupt\u00edveis, segundo o dicion\u00e1rio udenista).  Embora concordem na defesa dos interesses empresariais, sobretudo na cr\u00edtica \u00e0 burocracia estatal e ao corporativismo no servi\u00e7o p\u00fablico, ambos os grupos (conservadores reformadores e liberais reformadores) representam a direita tradicional, que se esconde nos lemas da social-democracia europeia para conquistar o eleitorado das camadas m\u00e9dias urbanas. Percebemos, assim, alguns elementos que aproximam movimentos pol\u00edticos de ascens\u00e3o do discurso anticorrup\u00e7\u00e3o em tr\u00eas pa\u00edses latino-americanos: Guatemala, El Salvador e Brasil. Resposta das direitas \u00e0 &#8220;onda rosa&#8221;? Talvez.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso brasileiro tem suas peculiaridades, inclusive pela dimens\u00e3o da fragmenta\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, por\u00e9m, assim como outros pa\u00edses, o seu panorama ideol\u00f3gico foi contaminado pelo per\u00edodo autocr\u00e1tico. Maria Vict\u00f3ria Benevides, na revista <em>Lua Nova <\/em>em 1986<em>,<\/em> publicou uma genealogia das organiza\u00e7\u00f5es do sistema bipartid\u00e1rio vigente da decreta\u00e7\u00e3o do AI-2 (1965) at\u00e9 a Lei N\u00ba 6.767 (1979). O objetivo principal do texto era analisar a convers\u00e3o ideol\u00f3gica do MDB em PMDB. Nas palavras da <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ln\/a\/b7QF485SjwwTvKmFxDcNCwg\/?lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">autora<\/a>, um &#8220;pacto conservador&#8221; resultou na forma\u00e7\u00e3o do &#8220;partido-\u00f4nibus&#8221;: <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>&#8220;Aren\u00e3o&#8221; redivivo. Afinal, que&nbsp;<\/em>revival<em>&nbsp;maldito ronda o atual PMDB? Por que se lembram da UDN de t\u00e3o triste mem\u00f3ria, por que desenterram a Arena, pior ainda? Para entender as cr\u00edticas \u0097 e, quem sabe, exorcizar as pragas \u0097 seria preciso voltar \u00e0s origens do MDB, bem como tentar desvendar poss\u00edveis semelhan\u00e7as entre o PMDB e a falecida UDN.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Eleito presidente, o senador Fernando Henrique, representante do estado de S\u00e3o Paulo, usou a tribuna para se despedir do Congresso em dezembro de 1994. Seu compromisso era continuar uma \u201cagenda de reformas pol\u00edticas\u201d que encerraria o ciclo de uma transi\u00e7\u00e3o que durou de 1979 a 1994. De acordo com o texto lido, a elei\u00e7\u00e3o, sem sectarismos partid\u00e1rios, seria a comprova\u00e7\u00e3o do \u201cfim da jornada da transi\u00e7\u00e3o\u201d, que resultaria em uma \u201cdemocracia moderna\u201d e com estabilidade econ\u00f4mica. Um trecho do discurso foi intitulado \u201cO fim da Era Vargas\u201d, pois, para FHC, o \u201cautoritarismo\u201d era \u201cuma p\u00e1gina virada na Hist\u00f3ria do Brasil\u201d. Restaria, contudo, atacar os \u201cpadr\u00f5es de protecionismo e intervencionismo estatal\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>um peda\u00e7o do nosso passado pol\u00edtico que ainda atravanca o presente e retarda o avan\u00e7o da sociedade. Refiro-me ao legado da Era Vargas \u2013 ao seu modelo de desenvolvimento aut\u00e1rquico e ao seu Estado intervencionista<\/em><a href=\"#_ftnref2(abrir em uma nova aba)\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">[1]<\/a><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">[1]<\/a> Para quem tiver interesse, no link \u00e9 poss\u00edvel conferir a transcri\u00e7\u00e3o do discurso no Senado: <a href=\"http:\/\/www.biblioteca.presidencia.gov.br\/publicacoes-oficiais\/catalogo\/fhc\/discurso-de-despedida-do-senado-federal-1994\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/www.biblioteca.presidencia.gov.br\/publicacoes-oficiais\/catalogo\/fhc\/discurso-de-despedida-do-senado-federal-1994 <\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A reforma \u2013 ou moderniza\u00e7\u00e3o \u2013 do Estado nunca saiu da pauta do PSDB, em sua agenda permanente para desestatiza\u00e7\u00e3o da economia e da abertura para aumentar a concorr\u00eancia, sem esquecer a cr\u00edtica contundente ao corporativismo e aos privil\u00e9gios que distorcem a distribui\u00e7\u00e3o de renda. Em suma, o Estado produtor seria substitu\u00eddo pelo Estado regulador, preocupado em eliminar as \u201crestri\u00e7\u00f5es anacr\u00f4nicas ao investimento estrangeiro\u201d. Pularei 20 anos nos cap\u00edtulos da Sexta Rep\u00fablica para chegar a um discurso de novembro de 2014. O senador mineiro A\u00e9cio Neves discursou no Congresso ap\u00f3s ser derrotado nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais. Ainda o samba de uma nota s\u00f3:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Defendi a retomada das reformas para modernizar a nossa economia e retir\u00e1-la da paralisia em que o atual Governo a colocou.[&#8230;] Advoguei, em todas as partes do Brasil, a necessidade da maior participa\u00e7\u00e3o do investimento privado na constru\u00e7\u00e3o da infraestrutura, para que deix\u00e1ssemos de ser aprisionados por uma vis\u00e3o ideol\u00f3gica, estatizante e ultrapassada.[&#8230;] E propus a reaproxima\u00e7\u00e3o do Brasil com o resto do mundo, ao qual demos as costas, nos \u00faltimos anos, ao priorizar as parcerias com governos ideologicamente alinhados<\/em><a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">[2]<\/a> Para quem tiver interesse, no link \u00e9 poss\u00edvel conferir a transcri\u00e7\u00e3o do discurso no Senado: <a href=\"https:\/\/www25.senado.leg.br\/web\/atividade\/pronunciamentos\/-\/p\/texto\/409754\">https:\/\/www25.senado.leg.br\/web\/atividade\/pronunciamentos\/-\/p\/texto\/409754<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Evidentemente, pouca importa \u00e0 c\u00fapula dos partidos do Centr\u00e3o um debate sobre o impacto das organiza\u00e7\u00f5es criminosas, com armas dispon\u00edveis, nos resultados eleitorais. Tal tema n\u00e3o comove lideran\u00e7as dos partidos que se interessam no bin\u00f4mio votos e cargos, com o \u00fanico objetivo de sempre estar perto dos n\u00facleos de poder no governo federal. Ignorar o permanente cen\u00e1rio de extrema viol\u00eancia durante as corridas eleitorais significa desluzir os poderes que financiam candidatos. O <em><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/07\/21\/politica\/1469053544_610983.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">El Pa\u00eds<\/a><\/em> publicou um mapeamento de figuras pol\u00edticas baleadas na Baixada Fluminense entre 2015 e 2016. O texto de Mar\u00eda Mart\u00edn, em 2016, analisou a conjuga\u00e7\u00e3o de for\u00e7as institucionais para elucidar nove execu\u00e7\u00f5es que ocorreram no per\u00edodo: <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>A Procuradoria Regional Eleitoral pediu que a Pol\u00edcia Federal participe das investiga\u00e7\u00f5es pela suspeita de que a morte de pelo menos dois desses vereadores e quatro pr\u00e9-candidatos se tratem de crimes pol\u00edticos.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>As legendas pendulares, que definem os gastos dos recursos indepentemente da bandeira ideol\u00f3gica do incumbente no Executivo, acompanham as tend\u00eancias das mar\u00e9s. At\u00e9 mesmo ap\u00f3s um maremoto, como a provocada pela base bolsonarista em 2018. Para explicar a &#8220;utopia reacion\u00e1ria&#8221; de um presidente que assume um &#8220;sentimento antissistema&#8221;, <a href=\"https:\/\/inteligencia.insightnet.com.br\/a-utopia-reacionaria-do-governo-bolsonaro-2018-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Christian Lynch<\/a> encontrou em 2015, no in\u00edcio do fim do governo Dilma, a g\u00eanese de<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>&nbsp;uma vasta coaliz\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o de liberais e conservadores. Diante da incapacidade de autorreforma do sistema pol\u00edtico, emergiu, dentro do Poder Judici\u00e1rio e do Minist\u00e9rio P\u00fablico, uma \u201cvanguarda\u201d de ju\u00edzes federais e procuradores disposta a derrubar a situa\u00e7\u00e3o social-democrata, aproveitando a investiga\u00e7\u00e3o contra a corrup\u00e7\u00e3o. Esse \u201cjudiciarismo\u201d de \u00edndole liberal e ret\u00f3rica republicana (o \u201clavajatismo\u201d) se legitimou como uma forma \u201cdemocr\u00e1tica\u201d de regenerar a Rep\u00fablica, pela mera aplica\u00e7\u00e3o destemida da lei por um grupo de patri\u00f3ticos operadores jur\u00eddicos.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Alguns cap\u00edtulos depois, no pleito de 2020, a principal caracter\u00edstica foi a vit\u00f3ria daqueles personagens j\u00e1 conhecidos do eleitorado, os pol\u00edticos profissionais. Alguns vencedores j\u00e1 haviam exercido o cargo, como em Bel\u00e9m, outros eram herdeiros de fam\u00edlias poderosas na pol\u00edtica local, como em S\u00e3o Paulo. Seria uma resposta ao fen\u00f4meno eleitoral de 2018? Fim do maremoto da &#8220;nova pol\u00edtica&#8221;? Um candidato derrotado afirmou, em entrevista publicada na <em>Folha<\/em> em 2018, que o fracasso dos novatos resultaria no retorno dos <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2018\/12\/se-o-modelo-eleito-de-extremos-falhar-vao-chamar-os-politicos-diz-marcio-franca.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pol\u00edticos profissionais<\/a> pois, com o ocaso da &#8220;nova pol\u00edtica&#8221;, os eleitores e as lideran\u00e7as partid\u00e1rias &#8220;v\u00e3o chamar quem tem um pouco mais de sobreviv\u00eancia&#8221;. Gabriela Caesar publicou no <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/eleicoes\/2020\/eleicao-em-numeros\/noticia\/2020\/11\/30\/29-partidos-conseguem-eleger-prefeitos-nestas-eleicoes-10-maiores-siglas-concentram-81percent-das-prefeituras-conquistadas.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">G1 <\/a>alguns infogr\u00e1ficos que explicitam o \u00eaxito eleitoral dos principais partidos em 2020, quando 29 partidos conquistaram vit\u00f3rias nas elei\u00e7\u00f5es para o executivo municipal. <\/p>\n\n\n\n<p>Uma m\u00e1quina do tempo seria quase in\u00fatil para entender a repetitiva pol\u00edtica brasileira. Them\u00edstocles Cavalcanti, ent\u00e3o presidente do Instituto de Direito P\u00fablico e Ci\u00eancia Pol\u00edtica e diretor da Revista de Ci\u00eancia Pol\u00edtica, publicou no segundo volume desse peri\u00f3dico um esfor\u00e7o te\u00f3rico para conceituar &#8220;democracia&#8221;. Quero destacar o seguinte trecho do texto &#8220;A democracia como sistema pol\u00edtico&#8221;, de 1968: &#8220;o progresso das comunica\u00e7\u00f5es e as facilidades crescentes no uso dos processos fraudulentos s\u00e3o outros tantos fatores que trouxeram para a democracia uma fase de crise&#8221;. Den\u00fancias de fraude, compra de votos, oligopoliza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e bipolariza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria: esses quatro ingredientes  estiveram presentes nas elei\u00e7\u00f5es diretas desde 1945. E onde se situam as for\u00e7as pol\u00edticas do compadrio e do clientelismo? <\/p>\n\n\n\n<p>Em 24 de abril de 1995, no Painel da <em><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/1995\/4\/24\/brasil\/13.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Folha<\/a><\/em>, coluna assinada por Jos\u00e9 Roberto de Toledo e Gustavo Krieger, foi noticiada a &#8220;articula\u00e7\u00e3o&#8221; para a forma\u00e7\u00e3o de um novo partido. Nos bastidores, articulavam duas lideran\u00e7as do PFL: o vice-presidente Marco Maciel e o presidente da C\u00e2mara, Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es. A proposta era fundir PFL, PPR, PTB, PP, PL e parte do PMDB, formando assim uma frente apelidada jocosamente de Aren\u00e3o. Essa coaliz\u00e3o unificada em uma sigla partid\u00e1ria facilitaria, de acordo com esse plano, o caminho do governo de Fernando Henrique Cardoso para aprovar reformas no Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p>O partido Aren\u00e3o n\u00e3o saiu do papel. Em 2007, um formid\u00e1vel <em>rebranding<\/em> transformou o PFL em DEM. O partido sobreviveu politicamente, apesar de algumas cis\u00f5es, e desde 2019 se equilibra na corda bamba apenas para n\u00e3o se afirmar como governista. Em 2020, os partidos PP, PSD, DEM e PL venceram em 2148 munic\u00edpios, cerca de 39% do total. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Capital<\/strong><\/td><td><strong>Vencedor no 1\u00ba turno<\/strong><\/td><td><strong>2\u00ba colocado<\/strong><\/td><td><strong>Eleito no 2\u00ba turno<\/strong><\/td><td><strong>Vencedor buscou reelei\u00e7\u00e3o ou apoio da situa\u00e7\u00e3o ?<\/strong><\/td><\/tr><tr><td>S\u00e3o Paulo<\/td><td>PSDB<\/td><td>PSOL<\/td><td>PSDB<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Rio de Janeiro<\/td><td>DEM<\/td><td>Republicanos<\/td><td>DEM<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Salvador<\/td><td>DEM<\/td><td>PT<\/td><td>X<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Fortaleza<\/td><td>PDT<\/td><td>PROS<\/td><td>PDT<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Belo Horizonte<\/td><td>PSD<\/td><td>PRTB<\/td><td>X<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Manaus<\/td><td>PODE<\/td><td>Avante<\/td><td>Avante<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Curitiba<\/td><td>DEM<\/td><td>PDT<\/td><td>X<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Recife<\/td><td>PSB<\/td><td>PT<\/td><td>PSB<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Goi\u00e2nia<\/td><td>MDB<\/td><td>PSD<\/td><td>MDB<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Bel\u00e9m<\/td><td>PSOL<\/td><td>Patriota<\/td><td>PSOL<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Porto Alegre<\/td><td>MDB<\/td><td>PC do B<\/td><td>MDB<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>S\u00e3o Luis<\/td><td>PODE<\/td><td>Republicanos<\/td><td>PODE<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Macei\u00f3<\/td><td>MDB<\/td><td>PSB<\/td><td>PSB<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Campo Grande<\/td><td>PSDB<\/td><td>Avante<\/td><td>X<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Natal<\/td><td>PSDB<\/td><td>PT<\/td><td>X<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Teresina<\/td><td>MDB<\/td><td>PSDB<\/td><td>MDB<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Jo\u00e3o Pessoa<\/td><td>PP<\/td><td>MDB<\/td><td>PP<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Aracaju<\/td><td>PDT<\/td><td>Cidadania<\/td><td>PDT<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Cuiab\u00e1<\/td><td>PODE<\/td><td>MDB<\/td><td>MDB<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Porto Velho<\/td><td>PSDB<\/td><td>PP<\/td><td>PSDB<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Florian\u00f3polis<\/td><td>DEM<\/td><td>PSOL<\/td><td>X<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Boa Vista<\/td><td>MDB<\/td><td>SD<\/td><td>MDB<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Rio Branco<\/td><td>PP<\/td><td>PSB<\/td><td>PP<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Vit\u00f3ria<\/td><td>Republicanos<\/td><td>PT<\/td><td>Republicanos<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Palmas<\/td><td>PSDB<\/td><td>PROS<\/td><td>X<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><figcaption><em>Partidos vitoriosos nas elei\u00e7\u00f5es de 2020 &#8211; capitais. O &#8220;X&#8221; sinaliza que houve vit\u00f3ria no primeiro turno. <\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table is-style-regular\"><table><tbody><tr><td><strong>Capital<\/strong><\/td><td><strong>Vencedor no 1\u00ba turno<\/strong><\/td><td><strong>Vencedor buscou reelei\u00e7\u00e3o ou <strong>apoio da situa\u00e7\u00e3o<\/strong>?<\/strong><\/td><td><strong>Curr\u00edculo do candidato ou v\u00ednculo familiar<\/strong><\/td><\/tr><tr><td>S\u00e3o Paulo<\/td><td>PSDB<\/td><td>Sim<\/td><td>Neto de M\u00e1rio Covas, vice-prefeito eleito em 2016.<\/td><\/tr><tr><td>Rio de Janeiro<\/td><td>DEM<\/td><td>N\u00e3o<\/td><td>Prefeito de 2009 a 2016.<\/td><\/tr><tr><td>Salvador<\/td><td>DEM<\/td><td>Sim<\/td><td>Vice-prefeito eleito em 2016.<\/td><\/tr><tr><td>Fortaleza<\/td><td>PDT<\/td><td>Sim<\/td><td>Presidente da Assembleia Legislativa (2019-2020).<\/td><\/tr><tr><td>Belo Horizonte<\/td><td>PSD<\/td><td>Sim<\/td><td>Empres\u00e1rio do ramo de engenharia. Eleito para primeiro mandato em 2016.<\/td><\/tr><tr><td>Manaus<\/td><td>PODE<\/td><td>N\u00e3o<\/td><td>Governador interino (2017) e presidente da Assembleia Legislativa (2017-2019).<\/td><\/tr><tr><td>Curitiba<\/td><td>DEM<\/td><td>Sim<\/td><td>Prefeito de 1993 a 1997. Eleito novamente em 2016.<\/td><\/tr><tr><td>Recife<\/td><td>PSB<\/td><td>Sim<\/td><td>Deputado federal, filho de Eduardo Campos e bisneto de Miguel Arraes.<\/td><\/tr><tr><td>Goi\u00e2nia<\/td><td>MDB<\/td><td>Sim<\/td><td>Prefeito de Aparecida de Goi\u00e2nia de 2009 a 2017, governador de 1995 a 1998 e vice-governador de 1991 a 1994 de Goi\u00e1s.<\/td><\/tr><tr><td>Bel\u00e9m<\/td><td>PSOL<\/td><td>N\u00e3o<\/td><td>Prefeito de Bel\u00e9m de 1997 a 2005.<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><figcaption><em>Partidos vitoriosos nas elei\u00e7\u00f5es de 2020 &#8211; 10 capitais com maior popula\u00e7\u00e3o.<\/em> <em>A \u00faltima coluna apresenta um breve resumo do curr\u00edculo dos vencedores apenas para corroborar a hip\u00f3tese do texto.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A fragmenta\u00e7\u00e3o, no atual contexto, beneficia o Centr\u00e3o. Essas duas tabelas comprovam que a maior parte do eleitorado, residente nas grandes capitais, experimentar\u00e1 uma onda do avan\u00e7o dos partidos desse universo partid\u00e1rio. No Simp\u00f3sio Direitas Brasileiras, em 2017, <a href=\"https:\/\/bibliotecadigital.tse.jus.br\/xmlui\/handle\/bdtse\/5895\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Rafael Mucinhato <\/a> pontuou que o per\u00edodo antecedente \u00e0s elei\u00e7\u00f5es (indiretas) de 1985 teve como marca a pulveriza\u00e7\u00e3o de siglas. Em seu texto, o pesquisador demarcou o seguinte processo de &#8220;areniza\u00e7\u00e3o&#8221;, um &#8220;encontro com a velha direita&#8221;: <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Esse espalhamento e \u201cinfiltra\u00e7\u00e3o\u201d de ex-membros da Arena em partidos pol\u00edticos que n\u00e3o eram seus suced\u00e2neos diretos (no caso o PDS e o PFL), um processo que no caso do PMDB foi chamado por parte de seus pol\u00edticos de \u201careniza\u00e7\u00e3o do partido\u201d, tamb\u00e9m foi notado por alguns membros do PSDB quando este chega ao governo em 1994.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Se, entre as crises de 2013 e 2018, &#8220;mudan\u00e7a&#8221; era o substantivo que regia a busca pela &#8220;nova&#8221; pol\u00edtica, os fluxos mais recentes indicam o retorno dos verbetes &#8220;experi\u00eancia&#8221;, &#8220;confian\u00e7a&#8221;, &#8220;continuidade&#8221; ou &#8220;estabilidade&#8221;. Importa menos a an\u00e1lise sem\u00e2ntica do que apurar a tend\u00eancia: os profissionais do varejo pol\u00edtico aproveitaram o refluxo da onda &#8220;renovadora&#8221; para consolidar o seu protagonismo.<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Ele era, no in\u00edcio da carreira, apenas uma celebridade da TV que fazia uma parte da popula\u00e7\u00e3o rir. Antes de virar presidente, praticava o mesmo <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2021\/07\/13\/centrao-ou-arenao\/\" title=\"Centr\u00e3o ou aren\u00e3o?\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":69,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-567","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas-academicas"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/567","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/users\/69"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=567"}],"version-history":[{"count":31,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/567\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":600,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/567\/revisions\/600"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=567"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=567"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=567"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}