{"id":632,"date":"2024-06-01T21:17:45","date_gmt":"2024-06-02T00:17:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/?p=632"},"modified":"2024-06-08T18:50:56","modified_gmt":"2024-06-08T21:50:56","slug":"burburinhos-nas-estantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2024\/06\/01\/burburinhos-nas-estantes\/","title":{"rendered":"Burburinhos nas estantes"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Entre a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia, passei boa parte do meu tempo transitando da escola para uma biblioteca. Durante muitos anos, eu ia estudar na Biblioteca Estadual Celso Kelly, atualmente denominada Biblioteca Parque. Na fase de escolha para o vestibular, tornou-se uma op\u00e7\u00e3o bastante plaus\u00edvel ingressar em algum curso das Humanidades. Esse processo de forma\u00e7\u00e3o, de alguma forma, condicionou minha forma de interpretar as Ci\u00eancias Sociais.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Quando eu era um pr\u00e9-adolescente na Biblioteca Celso Kelly, no sil\u00eancio de um espa\u00e7o que ainda contrasta com o caos da Avenida Presidente Vargas, ficava impressionado com a organiza\u00e7\u00e3o das estantes. E, no fluxo de visitantes, havia gente que ia estudar, devolver livros, dormir, entre outros usos poss\u00edveis da biblioteca situada na regi\u00e3o central da capital fluminense. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"> <span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Em janeiro de 1984, um inc\u00eandio destruiu parte do acervo e interditou por alguns anos o acesso do p\u00fablico ao pr\u00e9dio. O governo estadual fluminense anunciou em agosto do mesmo ano a parceria com o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) para o concurso do projeto da nova sede da biblioteca. Enquanto as consultas estavam suspensas, o acervo foi transferido para o antigo pr\u00e9dio da UERJ, situado na Rua Fonseca Teles, S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. Essa hist\u00f3ria contarei em outra postagem, pois quando conheci a biblioteca estadual, no in\u00edcio dos anos 2000, j\u00e1 havia sido constru\u00edda a nova sede.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Essa introdu\u00e7\u00e3o serve apenas para explicar minha permanente curiosidade com o sil\u00eancio dos corredores das bibliotecas. Durante o per\u00edodo de pesquisa na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, as estantes com livros registrados com o c\u00f3digo de assunto 390 foram as mais consultadas por mim. A disposi\u00e7\u00e3o dos livros no espa\u00e7o de consulta revela implicitamente o prest\u00edgio das \u00e1reas. Os corredores silenciosos das bibliotecas se transformam quando florescem controv\u00e9rsias nas Ci\u00eancias Humanas. Estudantes, ent\u00e3o, se apressam para consultar as novas tend\u00eancias, encontrando os livros esquecidos que podem novamente despertar interesse. Em diferentes ocasi\u00f5es, tentei organizar essa ideia, sintetizada em duas met\u00e1foras: \u201cestantes silenciosas\u201d e \u201ccorredores vazios\u201d. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Durante as minhas visitas \u00e0 biblioteca do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Unicamp, sempre ficava surpreso quando via algu\u00e9m perto dos livros catalogados com o c\u00f3digo 390 da Classifica\u00e7\u00e3o Decimal de Dewey (CDD). Entre 2018 e 2019,\u00a0 consultei frequentemente a estante da classifica\u00e7\u00e3o 398, para livros sobre folclores, costumes e lendas, e ao me deparar com outro consulente sempre aumentava a minha curiosidade. Quais as outras pessoas interessadas nos estudos de folclore? Quais livros procuravam na biblioteca? <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Por causa da escrita da tese, precisei passar um bom tempo na Biblioteca Mercedes Reis Pequeno, situada na sede da Academia Brasileira de M\u00fasica. Em quase todas as minhas visitas, eu era o \u00fanico consulente, passava todo o tempo da consulta perto da bibliotec\u00e1ria, sempre pedindo orienta\u00e7\u00f5es sobre o acervo. Esses relatos, embora fragmentados, justificam o meu fasc\u00ednio pelos livros pouco consultados. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Na condi\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rio de bibliotecas, sempre me interessou analisar as pol\u00edticas que organizam esse servi\u00e7o. Em 1992, o<\/span><\/span><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\"> Decreto Presidencial N\u00ba 520 instituiu o Sistema Nacional de Bibliotecas P\u00fablicas. <\/span><\/span><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Entre os objetivos para a implementa\u00e7\u00e3o do SNBP figuram o incentivo aos servi\u00e7os bibliotec\u00e1rios em todo o pa\u00eds e a melhoria do funcionamento da rede de bibliotecas, que deveriam atuar como centros de a\u00e7\u00e3o cultural e educacional.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">O <\/span><\/span><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Jornal da USP publicou em <a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/atualidades\/desmonte-das-bibliotecas-publicas-evidencia-o-desinvestimento-cultural-e-educacional-no-brasil\/\">2022<\/a>, <\/span><\/span><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">30 anos ap\u00f3s a assinatura do Decreto Presidencial N\u00ba 520,<\/span><\/span><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\"> um texto <\/span><\/span><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">sobre o desinvestimento nas bibliotecas p\u00fablicas, com entrevistas gravadas pela R\u00e1dio USP. De acordo com o levantamento do SNBP, conclu\u00eddo em 2021, existiam 5293 bibliotecas p\u00fablicas, al\u00e9m das escolares, das universit\u00e1rias, das especializadas e das comunit\u00e1rias. A biblioteca p\u00fablica, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 um equipamento cultural mantido por um dos tr\u00eas n\u00edveis de administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica (munic\u00edpios, estados ou governo federal), seu acervo \u00e9 heterog\u00eaneo para atender diferentes tipos de leitura e de usu\u00e1rios. <\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Com os dados do IBGE, extra\u00eddos da Pesquisa de Informa\u00e7\u00f5es B\u00e1sicas Municipais, preparei um quadro para comparar o percentual de munic\u00edpios com tr\u00eas tipos de equipamentos culturais entre 1999 e 2021.\u00a0<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Quadro: percentual de munic\u00edpios brasileiros com os equipamentos culturais entre 1999 e 2021<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<table style=\"height: 240px\" width=\"598\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"4\">\n<tbody>\n<tr valign=\"top\">\n<td width=\"25%\"><\/td>\n<td width=\"25%\">\n<p align=\"center\">1999<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"25%\">\n<p align=\"center\">2009<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"25%\">\n<p align=\"center\">2021<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr valign=\"top\">\n<td width=\"25%\">\n<p align=\"justify\">Museus<\/p>\n<\/td>\n<td style=\"text-align: center\" width=\"25%\">15,5%<\/td>\n<td style=\"text-align: center\" width=\"25%\">23,3%<\/td>\n<td style=\"text-align: center\" width=\"25%\">29,6%<\/td>\n<\/tr>\n<tr valign=\"top\">\n<td width=\"25%\">\n<p align=\"justify\">Bibliotecas P\u00fablicas<\/p>\n<\/td>\n<td style=\"text-align: center\" width=\"25%\">76,3%<\/td>\n<td style=\"text-align: center\" width=\"25%\">93,2%<\/td>\n<td style=\"text-align: center\" width=\"25%\">88,3%<\/td>\n<\/tr>\n<tr valign=\"top\">\n<td style=\"text-align: center\" width=\"25%\">\n<p align=\"justify\">Livrarias<\/p>\n<\/td>\n<td style=\"text-align: center\" width=\"25%\">35,5%<\/td>\n<td style=\"text-align: center\" width=\"25%\">28%<\/td>\n<td style=\"text-align: center\" width=\"25%\">15%<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">\u00c9 ineg\u00e1vel a crise do impresso que afetou o mercado livreiro. Ademais, os burburinhos das controv\u00e9rsias nas Humanidades tamb\u00e9m foram digitalizados. Em uma livraria, o <em>best seller<\/em> sempre ocupa lugar de destaque, mas as prateleiras est\u00e3o repletas de outras op\u00e7\u00f5es para os clientes. Qualquer pesquisador da \u00e1rea de Humanidade vive cercado de livros, por\u00e9m raramente somos estimulados a pensar em quest\u00f5es como a constru\u00e7\u00e3o material do artefato (escolhas tipogr\u00e1ficas, por exemplo) ou como as categorias classificat\u00f3rias (formuladas de acordo com o CDD) influenciam a nossa sele\u00e7\u00e3o ao caminhar pelos corredores das bibliotecas. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Desde a minha entrada na gradua\u00e7\u00e3o, vi algumas tend\u00eancias que mobilizaram cientistas sociais no mercado das ideias, mesmo que tardiamente as quest\u00f5es tenham aparecido nos circuitos intelectuais do Brasil: debates p\u00f3s-coloniais, judiciariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, politiza\u00e7\u00e3o do judici\u00e1rio, crise da democracia, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, trabalho plataformizado, a mat\u00e9ria escolar Sociologia no ensino m\u00e9dio, etc. Todos esses temas correspondem a problemas sociais, pol\u00edticos e econ\u00f4micos que interessam a quem olha as mudan\u00e7as sociais com uma lupa. Como consequ\u00eancia, nas estantes com livros impressos e nas bibliotecas digitais reverberam mais frequentemente os assuntos do momento. At\u00e9 a moda passar. Mesmo nos seus corredores vazios, as bibliotecas p\u00fablicas, assim como as universit\u00e1rias, registram as tend\u00eancias de uma \u00e9poca, os livros que foram obrigat\u00f3rios ou cl\u00e1ssicos para um determinado p\u00fablico mas que perderam o seu prest\u00edgio.\u00a0<\/span><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Entre a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia, passei boa parte do meu tempo transitando da escola para uma biblioteca. 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