{"id":636,"date":"2024-06-08T01:20:31","date_gmt":"2024-06-08T04:20:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/?p=636"},"modified":"2024-06-08T01:30:15","modified_gmt":"2024-06-08T04:30:15","slug":"incendio-no-verao-de-1984","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2024\/06\/08\/incendio-no-verao-de-1984\/","title":{"rendered":"Inc\u00eandio no ver\u00e3o de 1984"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Na \u00faltima <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2024\/06\/01\/burburinhos-nas-estantes\/\">postagem<\/a> deste blog, escrevi brevemente sobre a minha rela\u00e7\u00e3o com a Biblioteca Estadual Celso Kelly. \u00c0 medida que eu descobria novas informa\u00e7\u00f5es sobre aquele pr\u00e9dio, aumentava a minha pretens\u00e3o de relatar as consequ\u00eancias do inc\u00eandio ocorrido em 1984. A gera\u00e7\u00e3o nascida no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 testemunhou alguns desastres nos edif\u00edcios p\u00fablicos do Rio de Janeiro. Houve o alagamento da Biblioteca Nacional (2012\/2016), o inc\u00eandio do Museu Nacional (2018), o abandono das obras do Museu da Imagem e do Som, obra cuja pedra fundamental foi lan\u00e7ada em janeiro de 2010 e hoje sobraram apenas escombros em Copacabana. Em S\u00e3o Paulo, um laborat\u00f3rio do Butantan foi atingido por um inc\u00eandio (2010), outras chamas destru\u00edram um audit\u00f3rio no Memorial da Am\u00e9rica Latina (2013) e o Museu da L\u00edngua Portuguesa (2015).<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Restringi a lista a alguns incidentes nas duas maiores cidades do pa\u00eds. Antes de todos esses acontecimentos tr\u00e1gicos, a biblioteca estadual, situada na Avenida Presidente Vargas, sofreu um inc\u00eandio em janeiro de 1984. A partir desse ver\u00e3o, o acervo da biblioteca passou por in\u00fameras intemp\u00e9ries. O fogo consumiu parte do acervo e o que foi preservado foi transferido para um pr\u00e9dio da UERJ. A obra de reinaugura\u00e7\u00e3o distanciou o p\u00fablico da biblioteca por tr\u00eas anos (janeiro de 1984 a mar\u00e7o de 1987). <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Heloisa Tolipan publicou, no <em>Jornal do Brasil<\/em>, a reportagem \u201cBiblioteca Nacional sofre com consultas fora do seu objetivo\u201d no dia 2 de mar\u00e7o de 1986. Segundo a diretora Maria Alice Barroso, houve aumento da demanda dos usu\u00e1rios por causa do encerramento das atividades de duas bibliotecas: a Demonstrativa Castro Alves e a Estadual Celso Kelly, ambas situadas na regi\u00e3o central da capital fluminense.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">A Biblioteca Demonstrativa fechou as portas para o p\u00fablico quando a Associa\u00e7\u00e3o dos Servidores Civis do Brasil (ASCB) pediu o espa\u00e7o que havia cedido. O texto da reportagem explicava que o munic\u00edpio do Rio ainda mantinha 20 bibliotecas regionais e duas volantes, com acervo circulando dentro de \u00f4nibus, al\u00e9m das bibliotecas escolares e municipais. A \u00fanica biblioteca p\u00fablica estadual na cidade do Rio era a Celso Kelly. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Ao estudar a hist\u00f3ria das organiza\u00e7\u00f5es das bibliotecas, especialmente o financiamento e as classifica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, revela-se pelas frestas a rela\u00e7\u00e3o entre conhecimento e poder. Fruto de conv\u00eanio entre a ASCB e o Instituto Nacional do Livro, a biblioteca foi inaugurada no pr\u00e9dio do IPASE, situado a poucos metros da Biblioteca Nacional. A institui\u00e7\u00e3o foi inaugurada no \u00e2mbito das comemora\u00e7\u00f5es pelo nascimento do poeta Castro Alves (1847-1947). Em contraste com sua vizinha mais famosa, a Biblioteca Demonstrativa permitia o livre acesso dos usu\u00e1rios \u00e0s estantes. Tamb\u00e9m havia permiss\u00e3o para o leitor levar o livro para casa, no regime do empr\u00e9stimo tempor\u00e1rio. Em 1948, a se\u00e7\u00e3o de adultos registrou 21.737 leitores. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">O cineasta Humberto Mauro, em 1956, dirigiu o curta-metragem institucional &#8220;Biblioteca Demonstrativa Castro Alves: uma biblioteca modelo&#8221;, financiado pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo e pelo Instituto Nacional do Livro. <\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Este <a href=\"http:\/\/www.bcc.org.br\/filmes\/443430\">filme<\/a>, P&amp;B e com dura\u00e7\u00e3o de 10 minutos e 30 segundos, foi disponibilizado no Banco de Conte\u00fados Culturais da Cinemateca Brasileira. O discurso do prof. H\u00e9lio Gomes Machado, diretor da se\u00e7\u00e3o de Bibliotecas do INL, sumariza alguns pontos que destacarei a seguir:<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">&#8211; esse tipo de institui\u00e7\u00e3o era parte do movimento de cria\u00e7\u00e3o de novas bibliotecas,<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">&#8211; o objetivo era dissemina\u00e7\u00e3o do livro entre as camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o brasileira;<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">&#8211; a biblioteca modela deveria ser sempre situada em regi\u00e3o central das cidades, com mobili\u00e1rio funcional e ambiente confort\u00e1vel;<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">&#8211; heterogeneidade do acervo permitiria atingir diferentes tipos de p\u00fablico;<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">&#8211; a cria\u00e7\u00e3o de se\u00e7\u00f5es infantis e juvenis dentro da biblioteca ampliaria a circula\u00e7\u00e3o de livros e de leitores;<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">&#8211; a exist\u00eancia de um audit\u00f3rio facilitaria a organiza\u00e7\u00e3o de programa\u00e7\u00e3o cultural;<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">&#8211; devido ao manuseio dos volumes, era imprescind\u00edvel a encaderna\u00e7\u00e3o para qualquer livro brochura;<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">&#8211; por fim, a organiza\u00e7\u00e3o das fichas catalogr\u00e1ficas facilitaria a consulta no arm\u00e1rio do fich\u00e1rio catalogr\u00e1fico.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">A poucos metros da Avenida Rio Branco, a Biblioteca Castro Alves era um ponto de refer\u00eancia para o p\u00fablico interessado em bibliotecas, especialmente os passantes da Cinel\u00e2ndia e do Castelo. Situada ao lado do Campo de Santana e da zona comercial conhecida como SAARA, tamb\u00e9m Biblioteca Estadual sobreviveu aos desafios de manuten\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o p\u00fablico para leitura. Em \u00e1rea pr\u00f3xima \u00e0 esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria Central do Brasil, ao Comando Militar do Leste e ao Pal\u00e1cio Itamaraty, o fluxo de pessoas nas cercanias do pr\u00e9dio sempre foi intenso. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Em 12 de mar\u00e7o de 1987, o Caderno B do <em>Jornal do Brasil<\/em> noticiou a inaugura\u00e7\u00e3o da nova sede da Biblioteca Estadual Celso Kelly, usando um t\u00edtulo bastante adequado: \u201cBiblioteca P\u00fablica pronta a toque de caixa\u201d. O texto assim descrevia o projeto assinado pelo arquiteto Glauco Campello: &#8220;inspirada nas concep\u00e7\u00f5es mais modernas de bibliotecas, como o c\u00e9lebre Beaubourg parisiense, a Biblioteca Estadual contar\u00e1 com um amplo sistema de computa\u00e7\u00e3o&#8221;, um espa\u00e7o com &#8220;linhas modernas&#8221; e &#8220;farta luz natural invadindo os amplos sal\u00f5es\u201c.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">No suplemento dominical, em 14 de junho de 1987, o mesmo <em>Jornal do Brasil<\/em> repercutiu a presen\u00e7a do p\u00fablico na sede da biblioteca situada na Avenida Presidente Vargas. A capa, com espa\u00e7o dedicado principalmente \u00e0 confusa conjuntura da redemocratiza\u00e7\u00e3o, destacava as incertezas da tabela de pre\u00e7os congelados pela Superintend\u00eancia Nacional do Abastecimento (Sunab) e as tens\u00f5es nas comiss\u00f5es da Constituinte, sobretudo os dilemas relacionados \u00e0 reforma agr\u00e1ria. O texto de Cl\u00e1udio Figueiredo, com fotos de Vantoen Jr., foi escrito a partir da premissa que aquele era um \u201cambiente democr\u00e1tica de cultura\u201d. Como informava ao p\u00fablico: \u201co Rio j\u00e1 tem sua biblioteca moderna inspirada no Centro Georges Pompidou\u201d. Nas palavras da ent\u00e3o diretora, Ana Ligia Medeiros, o objetivo era a \u201cdessacraliza\u00e7\u00e3o do livro\u201d, contraponto n\u00edtido ao modelo de consulta da Biblioteca Nacional.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">Inaugurado no final do primeiro governo Brizola (1983-1987), o pr\u00e9dio foi aberto ao p\u00fablico com obras inacabadas, nem todo o acervo de 100 mil obras havia sido transferido a tempo. O sucessor no cargo de governador, Moreira Franco, assumiu em mar\u00e7o de 1987. Nos primeiros meses de funcionamento, a nova biblioteca recebia cerca de 1500 visitantes por dia, chamando aten\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do acervo de impressos, o setor dedicado ao audiovisual. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">De acordo com o renomado antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro, vice-governador e Secret\u00e1rio de Ci\u00eancia e Educa\u00e7\u00e3o do mandato do governador Brizola, o projeto abrangeria a coordena\u00e7\u00e3o de todas as bibliotecas situadas nos Centros Integrados de Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica (CIEPs). Para o idealizador, a nova biblioteca seria \u201co maior sal\u00e3o de leituras do mundo\u201d. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial\"><span style=\"font-size: small\">O inc\u00eandio ocorreu h\u00e1 40 anos, mas os dilemas das bibliotecas p\u00fablicas permanecem na forma\u00e7\u00e3o do p\u00fablico leitor do Brasil. De outubro de 2008 a mar\u00e7o de 2014, em nova fase de obras, a biblioteca fechou para uma reformula\u00e7\u00e3o da sua concep\u00e7\u00e3o. Reaberta poucos meses antes da Copa do Mundo, a institui\u00e7\u00e3o passou a ser denominada Biblioteca Parque do Rio de Janeiro, atualmente sob administra\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o privada Instituto de Desenvolvimento e Gest\u00e3o (IDG). N\u00e3o lembro quando ocorreu minha \u00faltima visita, embora tenha passado v\u00e1rias vezes em frente \u00e0 biblioteca desde a reinaugura\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/span><\/span><\/p>\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Na \u00faltima postagem deste blog, escrevi brevemente sobre a minha rela\u00e7\u00e3o com a Biblioteca Estadual Celso Kelly. \u00c0 medida que eu descobria novas informa\u00e7\u00f5es sobre <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/2024\/06\/08\/incendio-no-verao-de-1984\/\" title=\"Inc\u00eandio no ver\u00e3o de 1984\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":69,"featured_media":32,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"editor_plus_copied_stylings":"{}","pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[6],"class_list":["post-636","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-labirintos-das-pesquisas","tag-dialogando-na-academia"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2016\/06\/2.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/636","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/users\/69"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=636"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/636\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":642,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/636\/revisions\/642"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=636"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=636"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/verticesociologico\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=636"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}