{"id":1061,"date":"2012-05-01T14:58:59","date_gmt":"2012-05-01T17:58:59","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/?p=1061"},"modified":"2012-05-01T14:58:59","modified_gmt":"2012-05-01T17:58:59","slug":"dialogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2012\/05\/01\/dialogo\/","title":{"rendered":"Di\u00e1logo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2012\/05\/IMG_1326.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1062\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2012\/05\/IMG_1326-545x409.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"409\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Meus amigos inteligentes, e eu tenho muitos, s\u00e3o uma constante fonte de inspira\u00e7\u00e3o para mim. Mas\u00a0 tamb\u00e9m de inquieta\u00e7\u00e3o. Uma inquieta\u00e7\u00e3o produtiva, como eu j\u00e1 descrevi <a title=\"Ostras felizes n\u00e3o fazem inova\u00e7\u00e3o\" href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2012\/03\/ostras-felizes-nao-fazem-inovacao\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse feriado prolongado chuvoso que termina hoje com a previs\u00e3o de sol para amanh\u00e3, eu tive que defender a ci\u00eancia em roda de samba e mesa de bar (s\u00f3 faltou est\u00e1dio de futebol, mas eu estava na mesa de bar vendo o jogo &#8211; sim, porque se o Vasco perdeu, ent\u00e3o a ta\u00e7a Rio n\u00e3o era final, porque n\u00e3o \u00e9 campeonato pra ter campe\u00e3o e vice &#8211; e n\u00e3o \u00e9 mesmo!) de amigos brilhantes mas que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o nerds quanto eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A quest\u00e3o \u00e9 simples: quanto tenho um argumento &#8216;cient\u00edfico&#8217; para uma discuss\u00e3o qualquer (como a que eu estava tendo domingo com o matem\u00e1tico Fernando Goldenberg na pra\u00e7a S\u00e3o Salvador, no Rio, sobre a forma\u00e7\u00e3o de comportamentos sociais a partir de instintos biol\u00f3gicos, enquanto as garrafas de Bohemia se empilhavam na mesa na mesma velocidade dos contra-ataques do Botafogo) me encho da for\u00e7a, da convic\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo da contund\u00eancia que um argumento cient\u00edfico proporciona (muitas vezes pelo menos). Bom, as vezes um pouco da arrog\u00e2ncia tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E foi com essa convic\u00e7\u00e3o que eu estava afirmando que, por mais que eu adore e seja f\u00e3 da psican\u00e1lise, n\u00e3o posso consider\u00e1-la uma ci\u00eancia. O conhecimento e o sucesso obtidos por essa pr\u00e1tica n\u00e3o obedecem os requisitos para serem considerados &#8216;cient\u00edficos&#8217; (basicamente, serem obtidos pelo &#8216;m\u00e9todo cient\u00edfico&#8217;). E por isso, essa pr\u00e1tica n\u00e3o pode ser considerada &#8216;ci\u00eancia&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Mas o que \u00e9 ci\u00eancia ent\u00e3o?&#8221;<\/em> perguntou o Fernando<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Ci\u00eancia \u00e9 o que voc\u00ea obt\u00e9m por um processo que, quando repetido ou replicado, alcan\u00e7a o mesmo resultado&#8221;<\/em> eu respondi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Mas isso ent\u00e3o exclui todas as ci\u00eancias sociais como ci\u00eancia&#8221;<\/em> ele retrucou<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Exatamente&#8221;<\/em> eu conclui, para desespero da minha amiga Alba Zaluar, caso ela venha a ler isto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas o Fernando, al\u00e9m de matem\u00e1tico, foi dono de bar (do Estephanio&#8217;s Bar na Tijuca, o melhor bar do mundo), o que o torna mestre, doutor PhD e pos-doc em sociologia, sociopatia, antropologia, antropofagia, antropomorfia e o que mais voc\u00ea quiser. E n\u00e3o se entrega f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Mas a verdade cient\u00edfica muda. Sempre mudou. O que \u00e9 verdade hoje n\u00e3o \u00e9 mais amanh\u00e3&#8221;<\/em> ele constatou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Sim, porque o m\u00e9todo cient\u00edfico aceita a incerteza.&#8221;<\/em> disse enquanto abria mais uma garrafa de Bohemia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Ent\u00e3o meu amigo, se o que voc\u00ea chama de ci\u00eancia aceita a incerteza, porque n\u00e3o podemos aceitar que as ci\u00eancias sociais, que s\u00e3o cheias de incerteza, tamb\u00e9m sejam ci\u00eancia?&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Touche!<\/strong> Nunca tinha pensado nisso. Ou melhor, tinha sim, lendo, no ano passado, um livro que peguei emprestado do pr\u00f3prio Fernando, e que j\u00e1 resenhei <a title=\"Terminei de ler\u2026 O \u00faltimo teorema de Fermat.\" href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2011\/06\/terminei_de_ler_o_ultimo_teore\/\">aqui: O \u00faltimo teorema de Fermat<\/a>. Nesse livro incr\u00edvel, que, al\u00e9m dde contar a epop\u00e9ia do ingl\u00eas Andrew Wiles na resolu\u00e7\u00e3o do maior problema do mundo, conta tamb\u00e9m uma excelente hist\u00f3ria da matem\u00e1tica, o autor discute logo no in\u00edcio do livro a quest\u00e3o da prova absoluta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Em matem\u00e1tica, o conceito de prova \u00e9 muito mais rigoroso e poderoso do que o que usamos em nosso dia-a-dia e at\u00e9 mesmo mais preciso do que o conceito de prova como entendido pelos f\u00edsicos e qu\u00edmicos. (&#8230;) <em>Os teoremas matem\u00e1ticos dependem deste processo l\u00f3gico, e uma vez demonstrados eles ser\u00e3o considerados verdade at\u00e9 o final dos tempos. <strong>A prova matem\u00e1tica \u00e9 absoluta.&#8221;<\/strong><\/em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como cientista, eu me treino, e treino os outros, para reconhecer, compreender, aceitar e finalmente lidar com a incerteza. E sei, portanto, que por causa dela, a prova cient\u00edfica nunca ser\u00e1 definitiva como a prova matem\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Aceite Mauro, s\u00f3 a Matem\u00e1tica pode ser chamada de ci\u00eancia!&#8221;<\/em> Um pavor tenebroso percorreu todo o meu corpo. Era o terceiro gol do Botafogo e sob o efeito do \u00e1lcool, que eu sou capaz de explicar ao n\u00edvel bioqu\u00edmico e molecular, um pilar das minhas certezas estava para ser demolido: teria eu de parar de chamar a biologia de ci\u00eancia? Tamb\u00e9m n\u00e3o me entregaria facilmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O que mais me incomodava no argumento do Fernando era o fato da matem\u00e1tica em si n\u00e3o ser uma &#8216;ci\u00eancia&#8217;. Quer dizer, \u00e9, mas h\u00e1 controv\u00e9rsias. Pelo menos na minha cabe\u00e7a. A matem\u00e1tica \u00e9 um sistema l\u00f3gico criado pelo homem. Ela tamb\u00e9m fornece um conjunto de ferramentas que s\u00e3o utilizadas pelas outras ci\u00eancias para explicar o mundo. O estudo desse sistema l\u00f3gico em si (a matem\u00e1tica) pode ser considerado uma ci\u00eancia (a \u00fanica capaz de dar provas absolutas) mas ela tamb\u00e9m \u00e9 a \u00fanica ci\u00eancia que usa as pr\u00f3prias ferramentas que constituem esse sistema l\u00f3gico para estud\u00e1-lo e explic\u00e1-lo. A matem\u00e1tica \u00e9, at\u00e9 certo ponto, no meu entender, um argumento circular. Isso era um argumento para contrapor qualquer afirmativa do Fernando, mas ainda assim, isso n\u00e3o retrucava o argumento dele, que nesse momento se deliciava com a cerveja gelada e com a minha angustia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Fernando, a diferen\u00e7a \u00e9 que a incerteza do que eu me permito chamar de &#8216;ci\u00eancia&#8217; est\u00e1 na &#8216;medi\u00e7\u00e3o&#8217;. S\u00e3o nossos sentidos e instrumentos que s\u00e3o imperfeitos e sujeitos a imprecis\u00f5es, n\u00e3o os objetos dos nossos estudos ou o sistema l\u00f3gico do m\u00e9todo cient\u00edfico. J\u00e1 nas ci\u00eancias sociais, a incerteza est\u00e1 justamente nesses objetos de estudo. Eu posso n\u00e3o saber a posi\u00e7\u00e3o e a velocidade de um el\u00e9tron, como diz o &#8216;principio da incerteza&#8217;, porque n\u00e3o tenho como usar nada menor do que um outro el\u00e9tron para fazer essa medi\u00e7\u00e3o e a intera\u00e7\u00e3o entre eles impede o registro perfeito ou completo das vari\u00e1veis. J\u00e1 nas ci\u00eancias sociais e humanas, al\u00e9m da incerteza na medi\u00e7\u00e3o (causada pelo fato da observa\u00e7\u00e3o influenciar no comportamento do observado) n\u00f3s temos a incerteza no objeto: voc\u00ea nunca sabe o que um homem vai fazer. Pior, o pr\u00f3prio homem nunca sabe o que vai fazer at\u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o apare\u00e7a e um processo complexo <a title=\"Incoerente?! Eu?!\" href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2006\/07\/incoerente-eu\/\">e nem sempre racional<\/a>, leve a decis\u00e3o. Nas ci\u00eancias naturais eu posso conhecer a incerteza (e eventualmente lidar com ela), nas ci\u00eancias sociais, n\u00e3o. Por isso os processos nunca levam ao mesmo resultado, por isso n\u00e3o s\u00e3o reprodut\u00edveis e replic\u00e1veis e por isso n\u00e3o s\u00e3o ci\u00eancia.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O argumento foi bom o suficiente para que os dois parassem a discuss\u00e3o (ou foi a menina de shortinho curto e camiseta apertada do botafogo que atravessou o bar que distraiu nossa aten\u00e7\u00e3o?!). Brindamos com a saideira e mudamos de assunto. Voltei pra casa triste com a derrota, mas n\u00e3o derrotado. O pilar continua firme, posso continuar implicando com o pessoal das ci\u00eancias sociais, e como meu time n\u00e3o est\u00e1 &#8216;de f\u00e9rias&#8217;, posso pensar no pr\u00f3ximo jogo que \u00e9 da Libertadores. E na pr\u00f3xima discuss\u00e3o. Dessa vez, 4a feira, no bar do Macarr\u00e3o, em S\u00e3o Janu\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meus amigos inteligentes, e eu tenho muitos, s\u00e3o uma constante fonte de inspira\u00e7\u00e3o para mim. Mas\u00a0 tamb\u00e9m de inquieta\u00e7\u00e3o. Uma inquieta\u00e7\u00e3o produtiva, como eu j\u00e1 descrevi aqui. 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