{"id":111,"date":"2006-10-28T02:34:00","date_gmt":"2006-10-28T05:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2006\/10\/o-velho-truque-da-mariposa-na-arvore\/"},"modified":"2006-10-28T02:34:00","modified_gmt":"2006-10-28T05:34:00","slug":"o-velho-truque-da-mariposa-na-arvore","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2006\/10\/28\/o-velho-truque-da-mariposa-na-arvore\/","title":{"rendered":"O velho truque da mariposa na \u00e1rvore"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3223\/1360\/1600\/biston%20betularia.0.png\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3223\/1360\/320\/biston%20betularia.0.png\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:justify\">Todo mundo aprendeu no col\u00e9gio a sele\u00e7\u00e3o natural de Darwin. O exemplo cl\u00e1ssico, presente em todos os livros did\u00e1ticos, era das mariposas brancas da Inglaterra, que ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o industrial tornar o c\u00e9u esfuma\u00e7ado, ficaram escuras para se adaptar ao novo ambiente. Quer dizer, elas n\u00e3o &#8220;ficaram&#8221; escuras. O que a teoria diz \u00e9 que mariposas escuras apareceram por acaso e, por se camuflarem melhor, foram &#8220;selecionadas&#8221; em compara\u00e7\u00e3o a suas irm\u00e3s brancas, que, por se destacarem, acabaram sendo mais visadas (comidas) pelos predadores. Certo?! Seria o exemplo perfeito&#8230; se fosse verdade!<\/p>\n<p>O &#8220;melanismo&#8221; \u00e9 o nome do fen\u00f4meno relacionado ao escurecimento da pele, pelagem ou plumage, n\u00e3o est\u00e1 relacionado apenas a preda\u00e7\u00e3o. Na mesma \u00e9poca, n\u00e3o s\u00f3 as mariposas, mas tamb\u00e9m outros animais, menos sujeitos a preda\u00e7\u00e3o intensiva, como gatos, besouros e p\u00e1ssaros; tamb\u00e9m escureceram. Nos p\u00e1ssaros por exemplo, o melanismo pode favorecer a absor\u00e7\u00e3o de luz solar e o aquecimento do corpo, ou a colora\u00e7\u00e3o da plumagem pode favorecer nos rituais de acasalamento.<\/p>\n<p>No exemplo dos livros, a mariposa <span style=\"font-style:italic\">Biston betularia<\/span>, n\u00e3o apresentava formas escura at\u00e9 revolu\u00e7\u00e3o industrial. A forma pigmentada foi observada nos arredores de <span style=\"font-style:italic\">Manchester <\/span>em 1848 e teve a sua freq\u00fc\u00eancia aumentada at\u00e9 alcan\u00e7ar 90% da popula\u00e7\u00e3o no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Mas com a redu\u00e7\u00e3o da polui\u00e7\u00e3o, as formas mel\u00e2nicas tiveram novamente uma redu\u00e7\u00e3o na freq\u00fc\u00eancia para menos de 10% da popula\u00e7\u00e3o. A verdade \u00e9 que as formas pigmentadas j\u00e1 existiam nas florestas da Inglaterra e tamb\u00e9m da Am\u00e9rica do norte, mas a forma clara, salpicada de melanina era a mais freq\u00fcente na cidade, e se misturava com os liquens das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Foi em meados dos anos 50 que um autor chamado <span style=\"font-style:italic\">Kettlewell <\/span>explicou a varia\u00e7\u00e3o da freq\u00fc\u00eancia das diferentes formas em fun\u00e7\u00e3o da pigmenta\u00e7\u00e3o e da preda\u00e7\u00e3o por p\u00e1ssaros.<br \/>De acordo com a &#8220;lenda&#8221;, a forma clara estava adaptada a camuflagem nas \u00e1rvores cobertas de liquens. Quando a polui\u00e7\u00e3o aumentou, os liquens (que s\u00e3o super sens\u00edveis a polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica) desapareceram e as mariposas claras ficaram mais destacadas nos troncos escuros das \u00e1rvores e podiam ser mais facilmente identificadas pelos p\u00e1ssaros. O aparecimento de uma muta\u00e7\u00e3o para mariposas com maior pigmenta\u00e7\u00e3o, levou a uma maior efici\u00eancia na camuflagem. E com a menor preda\u00e7\u00e3o pelos p\u00e1ssaros, essa variedade pigmentada conseguia se reproduzir mais e aumentou a sua freq\u00fc\u00eancia na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas adivinhem&#8230;. muitos autores demonstraram que <span style=\"font-weight:bold\">essas mariposas praticamente n\u00e3o ficam nos troncos das \u00e1rvores! <\/span>Principalmente durante o dia, preferindo as copas das \u00e1rvores, que s\u00e3o \u00e1reas mais protegidas.<\/p>\n<p>A <span style=\"font-style:italic\">B. betularia <\/span>pode apresentar 3 padr\u00f5es de pigmenta\u00e7\u00e3o, que dependem da express\u00e3o de 4 genes (4 <span style=\"font-style:italic\">alelos<\/span> porque s\u00e3o genes que juntos determinam uma mesma caracter\u00edstica): a t\u00edpica forma &#8220;P\u00e1lida&#8221;, a intermedi\u00e1ria &#8220;Insul\u00e1ria&#8221; e a forma melan\u00f4mica total &#8220;Carbon\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p>Apesar da forma <span style=\"font-style:italic\">Carbon\u00e1ria <\/span>ser efetivamente melhor camuflada que a forma t\u00edpica <span style=\"font-style:italic\">P\u00e1lida<\/span>, nunca houve uma substitui\u00e7\u00e3o total de uma popula\u00e7\u00e3o pela outra. Al\u00e9m da freq\u00fc\u00eancia da forma t\u00edpica ter voltado a aumentar em <span style=\"font-style:italic\">Manchester <\/span>quando os n\u00edveis de polui\u00e7\u00e3o diminu\u00edram, existe uma alta freq\u00fc\u00eancia da forma <span style=\"font-style:italic\">Carbon\u00e1ria <\/span>em regi\u00f5es <span style=\"font-weight:bold\">n\u00e3o <\/span>polu\u00eddas da Inglaterra. Isso sugere que o r\u00e1pido aparecimento das formas pigmentadas foi, provavelmente, uma &#8220;exporta\u00e7\u00e3o&#8221; dessas formas. Sem a necessidade do aparecimento da &#8220;muta\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O <a href=\"http:\/\/www.biociencia.org\/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=45&amp;Itemid=83\">assunto \u00e9 polemico <\/a>e tem despertado livros e artigos de autores defendendo e questionando o melanismo das mariposas como o melhor exemplo vivo de evolu\u00e7\u00e3o natural atuando.<\/p>\n<p>Um experimento de cria\u00e7\u00e3o dos 3 tipos de mariposas em laborat\u00f3rio mostrou que a ra\u00e7a t\u00edpica <span style=\"font-style:italic\">P\u00e1lida <\/span>tem uma sobreviv\u00eancia 30% inferior a da <span style=\"font-style:italic\">Carbon\u00e1ria <\/span>e 7% inferior a <span style=\"font-style:italic\">Insul\u00e1ria<\/span>. Um modelo de computador que leve em considera\u00e7\u00e3o essa sobreviv\u00eancia geral mostra que a distribui\u00e7\u00e3o prevista ap\u00f3s 150 gera\u00e7\u00f5es de mariposas (um n\u00famero razo\u00e1vel de se imaginar de 1848 at\u00e9 agora), se aproxima muito mais a distribui\u00e7\u00e3o atual do que quando se leva em considera\u00e7\u00e3o apenas a capacidade de camuflagem e a polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold\">\u00c9 mais dif\u00edcil provar o que \u00e9 menos intuitivo, ainda que seja o verdadeiro!<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo mundo aprendeu no col\u00e9gio a sele\u00e7\u00e3o natural de Darwin. O exemplo cl\u00e1ssico, presente em todos os livros did\u00e1ticos, era das mariposas brancas da Inglaterra, que ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o industrial tornar o c\u00e9u esfuma\u00e7ado, ficaram escuras para se adaptar ao novo ambiente. Quer dizer, elas n\u00e3o &#8220;ficaram&#8221; escuras. 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