{"id":115,"date":"2006-10-16T23:19:00","date_gmt":"2006-10-17T02:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2006\/10\/por-que-acreditar-no-obvio\/"},"modified":"2006-10-16T23:19:00","modified_gmt":"2006-10-17T02:19:00","slug":"por-que-acreditar-no-obvio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2006\/10\/16\/por-que-acreditar-no-obvio\/","title":{"rendered":"Por que acreditar no \u00f3bvio?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3223\/1360\/1600\/trust.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3223\/1360\/320\/trust.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>Existe um livro legal chamado &#8220;Penso, logo me engano&#8221; que retrata as grandes trapalhadas cient\u00edficas dos grandes nomes da ci\u00eancia, como Newton (a natureza corpuscular da luz) e Einstein (a constante universal). Mas algu\u00e9m duvida do C\u00e1lculo de Newton ou da Relatividade de Einstein?<\/p>\n<div style=\"text-align:justify\">Errar \u00e9 humano, e mesmo os grandes cientistas erraram.<\/p>\n<p>A problema do erro \u00e9 quando ele passa a afetar a credibilidade. E para definir isso, o momento do erro \u00e9 crucial. Erre no in\u00edcio e voc\u00ea est\u00e1 ferrado. Erre no meio e tem uma chance. Erre no final e ningu\u00e9m vai ligar. \u00c9 injusto? N\u00e3o sei, mas \u00e9 assim.<\/p>\n<p>A primeira li\u00e7\u00e3o que tive de credibilidade na ci\u00eancia, foi de um professor do mestrado, pelo qual hoje n\u00e3o tenho nenhum respeito cient\u00edfico (o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o tenha aprendido nada com ele). Ele falou: <span style=\"font-weight:bold\">&#8220;Minha metodologia tem que ser correta, para que ningu\u00e9m questione meus resultados&#8221;.<\/span> Foi uma li\u00e7\u00e3o que aprendi. Hoje no laborat\u00f3rio, voc\u00ea pode questionar minha interpreta\u00e7\u00e3o, mas nunca o meu resultado (ou dos meus meninos).<\/p>\n<p>Outras li\u00e7\u00f5es se seguiram com o tempo. Quando eu era representante dos alunos de PG, eu aprendi, nas longas reuni\u00f5es com os cabe\u00e7as-coroadas, <span style=\"font-weight:bold\">a ouvir muito e falar pouco, e saber quando falar: basicamente quando eu tiver alguma coisa pra dizer.<\/span> Isso porque argumentos emocionais n\u00e3o quebram paradigmas e que n\u00e3o basta voc\u00ea estar certo, se n\u00e3o tiver os argumentos certos. Ent\u00e3o, falar demais, de menos, ou na hora errada pode afetar em muito a sua credibilidade.<\/p>\n<p>Uma vez, discutindo um caso de \u00e9tica na ci\u00eancia. A d\u00favida era o que fazer com um experimento onde um tubo havia perdido a etiqueta. Se o tubo fosse colocado no grupo experimental o resultado seria significativo, mas se fosse colocado no grupo controle ou descartado, ou resultado significava que todo o experimento teria de ser repetido. Sem hesitar, a professora que estava discutindo conosco falou: Repete tudo! <span style=\"font-weight:bold\">A ci\u00eancia tem que ser sempre confi\u00e1vel! <\/span>Ela estava certa.<\/p>\n<p>Fui me tornando autodidata e a outra li\u00e7\u00e3o eu aprendi dentro do laborat\u00f3rio, sozinho. As vezes voc\u00ea quer economizar tempo e avan\u00e7ar uma etapa sem se certificar do resultado do est\u00e1gio anterior. Pular uns dois est\u00e1gios talvez. Muito, muito poucas vezes isso funciona. E <span style=\"font-weight:bold\">na maioria das vezes, para economizar duas horas de trabalho, voc\u00ea perde 2 dias para repetir tudo.<\/span> E depois de perder v\u00e1rios dias pra r\u00ea-extrair RNA s\u00f3 por pregui\u00e7a de esterilizar a cuba antes de correr o gel, aprendi que <span style=\"font-weight:bold\">&#8220;S\u00f3 se deve avan\u00e7ar para o pr\u00f3ximo passo depois de estar certo do resultado do passo anterior.&#8221;<\/p>\n<p><\/span><a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3223\/1360\/1600\/holdhands.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"float:left;cursor:pointer;margin:0 10px 10px 0\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3223\/1360\/320\/holdhands.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a>Voltando para o Brasil, pensei em abrir uma ONG para conseguir financiamento fora dos meios acad\u00eamicos tradicionais. Fui conversar com um advogado daqueles de gente rica, que sabe das coisas. Expliquei a minha id\u00e9ia e ele me perguntou: <span style=\"font-weight:bold\">&#8220;Quem \u00e9 voc\u00ea?&#8221;<\/span><br \/>Primeiro eu estranhei&#8230; afinal, eu j\u00e1 tinha consertado o computador dele tantas vezes que era \u00f3bvio que ele sabia quem eu era. Depois (muito depois \ud83d\ude09 percebi que era uma perguntar ret\u00f3rica. E tomei um soco no estomago quando realizei a resposta: <span style=\"font-style:italic\">Eu n\u00e3o era ningu\u00e9m!<\/span> Quem ia dar dinheiro ou investir em um projeto da minha ONG sem saber quem eu era? Pra quem eu trabalhava? O que eu j\u00e1 tinha feito? Quem me conhecia? Quem me garantia? Vi que eu ainda tinha um longo caminho a trilhar.<\/p>\n<p>Como tantas vezes na minha vida, me vi terminando uma era de inoc\u00eancia e iniciando um novo caminho no mundo real. Alguns semanas depois abriu uma vaga para professor do melhor instituto de pesquisa da UFRJ e eu n\u00e3o hesitei. Professor da UFRJ era, entre outras coisas, uma inje\u00e7\u00e3o de credibilidade no meu nome.<\/p>\n<p>Mas ainda assim eu tinha que investir no &#8220;Quem me conhecia? Quem me garantia?&#8221; Nesse momento, decidi que n\u00e3o recusaria nenhum convite para palestra, nenhuma colabora\u00e7\u00e3o, nenhuma aula, nenhuma an\u00e1lise estat\u00edstica de resultado, nenhuma solicita\u00e7\u00e3o de aluno. E nos \u00faltimos 2 anos eu rodei grande parte do Brasil dando palestras e contando hist\u00f3rias. As pessoas est\u00e3o come\u00e7ando a me conhecer.<\/p>\n<p>No ano passado, colhi o primeiro grande fruto dessa grande jornada de autoconhecimento. O coordenador de uma rede de pesquisa da qual eu fa\u00e7o parte, tentando me acalmar antes de uma apresenta\u00e7\u00e3o importante, pelo fato de eu ser jovem e rebelde, falou: &#8220;Mauro, voc\u00ea pode ser jovem e ter cabelo comprido e usar brinco, mas quando voc\u00ea fala, todo mundo ouve. Voc\u00ea sabe do que est\u00e1 falando e transmite muita seguran\u00e7a de que \u00e9 capaz de fazer o que est\u00e1 dizendo. Voc\u00ea tem credibilidade!&#8221;<\/p>\n<p>E eu finalmente tinha credibilidade!<\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold\">Sem credibilidade, n\u00e3o adianta nada saber das coisas.<\/span> N\u00e3o basta voc\u00ea saber o que est\u00e1 falando e acreditar no que est\u00e1 falando (ainda que ajude muuuuito). Os outros tem que acreditar. O curioso \u00e9 que a credibilidade \u00e9 mais importante quando se trata do inusitado. Quanto mais improv\u00e1vel for o seu resultado, ou a interpreta\u00e7\u00e3o que voc\u00ea faz dele, maior dever\u00e1 ser o seu esfor\u00e7o para que ele seja aceito. Voc\u00ea vai precisar de muita credibilidade antes de propor algo improv\u00e1vel. Mas se os seus resultados apenas confirmam algo que j\u00e1 foi dito e redito, ai n\u00e3o precisa muita n\u00e3o. Mesmo que o dito e redito no futuro se descubram errados. <span style=\"font-weight:bold\">A credibilidade n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para dizer o \u00f3bvio. <\/span>Mas que cientista quer o \u00f3bvio?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3223\/1360\/1600\/mascara.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/blogger\/3223\/1360\/320\/mascara.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>Para o cientista, a falta de credibilidade \u00e9 p\u00e9ssima, mas para o p\u00fablico o ruim \u00e9 a credulidade. Acreditar pode ser um risco, justamente porque \u00e9 mais f\u00e1cil acreditar no \u00f3bvio. \u00c9 preciso coragem para acreditar no improv\u00e1vel, para acreditar no que n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio. Se o erro \u00e9 menos importante no final do que no in\u00edcio, ent\u00e3o o importante \u00e9 o tempo e n\u00e3o o erro. E assim, tamb\u00e9m o acerto \u00e9 menos importante.<\/p>\n<p>S\u00f3 quem tem credibilidade pode te trair.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um livro legal chamado &#8220;Penso, logo me engano&#8221; que retrata as grandes trapalhadas cient\u00edficas dos grandes nomes da ci\u00eancia, como Newton (a natureza corpuscular da luz) e Einstein (a constante universal). Mas algu\u00e9m duvida do C\u00e1lculo de Newton ou da Relatividade de Einstein? Errar \u00e9 humano, e mesmo os grandes cientistas erraram. 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