{"id":1201,"date":"2012-06-28T00:02:49","date_gmt":"2012-06-28T03:02:49","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/?p=1201"},"modified":"2012-06-28T00:02:49","modified_gmt":"2012-06-28T03:02:49","slug":"beleza-nas-letras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2012\/06\/28\/beleza-nas-letras\/","title":{"rendered":"A beleza nas letras"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2012\/06\/ascii_art_flickr-3786321110-original.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1204\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2012\/06\/ascii_art_flickr-3786321110-original-545x361.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"361\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;O <\/em>Australopithecus sp<em>. usava ferramentas, o <\/em>H. habilis<em> usava utens\u00edlios, o <\/em>H. erectus<em> come\u00e7ou a falar e construir; o <\/em>H. sapiens<em>, podia raciocinar de forma complexa. Acredita-se que h\u00e1 100.000 anos, o <\/em>Homo sapiens<em> saiu da \u00c1frica para dominar o mundo, come\u00e7ando pela europa. No registro f\u00f3ssil, encontram-se nessa mesma \u00e9poca, pedras que foram trabalhadas excessivamente. Mais que o necess\u00e1rio para que fossem \u00fateis. Foram aprimoradas para ficarem&#8230; bonitas! Pela primeira vez o homem desenvolve a capacidade de projetar e confere concretude a fantasia, transformando-a em criatividade. O inicio de uma etapa que levou a organiza\u00e7\u00e3o social e a pol\u00edtica.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O texto de Domenico de Masi mostra como nosso senso de est\u00e9tica \u00e9 ancestral, <a title=\"Quando o homem come\u00e7ou a falar?\" href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2007\/05\/quando-o-homem-comecou-a-falar\/\">anterior mesmo a nossa fala<\/a> (com a qual se desenvolveu muito da nossa intelig\u00eancia). No paleol\u00edtico, a expectativa de vida era de 15 anos. Dor, esfor\u00e7o, intemp\u00e9ries, pragas, fome e doen\u00e7as eram o dia-a-dia do homo sapiens. A vida n\u00e3o era f\u00e1cil e os homens conviviam com a morte dos entes queridos. N<strong>os vivemos 99% do nosso tempo de vida como esp\u00e9cie nesse estilo de vida.<\/strong> A arte e a religi\u00e3o eram as \u00fanicas formas de consolo da dura vida terrestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A beleza tem um papel preponderante na vida de todos n\u00f3s. Mais at\u00e9 do que gostar\u00edamos que tivesse. Mais do que nos orgulhamos que tenha. Vivemos em uma \u00e9poca em que apreciar o belo \u00e9 politicamente incorreto, mas ao mesmo tempo, nunca buscamos tanto o belo, nunca a moda foi t\u00e3o poderosa e o consumo t\u00e3o forte. Nosso senso de est\u00e9tica se aprimora a medida que&#8230; A medida que o que? \u00c9 prov\u00e1vel que a medida que ficamos mais inteligentes! <strong>Quanto mais inteligente voc\u00ea \u00e9, e voc\u00ea fica, mais voc\u00ea admira o belo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o, a intelig\u00eancia n\u00e3o substitui a beleza. A intelig\u00eancia \u00e9 sexy, mas sem a beleza, ela \u00e9 capenga. Na verdade, a intelig\u00eancia quase atrapalha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Veja, se voc\u00ea \u00e9 bonito, seus filhos ser\u00e3o bonitos. Se voc\u00ea \u00e9 inteligente&#8230; n\u00e3o h\u00e1 nenhuma garantia que seus filhos ser\u00e3o inteligentes. Simples assim. Poderoso assim. Quase insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sempre buscamos identificar a beleza. O \u2018mais\u2019 bonito. Tanto que temos \u2018instintos\u2019 de beleza: reconhecemos cor, brilho, simetria, tamanho&#8230; tudo como sinal de beleza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pelo nosso senso de est\u00e9tica, a beleza s\u00f3 pela beleza j\u00e1 seria suficiente, mas podemos us\u00e1-la tamb\u00e9m para coisas \u00fateis. A beleza serve para avaliarmos sa\u00fade (ou voc\u00ea j\u00e1 viu algu\u00e9m doente bonito?) e podemos usar a beleza para&#8230; ler! Duvida?! Continue comigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00f3s come\u00e7amos a escrever mais ou menos h\u00e1 5.000 anos e ainda que pare\u00e7a \u00f3bvia a associa\u00e7\u00e3o entre ler e escrever, ela n\u00e3o \u00e9. \u00c9 provavel que a identifica\u00e7\u00e3o visual dos s\u00edmbolos que chamamos de letras seja mais dif\u00edcil para o c\u00e9rebro do que a realiza\u00e7\u00e3o dos precisos movimentos manuais que gravam o s\u00edmbolo em uma superf\u00edcie (como a pedra ou o papel) com o aux\u00edlio de um instrumento (como o form\u00e3o ou a caneta). A linguagem, n\u00f3s aprendemos com Noam Chomsky, \u00e9 bem anterior a tudo isso. Tanto que est\u00e1 gravada no nosso c\u00e9rebro como um instinto, tendo areas bem reservadas para ela. O sistema visual \u00e9 mais antigo ainda, an\u00e1logo e hom\u00f3logo a muitos outros sistemas visuais na natureza, e tamb\u00e9m tem \u00e1reas reservadas no c\u00e9rebro. \u00c9 a combina\u00e7\u00e3o desses dois sistemas que nos permite&#8230; ler. O sistema verbal transforma as letras em sons pronunci\u00e1veis e d\u00e1 acesso ao conhecimento de palavras similares, para que possamos inferir significado. O sistema visual Identifica as letras de forma eficiente. Mas qual parte do sistema visual?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma varia\u00e7\u00e3o da nossa regi\u00e3o de reconhecimento de faces! O VMFA sigla do ingl\u00eas\u00a0<em>Visual Word Form Area<\/em> &#8211; &#8216;\u00e1rea da forma\u00e7\u00e3o visual das palavras&#8217;, \u00e9 uma regi\u00e3o do \u2018giro fusiforme esquerdo\u2019, na parte central do sistema visual (o c\u00f3rtex occipto temporal) respons\u00e1vel pelo reconhecimento dos simbolos que comp\u00f5e as letras e palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas veja, porque n\u00f3s desenvolvemos um sistema de reconhecimento de rostos, cujo principal atributo, um dos na verdade, \u00e9 a beleza, podemos ler. Porque queremos reconhecer o belo, podemos nos comunicar. Que bonito!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2012\/06\/ascII_art_flickr-321758118-original.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1205\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2012\/06\/ascII_art_flickr-321758118-original-545x307.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"307\" \/><\/a><br \/>\nMas aprendemos a ler n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico benef\u00edcio dessa associa\u00e7\u00e3o. Os benef\u00edcios neurol\u00f3gicos v\u00e3o mais al\u00e9m: <em>&#8220;A aquisi\u00e7\u00e3o da leitura leva a melhor codifica\u00e7\u00e3o fonol\u00f3gica atrav\u00e9s da influ\u00eancia das representa\u00e7\u00f5es ortogr\u00e1ficas.&#8221;<\/em> diz a pesquisadora Dehaene. Isso quer dizer que quem l\u00ea, fala melhor. E evid\u00eancias comportamentais mostram que as representa\u00e7\u00f5es ortogr\u00e1ficas da palavra s\u00e3o ativadas pela fala. Aprender a ler aprimora a fala e a fala melhora o reconhecimento dos simbolos da leitura, em um mecanismo de retroalimenta\u00e7\u00e3o que termina por nos deixar mais espertos. As experi\u00eancias mostram que v\u00e1rios tipos de efeitos ortogr\u00e1ficos no processamento da fala, como o reconhecimento de rimas consistentes*, s\u00e3o afetados pelo letramento. O <em>feedback<\/em> direto da ortografia na fonologia \u00e9 provavelmente respons\u00e1vel pelas modifica\u00e7\u00f5es das respostas cerebrais \u00e0 linguagem falada no sistema visual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E ai uma cascata de efeitos acontecem. Basicamente nossa percep\u00e7\u00e3o se aprimora com a aprendizagem porque cria modifica\u00e7\u00f5es nos mapas corticais, como campos de recep\u00e7\u00e3o e curvas de frequ\u00eancia mais precisas nos neur\u00f4nios sensoriais, que se correlacionam positivamente com melhoras no comportamento. Percebemos, vemos melhor o mundo a nossa volta, porque aprendemos a ler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E para que queremos uma percep\u00e7\u00e3o mais agu\u00e7ada do que para perceber o belo? V\u00ea-lo ainda mais belo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 prov\u00e1vel que haja outras raz\u00f5es, mas as minhas terminam por aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">* C\u00e9u e V\u00e9u forma uma rima consistente. C\u00e9u e Mel formam uma rima inconsistente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Science&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1126%2Fscience.1194140&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=How+Learning+to+Read+Changes+the+Cortical+Networks+for+Vision+and+Language&amp;rft.issn=0036-8075&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=330&amp;rft.issue=6009&amp;rft.spage=1359&amp;rft.epage=1364&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.sciencemag.org%2Fcgi%2Fdoi%2F10.1126%2Fscience.1194140&amp;rft.au=Dehaene%2C+S.&amp;rft.au=Pegado%2C+F.&amp;rft.au=Braga%2C+L.&amp;rft.au=Ventura%2C+P.&amp;rft.au=Filho%2C+G.&amp;rft.au=Jobert%2C+A.&amp;rft.au=Dehaene-Lambertz%2C+G.&amp;rft.au=Kolinsky%2C+R.&amp;rft.au=Morais%2C+J.&amp;rft.au=Cohen%2C+L.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEcology%2C+Evolutionary+Biology%2C+Molecular+Biology%2C+Behavioral+Biology%2C+Biochemistry%2C+Biological+Anthropology%2C+Cognitive+Psychology%2C+Comparative+Psychology%2C+Career%2C+Education%2C+Policy\">&#8212;<br \/>\nDehaene, S., Pegado, F., Braga, L., Ventura, P., Filho, G., Jobert, A., Dehaene-Lambertz, G., Kolinsky, R., Morais, J., &amp; Cohen, L. (2010). How Learning to Read Changes the Cortical Networks for Vision and Language <span style=\"font-style: italic\">Science, 330<\/span> (6009), 1359-1364 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1126\/science.1194140\" rev=\"review\">10.1126\/science.1194140<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &#8220;O Australopithecus sp. usava ferramentas, o H. habilis usava utens\u00edlios, o H. erectus come\u00e7ou a falar e construir; o H. sapiens, podia raciocinar de forma complexa. Acredita-se que h\u00e1 100.000 anos, o Homo sapiens saiu da \u00c1frica para dominar o mundo, come\u00e7ando pela europa. 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