{"id":123,"date":"2006-12-30T18:55:00","date_gmt":"2006-12-30T21:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2006\/12\/navalha-na-carne\/"},"modified":"2006-12-30T18:55:00","modified_gmt":"2006-12-30T21:55:00","slug":"navalha-na-carne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2006\/12\/30\/navalha-na-carne\/","title":{"rendered":"Navalha na carne"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3223\/1360\/1600\/832974\/navalha.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"float:right;cursor:pointer;margin:0 0 10px 10px\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3223\/1360\/320\/771235\/navalha.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a>Esse dias li o conto de uma amiga, que em algum momento tentou justificar que nem sempre a <span style=\"font-weight:bold\">navalha de Ockham<\/span> funciona. Fiquei pensando que muitos amigos ao lerem o mesmo conto se perguntariam: O que \u00e9 a <span style=\"font-weight:bold\">navalha de Occam<\/span>?<\/p>\n<p>Como estou com um pouco de tempo livre nessa antev\u00e9spera de ano novo, resolvi contar pra voc\u00eas, porque \u00e9 um dos princ\u00edpios que acho mais bonitos na natureza.<\/p>\n<p>A teoria j\u00e1 come\u00e7a com uma confus\u00e3o no nome. Ela \u00e9 atribu\u00edda a William de Ockham que viveu na vila de Ockham nos arredores de Londres nos idos de 1200. Mas ele tamb\u00e9m era conhecido como Guilherme de Occam. Por isso voc\u00eas podem encontrar o princ\u00edpio com os dois nomes: Ockam e Occam. Como quer que se chamesse, o que importa \u00e9 que ele foi um cara precoce e brilhante. Se juntou a ordem fransiscana ainda muito jovem e estudou (e lecionou) filosofia e matem\u00e1tica nos s\u00e9culos XIII e XIV (at\u00e9 ser vitima da peste negra em Munique em 1349).<\/p>\n<p>Como Frei franciscano, Ockham acreditava na no despojo de todos os bens materiais, por isso fez votos de pobreza e a \u00fanica coisa que lhe pertencia era a sua t\u00fanica. Isso parece ter sido importante para sua filosofia, pois como dizem algumas fontes, parece que ele aplicou essa id\u00e9ia da desnecessidade das coisas superfluas a outros fen\u00f4menos da natureza:<br \/>&#8220;<span style=\"font-style:italic\">\u00c9 in\u00fatil fazer com mais o que pode ser feito com menos<\/span>&#8221; (O que mais tarde seria conhecido como princ\u00edpio da economia).<\/p>\n<p>Ele tinha um problema com os escol\u00e1sticos da sua universidade que procuravam sempre as explica\u00e7\u00f5es mais complexas para os eventos que poderiam ser explicados de forma mais simples. Se para comprovar um teorema, existissem dois caminhos que levavam ao mesmo resultado, e um deles possu\u00edsse c\u00e1lculos bem mais simples que o outro, ent\u00e3o essa solu\u00e7\u00e3o do teorema deveria ser escolhida como a melhor, ou a verdadeira. E foi assim, atrav\u00e9s da l\u00f3gica e da matem\u00e1tica, que ele conseguia provar que estava certo.<\/p>\n<p>A frase mais famosa de Ockham \u00e9: &#8220;<span style=\"font-style:italic\">Pluralitas non est ponenda sine neccesitate<\/span>&#8221; que quer dizer &#8220;Pluralidades n\u00e3o devem ser postas sem necessidade&#8221;. Mas acho que com outra frase dele podemos compreender melhor a sua id\u00e9ia: <span style=\"font-style:italic\">&#8220;as entidades n\u00e3o devem ser multiplicadas al\u00e9m do necess\u00e1rio, a natureza \u00e9 por si econ\u00f4mica e n\u00e3o se multiplica em v\u00e3o&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>Ockham defendia a necessidade da experimenta\u00e7\u00e3o como fonte do conhecimento, em oposi\u00e7\u00e3o uso da raz\u00e3o pura; e julgava imposs\u00edvel provar a exist\u00eancia de Deus atrav\u00e9s de qualquer ferramenta racional (apesar de n\u00e3o questionar a sua exist\u00eancia). Assim, Ockham separou a f\u00e9 da raz\u00e3o e libertou a filosofia da teologia. Com isso ele conseguiu muitos inimigos (era uma \u00e9poca em que a igreja costumava a queimar quem quer que questionasse o seu poder e ele foi rapidamente excomungado e acusado de herege, o que o fez passar a vida fugindo dos longos bra\u00e7os do papa), mas tamb\u00e9m \u00e9 lembrado at\u00e9 hoje como o primeiro pensador moderno (ou o \u00faltimo grande pensador medieval).<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de Ockham era partir da intui\u00e7\u00e3o para explicar os fen\u00f4menos: &#8220;N\u00e3o se deve aplicar a um fen\u00f4meno nenhuma causa que n\u00e3o seja logicamente dedut\u00edvel da experi\u00eancia sensorial.&#8221; Com isso ele conseguiu muitos adeptos na ci\u00eancia, que aplicou o <span style=\"font-weight:bold\">princ\u00edpio de Ockham <\/span>ao m\u00e9todo cient\u00edfico e sua formula\u00e7\u00e3o, um pouco diferente da original, ficou conhecida como a <span style=\"font-weight:bold\">Navalha de Occam<\/span>: <span style=\"font-style:italic\">&#8220;se h\u00e1 v\u00e1rias explica\u00e7\u00f5es igualmente v\u00e1lidas para um fato, ent\u00e3o devemos escolher a mais simples&#8221;.<\/span><br \/><a href=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3223\/1360\/1600\/824319\/navalha.gif\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/x\/blogger\/3223\/1360\/320\/890679\/navalha.png\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>Muitos cientistas usaram o princ\u00edpio da navalha de Occam em suas teorias. Alguns, como Newton, que acreditava que Deus fosse importante para manter os planetas ao longo do tempo nas \u00f3rbitas que ele (Newton) t\u00e3o brilhantemente descreveu, precisaram ser contestados por outros, no caso Laplace (muitos anos depois), mostrando com o uso da &#8220;navalha&#8221;, que Deus era desnecess\u00e1rio nas equa\u00e7\u00f5es de Newton.<\/p>\n<p>Um erro que comumente \u00e9 aplicado a &#8220;<span style=\"font-weight:bold\">Navalha de Occam<\/span>&#8220;, \u00e9 achar que ela \u00e9 <span style=\"font-weight:bold\">um sin\u00f4nimo de simplismo<\/span>. A navalha n\u00e3o diz que entre duas teorias, a mais simples \u00e9 a verdadeira, mas sim que <span style=\"font-style:italic\">entre duas ou mais teorias, a mais simples, <span style=\"font-weight:bold\">que explique o fen\u00f4meno<\/span>, \u00e9 a verdadeira<\/span>. Isso quer dizer que simplificar um fen\u00f4meno para que uma teoria se aplique a ele, valendo-se da <span style=\"font-weight:bold\">navalha de occam<\/span>, n\u00e3o \u00e9 correto. Foi o que Einstein quis dizer quando escreveu que <span style=\"font-style:italic\">&#8220;as teorias devem ser t\u00e3o simples quanto poss\u00edvel, mas nem sempre devemos escolher as mais simples&#8221;<\/span>.<\/p>\n<p>Mas eu volto ao conto da minha amiga. Ela incorreu nesse erro: De achar que a navalha n\u00e3o poderia ser aplicada porque a explica\u00e7\u00e3o simples n\u00e3o funcionava. A explica\u00e7\u00e3o simples n\u00e3o funciona, ent\u00e3o ela n\u00e3o \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o. A navalha sempre funciona!<\/p>\n<p>O que temos que descobrir \u00e9 <span style=\"font-weight:bold\">quais elementos incorporar a explica\u00e7\u00e3o sem que eles se tornem <\/span><span style=\"font-style:italic;font-weight:bold\">&#8220;multiplicativamente desnecess\u00e1rios<\/span><span style=\"font-weight:bold\">&#8220;?<\/span><\/p>\n<p>Por\u00e9m, muitas vezes, o problema est\u00e1 no &#8220;que&#8221; se quer explicar. Karl Pope, outro filosofo de quem eu <a href=\"http:\/\/vocequeebiologo.blogspot.com\/2006\/08\/que-cincia-se-prope.html\">j\u00e1 falei alguma coisa<\/a>, mas que de quem eu quero falar mais qualquer dia, explicou que uma teoria s\u00f3 \u00e9 uma teoria se puder ser refutada. Isso quer dizer que ao formular um problema ou uma hip\u00f3tese, devemos tomar alguns cuidados, sob pena de escapar da ci\u00eancia e come\u00e7ar a cair na filosofia ou na f\u00e9. Todos n\u00f3s, em diferentes momentos (e acho que minha amiga no momento em que escreveu o texto) queremos que as coisas sejam de um jeito, que n\u00e3o \u00e9 necessariamente o jeito que elas s\u00e3o. Mas para isso n\u00e3o precisamos de raz\u00e3o. Precisamos (quem precisa) de f\u00e9.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esse dias li o conto de uma amiga, que em algum momento tentou justificar que nem sempre a navalha de Ockham funciona. Fiquei pensando que muitos amigos ao lerem o mesmo conto se perguntariam: O que \u00e9 a navalha de Occam? 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