{"id":1353,"date":"2012-10-27T17:46:30","date_gmt":"2012-10-27T20:46:30","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/?p=1353"},"modified":"2012-10-27T17:46:30","modified_gmt":"2012-10-27T20:46:30","slug":"entre-instintos-reslings-e-razao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2012\/10\/27\/entre-instintos-reslings-e-razao\/","title":{"rendered":"Entre instintos, Rieslings e raz\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2012\/10\/20121027-183901.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2012\/10\/20121027-183901.jpg\" alt=\"20121027-183901.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong><em>&#8220;- N\u00e3o \u00e9, n\u00e3o \u00e9! N\u00e3o existe essa diferen\u00e7a entre raz\u00e3o e instintos. \u00c9 tudo c\u00e9rebro!&#8221;<\/em> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">disse minha amiga neurocientista Mar\u00edlia Zaluar, enquanto caminh\u00e1vamos pela Gerberm\u00fchlstrasse em busca do recomendad\u00edssimo restaurante Gerberm\u00fcehle. Fomos pra Feira do Livro de Frankfurt, aprender mais sobre livros did\u00e1ticos digitais, mas como n\u00e3o poderia deixar de ser, aproveitamos pra comer e beber bem, o que adoramos fazer. E discutir ci\u00eancia, o que n\u00e3o conseguimos deixar de fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A frase dela marca uma discuss\u00e3o antiga que se acalora porque, naturalmente, temos a tend\u00eancia de &#8220;puxar a sardinha, cada um, para a nossa brasa&#8221;. Os cientistas sociais dizem uma coisa e os bi\u00f3logos dizem outra. Mas o que estou descobrindo \u00e9 que cada bi\u00f3logo tamb\u00e9m diz uma outra coisa diferente. Quem trabalha com o c\u00e9rebro, favorece o c\u00e9rebro e encontra as explica\u00e7\u00f5es para que tudo seja definido com base nos mecanismos neuronais. Eu trabalho, de certa maneira, com evolu\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o acredito que a forma como o c\u00e9rebro est\u00e1 organizado, como foi organizado evolutivamente pela sele\u00e7\u00e3o natural, influencia, determina, como o c\u00e9rebro \u00e9 capaz de responder. E isso imp\u00f5e limita\u00e7\u00f5es, em n\u00edvel de forma, intensidade, tempo e espa\u00e7o, as respostas que o c\u00e9rebro pode dar a est\u00edmulos externos. O fato dessas limita\u00e7\u00f5es serem flex\u00edveis o suficiente para nos dar a ideia de que podemos &#8216;qualquer coisa&#8217;, n\u00e3o nos permite, efetivamente, &#8216;qualquer coisa&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Alguns eventos permitem um alto n\u00edvel (ou grande quantidade) de processamento para tomada de decis\u00e3o antes de gerar a resposta, o que eu chamaria de raz\u00e3o. Outros, menos. E por menos, quero dizer que em algumas situa\u00e7\u00f5es, pode ser processado, outras n\u00e3o. E outras situa\u00e7\u00f5es, pode ser processado um pouco apenas. Mas em certos casos, n\u00e3o h\u00e1 processamento nenhum, nunca, como no caso da dor, que gera uma resposta motora de arco-reflexo. Se d\u00f3i, \u00e9 ruim e voc\u00ea n\u00e3o precisa de racioc\u00ednio pra saber, conscientemente, racionalmente, que deve se afastar. Por isso o reflexo motor foi desenvolvido pela sele\u00e7\u00e3o natural h\u00e1 milh\u00f5es de anos e \u00e9 compartilhado por muitos animais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 verdade, nosso c\u00e9rebro \u00e9 muito, muito diferente dos outros animais. \u00c9 muito melhor, \u00e9 quase inacredit\u00e1vel E pode mesmo fazer &#8216;de um tudo&#8217;. N\u00f3s somos frutos da nossa cultura, porque nosso c\u00e9rebro se adapta as necessidades e valores de cada tempo e de cada gera\u00e7\u00e3o. Mas com rela\u00e7\u00e3o aos mecanismos biol\u00f3gicos, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente assim:\u00a0Camundongos tamb\u00e9m fazem neurog\u00eanese (produ\u00e7\u00e3o de novos neur\u00f4nios, que ajudam consolidar aprendizagem e adaptar a novos ambientes). E nem por isso pensam, ou deixam de agir por instinto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;- Voc\u00ea n\u00e3o acha que existem esses mecanismos &#8216;parcialmente processados&#8217;? E n\u00e3o posso chamar eles de instintos? E os plenamente processados de raz\u00e3o?&#8221;<\/em> eu perguntei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;- Acho que na verdade voc\u00eas dois est\u00e3o falando da mesma coisa, \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o sem\u00e2ntica&#8230;&#8221; <\/em>mas apesar do meu s\u00f3cio Ricardo Prado ser uma maquina de falar, nesse dia est\u00e1vamos inspirados e ele n\u00e3o teve a menor chance de continuar. A discuss\u00e3o seguiu acalorada, pela tortuosa via que levava ao restaurante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eu tamb\u00e9m acho que \u00e9 tudo c\u00e9rebro. Que est\u00e1 tudo no c\u00e9rebro. Mas acredito que temos duas for\u00e7as conflitantes, a raz\u00e3o e a emo\u00e7\u00e3o, que competem para prevalecer nas nossas decis\u00f5es. Como vivemos em uma determinada condi\u00e7\u00e3o social onde a colabora\u00e7\u00e3o impera, a nossa raz\u00e3o tamb\u00e9m impera no nosso comportamento. Se vivessemos em uma outra condi\u00e7\u00e3o social&#8230; imperaria um outro equil\u00edbrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;- Ent\u00e3o&#8230; \u00e9 a cultura moldando o c\u00e9rebro&#8230;&#8221;<\/em> retomou o argumento ela.\u00a0<em>&#8220;- N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9&#8230;&#8221; <\/em>tentei consertar quando&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;- Olha s\u00f3&#8230;&#8221;<\/em>, disse novamente meu s\u00f3cio, agora irritado, n\u00e3o pelo alto tom de voz e empogla\u00e7\u00e3o que beirava a irrita\u00e7\u00e3o, mas porque o &#8216;<em>Gerberm\u00fcehle<\/em>&#8216; n\u00e3o chegava nunca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;- Quem estava certo era Fernando Pessoa&#8221;<\/em> e come\u00e7ou a recitar de cabe\u00e7a:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong><em>&#8220;Porque o \u00fanico sentido oculto das cousas<br \/>\n\u00c9 elas n\u00e3o terem sentido oculto nenhum,<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>\u00c9 mais estranho do que todas as estranhezas<\/strong><br \/>\n<strong> E do que os sonhos de todos os poetas<\/strong><br \/>\n<strong> E os pensamentos de todos os fil\u00f3sofos,<\/strong><br \/>\n<strong> Que as cousas sejam realmente o que parecem ser<\/strong><br \/>\n<strong> E n\u00e3o haja nada que compreender.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>As cousas n\u00e3o t\u00eam significa\u00e7\u00e3o: t\u00eam exist\u00eancia.<\/strong><br \/>\n<strong> As cousas s\u00e3o o \u00fanico sentido oculto das cousas.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Felizmente chegamos no <em>Gerberm\u00fcehle<\/em>, n\u00e3o porque se encerrou a discuss\u00e3o, mas porque est\u00e1vamos morrendo de fome. E jantamos muit\u00edssimo bem! Mas depois continuei, e mesmo agora ainda continuo, pensando sobre essa conversa. N\u00e3o concordo totalmente com nenhum dos meus dois queridos amigos. Mas que \u00e9 muito melhor discutir tomando uma garrafa de espetacular <em>Riesling<\/em> Alem\u00e3o com pessoas inteligentes, isso \u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;- N\u00e3o \u00e9, n\u00e3o \u00e9! N\u00e3o existe essa diferen\u00e7a entre raz\u00e3o e instintos. \u00c9 tudo c\u00e9rebro!&#8221; disse minha amiga neurocientista Mar\u00edlia Zaluar, enquanto caminh\u00e1vamos pela Gerberm\u00fchlstrasse em busca do recomendad\u00edssimo restaurante Gerberm\u00fcehle. 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