{"id":1409,"date":"2012-11-22T11:30:07","date_gmt":"2012-11-22T14:30:07","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/?p=1409"},"modified":"2012-11-22T11:30:07","modified_gmt":"2012-11-22T14:30:07","slug":"reflexo_incondicionado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2012\/11\/22\/reflexo_incondicionado\/","title":{"rendered":"Reflexo IN-condicionado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2012\/11\/journal.pone_.0017355.g002.png\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1422\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2012\/11\/journal.pone_.0017355.g002-545x582.png\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"582\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>(Essa \u00e9 uma postagem casada e voc\u00ea pode querer ler o post anterior antes desse aqui)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quanto tempo leva entre voc\u00ea querer mexer o seu bra\u00e7o, o seu c\u00e9rebro se preparar para mexer o seu bra\u00e7o e o seu bra\u00e7o efetivamente se mexer? Voc\u00ea nunca deve ter pensado nisso, porque, a n\u00e3o ser que voc\u00ea seja NERD que nem a gente, isso n\u00e3o importa: cai tudo na defini\u00e7\u00e3o de &#8216;autom\u00e1tico&#8217;. Mas n\u00f3s, cientistas NERDs, damos valor a diferen\u00e7as bem pequenas, desde que elas seja consistente. Ent\u00e3o vamos l\u00e1, todos sabemos que todo movimento volunt\u00e1rio come\u00e7a no c\u00e9rebro. Mas quando?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Bom, bravos cientistas foram medir. Mais precisamente, foram medir o <strong>&#8216;Potencial de antecipa\u00e7\u00e3o&#8217; (PR)<\/strong>, que \u00e9 uma pequena mudan\u00e7a na corrente el\u00e9trica passando pelo couro cabeludo antes (1s ou mais)\u00a0de um movimento r\u00edtmico tanto involunt\u00e1rio (como o batimento card\u00edaco) quanto volunt\u00e1rios (como mexer o bra\u00e7o. Uma medida \u00e9 feita pelo\u00a0<strong>eletroencefalograma (EEG)<\/strong>, que \u00e9 parecido com o eletrocardiograma, s\u00f3 que \u00e9 feito no c\u00e9rebro, com um monte de eletrodos colados na sua cabe\u00e7a (pesquise no Google pra ver as imagens).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas a pergunta que eles queriam responder era outra. Eles, os bravos pesquisadores, estavam da <strong>&#8216;urg\u00eancia&#8217; (W)<\/strong>,\u00a0tamb\u00e9m chamada de <strong>&#8216;prepara\u00e7\u00e3o&#8217; (W)<\/strong>,\u00a0termos definidos pela auto-consci\u00eancia do movimento: aquele exato momento em que voc\u00ea sente que seu bra\u00e7o&#8230; vai se mexer. Voc\u00ea nunca percebeu isso? bom, como eu disse, \u00e9 porque tudo acontece muito r\u00e1pido e nunca paramos para notar. Mas apesar de \u00a0um evento subjetivo, sua exist\u00eancia \u00e9 muito bem caracterizada e documentada. A estimula\u00e7\u00e3o de certas zonas do c\u00e9rebro durante uma neurocirurgias de cr\u00e2nio aberto, induzem nos pacientes uma <em>&#8220;vontade involunt\u00e1ria e inexplic\u00e1vel de rolar a l\u00edngua&#8221;<\/em> ou de <em>&#8220;mexer o bra\u00e7o&#8221;<\/em>. <strong>A quest\u00e3o \u00e9 que o 1s entre a altera\u00e7\u00e3o no EEG e o movimento do bra\u00e7o, pareciam um tempo muito grande para uma a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e os pequisadores queriam saber se a urg\u00eancia se ainda mais cedo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para isso bolaram o seguinte experimento:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um grupo de volunt\u00e1rios ficava sentado confortavelmente, com eletrodos em suas cabe\u00e7as e bra\u00e7os, olhando para uma parede onde um circulo, com raios parecidos com o de um rel\u00f3gio, estava desenhado. Como eu disse, parecia um rel\u00f3gio, mas n\u00e3o era. Os raios estavam nas mesmas posi\u00e7\u00f5es 12 posi\u00e7\u00f5es, mas um volta completa do ponteiro, na verdade um ponto de lazer vermelho, levava apenas\u00a02,56 s para completar a circunfer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A tarefa dos volunt\u00e1rios era simples: tinham de movimentar livremente, espontaneamente, quando quisessem o seu pulso e os dedos da m\u00e3o direita (todos os volunt\u00e1rios eram destros). Quando fizessem esse movimento, olhando apenas para o rel\u00f3gio a sua frente, tinham de guardar (para relatar posteriormente &#8211; o que faz toda diferen\u00e7a em um experimento onde as varia\u00e7\u00f5es ocorrem em milisegundos) a posi\u00e7\u00e3o do ponto de luz veremelha no momento exato em que &#8216;percebiam&#8217; a &#8216;prepara\u00e7\u00e3o&#8217;. A &#8216;urgencia&#8217; do movimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vamos combinar, foi uma grande sacada dos pesquisadores (que eram psic\u00f3logos). O ponteiro de luz vermelha era emitido por um computador, ao qual tamb\u00e9m estavam conectados o <strong>EEG<\/strong> e o <strong>&#8216;eletromiograma&#8217; (EMG)<\/strong>, o sensor que media o potencial de a\u00e7\u00e3o do musculo esquel\u00e9tico do bra\u00e7o e que marcava o in\u00edcio &#8216;real&#8217; do movimento. Com isso, ao relatar a posi\u00e7\u00e3o do ponteiro de luz, como a anota\u00e7\u00e3o do tempo marcado no rel\u00f3gio para um evento,\u00a0os pesquisadores foram capazes de transformar uma experi\u00eancia subjetiva em uma medida comput\u00e1vel. E assim, o <strong>momento da &#8216;prepara\u00e7\u00e3o&#8217; (W)<\/strong> pode ser comparado com o <strong>&#8216;potencial de antecipa\u00e7\u00e3o&#8217; (PR)<\/strong>, anterior ao ato, no escalpo e com o momento da contra\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria do pulso, medido pelo <strong>eletromiograma (EMG)<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Abre par\u00eanteses:<\/strong> foram feitos diversos tipos de terinamentos e controles com os participantes, para reduzir tendenciosidade e outros tipos de interfer\u00eancias, ou de artefatos, nas medidas ou nos relatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por exemplo, <em>&#8220;Os movimentos foram volunt\u00e1rios, com instru\u00e7\u00f5es explicitas para que fossem o mais espont\u00e2neos poss\u00edvel (sem planejamento). Mas tamb\u00e9m, foram externos, induzidos por um observador que tocava as costas da m\u00e3o a pessoa.&#8221;<\/em> ou <em>&#8220;Ap\u00f3s 40 atos volunt\u00e1rios, os participantes eram questionados quanto a exist\u00eancia de algum movimento que n\u00e3o tivesse despertado a urg\u00eancia (um tipo de movimento surpresa). Essas perguntas foram feitas para tentar eliminar Bias na reportagem de eventos por parte dos participantes e aumentar a confian\u00e7a nos tempos que foram efetivamente reportados.&#8221; <\/em>Ou ainda <em>&#8220;Dois tipos de controle foram empregados. Um relato dos tempos de percep\u00e7\u00e3o de realiza\u00e7\u00e3o do movimento (M) e outro de percep\u00e7\u00e3o do estimulo na m\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o do movimento (S)&#8221;.\u00a0<\/em>De acordo com os autores, os participantes ainda eram capazes, facilmente, de diferenciar entre a &#8216;urg\u00eancia&#8217; e qualquer outro tipo de percep\u00e7\u00e3o planejadora ou que n\u00e3o levasse a um movimento. Vai entender&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Fecha par\u00eanteses.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os resultados foram muito claros: os <strong>RP<\/strong> apareciam em torno de -500 ms, antes, dos potenciais de a\u00e7\u00e3o medidos pelo <strong>EMG<\/strong>, que foram tomados como &#8216;tempo zero&#8217;, para as medidas comparativas. <strong>At\u00e9 ai tudo bem: o movimento do pulso (medido pelo EMG) era precedido por uma atividade cerebral (medida pelo PR) em aproximadamente 500 milisegundos.<\/strong>\u00a0A coisa ficou estranha quando mediram os\u00a0tempos de <strong>&#8216;urg\u00eancia&#8217; (W)<\/strong>\u00a0(a percep\u00e7\u00e3o introspectiva e subjetiva da decis\u00e3o de mover o bra\u00e7o): eles foram em media de &#8211; 200 ms (tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao EMG)! Ou seja: A decis\u00e3o sobre mover o pulso era percebido 300 ms DEPOIS do c\u00e9rebro ter iniciado o processo de movimenta\u00e7\u00e3o do pulso! <strong>As consequ\u00eancias s\u00e3o perturbadoras: se o c\u00e9rebro come\u00e7a a agir antes da decis\u00e3o consciente, ent\u00e3o&#8230; o livre-arb\u00edtrio pode simplesmente n\u00e3o existir!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: -webkit-auto\"><span style=\"text-align: justify\">Os autores fazem diversas ressalvas:<\/span><span style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/span><span style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Os RP medidos no estudo, ainda que bons indicadores, representam a atividade de uma pequena \u00e1rea, a regi\u00e3o motora suplementar no neocortex mesial&#8221;<\/em> sendo que outras \u00e1reas poderiam estar sendo ativadas para a &#8216;decis\u00e3o&#8217; em outro local do c\u00e9rebro. Na verdade,\u00a0<\/span><span style=\"text-align: justify\">uma infinidade de mecanismos de &#8216;inicia\u00e7\u00e3o&#8217; e &#8216;integra\u00e7\u00e3o&#8217; do sinal no c\u00e9rebro, antes dele virar consciente e se tornar uma a\u00e7\u00e3o, poderiam atuar no c\u00e9rebro. <strong>Um &#8216;pensamento&#8217; n\u00e3o gera diferen\u00e7a de potencial suficiente para gerar um registro no EEG<\/strong>, e justamente por isso \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil avaliar essa percep\u00e7\u00e3o subjetiva de forma objetiva. E \u00e9 tamb\u00e9m por isso que os autores ressalvam : <em>&#8220;<\/em><\/span><em><span style=\"text-align: justify\">Podemos ainda especular que exista uma fase anterior da consci\u00eancia do movimento que n\u00e3o sejamos capazes de recapitular, ou que n\u00e3o possa ser armazenada na mem\u00f3ria recente, dado que a habilidade de relatar esteja vinculada a mem\u00f3ria recente.&#8221;<\/span><\/em><span style=\"text-align: justify\"> Mas nenhuma dessas ressalvas mudam o fato de que a decis\u00e3o sobre o movimento \u00a0acontece de forma inconsciente. Nas palavras dos autores:\u00a0<\/span><em><span style=\"text-align: justify\">&#8220;Conclu\u00edmos que a inicia\u00e7\u00e3o de um ato volunt\u00e1rio no c\u00e9rebro, como dos estudados aqui, pode come\u00e7ar, e usualmente come\u00e7a, inconscientemente&#8221;<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Abre par\u00eanteses:<\/strong> O termo inconsciente refere-se simpesmente a todos os processos que n\u00e3o s\u00e3o expressos como uma experi\u00eancia consciente. Isso pode incluir, e n\u00e3o se distingue de, preconsci\u00eancia, subconsci\u00eancia e outros processos de inconsci\u00eancia n\u00e3o report\u00e1veis. <strong>Fecha par\u00eanteses.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 claro que a evid\u00eancia de inicia\u00e7\u00e3o inconsciente de um ato\u00a0volunt\u00e1rio relatada nesse artigo se aplica a um n\u00famero muito limitado de atos. No entanto, um simples ato motor volunt\u00e1rio como o relatado aqui sempre foi considerado com incontroversamente e exemplo ideal de um ato engd\u00f3geno e livremente volunt\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Essas cpnsidera\u00e7\u00f5es parecem limitar o potencial dos indiv\u00edduos para exercer controle consciente (como iniciar) sobre seus atos.\u00a0Considerando que atos volunt\u00e1rios espont\u00e2neos possam ser iniciados inconscientemente, ainda poder\u00edamos imaginar duas condi\u00e7\u00f5es em que um controle consciente poderia ser exercido: um &#8216;veto&#8217; consciente que &#8216;aborta&#8217; o processo espont\u00e2neo inconsciente (o que parece encontrar evid\u00eancia mesmo nos resultados desse experimento) e em processos onde os atos volunt\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o espont\u00e2neos e nem de resposta r\u00e1pida.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na melhor das hip\u00f3teses, assustador. Mas pelo menos agora voc\u00ea tem a desculpa perfeita para aquela olhada para o lado quando passa um bum-bum bonito ou um decote mais ousado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Brain+%3A+a+journal+of+neurology&amp;rft_id=info%3Apmid%2F6640273&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Time+of+conscious+intention+to+act+in+relation+to+onset+of+cerebral+activity+%28readiness-potential%29.+The+unconscious+initiation+of+a+freely+voluntary+act.&amp;rft.issn=0006-8950&amp;rft.date=1983&amp;rft.volume=106+%28Pt+3%29&amp;rft.issue=&amp;rft.spage=623&amp;rft.epage=42&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Libet+B&amp;rft.au=Gleason+CA&amp;rft.au=Wright+EW&amp;rft.au=Pearl+DK&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEcology%2C+Evolutionary+Biology%2C+Molecular+Biology%2C+Behavioral+Biology%2C+Biochemistry%2C+Biological+Anthropology%2C+Cognitive+Psychology%2C+Comparative+Psychology%2C+Career%2C+Education%2C+Policy\">Libet B, Gleason CA, Wright EW, &amp; Pearl DK (1983). Time of conscious intention to act in relation to onset of cerebral activity (readiness-potential). The unconscious initiation of a freely voluntary act. <span style=\"font-style: italic\">Brain : a journal of neurology, 106 (Pt 3)<\/span>, 623-42 PMID: <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/6640273\" rev=\"review\">6640273<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Essa \u00e9 uma postagem casada e voc\u00ea pode querer ler o post anterior antes desse aqui) Quanto tempo leva entre voc\u00ea querer mexer o seu bra\u00e7o, o seu c\u00e9rebro se preparar para mexer o seu bra\u00e7o e o seu bra\u00e7o efetivamente se mexer? 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