{"id":1779,"date":"2013-04-06T15:13:38","date_gmt":"2013-04-06T18:13:38","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/?p=1779"},"modified":"2013-04-06T15:13:38","modified_gmt":"2013-04-06T18:13:38","slug":"assi-metrica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2013\/04\/06\/assi-metrica\/","title":{"rendered":"Assi-m\u00e9trica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1780\" alt=\"asymmetric_1370546_30233813\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2013\/04\/asymmetric_1370546_30233813-545x409.jpg\" width=\"545\" height=\"409\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aconteceu de novo&#8230; me fazem uma pergunta e eu s\u00f3 tenho a resposta perfeita&#8230; 24h depois. Dessa vez ainda foi pior, porque eu j\u00e1 estava esperando a pergunta: <em>&#8220;E que tipo de avalia\u00e7\u00e3o voc\u00ea vai usar pra mostrar que o seu m\u00e9todo \u00e9 melhor que o dos outros?&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esperava, at\u00e9, que fossem me ajudar a responder, mas&#8230; as vezes espero demais tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quem viu minha palestra deve ter visto que toda a minha motiva\u00e7\u00e3o para adaptar um novo m\u00e9todo de ensino \u00e9 justamente a descren\u00e7a em qualquer um dos tipos de avalia\u00e7\u00e3o que est\u00e3o sendo aplicados atualmente para avaliar a aprendizagem. Funcionam, mas muito pouco. Ent\u00e3o&#8230; por favor, n\u00e3o me pe\u00e7am para avaliar justamente com as ferramentas que eu quero refutar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Isso significa que o m\u00e9todo n\u00e3o pode ser avaliado? N\u00e3o&#8230; eu sou um cientista e um m\u00e9todo que n\u00e3o pode ser negado, para mim n\u00e3o tem valor. Ent\u00e3o significa o que? <a title=\"Criatividade ou Anarquia?\" href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2008\/11\/criatividade-ou-anarquia\/\">Richard Feynman<\/a>\u00a0dizia que &#8220;toda id\u00e9ia inovadora, deve respeitar princ\u00edpios b\u00e1sicos&#8221; O m\u00e9todo que estou propondo deve ser avaliado, a priori, pelo quanto respeita princ\u00edpios b\u00e1sicos. e eu n\u00e3o considero a prova, o ENEM, nem o PISA ou o que for, como princ\u00edpio b\u00e1sico. Pra mim, princ\u00edpio b\u00e1sico, \u00e9 o que a neuroci\u00eancia e a psicologia evolutiva vem mostrando ao longo da \u00faltima d\u00e9cada sobre como funciona o nosso c\u00e9rebro e sobre como aprendemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando se trata de avalia\u00e7\u00e3o educacional, eu bebi da melhor fonte: a Dra. Diva Lucia Costa, psic\u00f3logoa e professora da faculdade de educa\u00e7\u00e3o da UFRJ. Tive o prazer de trabalhar com ela em 2008 com oficinas para doecentes da universidade Aberta do Brasil porque, desde l\u00e1, nos preocup\u00e1vamos com a pergunta: como avaliar o aprendizado com EAD?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Diva escreveu um cap\u00edtulo (<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2013\/04\/UAB_mod02_aula07.pdf\">Avalia\u00e7\u00e3o da aprendizagem<\/a>)\u00a0do livro sobre EAD que estamos para lan\u00e7ar. As pessoas tendem a pensar nos m\u00e9todos de avalia\u00e7\u00e3o atuais como uma coisa &#8216;absoluta&#8217;, &#8216;inquestion\u00e1ve&#8217;, &#8216;intoc\u00e1vel&#8217;. N\u00e3o \u00e9, n\u00e3o s\u00e3o. Veja alguns trechos do cap\u00edtulo (e leia-o todo depois) de Diva que ilustram isso:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;At\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, a rela\u00e7\u00e3o direta professor-aluno, em col\u00e9gios\u00a0episcopais ou escolas onde se aprendia a ler e contar, com um professor e pequenos\u00a0grupos de alunos com idades e n\u00edveis de conhecimento diversos, permitia um\u00a0acompanhamento mais pr\u00f3ximo sobre o rendimento escolar.\u00a0Naquele contexto, o que se esperava dos alunos era a reprodu\u00e7\u00e3o dos modelos\u00a0apresentados, seja na forma\u00e7\u00e3o religiosa, seja na aquisi\u00e7\u00e3o da leitura e da escrita.\u00a0Havia padr\u00f5es bem definidos, e aos alunos restava repet\u00ed-los, demonstrando ao\u00a0mestre que haviam aprendido. A avalia\u00e7\u00e3o da aprendizagem tamb\u00e9m apresentava\u00a0um car\u00e1ter moral, ou seja, considerava-se que o grau atribu\u00eddo ao aluno indicava a\u00a0presen\u00e7a ou a falta de qualidades morais como esfor\u00e7o, dedica\u00e7\u00e3o, responsabilidade.\u00a0Indicava tamb\u00e9m a exist\u00eancia de capacidades, de potencial para aprender, para progredir, para alcan\u00e7ar os padr\u00f5es sociais mais elevados \u2013 ou n\u00e3o. [&#8230;]\u00a0E, ainda por cima, freq\u00fcentemente sujeitava os alunos\u00a0menos ajustados \u00e0s expectativas a castigos f\u00edsicos.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Imagina o choque que esses docentes devem ter sofrido quando disseram para eles que tinhamos que fazer avalia\u00e7\u00f5es padronizadas da aprendizagem e que o julgamento de valores morais pela compreens\u00e3o de conte\u00fado, assim como porrada, n\u00e3o est\u00e3o de acordo com a \u00e9tica docente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Com o advento da educa\u00e7\u00e3o como um direito, ecoando as discuss\u00f5es trazidas\u00a0pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, no s\u00e9culo XIX come\u00e7a uma mudan\u00e7a radical, com o\u00a0aumento de matr\u00edculas. O curr\u00edculo organizado em s\u00e9ries, os alunos distribu\u00eddos em\u00a0turmas e o saber disciplinarizado introduzem novas condi\u00e7\u00f5es de funcionamento que\u00a0v\u00e3o se somar \u00e0 massifica\u00e7\u00e3o das matr\u00edculas. Na primeira metade do s\u00e9culo XIX s\u00e3o\u00a0registrados os primeiros exames escritos, ampliando expressivamente a amostra de\u00a0conhecimentos avaliados, e cobrindo o conjunto de conhecimentos ensinados.\u00a0As experi\u00eancias de avalia\u00e7\u00e3o de grandes conjuntos de alunos come\u00e7aram a se\u00a0desenvolver no final do s\u00e9culo XIX em fun\u00e7\u00e3o das cr\u00edticas aos resultados obtidos por\u00a0escolas.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ah&#8230; veja que a grande motiva\u00e7\u00e3o era a competi\u00e7\u00e3o entre as escolas, n\u00e3o os benef\u00edcios para os alunos. As avalia\u00e7\u00f5es se baseavam em pressupostos, nem sempre cient\u00edficos e nem sempre confi\u00e1veis. Como at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em> &#8220;George\u00a0Fisher prop\u00f4s um padr\u00e3o de exames para ortografia,\u00a0matem\u00e1tica, navega\u00e7\u00e3o, conhecimento de escrituras, gram\u00e1tica e composi\u00e7\u00e3o,\u00a0Franc\u00eas, Hist\u00f3ria Geral, Desenho, Ci\u00eancia Pr\u00e1tica, a partir do qual qualquer aluno\u00a0poderia ser classificado. [&#8230;]\u00a0Francis Galton, bi\u00f3logo e primo de\u00a0Darwin, demonstrara que crian\u00e7as, jovens\u00a0e adultos apresentavam diferen\u00e7as intelectuais, emocionais, f\u00edsicas e de padr\u00f5es de\u00a0sociabilidade, influenciando significativamente a avalia\u00e7\u00e3o [&#8230;] O psic\u00f3logo James Catell associava rapidez\u00a0de respostas \u00e0 intelig\u00eancia humana e tamb\u00e9m influenciou a avalia\u00e7\u00e3o da aprendizagem\u00a0escolar na virada do S\u00e9culo XX, contribuindo para que se fixasse\u00a0a id\u00e9ia de que a intelig\u00eancia se relacionava diretamente \u00e0 capacidade do aluno em\u00a0responder rapidamente \u00e0s quest\u00f5es.\u00a0Em 1895, Rice tamb\u00e9m tentou identificar o alcance do que os professores\u00a0trabalharam com seus alunos sobre ortografia e formulou uma lista de palavras, que\u00a0foi aplicada a cerca de 16 mil alunos, tendo obtido grande variedade de resultados. A pesquisa de Rice, sobre os instrumentos\u00a0poss\u00edveis e mais adequados \u00e0 verifi ca\u00e7\u00e3o do conhecimento adquirido, foi um dos\u00a0precursores da avalia\u00e7\u00e3o escolar que vai acontecer no s\u00e9culo XX.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um pressuposto, voc\u00eas sabem&#8230; leva a outro. E v\u00e3o criando-se castelos no ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Influenciada pelo paradigma da\u00a0medi\u00e7\u00e3o que orientava as ci\u00eancias exatas e naturais, pesquisadores e gestores dos\u00a0sistemas educacionais iniciam a produ\u00e7\u00e3o de testes padronizados, aplic\u00e1veis a toda a\u00a0popula\u00e7\u00e3o de estudantes de um grau de ensino ou s\u00e9rie \u2013 j\u00e1 naquela \u00e9poca, portanto,\u00a0instituiu-se o que hoje chamamos de sistemas nacionais de avalia\u00e7\u00e3o como o SAEB,\u00a0a Prova Brasil, o ENEM, o ENADE.\u00a0Os princ\u00edpios da medi\u00e7\u00e3o consideram que aquilo que est\u00e1 sendo medido constitui\u00a0\u201calgo\u201d em si, obedece a leis pr\u00f3prias de funcionamento, que possui propriedades\u00a0como ser repet\u00edvel, ou variar de intensidade\/quantidade, e que portanto \u00e9 pass\u00edvel\u00a0de ser apreendido quantitativamente. Saber uma certa quantidade de algo, nessa\u00a0perspectiva, equivaleria a conhecer, e de certa forma manter sob controle a\u00a0manifesta\u00e7\u00e3o desse \u201calgo\u201d por parte dos interessados.\u00a0Assim \u00e9 que o conhecimento escolar assume o estatuto de\u00a0objeto a ser medido, e traz ainda para o interior das escolas\u00a0o conceito Curva Normal de Distribui\u00e7\u00e3o. A id\u00e9ia de que o\u00a0desempenho escolar obedecia \u00e0s regras de distribui\u00e7\u00e3o normal\u00a0fez com que se acreditasse que, em cada turma, cerca de 25%\u00a0dos alunos tendiam a ser \u201cfracos\u201d, com rendimento abaixo\u00a0da m\u00e9dia; cerca de 50% obteriam resultados pr\u00f3ximos, em\u00a0torno de um valor que passa a se chamar \u201cm\u00e9dia\u201d, e que passa\u00a0a ser a norma para aquela popula\u00e7\u00e3o de estudantes, e cerca\u00a0de 25% teriam desempenho acima da m\u00e9dia, os \u201cmelhores\u00a0alunos\u201d. Assim, a obten\u00e7\u00e3o de par\u00e2metros de avalia\u00e7\u00e3o\u00a0com a fixa\u00e7\u00e3o de valores m\u00e9dios em uma escala num\u00e9rica, a m\u00e9dia, institu\u00edram um\u00a0modo de pensar eminentemente quantitativo para a avalia\u00e7\u00e3o da aprendizagem\u00a0escolar. O conhecimento escolar \u00e9 tratado como um objeto quantific\u00e1vel, do qual\u00a0se poderia obter, atrav\u00e9s de provas e testes, quantidades de conhecimento dos\u00a0conte\u00fados escolares, decorrendo da\u00ed a id\u00e9ia de que alunos saberiam muito ou pouco\u00a0de uma determinada disciplina. Os adv\u00e9rbios de quantidade associados aos resultados\u00a0traduzem o principal sentido atribu\u00eddo aos resultados das avalia\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se voc\u00ea concorda com isso&#8230; muito bem, n\u00e3o temos mais o que conversar. Discordamos tanto que estamos em universos diferentes. <em>&#8220;I rest my case&#8221;<\/em>. Eu desisto. Mas s\u00f3 de argumentar.\u00a0Como disse Selton Mello na entrega do pr\u00eamio &#8216;Faz a diferen\u00e7a&#8217; esse ano:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>&#8220;<em>Eu n\u00e3o sei se vou continuar fazendo a diferen\u00e7a, mas vou continuar fazendo&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aconteceu de novo&#8230; me fazem uma pergunta e eu s\u00f3 tenho a resposta perfeita&#8230; 24h depois. 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