{"id":1868,"date":"2013-07-28T14:28:20","date_gmt":"2013-07-28T17:28:20","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/?p=1868"},"modified":"2013-07-28T14:28:20","modified_gmt":"2013-07-28T17:28:20","slug":"por-que-o-papa-e-pop","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2013\/07\/28\/por-que-o-papa-e-pop\/","title":{"rendered":"Por que o Papa \u00e9 pop?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"124669\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2013\/07\/124669-545x382.jpg\" width=\"545\" height=\"382\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando assisti &#8216;Contato&#8217;, de Carl Sagan, um trecho me impressionou especialmente. E n\u00e3o tinha nada a ver com a nave espacial que estava sendo constru\u00edda com instru\u00e7\u00f5es extra-terrestres: durante a sele\u00e7\u00e3o de quem seria o piloto da nave, que representaria a humanidade no contato com uma outra civiliza\u00e7\u00e3o, a astronauta representada por Jodie Foster, apesar de ser a melhor candidata, foi rejeitada por n\u00e3o acreditar em Deus. Um dos respons\u00e1veis pela sele\u00e7\u00e3o disse a ela: <em>&#8220;Nossa miss\u00e3o era escolher\u00a0algu\u00e9m para falar por todos. Eu n\u00e3o\u00a0poderia votar\u00a0numa pessoa\u00a0que n\u00e3o acredita em Deus.\u00a0Algu\u00e9m que acha\u00a0honestamente que 95%dos seres humanos\u00a0sofrem de uma\u00a0ilus\u00e3o coletiva.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sou ateu convicto, daqueles que como Richard Dawkins faz pouco at\u00e9 dos agn\u00f3sticos (que para mim, como para ele, n\u00e3o tem coragem de assumir o ate\u00edsmo), mas esse n\u00famero me impressiona: O que faz com que 95% da popula\u00e7\u00e3o humana sinta a necessidade de acreditar em um Deus? Qualquer um?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eu\u00a0entendo ir pra Copacabana e passar a noite inteira em uma festa de 3.000.000 de pessoas. Fiz isso para ver os Rolling Stones, o Ano Novo. Fiz pior para ver a Timbalada no carnaval de Salvador. Se as m\u00fasicas fossem boas talvez eu at\u00e9 fosse pra l\u00e1 tamb\u00e9m. S\u00f3 pela festa (mas n\u00e3o era o caso. Apesar de muito menos chatos que os evang\u00e9licos, os cat\u00f3licos s\u00e3o chatos tamb\u00e9m).\u00a0Mas a necessidade autentica em acreditar em magia e milagre, de racionalmente negar a raz\u00e3o e se submeter aos caprichos e vontades de uma entidade superior a voc\u00ea? Para mim \u00e9 um retrocesso no avan\u00e7o cultural e cient\u00edfico da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas 95%&#8230; \u00e9 um percentual alto. Se fosse uma an\u00e1lise estat\u00edstica, seria at\u00e9 significativa. Ser\u00e1 que existe uma raz\u00e3o racional, at\u00e9 biol\u00f3gica, n\u00e3o para a Deus, mas para a necessidade de acreditar em Deus?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mais uma vez a melhor resposta que encontrei para essa pergunta est\u00e1 no livro de Desmond Morris, &#8216;O macaco nu&#8217;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;J\u00e1 que falamos em religi\u00e3o, talvez valha a pena observar mais de perto essa estranha forma de comportamento anima (&#8230;) O assunto n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas, como bi\u00f3logos, devemos fazer o poss\u00edvel para observar o que se passa na verdade. Se o fizermos, teremos for\u00e7osamente de concluir que, em sentido comportamental, as atividades religiosas consistem na reuni\u00e3o de grandes grupos de pessoas que executam longas e repetidas exibi\u00e7\u00f5es de submiss\u00e3o, no intuito de apaziguar o indiv\u00edduo dominante. Esse indiv\u00edduo dominador assume muitas formas nos diferentes tipos de cultura, mas conserva sempre um fator comum: um poder enorme. (&#8230;) As respostas submissas que lhe s\u00e3o oferecidas podem consistir em fechar os olhos, baixar a cabe\u00e7a, p\u00f4r as m\u00e3os em atitude de s\u00faplica, ajoelhar, beijar o solo, ou mesmo chegar \u00e0 prostra\u00e7\u00e3o extrema, freq\u00fcentemente acompanhada de vocaliza\u00e7\u00f5es de lamento ou de c\u00e2nticos. Se esses atos de submiss\u00e3o s\u00e3o bem sucedidos, o indiv\u00edduo dominante acalma-se. Como mant\u00e9m enormes poderes, as cerim\u00f4nias de apaziguamento t\u00eam de ser praticadas a intervalos regulares e freq\u00fcentes, para impedir que o dominador volte a sentir-se irado. Em regra, mas n\u00e3o sempre, o indiv\u00edduo dominante \u00e9 chamado um &#8216;deus&#8217;.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;Como nenhum desses deuses existe numa forma corp\u00f3rea, \u00e9 o caso de perguntar por que foram inventados. Para encontrar a resposta, temos de regressar \u00e0s nossas origens ancestrais. Antes de nos termos\u00a0tornado ca\u00e7adores cooperantes, devemos ter vivido em grupos sociais semelhantes aos que ainda hoje se v\u00eaem em outras esp\u00e9cies de macacos e s\u00edmios. Nos casos t\u00edpicos, cada grupo \u00e9 dominado por um s\u00f3 macho. Este \u00e9 ao mesmo tempo patr\u00e3o e senhor todo-poderoso e cada membro do grupo tem de apazigu\u00e1-lo ou sofrer as conseq\u00fc\u00eancias. O chefe \u00e9 tamb\u00e9m o membro mais ativo na prote\u00e7\u00e3o do grupo contra os perigos exteriores e no ajuste de contendas entre os restantes membros. Durante toda a vida, cada membro do grupo gira \u00e0 volta do animal dominante. O seu papel de detentor de poder absoluto d\u00e1-lhe uma posi\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de um deus. Voltando agora para os nossos antepassados mais pr\u00f3ximos, torna-se evidente que, com o desenvolvimento do esp\u00edrito cooperativo, t\u00e3o fundamental para a ca\u00e7a em grupo, a aplica\u00e7\u00e3o da autoridade do indiv\u00edduo dominante teve de ser muito limitada, para conservar a lealdade ativa (e n\u00e3o passiva) dos restantes membros. Era preciso que estes \u00faltimos quisessem ajudar o chefe, em vez de se limitarem a tem\u00ea-lo. Para isso, o chefe\u00a0tinha de ser cada vez mais como &#8216;um dos outros&#8217;.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;O antigo macaco tirano teve de desaparecer, para ser substitu\u00eddo por um chefe macaco pelado, mais tolerante e cooperante. Tratava-se dum passo essencial para a organiza\u00e7\u00e3o de um novo tipo de &#8216;entreajuda&#8217;, mas criou um problema.\u00a0O dom\u00ednio total do membro n.\u00b0 1 do grupo foi substitu\u00eddo por um dom\u00ednio qualificado, de forma que aquele n\u00e3o podia impor uma lealdade cega. Embora essa mudan\u00e7a tenha sido vital para o nosso novo sistema social, deixou, no entanto, uma lacuna. Devido aos nossos antecedentes, conservamos a necessidade de uma figura todo-poderosa que mantivesse o grupo sob um certo controle, e a vaga foi preenchida com a inven\u00e7\u00e3o de um deus. Dessa forma, a influ\u00eancia da figura-deus inventada podia funcionar como uma for\u00e7a complementar da influ\u00eancia progressivamente decrescente do chefe do grupo.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>&#8220;\u00c0 primeira vista, surpreende como a religi\u00e3o tem tido tanto sucesso, mas o seu enorme poder nos d\u00e1 apenas a medida da for\u00e7a da nossa tend\u00eancia biol\u00f3gica fundamental, herdada diretamente dos macacos e s\u00edmios nossos antepassados, para nos submetermos a um membro do grupo dominador e todo-poderoso. Por esse motivo, a religi\u00e3o tem-se revelado extremamente valiosa como mecanismo de coes\u00e3o social, e \u00e9 mesmo poss\u00edvel que a nossa esp\u00e9cie n\u00e3o tivesse progredido tanto sem ela, dado o conjunto especial das circunst\u00e2ncias que acompanharam a nossa evolu\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pelo visto, vamos ter que conviver com isso at\u00e9 evoluirmos para perder esse tra\u00e7o de submiss\u00e3o da nossa personalidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando assisti &#8216;Contato&#8217;, de Carl Sagan, um trecho me impressionou especialmente. 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