{"id":1990,"date":"2015-01-01T21:49:24","date_gmt":"2015-01-02T00:49:24","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/?p=1990"},"modified":"2015-01-01T21:49:24","modified_gmt":"2015-01-02T00:49:24","slug":"a-intuicao-e-o-metodo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2015\/01\/01\/a-intuicao-e-o-metodo\/","title":{"rendered":"A Intui\u00e7\u00e3o e o M\u00e9todo"},"content":{"rendered":"<div>\n<div id=\"attachment_1991\" style=\"width: 439px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2015\/01\/Dali_Salvador_Venus-with-cases_l.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1991\" class=\"size-full wp-image-1991\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2015\/01\/Dali_Salvador_Venus-with-cases_l.jpg\" alt=\"Venus de Milo com Gavetas, de Salvador Dal\u00ed \" width=\"429\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2015\/01\/Dali_Salvador_Venus-with-cases_l.jpg 429w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2015\/01\/Dali_Salvador_Venus-with-cases_l-184x300.jpg 184w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2015\/01\/Dali_Salvador_Venus-with-cases_l-300x490.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2015\/01\/Dali_Salvador_Venus-with-cases_l-123x200.jpg 123w\" sizes=\"(max-width: 429px) 100vw, 429px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1991\" class=\"wp-caption-text\">Venus de Milo com Gavetas, de Salvador Dal\u00ed<\/p><\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Tenho pensado tanto sobre isso. Como cientista, o &#8216;m\u00e9todo&#8217; \u00e9 o meu principal instrumento de trabalho. Isso n\u00e3o significa que eu seja met\u00f3dico no que fa\u00e7o. Significa que eu recorro a evid\u00eancia, a hip\u00f3tese, a experimenta\u00e7\u00e3o\u00a0e a an\u00e1lise para tecer conclus\u00f5es e tomar (ou questionar) decis\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 como ter d\u00favida do poder do m\u00e9todo para alterar a nossa realidade. Mas ainda assim, grande parte dos desafios profissionais que eu encontro s\u00e3o sobre como convencer as pessoas, mesmo (principalmente) cientistas, a abra\u00e7ar o m\u00e9todo em \u00e1reas que n\u00e3o sejam o seu objeto de estudo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div>\n<div style=\"text-align: justify\">Ainda que possamos nos apoiar na\u00a0obra de\u00a0Galileu, Bacon e Descartes\u00a0para uma explica\u00e7\u00e3o do que \u00e9 o\u00a0&#8216;m\u00e9todo&#8217;; explicar a\u00a0intui\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais complicado. E o\u00a0fato de todos n\u00f3s\u00a0experimentarmos a\u00a0intui\u00e7\u00e3o independente de compreende-la, torna ainda mais dif\u00edcil explic\u00e1-la cientificamente, porque a explica\u00e7\u00e3o esbarra na nossa compreens\u00e3o &#8216;intuitiva&#8217; da intui\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Mas e se quisermos entender o que \u00e9 a intui\u00e7\u00e3o de forma n\u00e3o intuitiva?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Vamos ter que come\u00e7ar entendendo o que \u00e9 a consci\u00eancia. Uma tarefa nada f\u00e1cil j\u00e1 que n\u00e3o existe um consenso cient\u00edfico sobre o que \u00e9 a consci\u00eancia. Mas tendo inclu\u00eddo \u2018consci\u00eancia\u2019 no programa da minha disciplina de Biof\u00edsica para o curso de biologia da UFRJ, eu estudei bastante o assunto ao longo desse ano e vou arriscar uma explica\u00e7\u00e3o para voc\u00eas (para quem quiser mais informa\u00e7\u00f5es eu sugiro fortemente o \u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8Biv_8xjj8E\">document\u00e1rio da BBC \u2018O\u00a0Eu secreto\u2019<\/a>).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">De maneira bem resumida, quando o seu c\u00e9rebro\u00a0\u00e9 requisitado\u00a0a dar uma resposta, inicia-se\u00a0\u00a0um processo mental\u00a0onde\u00a0s\u00e3o ativadas diferentes regi\u00f5es do seu c\u00e9rebro, dependendo de cada processo. A ativa\u00e7\u00e3o dessas \u00e1reas gera sinais el\u00e9tricos que se propagam por nervos, indo e vindo atrav\u00e9s dos troncos do t\u00e1lamo, e disparando, ou \u2018acendendo\u2019, diferentes \u00e1reas do cort\u00e9x no caminho. Dessa atividade el\u00e9trica em diferentes \u00e1reas do seu c\u00e9rebro, emerge uma \u2019sensa\u00e7\u00e3o\u2019\u00a0subjetiva: a auto-consci\u00eancia. Quando bloqueamos o tr\u00e1fego dos sinais impedindo a comunica\u00e7\u00e3o entre as diferentes regi\u00f5es, seja pela administra\u00e7\u00e3o de anest\u00e9sicos ou naturalmente durante o sono, a nossa auto-consci\u00eancia desaparece.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><strong>A id\u00e9ia n\u00e3o poderia ser mais assustadora: em nenhum lugar do seu c\u00e9rebro existe um reposit\u00f3rio de quem \u00e9 voc\u00ea. N\u00e3o existe nenhuma \u2018gaveta\u2019 com a etiqueta \u2018quem sou eu\u2019. Ao contr\u00e1rio, a cada vez que o seu c\u00e9rebro inconsciente decide que um evento \u00e9 digno da sua aten\u00e7\u00e3o, o disparo coordenado de milh\u00f5es de neur\u00f4nios, bilh\u00f5es na verdade, recreia, do zero, a no\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 voc\u00ea.\u00a0<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Se tivesse descoberto que a cada momento eu\u00a0era um novo &#8216;eu&#8217;, como descobriu Virginia Woolf no s\u00e9culo XIV,\u00a0assim como descrito no maravilhoso <a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/7389489\/livro-proust-foi-um-neurocientista-como-a-arte-antecipa-a-ciencia\/?franq=284021\">livro de\u00a0Jonah Lehrer\u00a0\u2018Proust foi um neurocientista\u2019<\/a>,\u00a0sem ter os instrumentos para compreender como isso era poss\u00edvel, talvez tamb\u00e9m tivesse me suicidado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Curiosamente, ou contra-intuitivamente, \u00e9 o nosso corpo f\u00edsico, e n\u00e3o uma termodinamicamente improv\u00e1vel\u00a0alma, que guarda a chave para o segredo da integridade da nossa auto-consci\u00eancia. Com as nossas experi\u00eancias anteriores\u00a0armazenadas na nossa mem\u00f3ria de longo prazo e com os limites f\u00edsicos do nosso corpo identificados por neur\u00f4nios na mesma posi\u00e7\u00e3o, os\u00a0disparos consecutivos que\u00a0geram a auto-consci\u00eancia s\u00e3o\u00a0capazes de replicar com grande fidelidade o nosso &#8216;eu&#8217;.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Mas n\u00e3o com fidelidade total.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">As \u00e1reas que acendem\u00a0n\u00e3o s\u00e3o E-X-A-T-A-M-E-N-T-E as mesmas. Nunca!<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Inquietante&#8230; para dizer o m\u00ednimo. Mesmo quando pensamos sobre a mesma coisa, mesmo se essa coisa for a nossa pr\u00f3pria identidade, nunca pensamos sobre ela da mesma maneira.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">E de fato \u00e9 com essa assustadora, por\u00e9m muito esclarecedora constata\u00e7\u00e3o que se inicia o <a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/7431545\/livro-por-que-os-alunos-nao-gostam-da-escola-\/?franq=284021\">livro de Daniel Willingham \u2018Porque os alunos n\u00e3o gostam da escola\u2019<\/a>: Porque pensar \u00e9 dif\u00edcil e n\u00f3s, ainda que sejamos capazes de pensar, n\u00e3o somos bons nisso.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Uma grande parte do nosso c\u00e9rebro \u00e9 dedicada ao processamento inconsciente de imagens visuais e, se tem alguma coisa na qual somos bons, \u00e9 em \u2018ver\u2019. J\u00e1 em pensar\u2026 como voc\u00eas podem bem imaginar pensando em grande parte das pessoas que conhecem\u2026 n\u00e3o \u00e9 algo todos fazem da mesma maneira, com a mesma efici\u00eancia e na qual possamos todos dizer que somos&#8230; bons.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">O mundo tem uma realidade complexa que procuramos recriar dentro do nosso c\u00e9rebro para que possamos decidir como reagir\u00a0a esse mundo real. Como nosso pensamento n\u00e3o \u00e9 linear, n\u00e3o temos muito controle sobre quais mem\u00f3rias acessamos ou sobre quais \u00e1reas do c\u00e9rebro ser\u00e3o ativadas pelos sinais iniciados com a aten\u00e7\u00e3o a um pensamento, n\u00e3o temos como repetir uma mesma\u00a0an\u00e1lise da realidade duas vezes.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, como eu j\u00e1 descrevi <a title=\"Reflexo IN-condicionado\" href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2012\/11\/reflexo_incondicionado\/\">aqui<\/a>, as nossas decis\u00f5es come\u00e7am como uma resposta instintiva baseada em processamento \u2018inconsciente\u2019 do c\u00e9rebro, s\u00f3 depois sendo reconsiderada em um processo consciente que, como vimos, \u00e9 falho.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Por exemplo, no excelente <a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/110208697\/livro-por-que-as-pessoas-acreditam-em-coisas-estranhas-pseudociencia-supersticao-e-outras-confusoes-dos-nossos-tempos\/?franq=284021\">livro &#8216;Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas&#8217; de Michael Shermer<\/a>, fica claro que as nossas escolhas, mesmo aquelas conscientes, n\u00e3o s\u00e3o fruto da nossa capacidade intelectual\u00a0e sim dirigidas por 3 fatores principais: as alternativas oferecidas pelas circunst\u00e2ncias, o medo e a expectativa da opini\u00e3o dos nossos pares. Nossa\u2026 isso tamb\u00e9m explica tanta coisa!<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">A conclus\u00e3o\u00a0no\u00a0poderia ser mais dif\u00edcil de aceitar: por mais que voc\u00ea se considere um grande pensador, h\u00e1 um limite para o quanto voc\u00ea pode confiar nas suas id\u00e9ias. Suas\u00a0intui\u00e7\u00f5es&#8230; falham!<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">E \u00e9 por isso que n\u00f3s precisamos do m\u00e9todo. Ele \u00e9 a \u00fanica maneira de escapar das armadilhas que nossos processos mentais nos imp\u00f5e.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Mas se o m\u00e9todo \u00e9 o que pode nos salvar das nossas falhas mentais, porque ser\u00e1 que, na minha experi\u00eancia e em muitas outras ilustradas na hist\u00f3ria da psicologia, as pessoas resistem tanto ao uso do m\u00e9todo?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Ainda n\u00e3o tenho uma resposta. Mas \u00e9 poss\u00edvel que a inseguran\u00e7a gerada pela dificuldade de pensar conscientemente e a falsa seguran\u00e7a gerada pela natureza inconsciente da intui\u00e7\u00e3o estejam envolvidas nessa resist\u00eancia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m da pregui\u00e7a, \u00e9 claro.<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho pensado tanto sobre isso. 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