{"id":2022,"date":"2015-04-13T00:18:23","date_gmt":"2015-04-13T03:18:23","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/?p=2022"},"modified":"2015-04-13T00:18:23","modified_gmt":"2015-04-13T03:18:23","slug":"sem-meio-termo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2015\/04\/13\/sem-meio-termo\/","title":{"rendered":"Sem meio termo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2015\/04\/feynman_blackboard5.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2023 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2015\/04\/feynman_blackboard5.jpg\" alt=\"feynman_blackboard5\" width=\"463\" height=\"329\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2015\/04\/feynman_blackboard5.jpg 463w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2015\/04\/feynman_blackboard5-300x213.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2015\/04\/feynman_blackboard5-200x142.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 463px) 100vw, 463px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">Ao longo dos primeiros meses desse ano, acompanhei muitos artigos que, de maneira contundente, urgem a comunidade cient\u00edfica brasileira a assumir um verdadeiro compromisso com a qualidade da ci\u00eancia produzida no pa\u00eds. N\u00e3o podemos considerar nosso crit\u00e9rio adequado com os indicadores que temos hoje.\u00a0Eu sou daqueles que concorda, em grau, n\u00famero e g\u00eanero, com o texto do artigo &#8220;<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/opiniao\/202892-producao-cientifica-e-lixo-academico-no-brasil.shtml\">Produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e lixo acad\u00eamico no Brasil<\/a>&#8221; do professor Rog\u00e9rio Cezar de Cerqueira Leite publicado na Folha de S\u00e3o Paulo em 06\/01\/15.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No artigo <a href=\"http:\/\/blog.scielo.org\/blog\/2015\/01\/26\/e-hora-de-rever-o-sistema-de-pos-graduacao-brasileiro\/\">\u00c9 hora de rever o sistema de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o brasileiro<\/a>\u00a0de 26\/01\/15,\u00a0o professor em\u00e9rito da Unicamp Lewis Joel Greene\u00a0aponta o problema: <em>&#8220;Em meados da d\u00e9cada de 1970, houve muitas discuss\u00f5es sobre o fato de que o Brasil precisava produzir milhares de doutores para chegar a n\u00edveis de primeiro mundo em n\u00famero de doutores\/100.000 habitantes. Reconhecia-se que a maioria dos primeiros formados teriam uma forma\u00e7\u00e3o menos que ideal, por\u00e9m entendia-se e esperava-se que o sistema se tornasse mais rigoroso com o tempo. Infelizmente, isso n\u00e3o ocorreu e, para piorar a situa\u00e7\u00e3o, os doutores mal treinados est\u00e3o agora formando a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de doutores.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O artigo me fez lembrar do que li no livro &#8216;Aprendiz da ci\u00eancia&#8217; de Carlos Chagas Filho. Ele fala da import\u00e2ncia da <em>&#8220;cria\u00e7\u00e3o de um conceito fundamental\u00a0para o nosso pa\u00eds: o emprego de modelos nacionais estudados pelas t\u00e9cnicas\u00a0as mais avan\u00e7adas, o que, de um modo geral, significam t\u00e9cnicas internacionais.\u00a0Esse conceito define e determina o que se deve chamar &#8216;a ci\u00eancia nacional&#8217;.\u00a0Isto n\u00e3o significa nenhum tipo de xenofobismo ou de estreito nacionalismo,\u00a0mas \u00e9 o melhor caminho para o desenvolvimento natural e social de nosso pa\u00eds.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para mim, e acredito que para ele tamb\u00e9m, n\u00e3o eram apenas as t\u00e9cnicas internacionais, mas tamb\u00e9m os crit\u00e9rios internacionais de qualidade. A ci\u00eancia \u00e9 um conjunto de ferramentas para entender como o mundo funciona. Seus crit\u00e9rios n\u00e3o podem ser flex\u00edveis, porque as leis da natureza n\u00e3o s\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 como discutir e chegar a um &#8216;consenso&#8217; do que \u00e9 o melhor. N\u00e3o h\u00e1 &#8216;negocia\u00e7\u00e3o&#8217; com as evid\u00eancias. N\u00e3o h\u00e1 meio termo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda que eu admire o <a title=\"As melhores universidades do mundo!\" href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2012\/11\/melhores-universidades-mundo\/\">discurso do professor Domenico de Masi que diz que &#8220;as universidades do Brasil s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o consideradas as melhores do mundo porque os crit\u00e9rios para a escolha das melhores s\u00e3o determinados pelas mesmas universidades que publicam o ranking<\/a>&#8220;, tendo tido a oportunidade e o privil\u00e9gio de visitar\u00a0Harvard e\u00a0Stanford, n\u00e3o posso dizer que sejam crit\u00e9rios ruins.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda assim, para mim, existe um crit\u00e9rio melhor do que qualquer ranking. Um crit\u00e9rio absoluto. O crit\u00e9rio do que funciona e do que resolve problemas no mundo real. Quando\u00a0Ioannidis publicou\u00a0<a href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosmedicine\/article?id=10.1371\/journal.pmed.0020124\">Why most published research findings are false<\/a>&#8216; em\u00a02005, era exatamente disso que ele estava falando: basta de coisas que n\u00e3o s\u00e3o replic\u00e1veis, n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis, coisas que n\u00e3o funcionam!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00f3s precisamos fazer coisas que funcionem. Sejam elas teorias ou patentes, precisamos de ci\u00eancia que ajude a resolver problemas no mundo real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Precisamos do\u00a0padr\u00e3o Richard Feynman: <em>&#8220;O que eu n\u00e3o posso criar, eu n\u00e3o posso entender.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ou do\u00a0crit\u00e9rio Ayn Rand em &#8216;A Revolta de Atlas&#8217;: <em>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 nada de importante na vida exceto sua compet\u00eancia no seu trabalho. Nada. S\u00f3 isso. Tudo o mais que voc\u00ea for, vem disso. \u00c9 a \u00fanica medida do valor humano.\u00a0Todos os c\u00f3digos de \u00e9tica que v\u00e3o tentar enfiar na sua cabe\u00e7a n\u00e3o passam de dinheiro falso impresso por vigaristas para despojar as pessoas de suas virtudes. O c\u00f3digo de compet\u00eancia \u00e9 o \u00fanico sistema\u00a0moral baseado no padr\u00e3o ouro.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A comunidade cient\u00edfica acredita hoje que os artigos cient\u00edficos s\u00e3o o prop\u00f3sito. O &#8216;fim&#8217;. Entendi, recentemente, ainda que s\u00f3 tenha consolidado essa compreens\u00e3o agora, neste exato momento, que os artigos cient\u00edficos s\u00e3o apenas o come\u00e7o. Se um artigo cient\u00edfico se encerra em si, ele n\u00e3o fez jus aos recursos que foram empenhados\u00a0nele. Estou falando de transformar dados em informa\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o em conhecimento. E sim, conhecimento em coisas que funcionem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Patentes ou teorias, artigos tem que se transformar em coisas que funcionem.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Lembrei da met\u00e1fora da f\u00e1brica de tijolos. Em 1963\u00a0Bernard K. Forscher enviou uma carta a Science na qual usava a metafora de uma f\u00e1brica de tijolos para fazer exatamente essa cr\u00edtica a ci\u00eancia que estava sendo produzida no mundo (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/haeck\/2014\/05\/caos-na-fabrica-de-tijolos-uma-parabola-sobre-a-ciencia\/\">Caos na F\u00e1brica de Tijolos<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sciencemag.org\/content\/142\/3590\/339.1.full.pdf\">Chaos in the brickyeard<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sou um cientista que entende\u00a0que o modelo de financiamento de ci\u00eancia no mundo est\u00e1 esgotado. Tamb\u00e9m sei que a percep\u00e7\u00e3o do cientista sobre seu papel no desenvolvimento social e econ\u00f4mico do pa\u00eds \u00e9 uma, a percep\u00e7\u00e3o da sociedade sobre esse mesmo papel \u00e9 outra e o seu real papel, outro ainda. Espero contribuir com inova\u00e7\u00f5es que ajudem a chegarmos a um n<span class=\"text_exposed_show\">ovo modelo, onde todas essas vari\u00e1veis se reconciliem em um equil\u00edbrio sustent\u00e1vel. Porque voltar ao que era (&#8220;n\u00f3s pesquisamos o que quisermos e voc\u00eas pagam a conta&#8221;) simplesmente n\u00e3o \u00e9 mais uma op\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 4 anos atr\u00e1s o artigo &#8216;Fabrica de doutores&#8217; (<a href=\"http:\/\/www.nature.com\/news\/2011\/110420\/full\/472276a.html\">PhD Factory<\/a>) publicado na Nature chamava a aten\u00e7\u00e3o para o excesso de doutores sendo produzidos no mundo. Na semana passada, outro artigo na Nature, &#8216;O futuro do Postdoc&#8217; (<a href=\"http:\/\/www.nature.com\/news\/the-future-of-the-postdoc-1.17253?WT.mc_id=FBK_NatureNews\">The future of postdoc<\/a>), mostra como\u00a0o problema aumentou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No mundo inteiro, em qualquer \u00e1rea, as \u00fanicas pessoas com trabalho garantido s\u00e3o aquelas que aprenderam a se tornar indispens\u00e1veis. A maior parte das pessoas quer fazer o que quer fazer e ser paga, com benef\u00edcios, por isso. Temo que n\u00e3o seja poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Precisamos de muitas pessoas fazendo muita ci\u00eancia, mas n\u00e3o qualquer pessoa e n\u00e3o qualquer ci\u00eancia.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo dos primeiros meses desse ano, acompanhei muitos artigos que, de maneira contundente, urgem a comunidade cient\u00edfica brasileira a assumir um verdadeiro compromisso com a qualidade da ci\u00eancia produzida no pa\u00eds. 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