{"id":213,"date":"2007-07-18T16:55:00","date_gmt":"2007-07-18T19:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2007\/07\/de-olhos-bem-fechados\/"},"modified":"2007-07-18T16:55:00","modified_gmt":"2007-07-18T19:55:00","slug":"de-olhos-bem-fechados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2007\/07\/18\/de-olhos-bem-fechados\/","title":{"rendered":"De olhos bem fechados"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" style=\"border:0\" \/><\/a><\/span><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/Rp59cfDFCII\/AAAAAAAAANg\/4RgzPuIvW04\/s1600-h\/dont_forget.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/Rp59cfDFCII\/AAAAAAAAANg\/4RgzPuIvW04\/s400\/dont_forget.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>\nLi uma vez que a raz\u00e3o pela qual nos lembramos sempre das coisas ruins, \u00e9 justamente para n\u00e3o repeti-las. <span style=\"font-weight:bold\">Uma mem\u00f3ria seletiva, que favorece a armazenagem de m\u00e1s recorda\u00e7\u00f5es, n\u00e3o est\u00e1 exatamente de acordo com nossas concep\u00e7\u00f5es atuais de qualidade de vida<\/span>, mas certamente salvou a vida de muitos <a href=\"http:\/\/vocequeebiologo.blogspot.com\/2007\/05\/uma-breve-histria-do-homem.html\">homin\u00eddeos<\/a> milhares de anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Ontem, no blog do Shridhar vi um <a href=\"http:\/\/entropicando.blogspot.com\/2007\/07\/quinases-fosforilao-atividade-enzimtica.html\">texto sobre enzimas<\/a>, baseado em um <a href=\"http:\/\/www.nature.com\/neuro\/journal\/vaop\/ncurrent\/abs\/nn1943.html\">artigo cient\u00edfico<\/a> da <span style=\"font-style:italic\">Nature<\/span> onde os autores encontraram uma droga para acabar com o medo.<\/p>\n<p>J\u00e1 falei sobre o medo <a href=\"http:\/\/vocequeebiologo.blogspot.com\/2006\/09\/por-que-as-pessoas-sentem-medo.html\">aqui<\/a>. Como eu dizia, existem alguns tipos de medo e o tipo ao qual os autores se referem \u00e9 o medo adquirido. Justamente essas<span style=\"font-style:italic\"> &#8216;m\u00e1s recorda\u00e7\u00f5es&#8217; <\/span>de que eu comecei falando.<\/p>\n<p>Esses medos protegeram e ainda protegem muito a gente. Mas no mundo em que vivemos, eles tamb\u00e9m s\u00e3o o ponto de partida das neuroses. Medos fict\u00edcios ou medos desnecess\u00e1rios (que foram reais um dia mas que agora n\u00e3o tem mais raz\u00e3o de ser) e que se gravaram em nossas mem\u00f3rias e n\u00e3o conseguimos esquecer. Os autores comentam o \u00f3bvio exemplo dos ex-combatentes de guerra, que mesmo depois de voltarem pra casa, suspeitam que o inimigo esteja a espreita. Mas \u00e9 um mal que, em diferentes graus, pode afligir todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>No caso dos ratos do experimento, o medo em quest\u00e3o era o de tomar um choque el\u00e9trico  (0,7 mA por 2 s) 3 min ap\u00f3s ser colocado em um novo contexto. O medo era representado pelo comportamento de imobiliza\u00e7\u00e3o dos ratos quando expostos novamente ao mesmo contexto. Depois de tomar o choque el\u00e9trico, os animais come\u00e7avam a perder o medo apenas depois da 6a vez que eram re-apresentados ao mesmo contexto sem tomar o choque. Uma inje\u00e7\u00e3o de <span style=\"font-style:italic\">Butirolactona I<\/span> no c\u00e9rebro dos bichos, fez com que eles perdessem o medo j\u00e1 na primeira vez que eram re-apresentados ao contexto.<\/p>\n<p>Voc\u00ea vai abrir a porta da geladeira e toma um choque. Em seguida algu\u00e9m pede para voc\u00ea abrir a porta da geladeira e voc\u00ea hesita porque sabe que pode tomar outro choque. Mas se esse algu\u00e9m injetar <span style=\"font-style:italic\">Butirolactona I <\/span>no seu c\u00e9rebro, ent\u00e3o voc\u00ea abrir\u00e1 a porta da geladeira sem medo do choque. Impressionante, n\u00e3o?!<\/p>\n<p>A m\u00e1gica \u00e9 feita em uma prote\u00edna quinase chamada <span style=\"font-style:italic\">CDK5<\/span>. As quinases s\u00e3o prote\u00ednas que modificam outras prote\u00ednas pendurando um fosfato nelas, como se fosse um brinco, e que participam de rea\u00e7\u00f5es em cadeia. Cascatas de rea\u00e7\u00f5es onde uma prote\u00edna vai colocando um brinco de fosfato em outra, como uma forma de enviar mensagens de um lugar a outro na c\u00e9lula. A cascata da <span style=\"font-style:italic\">CDK5 <\/span>come\u00e7a em uma prote\u00edna <span style=\"font-style:italic\">G<\/span> da membrana plasm\u00e1tica chamada <span style=\"font-style:italic\">Rac-I<\/span> e vai at\u00e9 o alvo, a prote\u00edna <span style=\"font-style:italic\">PAK-1<\/span>, uma prote\u00edna envolvida na remodela\u00e7\u00e3o do citoesqueleto de actina (as prote\u00ednas que servem de ossos) da c\u00e9lula. Fico dif\u00edcil?! Vamos l\u00e1, o que <span style=\"font-style:italic\">PAK-1<\/span> faz \u00e9 mudar algumas sinapses, as conex\u00f5es entre dois neur\u00f4nios, de lugar.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold\">Quando alguma coisa ruim acontece, <span style=\"font-style:italic\">CDK5 <\/span>\u00e9 ativada e faz com que as sinapses se re-organizem. <\/span>Sempre que aquela o contexto ruim reaparece, os impulsos nervosos percorrem o mesmo caminho e voc\u00ea \u00e9 alertado por um <span style=\"font-style:italic\">medo adquirido<\/span>. Esse <span style=\"font-style:italic\">medo contextual<\/span>. Nos ratos, a droga impede o funcionamento da <span style=\"font-style:italic\">CDK5<\/span>. Sem a ativa\u00e7\u00e3o do alvo <span style=\"font-style:italic\">PAK-1<\/span> as sinapses parecem voltar para seus lugares originais e <span style=\"font-style:italic;font-weight:bold\">Shazan<\/span><span style=\"font-weight:bold\"> <\/span>voc\u00ea perde o medo. O contexto n\u00e3o mais percorre a via das sinapses fora de lugar. O medo desaparece.<\/p>\n<p>S\u00f3 pra confirmar, os caras testaram ratinhos mutantes, onde uma dieta a base de <span style=\"font-style:italic\">doxicilina <\/span>faz com que eles tenham uma super produ\u00e7\u00e3o de <span style=\"font-style:italic\">CDK5<\/span>, e os bichinhos n\u00e3o perdem o medo do choque nunca mais.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/Rp5-FfDFCJI\/AAAAAAAAANo\/03_UGuArpuY\/s1600-h\/eyes_closed.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/Rp5-FfDFCJI\/AAAAAAAAANo\/03_UGuArpuY\/s400\/eyes_closed.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>\u00c9 um estudo lindo, mas eu acho que o problema \u00e9 outro. O problema \u00e9 o contexto! Colocamos a culpa no medo, quando o problema \u00e9 que n\u00e3o somos capazes de reconhecermos as mudan\u00e7as de contexto. E sentimos medo \u00e0 toa. Se o contexto \u00e9 diferente, n\u00e3o h\u00e1 porque achar que vem choque pela frente. Atacamos nossos medos com qu\u00edmica, por que n\u00e3o conseguimos reconhecer as mudan\u00e7as do mundo a nossa volta. Termina tudo doido! N\u00e3o s\u00e3o nossos medos que nos deixam neur\u00f3ticos, s\u00e3o nossos olhos fechados!<\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Nature+Neuroscience&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1038%2Fnn1943&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=A+hippocampal+Cdk5+pathway+regulates+extinction+of+contextual+fear&amp;rft.issn=1097-6256&amp;rft.date=2007&amp;rft.volume=10&amp;rft.issue=8&amp;rft.spage=1012&amp;rft.epage=1019&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.nature.com%2Fdoifinder%2F10.1038%2Fnn1943&amp;rft.au=Sananbenesi%2C+F.&amp;rft.au=Fischer%2C+A.&amp;rft.au=Wang%2C+X.&amp;rft.au=Schrick%2C+C.&amp;rft.au=Neve%2C+R.&amp;rft.au=Radulovic%2C+J.&amp;rft.au=Tsai%2C+L.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEcology%2C+Evolutionary+Biology%2C+Molecular+Biology%2C+Behavioral+Biology%2C+Biochemistry%2C+Biological+Anthropology%2C+Cognitive+Psychology%2C+Comparative+Psychology%2C+Career%2C+Education%2C+Policy\">Sananbenesi, F., Fischer, A., Wang, X., Schrick, C., Neve, R., Radulovic, J., &amp; Tsai, L. (2007). A hippocampal Cdk5 pathway regulates extinction of contextual fear <span style=\"font-style: italic\">Nature Neuroscience, 10<\/span> (8), 1012-1019 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1038\/nn1943\">10.1038\/nn1943<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Li uma vez que a raz\u00e3o pela qual nos lembramos sempre das coisas ruins, \u00e9 justamente para n\u00e3o repeti-las. Uma mem\u00f3ria seletiva, que favorece a armazenagem de m\u00e1s recorda\u00e7\u00f5es, n\u00e3o est\u00e1 exatamente de acordo com nossas concep\u00e7\u00f5es atuais de qualidade de vida, mas certamente salvou a vida de muitos homin\u00eddeos milhares de anos atr\u00e1s. 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