{"id":225,"date":"2007-08-13T19:57:00","date_gmt":"2007-08-13T22:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2007\/08\/concluir-e-atrofiar\/"},"modified":"2007-08-13T19:57:00","modified_gmt":"2007-08-13T22:57:00","slug":"concluir-e-atrofiar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2007\/08\/13\/concluir-e-atrofiar\/","title":{"rendered":"Concluir \u00e9 atrofiar?"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/RsDuhMJsTLI\/AAAAAAAAAQM\/8C1IDKwfoik\/s1600-h\/regua.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/RsDuhMJsTLI\/AAAAAAAAAQM\/8C1IDKwfoik\/s400\/regua.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>O valor que a gente d\u00e1 as coisas depende da r\u00e9gua que a gente usa.<\/p>\n<p>Assisti uma pr\u00e9via de tese de um amigo m\u00e9dico. H\u00e1 algum tempo, descobri que tenho muitas diferen\u00e7as com ele e hoje descobri o por qu\u00ea. Ele abandonou a raz\u00e3o!<\/p>\n<p>A melhor disciplina que fiz no doutorado foi <span style=\"font-weight:bold\">&#8220;Hist\u00f3ria e Filosofia da Ci\u00eancia&#8221;<\/span>. J\u00e1 devo ter falado dele antes, mas foram tantas palestras bacanas que eu sempre devo ter um motivo diferente para falar de novo. Em uma delas, o prof. <span style=\"font-style:italic\">Leopoldo de Meis <\/span>fala de uma pesquisa feita com diversos cientistas sobre a maneira como eles fazem ci\u00eancia. A maioria deles respondia sem titubear: <span style=\"font-weight:bold\">&#8220;O m\u00e9todo cient\u00edfico&#8221;<\/span>.<\/p>\n<p><span style=\"font-style:italic\">&#8220;Formulo uma hip\u00f3tese e determino os objetivos. Vejo a metodologia mais adequada, executo e analiso os resultados. Concluo&#8221; <\/span>\u00e9 a resposta b\u00e1sica.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como negar que o m\u00e9todo cient\u00edfico trouxe uma sistematiza\u00e7\u00e3o que alavancou a ci\u00eancia e tornou ela a mais produtiva ferramenta do intelecto humano. Os cr\u00edticos do m\u00e9todo gostam de aplicar um tipo de <span style=\"font-weight:bold\">&#8220;princ\u00edpio da incerteza&#8221;<\/span> de <span style=\"font-style:italic\">Heisenberg<\/span>, dizendo que a observa\u00e7\u00e3o de um evento por si s\u00f3 afetaria a percep\u00e7\u00e3o desse evento e, portanto, o m\u00e9todo n\u00e3o seria v\u00e1lido. Mas nenhuma alternativa contribuiu tanto para o avan\u00e7o da ci\u00eancia, o desenvolvimento da tecnologia e a compreens\u00e3o do mundo e do universo. O m\u00e9todo cient\u00edfico \u00e9 uma ferramenta t\u00e3o poderosa que \u00e9 quase impens\u00e1vel utilizar qualquer outra.<\/p>\n<p>Mas o m\u00e9todo tem alternativas. Lembrei disso hoje.<\/p>\n<p>Na aula do prof. <span style=\"font-style:italic\">de Meis<\/span>, alguns dos cientistas entrevistados, ap\u00f3s come\u00e7arem a responder <span style=\"font-style:italic\">&#8220;o m\u00e9todo&#8230;&#8221; <\/span>paravam, refletiam e diziam: <span style=\"font-style:italic\">&#8220;Na verdade, n\u00e3o \u00e9 nada disso. Temos uma id\u00e9ia, partimos dela e n\u00e3o paramos at\u00e9 que tenha sido realizada&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>Lembro de ter ficado marcado por essa resposta. N\u00e3o podia contestar o m\u00e9todo, mas n\u00e3o podia negar a import\u00e2ncia dessa abordagem. Ent\u00e3o hoje, enquanto tentava acompanhar a apresenta\u00e7\u00e3o, que estava muito confusa apesar de eu j\u00e1 conhecer o tema, o trabalho feito e o apresentador (e at\u00e9 mesmo a apresenta\u00e7\u00e3o), tentei n\u00e3o me irritar.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico dizia: <span style=\"font-style:italic\">&#8220;Fiquei muito feliz ao ver que os grupos se separavam daquela forma&#8221;<\/span>; <span style=\"font-style:italic\">&#8220;Isso nos deu tranquilidade para continuar perseguindo nossa id\u00e9ia&#8221;<\/span>; <span style=\"font-style:italic\">&#8220;as condi\u00e7\u00f5es <\/span>&#8216;lament\u00e1veis&#8217; <span style=\"font-style:italic\">de vida&#8230;&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>Uma vez vi o Fritz Utzeri dizer em uma palestra que o jornalista nunca deve se indignar. Ele tem de dar a not\u00edcia. &#8220;<span style=\"font-weight:bold\">Quem tem de se indignar \u00e9 o leitor!<\/span>&#8221; Meu amigo m\u00e9dico \u00e9 um pesquisador determinado, emocionado e indignado. Isso possivelmente \u00e9 o que faz dele o m\u00e9dico mais atencioso com os pacientes que conhe\u00e7o. Mas \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o perigosa para um cientista. <span style=\"font-weight:bold\">Como manter a racionalidade se o seu instrumento de pesquisa perturba a sua raz\u00e3o? <\/span>\u00c9 muito complicado e ele falhou.<\/p>\n<p>Lutou pelas suas premissas com paix\u00e3o. Conseguiu seus dados com determina\u00e7\u00e3o. Desafiou as conclus\u00f5es com indigan\u00e7\u00e3o. Apresentou seus resultados com amor (tamb\u00e9m um pouco de ironia e sarcasmo). Mas ele abandonou a raz\u00e3o. E custou caro (em todos os sentidos). Foi vencido por um desenho amostral despreocupado, por objetivos confusos, resultados pouco relevantes e conclus\u00f5es  limitadas.<\/p>\n<p>O que leva uma pessoa a ter tanto trabalho para responder t\u00e3o pouco? Ser\u00e1 que valeu a pena?<\/p>\n<p>A resposta da raz\u00e3o cient\u00edfica e dos crit\u00e9rios das ag\u00eancias de fomento (<span style=\"font-style:italic\">Capes <\/span>e <span style=\"font-style:italic\">CNPq<\/span>) \u00e9 \u00f3bvia: n\u00e3o!<\/p>\n<p>Mas fico pensando se a resposta pode ser outra. Esse trabalho levou o m\u00e9dico a pessoas e lugares nunca antes visitados por um pesquisador. Ele apresentou a ci\u00eancia (al\u00e9m da medicina) at\u00e9 pessoas passariam a vida sem saber o que era isso. Ele trouxe pessoas at\u00e9 a ci\u00eancia e isso determinou o caminho que elas seguem agora.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que valeu a pena?<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o consigo responder. Por teimosia, arrog\u00e2ncia, porque podia, ou simplesmente, porque deixaram, <span style=\"font-weight:bold\">ele escolheu permanecer a pedra bruta e n\u00e3o quis se lapidar.<\/span> Mas ser\u00e1 que \u00e9 t\u00e3o estranho assim algu\u00e9m querer permanecer em estado bruto? \u00c9 prov\u00e1vel que n\u00e3o, <span style=\"font-weight:bold\">mas \u00e9 prov\u00e1vel que as arestas incomodem mais.<\/span> Um professor uma vez me disse: <span style=\"font-style:italic\">&#8220;A academia aceita a inova\u00e7\u00e3o, mas voc\u00ea tem de ser brilhante!&#8221;<\/span><\/p>\n<p>Ser\u00e1 que valeu a pena?<\/p>\n<p>Tento pensar que sim, mas o desperd\u00edcio ainda deixa a minha mente emba\u00e7ada. Talvez seja melhor assim. Um pouco de neblina pra variar. Um poeta de rua uma vez me disse: <span style=\"font-style:italic;font-weight:bold\">&#8220;concluir \u00e9 atrofiar&#8221;!<\/span><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/technorati.com\/claim\/kepkrkwz\" rel=\"me\">Technorati Profile<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O valor que a gente d\u00e1 as coisas depende da r\u00e9gua que a gente usa. Assisti uma pr\u00e9via de tese de um amigo m\u00e9dico. H\u00e1 algum tempo, descobri que tenho muitas diferen\u00e7as com ele e hoje descobri o por qu\u00ea. Ele abandonou a raz\u00e3o! 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