{"id":250,"date":"2007-11-27T12:26:00","date_gmt":"2007-11-27T15:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2007\/11\/acordo-de-cavalheiros\/"},"modified":"2007-11-27T12:26:00","modified_gmt":"2007-11-27T15:26:00","slug":"acordo-de-cavalheiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2007\/11\/27\/acordo-de-cavalheiros\/","title":{"rendered":"Acordo de cavalheiros"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/R0wzIMlnB6I\/AAAAAAAAAUg\/1leP5JYDitY\/s1600-h\/616726_handshake.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/R0wzIMlnB6I\/AAAAAAAAAUg\/1leP5JYDitY\/s400\/616726_handshake.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>O livro que eu estou terminando de ler (<span style=\"font-weight:bold\">&#8220;O quadrante Paster&#8221;<\/span> de <span style=\"font-style:italic\">Donald Strokes<\/span>), discute uma quest\u00e3o complicada: a Utilidade da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Como assim a utilidade?  Como negar os benef\u00edcios da ci\u00eancia para a humanidade? Dif\u00edcil. As evid\u00eancias s\u00e3o tantas que apenas um organismo muito doente ou muito motivado poderia refut\u00e1-las. Por que ent\u00e3o a dificuldade?<\/p>\n<p>O cientista americano <span style=\"font-style:italic\">Vannevar Bush<\/span>, que n\u00e3o \u00e9 parente de nenhum dos dois presidentes <span style=\"font-style:italic\">Bush<\/span>, foi conselheiro cient\u00edfico de <span style=\"font-style:italic\">Roosevelt <\/span>e <span style=\"font-style:italic\">Truman <\/span>durante a segunda guerra. Ao final do conflito, ele escreveu um documento chamado <span style=\"font-weight:bold\">&#8220;Ci\u00eancia, a fronteira sem fim&#8221;<\/span> (<span style=\"font-style:italic\">Science, the endless frontier<\/span>), aonde ele estabelecia a exist\u00eancia de duas ci\u00eancias: uma b\u00e1sica, onde os cientista deveriam ser livres para escolher e conduzir seu tema de pesquisa; e outra aplicada, que se alimentaria desse fluxo de novas informa\u00e7\u00f5es para transform\u00e1-las em conhecimento e tecnologia. \u00c9 de <span style=\"font-style:italic\">Bush <\/span>a id\u00e9ia de que a ci\u00eancia b\u00e1sica alimenta a tecnologia.<\/p>\n<p>Para esse sistema funcionar, era necess\u00e1rio um acordo entre a sociedade (o governo) e a academia (a comunidade cient\u00edfica). Os cientistas desenvolveriam a ci\u00eancia que em \u00faltima inst\u00e2ncia geraria a tecnologia e aumentaria a qualidade de vida da sociedade. A sociedade paga a conta. O governo deveria se responsabilizar por financiar esse modelo cient\u00edfico de liberdade de escolha e a\u00e7\u00e3o do pesquisador. Era a \u00fanica forma desse modelo funcionar. N\u00e3o te parece razo\u00e1vel? <span style=\"font-style:italic\">Bush <\/span>tinha um excelente argumento nas m\u00e3os: a ci\u00eancia \u00e9 que tinha ganho a guerra para os EUA. E depois que eles ganharam aquela, n\u00e3o queriam correr o risco de perder outras (ainda que tenham perdido e continuem perdendo). O modelo de <span style=\"font-style:italic\">Bush <\/span>era razo\u00e1vel e o governo dos EUA topou o acordo. O modelo foi rapidamente aceito por outros governos, em outros locais do mundo e a ci\u00eancia foi se sistematizando. O homem chegou a Lua, parecia que o modelo estava realmente correto.  <\/p>\n<p>Muitos anos depois, a sociedade n\u00e3o est\u00e1 mais satisfeita com esse acordo.  Existem tr\u00eas raz\u00f5es principais: A primeira, \u00e9 um acordo caro! A segunda, \u00e9 que a sociedade se dist\u00e2ncia cada vez mais da ci\u00eancia porque essa, por sua vez, est\u00e1 cada vez menos acess\u00edvel \u00e0 sociedade. Ningu\u00e9m gosta de pagar uma conta alta sem saber direito o porqu\u00ea. Em terceiro, parece que o modelo est\u00e1 incorreto.<\/p>\n<p>Boa parte da tecnologia atual n\u00e3o veio, diretamente, de uma id\u00e9ia da ci\u00eancia b\u00e1sica.  Essa falha no modelo come\u00e7ou a aparecer no final do s\u00e9culo passado. Alguns estudos mostraram que os grandes benef\u00edcios vieram de iniciativas diferentes da &#8216;ci\u00eancia aplicada&#8217;, baseadas em um modelo de pesquisa ainda mais antigo que o de Bush. O modelo de Pasteur. Nesse modelo, a aplica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia move o objetivo cient\u00edfico. Uma ci\u00eancia direcionada, onde a aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica move o objetivo cient\u00edfico e ao alcan\u00e7ar esse objetivo, o cientista contribui de forma contundente com o avan\u00e7o  (e ac\u00famulo) do conhecimento.<\/p>\n<p>Fazer ci\u00eancia b\u00e1sica virou fazer &#8216;qualquer coisa&#8217;. O cientista \u00e9 uma pessoa diferenciada pela sua capacidade de observa\u00e7\u00e3o. Observar, identificar, hipotetizar, testar, reportar e explicar. Mas tamb\u00e9m \u00e9 humano. Isso quer dizer que pode errar nesse processo, mas pior do que isso, pode deixar o processo cient\u00edfico, que deveria ser amoral como a natureza, ser influenciado por cren\u00e7as e emo\u00e7\u00f5es. A pior coisa que pode acontecer \u00e0 um cientista \u00e9 se tornar tendencioso. E como mostra Ioannidis no seu fabuloso artigo &#8216;porque a maior parte das pesquisas publicadas s\u00e3o falsas&#8217; (<a href=\"http:\/\/medicine.plosjournals.org\/perlserv\/?request=get-document&amp;doi=10.1371%2Fjournal.pmed.0020124\">Why most published research findings are false<\/a><span style=\"font-style:italic\">)<\/span> os cientistas se tornaram tendenciosos. Muitos deles adeptos da cren\u00e7a no Deus Dinheiro e na Santa Ind\u00fastria de F\u00e1rmacos.  <\/p>\n<p>Os cientistas come\u00e7aram a focar nas respostas (n\u00famero de artigos publicados, n\u00famero de projetos aprovados, de teses defendidas, de patentes registradas) e foram perdendo a habilidade mais peculiar \u00e0 atividade cient\u00edfica: fazer boas perguntas!  Uma leitora f\u00e3 do Zen e um amiga f\u00e3 do <span style=\"font-style:italic\">Jostein Gaarder<\/span> j\u00e1 falaram disso esse ano pra mim e tenho cada vez mais pensado no assunto: <span style=\"font-weight:bold\">Uma boa pergunta \u00e9 mais importante que a resposta!  <\/span><\/p>\n<p>Temos que voltar a fazer boas perguntas. E temos de ensinar nossos alunos que o mais importante s\u00e3o as perguntas. Pra isso, vamos ter de trabalhar o conceito de utilidade. Um conceito que tamb\u00e9m s\u00f3 se define de forma completa \u00e0 luz da estat\u00edstica. Mas isso fica para o pr\u00f3ximo texto.  <\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro que eu estou terminando de ler (&#8220;O quadrante Paster&#8221; de Donald Strokes), discute uma quest\u00e3o complicada: a Utilidade da ci\u00eancia. Como assim a utilidade? Como negar os benef\u00edcios da ci\u00eancia para a humanidade? Dif\u00edcil. 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