{"id":269,"date":"2008-02-20T01:02:00","date_gmt":"2008-02-20T04:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2008\/02\/o-gene-da-cinderela\/"},"modified":"2008-02-20T01:02:00","modified_gmt":"2008-02-20T04:02:00","slug":"o-gene-da-cinderela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2008\/02\/20\/o-gene-da-cinderela\/","title":{"rendered":"O gene da Cinderela"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/R7uqy0y91BI\/AAAAAAAAAWI\/ynZJzgORSbo\/s1600-h\/Cinderella.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/R7uqy0y91BI\/AAAAAAAAAWI\/ynZJzgORSbo\/s400\/Cinderella.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:justify\">O segundo cap\u00edtulo de &#8220;<span style=\"font-weight:bold\">A doutrina do DNA<\/span>&#8221; de <span style=\"font-style:italic\">Richard Lewontin<\/span>, um livro obrigat\u00f3rio para todos os bi\u00f3logos, come\u00e7a com a pergunta: &#8220;Est\u00e1 tudo nos genes?&#8221; A resposta \u00e9 que nem tudo est\u00e1 no DNA. Fatores ambientais e o acaso, na forma das &#8216;anomalias do desenvolvimento&#8217; (tudo explicadinho no livro), t\u00eam um papel importante no que torna cada ser vivo \u00fanico.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, algumas coisas est\u00e3o nos genes sim. Quais? Isso foi tema de discuss\u00e3o com uma querida amiga psic\u00f3loga durante a \u00faltima semana. &#8216;ID&#8217;, &#8216;EGO&#8217; e Freud vinham pra c\u00e1; genes, muta\u00e7\u00f5es e Darwin iam pra l\u00e1. Acordamos que o comportamento humano possu\u00eda aspectos biol\u00f3gicos, algo parecido com o instinto (que eu coloquei no ID), que s\u00e3o transmitidos pelos genes de uma gera\u00e7\u00e3o para outra; e aspectos culturais, dependente do ambiente, moral e \u00e9tica (que eu coloquei no ego e superego) que n\u00e3o eram transmitidos para a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o. Ou pelo menos n\u00e3o biologicamente.<\/p>\n<p>Isso tudo porque eu tenho pensado muito ultimamente sobre como nosso comportamento biol\u00f3gico imp\u00f5e limita\u00e7\u00f5es ao nosso comportamento cultural. Se n\u00e3o imp\u00f5e limita\u00e7\u00f5es, deve ter um grau de responsabilidade pelos dilemas que enfrentamos ao longo da nossa vida. Porque algumas escolhas parecem t\u00e3o complicadas? Porque \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil ficar satisfeito? Porque, tantas vezes, somos t\u00e3o amb\u00edguos? Para mim, a resposta est\u00e1 em que nosso comportamento biol\u00f3gico diz uma coisa e nosso comportamento moral diz outra. Ainda que o moral ven\u00e7a na maior parte das vezes em n\u00f3s animais racionais, ele raramente convence o biol\u00f3gico, que fica esperando o momento de apontar: &#8220;mas eu te disse!&#8221;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o apenas os genes dos nossos instintos que nos imp\u00f5e limites. Existem exemplos mais concretos de limites morfol\u00f3gicos e fisiol\u00f3gicos que v\u00e3o contra as determina\u00e7\u00f5es culturais. Os mais f\u00e1ceis de explicar (e talvez mais interessantes) ilustram as diferen\u00e7as entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>Durante o nosso desenvolvimento, al\u00e9m de colocar as coisas nos seus devidos lugares, os genes X(X) e(X)Y trabalham na &#8216;formata\u00e7\u00e3o&#8217; do nosso c\u00e9rebro para que sejamos homens ou mulheres. Espero que voc\u00eas me permitam a met\u00e1fora com os termos de inform\u00e1tica. Se um corpo, o hardware, \u00e9 masculinos ou femininos; a configura\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro, o software, tem de acompanhar aquele corpo (em alguns casos isso n\u00e3o acontece, mas vou deixar, de novo, isso para outro post).<br \/>Diferen\u00e7as importantes entre homens e mulheres s\u00e3o determinadas por essa formata\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro. Uma formata\u00e7\u00e3o comandada por genes. Se voc\u00eas pudessem observar estudos de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica no c\u00e9rebro masculino e feminino enquanto ouvem o choro de um beb\u00ea ou quando tentam resolver a solu\u00e7\u00e3o de um labirinto, veriam do que estou falando. <span style=\"font-style:italic\">&#8220;As aves que aqui gorjeiam, n\u00e3o gorjeiam como l\u00e1&#8221;<\/span>, como diria <span style=\"font-style:italic\">Gon\u00e7alves Dias.<\/span> As luzes que aqui (no c\u00e9rebro do homem) acendem, n\u00e3o acendem como l\u00e1 (no c\u00e9rebro das mulheres). E vice-versa.<\/p>\n<p>Homens t\u00eam maior profundidade de foco na vis\u00e3o e um racioc\u00ednio espacial melhor, o que permite enxergar mais longe com maior acur\u00e1cia e precis\u00e3o. As mulheres t\u00eam um campo visual (vis\u00e3o lateral) mais amplo e s\u00e3o capazes de lidar diferentes tipos de fontes de informa\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo. Essas habilidades e capacidades espec\u00edficas diferentes foram inseridas no c\u00e9rebro pelo &#8216;programa&#8217; gen\u00e9tico que acompanha cada um dos sexos. Provavelmente elas n\u00e3o nos servem hoje como serviram durante todo o tempo que foi necess\u00e1rio para que a sele\u00e7\u00e3o natural as escolhessem. Mas a quest\u00e3o \u00e9 outra. <span style=\"font-weight:bold\">A quest\u00e3o \u00e9 que essas caracter\u00edsticas nos imp\u00f5e limites biol\u00f3gicos! <\/span>Nenhum homem conseguir\u00e1 ser t\u00e3o eficiente em escutar e falar como uma mulher, e nenhuma mulher conseguir\u00e1 ser t\u00e3o eficiente quanto um homem em determinar posi\u00e7\u00e3o e dist\u00e2ncia (a discuss\u00e3o do grau dessas diferen\u00e7as fica para o outro texto que mencionei acima).<\/p>\n<p>Os limites biol\u00f3gicos impostos pelas caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas e fisiol\u00f3gicas, foram levando os sexos a optarem por estrat\u00e9gias de vida diferentes (o que por sua vez foi criando mais limites biol\u00f3gicos). Uma das diferen\u00e7as de estrat\u00e9gia mais marcantes entre os sexos, nos mam\u00edferos viv\u00edparos como n\u00f3s, \u00e9 o investimento que fazem na prole: o da f\u00eamea \u00e9 significativamente maior que o do macho. Nos humanos, algumas peculiaridades fazem com que esse investimento seja ainda mais pesado. A rela\u00e7\u00e3o entre o tamanho do bebe \u00e9 tamanho da m\u00e3e \u00e9 proporcionalmente maior que em qualquer outro mam\u00edfero. Isso maximiza a sa\u00fade do filhote, mas minimiza a da m\u00e3e. As dificuldades com o parto e o aleitamento impossibilitam a busca por abrigo, alimento e prote\u00e7\u00e3o de ambos. Com isso, a ajuda do pai n\u00e3o \u00e9 apenas um luxo para que a f\u00eamea n\u00e3o tenha que criar o filhote sozinha: \u00e9 uma necessidade vital sem a qual as chances de sobreviv\u00eancia da f\u00eamea e do filhote s\u00e3o incrivelmente menores. Geneticamente, as f\u00eameas humanas foram desenhadas para precisarem do cuidado do macho humano. Que bom, porque se n\u00e3o fosse isso, provavelmente n\u00e3o teriam evolu\u00eddo o sexo por divers\u00e3o: \u00fanico na natureza e a melhor estrat\u00e9gia que as f\u00eameas encontraram para manter o macho por perto (e feliz) cuidando delas e dos filhotes. Ainda que d\u00ea trabalho, compensa!<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a codifica\u00e7\u00e3o para um bebe maior e com maiores chances de sobreviv\u00eancia n\u00e3o revogou instru\u00e7\u00f5es anteriores, como a de &#8216;encontre o melhor macho para seus filhotes. Se encontrar um macho melhor que o anterior, substitua o velho&#8217;. Como j\u00e1 falei <a href=\"http:\/\/vocequeebiologo.blogspot.com\/2006\/07\/por-que-algumas-mulheres-homens-s.html\">aqui<\/a>, machos s\u00e3o instintivamente (est\u00e1 nos genes) prom\u00edscuos e f\u00eameas s\u00e3o instintivamente infi\u00e9is. Hum&#8230; assim vou perder leitoras. Deixa eu reformular. As mulheres s\u00e3o biologicamente seletivas e carentes. Comportamentos instintivamente programados pelos genes para compatibilizar com a estrat\u00e9gia reprodutiva de alto custo energ\u00e9tico com a prole. Biologicamente preparadas para a infidelidade, porque seu maior compromisso \u00e9 com a prole, e n\u00e3o com o parceiro. Como compatibilizar esses instintos de seletividade e car\u00eancia com a cultura que vivemos ignora, que ignora esses aspectos biol\u00f3gicos? N\u00e3o d\u00e1. As mulheres modernas vivem em constante dilema. Essa ambig\u00fcidade foi muito bem identificada pela autora americana <span style=\"font-style:italic\">Colette Dowling <\/span>no cl\u00e1ssico dos anos 80 <span style=\"font-style:italic\">&#8220;O complexo de Cinderela&#8221; <\/span>(que minha amiga Vanessa diz ser uma teoria ultrapassada, mas que nunca me pareceu t\u00e3o atual).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/R7uqyky91AI\/AAAAAAAAAWA\/MgyMy8cvk-0\/s1600-h\/woman+alone.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/R7uqyky91AI\/AAAAAAAAAWA\/MgyMy8cvk-0\/s400\/woman+alone.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>Com a mudan\u00e7a do estilo de vida tribal de 2 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s para o atual supermercado\/microondas, o <span style=\"font-weight:bold\">&#8216;gene da Cinderela&#8217;<\/span> se tornou um fardo para as mulheres modernas: bem sucedidas, competitivas na sociedade e no mundo profissional, capazes de superar grandes dificuldades na vida sozinhas, mas tamb\u00e9m capazes de abrir m\u00e3o de todas as suas conquistas para sucumbirem a um desejo incontrol\u00e1vel de serem cuidadas pelos homens assim que encontram um.<\/p>\n<p>A pitada de crueldade \u00e9 dada pela inexist\u00eancia no genoma masculino do &#8216;gene do pr\u00edncipe encantado&#8217;. E tem<br \/>\nquem discorde de mim quando digo que a natureza \u00e9 amoral.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O segundo cap\u00edtulo de &#8220;A doutrina do DNA&#8221; de Richard Lewontin, um livro obrigat\u00f3rio para todos os bi\u00f3logos, come\u00e7a com a pergunta: &#8220;Est\u00e1 tudo nos genes?&#8221; A resposta \u00e9 que nem tudo est\u00e1 no DNA. Fatores ambientais e o acaso, na forma das &#8216;anomalias do desenvolvimento&#8217; (tudo explicadinho no livro), t\u00eam um papel importante no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":553,"featured_media":270,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"editor_plus_copied_stylings":"{}","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[6,20],"tags":[275,671,792,893],"class_list":["post-269","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-comportamento","category-livro","tag-cinderela","tag-homem","tag-limites-biologicos","tag-mulher"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/269","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/553"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=269"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/269\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/media\/270"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=269"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=269"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=269"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}