{"id":275,"date":"2008-02-29T01:07:00","date_gmt":"2008-02-29T04:07:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2008\/02\/sera-que-ele-e\/"},"modified":"2008-02-29T01:07:00","modified_gmt":"2008-02-29T04:07:00","slug":"sera-que-ele-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2008\/02\/29\/sera-que-ele-e\/","title":{"rendered":"Ser\u00e1 que ele \u00e9?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/R8eWhNLGDlI\/AAAAAAAAAWo\/gmHTEv6wIac\/s1600-h\/rainbow_flag.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/R8eWhNLGDlI\/AAAAAAAAAWo\/gmHTEv6wIac\/s400\/rainbow_flag.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>Quando falei do <a href=\"http:\/\/vocequeebiologo.blogspot.com\/2008\/02\/o-gene-da-cinderela.html\">gene da Cindelera<\/a>, disse que a intensidade de algumas caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas varia de acordo com o ambiente ou o acaso e n\u00e3o necessariamente com a express\u00e3o dos genes.<\/p>\n<div style=\"text-align:justify\">O homossexualismo n\u00e3o est\u00e1 nos genes, como muitos pesquisadores gostam de pregar. N\u00e3o est\u00e1 porque n\u00e3o tem como estar, pela simples raz\u00e3o de que n\u00e3o passaria de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o! (Reza a lenda que) Um artigo publicado na <span style=\"font-style:italic\">Theoretical Biology<\/span> (que eu nunca encontrei) explica como poderia haver um gene para o homesexualismo. Mas disso eu j\u00e1 falei no texto <a href=\"http:\/\/vocequeebiologo.blogspot.com\/2007\/08\/homens-que-choram.html\">Homens que choram<\/a>. \u00c9 excelente como exerc\u00edcio de l\u00f3gica cient\u00edfica, mas pouco prov\u00e1vel de encontrar.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitas as tentativas de encontrar uma base biol\u00f3gica para o homossexualismo. Existem v\u00e1rios autores (ver <span style=\"font-style:italic\">Santilla et al<\/span>., 2008) que tentam responsabilizar os genes encontram rela\u00e7\u00f5es entre o homossexualismo e fatores gen\u00e9ticos. Mas nenhum deles se encaixa tanto nos achados epidemiol\u00f3gicos como a teoria do irm\u00e3o mais velho (ver <span style=\"font-style:italic\">Blanchard <\/span>2004). Ela explica entre 15 e 30% dos casos de homossexualismo masculino. E n\u00e3o tem a ver com os genes, mas sim com o desenvolvimento. Daqui a pouco eu volto a ela.<\/p>\n<p>De acordo com a teoria, os irm\u00e3os mais novos, de muitos irm\u00e3os homens, tem maiores chances de se tornarem homossexuais. O mesmo n\u00e3o se aplica para o irm\u00e3o mais novo de muitas irm\u00e3s. Tamb\u00e9m n\u00e3o se aplica para o sexo feminino.<\/p>\n<p>Como o assunto \u00e9 delicado e pode incomodar leitores queridos, eu fiz uma cuidadosa pesquisa bibliogr\u00e1fica antes de escrever (sim, as vezes escrevo s\u00f3 o que eu penso, ou o que acho l\u00f3gico) e estou dando algumas refer\u00eancias dos estudos mais citados. Mas como sempre, os escritos n\u00e3o tem nada a ver com moral. O assunto \u00e9 riqu\u00edssimo para estudarmos as rela\u00e7\u00f5es entre adapta\u00e7\u00e3o, desenvolvimento, genes e ambiente.<\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar do princ\u00edpio. Dos nossos 46 cromossomos, dois s\u00e3o sexuais e determinam se seremos meninos (XY) ou meninas (XX). Com o que se parece um Y? Se eu colocar em <span style=\"font-style:italic\">Y em <\/span>it\u00e1lico ajuda? Acertou quem disse que se parece com um X que perdeu uma perna. Ent\u00e3o, a teoria diz que o cromossomo masculino Y descende do cromossomo feminino X, por perda de material. (Isso e outras evid\u00eancias) Sugere(m) que o sexo primordial \u00e9 o feminino. Na verdade, quando come\u00e7amos a nos formar, ainda cedo no est\u00e1gio fetal, temos todos um corpo feminino.<\/p>\n<p>Em um momento do desenvolvimento, os genes masculinos sinalizam que aquele feto \u00e9 do sexo masculino e come\u00e7am ent\u00e3o a fazer as altera\u00e7\u00f5es no &#8216;molde&#8217; feminino para que aquele corpo se torne masculino (n\u00e3o existem evid\u00eancias de que uma c\u00e9lula XY n\u00e3o possa se tornar um corpo feminino e vice-versa; ainda que n\u00e3o se tornem). Talvez o termo mais correto ent\u00e3o \u00e9 dizer que somos todos &#8216;bipotentes&#8217;, um termo utilizado para designar a capacidade de uma c\u00e9lula de se diferenciar em mais de um tipo, quanto ao sexo ainda na fase embrion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Abre par\u00eanteses: Essa \u00e9 uma poss\u00edvel raz\u00e3o pela qual existem muito mais homossexuais homens que mulheres, em uma rela\u00e7\u00e3o de 9:1. Fecha par\u00eanteses.<\/p>\n<p>Essas altera\u00e7\u00f5es s\u00e3o mediadas pelo poderoso horm\u00f4nio testosterona. \u00c9 ela quem determina a desfeminiza\u00e7\u00e3o do feto. Ou seja, os ov\u00e1rios primordiais descem pelo abdomem e v\u00e3o para a bolsa escrotal formarem os test\u00edculos. O que seria a reentr\u00e2ncia da vagina vira a protuber\u00e2ncia do penis. Pronto, o b\u00e1sico t\u00e1 feito.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/R8eWhtLGDmI\/AAAAAAAAAWw\/_ChDIb8skq8\/s1600-h\/13022008116.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/R8eWhtLGDmI\/AAAAAAAAAWw\/_ChDIb8skq8\/s400\/13022008116.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>Mas n\u00e3o p\u00e1ra por ai. Est\u00e1 claro desde os anos 90 que o c\u00e9rebro tamb\u00e9m tem de se diferenciar para completar corpo determinado pelo sexo. E tamb\u00e9m \u00e9 a testosterona (e outros estr\u00f3genos derivados da sua aromatiza\u00e7\u00e3o) que fazem a desfeminiza\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Das v\u00e1rias regi\u00f5es do c\u00e9rebro envolvidas na diferencia\u00e7\u00e3o sexual, o hipot\u00e1lamo \u00e9 provavelmente a mais importante. Existem alguns n\u00facleos sexuais dimorficos bem documentados, como o INAH3, s\u00e3o claramente diferentes em homens, mulheres e homossexuais masculinos, que apresentam o volume desse grupo de c\u00e9lulas mais pr\u00f3ximo do feminino. O curioso \u00e9 que alguns desses dimorfismos sexuais no c\u00e9rebro aparecem apenas depois dos primeiros anos de vida e outros, apenas na vida adulta.<\/p>\n<p>A maior parte dos estudos com mam\u00edferos mostra que o ambiente hormonal pr\u00e9-natal e perinatal s\u00e3o important\u00edssimos para a diferencia\u00e7\u00e3o sexual do c\u00e9rebro e do comportamento. Eles sugerem que um macho recebe durante a fase pr\u00e9-natal, 4 &#8216;doses&#8217; de testosterona. A primeira, determina os caracteres sexuais prim\u00e1rios. As outras, &#8216;formatam&#8217; o c\u00e9rebro. Se faltar mat\u00e9ria prima, o c\u00e9rebro pode n\u00e3o acompanhar o corpo, gerando os conflitos de identidade e orienta\u00e7\u00e3o sexual. Os estudos em humanos mostram uma influencia tamb\u00e9m, mas que s\u00e3o insuficiente para estabelecer conclus\u00f5es definitivas.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que n\u00e3o d\u00e1 para fazer experimentos de laborat\u00f3rio em humanos. Ent\u00e3o temos que esperar que a natureza, a\u00e9tica, fa\u00e7a eles para n\u00f3s. Existem v\u00e1rias doen\u00e7as que afetam os receptores de horm\u00f4nios andr\u00f3genos levando a uma hipo-exposi\u00e7\u00e3o a testosterona. E outras como a hiperplasia adrenal cong\u00eanita, que leva a uma exposi\u00e7\u00e3o fora de hora aos horm\u00f4nios. O problema, de novo, \u00e9 que n\u00e3o se pode estudar o c\u00e9rebro dessas pessoas (e claro, isolar os efeitos da influ\u00eancia de ter uma genit\u00e1lia deformada na sua identidade sexual). No entanto, todos os resultados apontam para uma forte tend\u00eancia entre a exposi\u00e7\u00e3o pr\u00e9-natal a horm\u00f4nios ester\u00f3ides e a op\u00e7\u00e3o pode uma identidade sexual masculina (ainda que esse fator n\u00e3o seja decisivo). No caso das f\u00eameas, a import\u00e2ncia da exposi\u00e7\u00e3o aos horm\u00f4nios estr\u00f3genos \u00e9 menos conhecida.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/R8eWg9LGDkI\/AAAAAAAAAWg\/A2hx-o1Ch3A\/s1600-h\/weedingring.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/R8eWg9LGDkI\/AAAAAAAAAWg\/A2hx-o1Ch3A\/s400\/weedingring.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>Como m\u00e9dicos americanos adoram encontrar estat\u00edsticas significativas, acabam encontrando qualquer coisa. Parece que o comprimento do dedo anular da m\u00e3o esquerda de homens pode ser indicador da exposi\u00e7\u00e3o pre-natal a horm\u00f4nios andr\u00f3genos, tendo importante consequencia no comportamento dos meninos. Ou seja, <span style=\"font-weight:bold\">meninas, fiquem ligadas! Quando forem trocar as alian\u00e7as, se o cara tiver o &#8216;seu vizinho&#8217; pequeno&#8230; considere se ainda h\u00e1 tempo de cancelar a cerim\u00f4nia. <\/span>Mas como eu disse, muitos estudos mostraram que existem diferen\u00e7as na raz\u00e3o entre os tamanhos dos dedos por motivos variados, indicando que esse n\u00e3o \u00e9 um marcador robusto.<\/p>\n<p>A maior parte dos estudos gen\u00e9ticos que tentam ligar o homossexualismo aos genes \u00e9 question\u00e1vel. Ou pelo menos questionada por mim. Alguns estudos mostram que homossexuais homens tem mais irm\u00e3os tamb\u00e9m homossexuais que os homens hetero. E que mulhere homossexuais tem mais irm\u00e3s homo do que as hetero. A an\u00e1lise das \u00e1rvores geneal\u00f3gicas desses indiv\u00edduos sugere um agrupamento familiar de<br \/>\ngenes que pode ser respons\u00e1vel pelas evid\u00eancias. Mas o n\u00famero de estudos, principalmente aqueles envolvendo g\u00eameos, que eu sempre desconfio enormemente (j\u00e1 que quase todos os grandes estudos com g\u00eameos da hist\u00f3ria foram manipulados e falseados), n\u00e3o trazem grandes contribui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Voltamos ent\u00e3o a &#8216;Sindrome do Irm\u00e3o mais Velho&#8217;. Essa \u00e9 quente, porque em um n\u00famero grande de estudos independentes e replicados, homens homossexuais apresentam mais irm\u00e3os mais velhos que homens heterosexuais (Blanchard e Bogaert, 1997). Estima-se que cada irm\u00e3o mais velho aumente a chance do pr\u00f3ximo ser homossexual em at\u00e9 50%. Mas em termos de popula\u00e7\u00e3o, isso representa apenas um pequeno percentual. <span style=\"font-weight:bold\">A maior parte dos homossexuais n\u00e3o pode ser explicada por esse fen\u00f4meno <\/span>e n\u00e3o se encaixa nesse modelo. De acordo com Blanchard, a teoria mais aceita para explicar esse fato \u00e9 uma resposta imune da m\u00e3e a ant\u00edgenos masculinos,desenvolvida ao longo de muitas gesta\u00e7\u00f5es de meninos, gerando anticorpos anti-macho, ou anti-testosterona, ou anti-andr\u00f3genos que poderiam passar atrav\u00e9s da placenta para o bebe e afetar o desenvolvimento do c\u00e9rebro do irm\u00e3o mais novo. Mas faltam evid\u00eancias experimentais para essa explica\u00e7\u00e3o. Ela tamb\u00e9m n\u00e3o explica porque esses anticorpos n\u00e3o afetariam os caracteres sexuais prim\u00e1rios, ou porque n\u00e3o existem na maior parte dos irm\u00e3os mais novos.<\/p>\n<p>E terminamos n\u00e3o muito diferente do que come\u00e7amos, pra frustra\u00e7\u00e3o daqueles que gostam de conclus\u00f5es absolutistas. A identidade e orienta\u00e7\u00e3o sexual tem sem d\u00favdia uma base biol\u00f3gica, mas ainda \u00e9 poss\u00edvel afirmar pouco sobre como ela funciona. Os estudos de sexologia com com hetero, homo e transexuais foram importantes at\u00e9 a metade do s\u00e9culo passado, quando o advento das dosagens de horm\u00f4nios permitiu que a ci\u00eancia exata dominasse \u00e1rea. Atualmente esses estudos mais psicol\u00f3gicos pecam pela falta de reprodutibilidade de suas conclus\u00f5es. Por outro lado, as pesquisas apontam para um papel preponderante da testosterona na identidade e orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Por via das d\u00favidas, olhem o tamanho do dedo anular do cabra!<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando falei do gene da Cindelera, disse que a intensidade de algumas caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas varia de acordo com o ambiente ou o acaso e n\u00e3o necessariamente com a express\u00e3o dos genes. O homossexualismo n\u00e3o est\u00e1 nos genes, como muitos pesquisadores gostam de pregar. 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