{"id":28,"date":"2002-03-01T15:30:00","date_gmt":"2002-03-01T18:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2002\/03\/em-tempos-de-dengue\/"},"modified":"2002-03-01T15:30:00","modified_gmt":"2002-03-01T18:30:00","slug":"em-tempos-de-dengue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2002\/03\/01\/em-tempos-de-dengue\/","title":{"rendered":"Em tempos de Dengue"},"content":{"rendered":"<p>Tem brasileiro espalhado pelo mundo inteiro e fazendo de tudo. Mas um em especial, trabalha no melhor instituo de pesquisa biom\u00e9dica dos EUA (o National Institute of Health) e com algo que poderia ser considerado por voc\u00eas como, no m\u00ednimo, inusitado: saliva de mosquitos. Sim, o indiv\u00edduo estuda a saliva de mosquitos dos g\u00eaneros Aedes e Anopheles.<\/p>\n<p>Aposto que mesmo que soubessem que se tratam dos mosquitos da Mal\u00e1ria, da febre amarela e da dengue, ainda assim muitos de voc\u00eas pensariam: &#8220;Como algu\u00e9m trabalha com saliva de mosquito?&#8221; ou pior &#8220;Por que algu\u00e9m estuda saliva de mosquito?&#8221; ou pior ainda &#8220;Como algu\u00e9m paga algu\u00e9m pra estudar saliva de mosquito?&#8221;  Com tantas crian\u00e7as por ai passando fome n\u00e3o \u00e9 mesmo?!<\/p>\n<p>Bom, voc\u00eas podem ler tudo sobre a import\u00e2ncia de estudar a saliva de mosquitos no artigo do pesquisador <a href=\"http:\/\/200.177.98.79\/jcemail\/Detalhe.jsp?id=878\">Jos\u00e9 Marcos Ribeiro<\/a>. Ou tamb\u00e9m sobre a <a href=\"http:\/\/tb.bol.com.br\/simpleRedirect.html?srv=cn&amp;trg=http:\/\/www.terra.com.br\/noticias\/brasil\/2002\/02\/27\/119.htm\">arma biol\u00f3gica<\/a> (eufemismo para vermes) que os cubanos est\u00e3o mandando para combater o mosquito da dengue. Mas eu queria a sua aten\u00e7\u00e3o para um outro tema. Os assuntos estudados pelos cientistas e sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade e a cidadania.<\/p>\n<p>Em 1951 foi criado o Conselho nacional de pesquisa (CNPq), hoje Conselho Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia, principal \u00f3rg\u00e3o fomentador da atividade cient\u00edfica no pa\u00eds. Na pauta de sua primeira reuni\u00e3o estava a seguinte quest\u00e3o: <span style=\"font-weight:bold\">Como justificar investimentos em ci\u00eancia em um pa\u00eds com tantas desigualdades e problemas sociais?<\/span><\/p>\n<p>Cinq\u00fcenta anos depois a pergunta ainda paira no ar. Montar um laborat\u00f3rio custa MUITO dinheiro e a manuten\u00e7\u00e3o dele talvez mais ainda. Resumindo, estudar rabo de lagartixa e saliva de mosquito custa um dinheir\u00e3o. E vale a pena? Justifica? Devemos (e podemos) investir em ci\u00eancia b\u00e1sica? Ou vamos investir s\u00f3 em tecnologia e ci\u00eancia aplicada?<\/p>\n<p>O problema come\u00e7a nessa classifica\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia b\u00e1sica e aplicada, que, certamente, cria m\u00e1s interpreta\u00e7\u00f5es e preconceitos. Essa dicotomia na verdade foi introduzida em 1945 por <span style=\"font-style:italic\">Vannevar Bush<\/span> (Science, The Endless Frontier). Neste texto foi feita \u00e0 famosa e cl\u00e1ssica defini\u00e7\u00e3o de pesquisa b\u00e1sica: &#8220;contribuir para o conhecimento e compreens\u00e3o da natureza e suas leis&#8221;. Dai veio \u00e0 dicotomia que dura d\u00e9cadas!<\/p>\n<p>Em 1997 foi publicado um livro chamado <span style=\"font-style:italic\">Pasteur&#8217;s Quadrant, Basic Science and Technological Innovation<\/span>. Nesse livro <span style=\"font-style:italic\">Donald Stokes <\/span>prop\u00f5e uma nova taxonomia das atividades de pesquisa e desenvolvimento, cujo m\u00e9rito principal \u00e9 justamente superar a FALSA dicotomia existente entre pesquisa b\u00e1sica e aplicada.<\/p>\n<p>No livro de <span style=\"font-style:italic\">Stokes <\/span>prop\u00f5e-se uma nova nomenclatura baseada em coordenadas: uma dimensiona o avan\u00e7o do conhecimento que a pesquisa propicia. A Segunda dimensiona a aplica\u00e7\u00e3o que dela decorre. Com isso, uma pesquisa pode ao mesmo tempo contribuir para o avance do conhecimento e ter grandes perspectivas de aplica\u00e7\u00e3o pratica. Pela defini\u00e7\u00e3o antiga poderia ser b\u00e1sica e aplicada, o que consequentemente invalida tal defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para alcan\u00e7armos um est\u00e1gio onde a pesquisa cient\u00edfica se reverta em grande desenvolvimento tecnol\u00f3gico \u00e9 necess\u00e1rio massa cr\u00edtica de pesquisadores, de c\u00e9rebros, cabe\u00e7as pensantes. C\u00e9rebros que s\u00e3o formados em universidades livres, p\u00fablicas e de qualidade, com pol\u00edticas s\u00f3lidas de apoio a ci\u00eancia e com uma sociedade que permita a inser\u00e7\u00e3o do cientista. Uma sociedade que esteja preparada para &#8220;consumir&#8221; a ci\u00eancia.<\/p>\n<p>E durante as epidemias de dengue e os racionamentos de energia el\u00e9trica teremos uma massa de pesquisadores capazes de &#8220;decodificar&#8221; a informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dispon\u00edvel e buscar a melhor aplica\u00e7\u00e3o para responder aos anseios e necessidades da sociedade.<\/p>\n<p><span style=\"font-size:85%\">*Colaborou (muito) Dr. Stevens K. Rehen, pesquisador brasileiro ent\u00e3o trabalhando na Universidade da Calif\u00f3rnia em San Diego, EUA.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem brasileiro espalhado pelo mundo inteiro e fazendo de tudo. Mas um em especial, trabalha no melhor instituo de pesquisa biom\u00e9dica dos EUA (o National Institute of Health) e com algo que poderia ser considerado por voc\u00eas como, no m\u00ednimo, inusitado: saliva de mosquitos. 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