{"id":286,"date":"2008-05-02T03:14:00","date_gmt":"2008-05-02T06:14:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2008\/05\/quem-sao-os-biofisicos\/"},"modified":"2008-05-02T03:14:00","modified_gmt":"2008-05-02T06:14:00","slug":"quem-sao-os-biofisicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2008\/05\/02\/quem-sao-os-biofisicos\/","title":{"rendered":"Quem s\u00e3o os biof\u00edsicos?"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SBs5I4o-H_I\/AAAAAAAAAYQ\/foxg0-jB_UM\/s1600-h\/watson+e+crick.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SBs5I4o-H_I\/AAAAAAAAAYQ\/foxg0-jB_UM\/s400\/watson+e+crick.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a>Quando entrei no doutorado no Instituto de Biof\u00edsica da UFRJ em 1997, uma coisa me incomodava: eu n\u00e3o sabia direito o que era Biof\u00edsica! Eu enchia a boca para dizer <span style=\"font-style:italic\">&#8220;Fa\u00e7o doutorado em biof\u00edsica&#8221;<\/span> e torcia para ningu\u00e9m perguntar depois &#8220;<span style=\"font-style:italic\">Mas o que \u00e9 biof\u00edsica?&#8221; <\/span>Acho que o termo \u00e9 t\u00e3o ostentoso que ningu\u00e9m se arriscava a perguntar. At\u00e9 ontem. Na verdade a pergunta do <a href=\"http:\/\/chivononpo.blogspot.com\/\">Jo\u00e3o<\/a> n\u00e3o foi exatamente o que \u00e9 biof\u00edsica, mas sim se existem &#8220;biof\u00edsicos&#8221;? Sim Jo\u00e3o, existem.<\/p>\n<p>Mas vamos voltar a biof\u00edsica. \u00c9 claro que em algum momento, bem no in\u00edcio, eu procurei uma defini\u00e7\u00e3o de Biof\u00edsica. E encontrei. V\u00e1rias. Todas desse tipo: <span style=\"font-style:italic\">&#8220;Biof\u00edsica \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios f\u00edsicos, tanto cl\u00e1ssicos como modernos, para a solu\u00e7\u00e3o de problemas dos sistemas biol\u00f3gicos&#8221;<\/span><br \/>Nenhuma ficava guardada na minha mem\u00f3ria. Com o tempo, fui eu mesmo construindo minha defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acho que come\u00e7ou quando li <span style=\"font-weight:bold\">&#8220;Genes, girls and Gamow&#8221;<\/span> do <span style=\"font-style:italic\">James Watson <\/span>(um dos descobridores da dupla h\u00e9lice do DNA). O &#8216;Gamow&#8217; do t\u00edtulo \u00e9 o f\u00edsico nuclear <span style=\"font-style:italic\">George Gamow<\/span>. Um cara de peso, n\u00e3o apenas pelos seus quilos em excesso, mas por toda sua influ\u00eancia na f\u00edsica e na pol\u00edtica do s\u00e9culo XX. Foi ele que cunhou o termo <span style=\"font-style:italic\">&#8220;big bang&#8221;<\/span> para descrever a grande explos\u00e3o que teria dado origem ao universo e trabalhou no projeto Manhatan, de onde sa\u00edram as duas primeiras bombas at\u00f4micas do mundo.<\/p>\n<p>A f\u00edsica viveu seu auge no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. O modelo at\u00f4mico de <span style=\"font-style:italic\">Neils Bohr<\/span>, a relatividade de <span style=\"font-style:italic\">Einstein <\/span>e a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica de <span style=\"font-style:italic\">Max Planck<\/span>, mudaram a forma de ver o mundo. Houve muitos outros f\u00edsicos de destaque como <span style=\"font-style:italic\">Enrico Fermi, Robert <\/span><span style=\"font-style:italic\" class=\"tit\">Oppenheimer <\/span><span class=\"tit\">e<\/span><span style=\"font-style:italic\" class=\"tit\"> Richard Feynman<\/span>. Mas o (explosivo) sucesso da empreitada do <span style=\"font-weight:bold\">projeto Manhatan<\/span>, com a aplica\u00e7\u00e3o na pratica de toda a f\u00edsica te\u00f3rica at\u00e9 ent\u00e3o produzida, trouxe o vazio que costuma a acompanhar o alcance de grandes objetivos. O p\u00f3s-guerra deixou ent\u00e3o muitos f\u00edsicos \u00f3rf\u00e3os, para n\u00e3o dizer desempregados.<\/p>\n<p>Por outro lado, a biologia era um campo de grande efervesc\u00eancia. <span style=\"font-style:italic\">Avery, MacLeod e McCarty<\/span> tinham descoberto em 1944 que era o DNA que continha as informa\u00e7\u00f5es gen\u00e9tics. Em 1952 <span style=\"font-style:italic\">Linus Pauling<\/span> ganhou o Nobel pela descoberta da estrutura de alfa-helice e folhas-beta das prote\u00ednas, e em 1953 <span style=\"font-style:italic\">Watson <\/span>e <span style=\"font-style:italic\">Crick <\/span>descobriram a dupla h\u00e9lice do DNA. Isso entre outras coisas. N\u00e3o \u00e9 de estranhar que os f\u00edsicos desempregados e sedentos por novas id\u00e9ias voltassem seus olhos para a biologia. E foi o que fizeram. No livro de <span style=\"font-style:italic\">Watson <\/span>ele relata de como ap\u00f3s a descoberta da estrutura da dupla h\u00e9lice, <span style=\"font-style:italic\">Gamow <\/span>se juntou a ele e <span style=\"font-style:italic\">Crick <\/span>para tentarem entender como apenas 4 nucleot\u00eddeos poderiam dar origem aos 20 amino\u00e1cidos conhecidos. Eles precisariam estar em c\u00f3digo e quebrar esse c\u00f3digo se tornou o principal passatempo de <span style=\"font-style:italic\">Gamow<\/span>, que continuava consultor do governo americano para assuntos de seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio trabalho de <span style=\"font-style:italic\">Linus Pauling<\/span> e de <span style=\"font-style:italic\">Watson <\/span>e <span style=\"font-style:italic\">Crick <\/span>n\u00e3o seria poss\u00edvel sem uma importante ferramenta da f\u00edsica aplicada a biologia, a <span style=\"font-weight:bold\">difra\u00e7\u00e3o de raios-X<\/span>. A t\u00e9cnica utilizada por <span style=\"font-style:italic\">Bragg e Bragg<\/span> para decifrar a estrutura cristalina dos materiais foi rapidamente incorporada a biologia para estudar a estrutura cristalina das mol\u00e9culas biol\u00f3gicas. O fisiologista Neozeland\u00eas <span style=\"font-style:italic\">Maurice Wilkins<\/span> e a biof\u00edsica americana <span style=\"font-style:italic\">Rosalind Franklin<\/span> foram pioneiros na aplica\u00e7\u00e3o dessa t\u00e9cnica \u00e0 biologia e competiam com <span style=\"font-style:italic\">Watson <\/span>e <span style=\"font-style:italic\">Crick <\/span>para ver quem determinaria primeiro a estrutura do DNA.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold\">Par\u00eanteses para fofoca:<\/span> Na verdade, foi ao ver uma palestra de <span style=\"font-style:italic\">Wilkins <\/span>no Instituto de Zoologia de N\u00e1poles, que <span style=\"font-style:italic\">Watson <\/span>(que era muito, muito ambicioso) decidiu que deveria estudar a estrutura do DNA, um assunto que poderia lev\u00e1-lo a fama (e ao sucesso com as garotas, que ele tanto almejava). Mas ele, al\u00e9m de muito feio e muito chato, n\u00e3o entendia nada de difra\u00e7\u00e3o de raios-x, ent\u00e3o foi para a Inglaterra, para os laborat\u00f3rios <span style=\"font-style:italic\">Cavendish<\/span>, onde essa t\u00e9cnica era amplamente utilizada (inclusive por <span style=\"font-style:italic\">Sir <\/span><span style=\"font-style:italic\">Laurence Bragg<\/span>), com a desculpa de estudar a estrutura da mioglobina. Mas passava a maior parte do tempo conversando com <span style=\"font-style:italic\">Crick <\/span>sobre hereditariedade, DNA e construindo os modelos de madeira e ferro que levaram eles a compreender corretamente a estrutura do DNA. <span style=\"font-weight:bold\">Fecha par\u00eanteses.<\/span><\/p>\n<div style=\"text-align:center\"><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SBs5zYo-IAI\/AAAAAAAAAYY\/ESsQu2q6qZk\/s1600-h\/what+is+life.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"cursor:pointer;width:244px;height:373px;margin:0 10px 10px 0\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SBs5zYo-IAI\/AAAAAAAAAYY\/ESsQu2q6qZk\/s400\/what+is+life.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<p>Mas talvez o pai da biof\u00edsica seja <span style=\"font-style:italic\">Erwin Schr\u00f6dinger<\/span>. \u00c9, aquele que disse que &#8216;o gato dentro da caixa&#8217; est\u00e1 vivo algumas vezes e morto outras, esse mesmo. Ele foi mais um daqueles brilhantes f\u00edsicos do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, que j\u00e1 na meia idade, ap\u00f3s uma distinta carreira cient\u00edfica, voltou seus olhos para a biologia.<\/p>\n<p>A pergunta que perturbava <span style=\"font-style:italic\">Schr\u00f6dinger <\/span>era:   &#8220;Como podem os eventos no tempo e espa\u00e7o que ocorrem dentro dos limites espaciais de um organismo vivo, serem explicados pela f\u00edsica e pela qu\u00edmica?&#8221; Ele estava convencido de que a inabilidade da f\u00edsica e da qu\u00edmica daquela \u00e9poca para explicar esses eventos n\u00e3o era raz\u00e3o para duvidar que eles pudessem ser explicados por essas ci\u00eancias. Assim, em 1948 ele publica o livro <span style=\"font-weight:bold\">&#8220;What is life&#8221;<\/span> onde d\u00e1 uma abordagem revolucion\u00e1ria sobre o que \u00e9 a vida e que influenciou em muito a biologia dai por diante.<\/p>\n<p>Hoje em dia a defini\u00e7\u00e3o que eu mais gosto, e mais uso, \u00e9 a do professor <span style=\"font-style:italic\">Carlos Chagas Filho<\/span>, fundador do Instituto de Biof\u00edsica da UFRJ, que leva o seu nome, e onde eu trabalho: <span style=\"font-style:italic\">&#8220;Biof\u00edsica \u00e9 tudo aquilo que se faz no instituto de Biof\u00edsica&#8221;<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando entrei no doutorado no Instituto de Biof\u00edsica da UFRJ em 1997, uma coisa me incomodava: eu n\u00e3o sabia direito o que era Biof\u00edsica! 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