{"id":294,"date":"2008-10-20T16:44:00","date_gmt":"2008-10-20T19:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2008\/10\/por-que-e-para-que\/"},"modified":"2008-10-20T16:44:00","modified_gmt":"2008-10-20T19:44:00","slug":"por-que-e-para-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2008\/10\/20\/por-que-e-para-que\/","title":{"rendered":"Por que e para que"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SP0r7_1ksWI\/AAAAAAAAAZo\/SrMFwBQgP1s\/s1600-h\/913703_memory_cards.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SP0r7_1ksWI\/AAAAAAAAAZo\/SrMFwBQgP1s\/s400\/913703_memory_cards.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:justify\">Quando eu era mais novo, nunca me interessei realmente pelos estudos. Quando cresci, descobri nas festinhas da minha turma &#8211; geralmente uma orgia de pizzas e crepes caseiros na casa do Mai\u00f4 &#8211; onde conversas eram sobre temas que eu, muitas vezes, n\u00e3o tinha ouvido falar nem superficialmente e que os outros pareciam conhecer em profundidade; que eu tinha que recuperar o tempo perdido.<\/p>\n<p>Mas por que eu nunca havia me interessado antes? <span style=\"font-weight:bold\">Hoje eu descobri que eu sabia <\/span><span style=\"font-style:italic;font-weight:bold\">por que<\/span><span style=\"font-weight:bold\"> eu deveria estudar, mas n\u00e3o sabia <\/span><span style=\"font-style:italic;font-weight:bold\">para que<\/span><span style=\"font-weight:bold\">.<\/span> E pelo visto, meus professores tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>Explico, mas n\u00e3o serei breve. Vou come\u00e7ar com uma historinha do livro <span style=\"font-weight:bold\">&#8220;Deve ser brincadeira, Sr. Feynman&#8221;<\/span>, do f\u00edsico americano <span style=\"font-style:italic\">Richard Feynman<\/span>. Por favor, me acompanhem.<\/p>\n<p>Quando esteve no Brasil em 1951, o f\u00edsico <span style=\"font-style:italic\">Richard Feynman<\/span> deu uma palestra na Aademia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC), onde disse que<span style=\"font-style:italic\"> &#8220;n\u00e3o se est\u00e1 ensinando ci\u00eancia alguma no Brasil&#8221;<\/span>.<\/p>\n<p>Ele perguntou para o audit\u00f3rio cheio: <span style=\"font-style:italic\">&#8220;Qual um bom motivo para lecionar ci\u00eancia?&#8221;<\/span> E ele mesmo respondeu <span style=\"font-style:italic\">&#8220;Porque \u00e9 importante para que um pa\u00eds possa se considera civilizado, bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1.&#8221;<\/span><\/p>\n<p>Mas para ele, esse n\u00e3o \u00e9 um bom motivo. <span style=\"font-weight:bold\">E n\u00f3s temos que ensinar ci\u00eancia por um bom motivo<\/span>. Sem um bom motivo, voc\u00ea acaba n\u00e3o ensinando nada.<\/p>\n<p>Ele conta: <span style=\"font-style:italic\">&#8220;Tentei ensinar como resolver os problemas na f\u00edsica por tentativa e erro. \u00c9 algo que as pessoas geralmente n\u00e3o aprendem. Comecei com alguns exemplos simples (&#8230;) e fiquei surpreso quando apenas 1 em 10 estudantes fez a tarefa. (&#8230;) Uma pequena delega\u00e7\u00e3o veio at\u00e9 mim , dizendo (&#8230;) que eles podiam estudar sem resolver os problemas, que eles j\u00e1 haviam aprendido aritm\u00e9tica. (&#8230;) \u00c9 claro que eu j\u00e1 havia notado o que acontecia: <\/span>Eles n\u00e3o sabiam fazer!&#8221;<\/p>\n<p><span style=\"font-style:italic\">&#8220;Depois participei de uma palestra na faculdade de engenharia (&#8230;) assim: Dois corpos s\u00e3o considerados equivalentes se&#8230; Os estudantes estavam todos sentados l\u00e1 fazendo anota\u00e7\u00f5es (&#8230;). Eu era o \u00fanico que sabia que o professor estava falando de corpos com o mesmo momento de in\u00e9rcia e era dif\u00edcil descobrir isso&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style:italic\">&#8220;Depois da palestra falei com um estudante:<\/p>\n<p><\/span>&#8211; Voc\u00eas estavam fazendo um monte de anota\u00e7\u00f5es. O que v\u00e3o fazer com elas?<br \/>&#8211; Vamos estudar, teremos uma prova.<br \/>&#8211; E como ser\u00e1 essa prova?<br \/>&#8211; Com perguntas como &#8216;Quando dois corpos s\u00e3o equivalentes?&#8217;<br \/><span style=\"font-style:italic\"><br \/>Ent\u00e3o, voc\u00ea v\u00ea, eles podiam passar nas provas, &#8216;aprender&#8217; essa coisa toda e n\u00e3o &#8216;saber&#8217; nada, exceto o que eles tinham decorado&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>Par\u00eanteses: Voc\u00eas podem imaginar o rebuli\u00e7o na ABC quando ele disse isso? Gostaria de ter estado l\u00e1. Fecha par\u00eanteses.<\/p>\n<p>Quando li esse texto do <span style=\"font-style:italic\">Feynman<\/span>, percebia o problema intuitivamente, mas ainda n\u00e3o tinha conseguido entender o que tinha acontecido. Como haviam chegado naquele ponto (que ali\u00e1s, \u00e9 o ponto aonde estamos at\u00e9 hoje)?!<\/p>\n<p>At\u00e9 que hoje, na aula da Rosita, l\u00ed o seguinte texto:<\/p>\n<p><span style=\"font-style:italic;font-weight:bold\">&#8220;Sem compreender o que se faz, a pr\u00e1tica pedag\u00f3gica \u00e9 mera reprodu\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos existentes ou respostas que os docentes devem oferecer a demandas e ordens externas&#8221; (Sacrist\u00e1n e G\u00f3mez, 1998)<\/span><\/p>\n<p>Nem olhei para os outros \u00edtens. Esse era importante demais! Acho que tinha me lembrado do <span style=\"font-style:italic\">Feynman<\/span>, s\u00f3 que ainda n\u00e3o sabia que tinha me lembrado. Esse \u00e9 o problema que est\u00e1 antes de todos os outros! Qualquer um que assistiu aulas em uma faculdade sabe que ESSE \u00e9 o maior problema do ensino no Brasil. Seja ele presencial ou a dist\u00e2ncia: O professor que n\u00e3o compreende o que faz  acaba apenas &#8216;propagando h\u00e1bitos existentes&#8217;! E consegue somente que seus alunos reproduzam h\u00e1bitos existente.<\/p>\n<p>A Rosita ent\u00e3o chegou no grupo e disse que isso acontecia porque o professor sabe <span style=\"font-style:italic\">por que<\/span> ensina. Ele tem, e segue, seus objetivos. Mas ele n\u00e3o sabe <span style=\"font-style:italic\">para que<\/span> ensina, qual a finalidade daquilo. Ele ensina para formar cidad\u00e3os? Ou para que as pessoas saibam somar? O Feynman tentou dizer isso para os nossos cientistas h\u00e1 50 anos.<\/p>\n<p>O <span style=\"font-style:italic\">por que<\/span> \u00e9 a resposta que encerra, a &#8216;mera reprodu\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos existentes&#8217;. O <span style=\"font-style:italic\">para que<\/span> \u00e9 a pergunta que &#8216;<a href=\"http:\/\/vocequeebiologo.blogspot.com\/2007\/07\/acordo-de-cavalheiros.html\">abre caminho<\/a>&#8216;. O <span style=\"font-style:italic\">por que<\/span> mant\u00e9m o professor nos seus objetivos. O <span style=\"font-style:italic\">para que<\/span> muda a atitude do professor.<\/p>\n<p>Eu estudava <span style=\"font-style:italic\">por que<\/span>. Estudava porque tinha de passar de ano, porque tinha que passar no vestibular. N\u00e3o era um &#8216;bom motivo&#8217; e por isso nunca me interessei pelos estudos. Na faculdade eu passei a estudar <span style=\"font-style:italic\">para que<\/span>. Passei a estudar para <span style=\"font-weight:bold\">poder mais<\/span>. Sim, quem sabe mais, pode mais.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que temos que ensinar. Para que todos possam poder mais.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu era mais novo, nunca me interessei realmente pelos estudos. Quando cresci, descobri nas festinhas da minha turma &#8211; geralmente uma orgia de pizzas e crepes caseiros na casa do Mai\u00f4 &#8211; onde conversas eram sobre temas que eu, muitas vezes, n\u00e3o tinha ouvido falar nem superficialmente e que os outros pareciam conhecer em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":553,"featured_media":295,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[10,13],"tags":[100,262,472,567,889,996,1020],"class_list":["post-294","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-escrita-criativa","tag-aprendizagem","tag-ciencia","tag-ensino","tag-feynman","tag-motivacao","tag-pergunta","tag-politica"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/913703_memory_cards.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/294","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/553"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=294"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/294\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/media\/295"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=294"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=294"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=294"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}