{"id":31,"date":"2002-05-13T14:09:00","date_gmt":"2002-05-13T17:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2002\/05\/diferenca-genetica-entre-humanos-e-chimpanzes\/"},"modified":"2002-05-13T14:09:00","modified_gmt":"2002-05-13T17:09:00","slug":"diferenca-genetica-entre-humanos-e-chimpanzes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2002\/05\/13\/diferenca-genetica-entre-humanos-e-chimpanzes\/","title":{"rendered":"Diferen\u00e7a gen\u00e9tica entre humanos e chimpanz\u00e9s"},"content":{"rendered":"<p>Depois que o <span style=\"font-style:italic\">Watson <\/span>descobriu com o <span style=\"font-style:italic\">Crick <\/span>a dupla h\u00e9lice do DNA, ele perdeu<br \/>muito do interesse que tinha nessa mol\u00e9cula e suas aten\u00e7\u00f5es voltaram-se para<br \/>o at\u00e9 ent\u00e3o inc\u00f3gnito RNA. Ele acreditava (e estava certo no palpite) que essa<br \/>era a mol\u00e9cula tinha papel fundamental na codifica\u00e7\u00e3o das prote\u00ednas, e<br \/>portanto no funcionamento da c\u00e9lula. Esse \u00e9 de fato o paradigma central da &#8220;biologia molecular&#8221; (o ramo que estuda o processamento das informa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas): Genes no DNA s\u00e3o transcritos em RNAs que s\u00e3o traduzidos em Prote\u00ednas.<\/p>\n<p>Atualmente, mais e mais grupos de pesquisa t\u00eam investido em t\u00e9cnicas para quantificar a express\u00e3o g\u00eanica. Ou seja, uma vez que os genes s\u00e3o seq\u00fcenciados e identificados no DNA, quais s\u00e3o as raz\u00f5es que fazem com que um gene seja mais expresso e produza mais a &#8220;sua&#8221; prote\u00edna que outros. Talvez isso seja conseq\u00fc\u00eancia das observa\u00e7\u00f5es de que, mais ou menos, todos os organismos apresentam prote\u00ednas semelhantes, ou com fun\u00e7\u00f5es semelhantes.<\/p>\n<p>A semelhan\u00e7a do genoma de esp\u00e9cies diferentes chama a aten\u00e7\u00e3o especialmente no caso do homem e do chimpanz\u00e9. Apesar de todas as diferen\u00e7as morfo-fisio-psicol\u00f3gicas entre essas duas esp\u00e9cies, n\u00f3s compartilhamos pelo menos 98,7 por cento do patrim\u00f4nio gen\u00e9tico.  Em fato, se uma amostra de 3 milh\u00f5es de pares de base, representando cerca de 0,1% do genoma do primata, for escolhida aleatoriamente e comparada com o que se conhece do genoma humano constata-se uma diferen\u00e7a m\u00e9dia de apenas 1,3%. \u00c9 poss\u00edvel que se voc\u00ea mostrar um fragmento de DNA a um bi\u00f3logo molecular ele n\u00e3o saberia dizer se \u00e9 de um humano ou de um chimpanz\u00e9.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o fica a pergunta: Como pode o DNA conter toda a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que produz as diferen\u00e7as entre os organismos e ao mesmo tempo ele n\u00e3o ser assim t\u00e3o diferente? Essa pergunta come\u00e7a a ser respondida pela equipe do sueco <span style=\"font-style:italic\">Svante P\u00e4\u00e4bo<\/span>, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucion\u00e1ria, em Leipzig (Alemanha). <span style=\"font-style:italic\">P\u00e4\u00e4bo <\/span>apresentou seus \u00faltimos resultados em 27 de mar\u00e7o na Confer\u00eancia Internacional sobre o Genoma no Brasil, em Angra dos Reis (RJ) e tamb\u00e9m publicada na revista &#8220;Science&#8221;.<\/p>\n<p><span style=\"font-style:italic\">P\u00e4\u00e4bo <\/span>relatou experimentos em que sua equipe comparou a express\u00e3o de genes no homem (Homo sapiens), no chimpanz\u00e9 (<span style=\"font-style:italic\">Pan troglodytes<\/span>), orangotangos (<span style=\"font-style:italic\">Pongo pygmaeus<\/span>) e macacos Rhesus (<span style=\"font-style:italic\">Macaca mulatta<\/span>). Os resultados foram que a varia\u00e7\u00e3o da express\u00e3o de genes encontrada nos gl\u00f3bulos brancos do sangue e no f\u00edgado foi relativamente pequena (0,57 e 0,80%, respectivamente), mas foi mais significativa no c\u00e9rebro (1,23%).<\/p>\n<p>Ou seja, no c\u00e9rebro do homem s\u00e3o produzidas algumas prote\u00ednas ligeiramente diferentes das produzidas pelos chimpanz\u00e9s, mas a grande diferen\u00e7a est\u00e1 na quantidade de prote\u00ednas fabricadas pelas c\u00e9lulas cerebrais dos humanos, que \u00e9 muito maior: 5,5 vezes mais elevada.<\/p>\n<p>Isto quer dizer que, com o mesmo material gen\u00e9tico, as duas esp\u00e9cies fazem coisas diversas. A informa\u00e7\u00e3o codificada nos genes \u00e9 activada de forma diferente no c\u00e9rebro de homens e chimpanz\u00e9s, o que produz padr\u00f5es de express\u00e3o gen\u00e9tica pr\u00f3prios de cada esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Claro, seria tentador dizer que esse fen\u00f4meno bioqu\u00edmico \u00e9 respons\u00e1vel pelas caracter\u00edsticas que acreditamos sejam distintivas da esp\u00e9cie humana, como o pensamento complexo e abstrato. No entanto, essas varia\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o podem ser interpretadas do ponto de vista funcional. J\u00e1 vemos que tem uma diferen\u00e7a, mas n\u00e3o sabemos o que ela causa. Na verdade, mesmo os muitos pesquisadores acreditam que quase todas as grandes descobertas da ci\u00eancia j\u00e1 foram feitas, concordam que a compreens\u00e3o do fen\u00f4meno da consci\u00eancia \u00e9 uma das grandes fronteiras da biologia.<\/p>\n<p>Para o sueco, as diferen\u00e7as que separam homem e chimpanz\u00e9 s\u00e3o mais sutis do que acreditamos ao observar nossas diferen\u00e7as morfol\u00f3gica (fen\u00f3tipo). Segundo <span style=\"font-style:italic\">P\u00e4\u00e4bo<\/span>, &#8220;as diferen\u00e7as s\u00e3o apenas graduais&#8221; e cita estudos que constataram em chimpanz\u00e9s atributos considerados espec\u00edficos da esp\u00e9cie humana: aprender linguagens de sinais, capacidade de evoluir culturalmente&#8230;<\/p>\n<p>A esse ponto, voc\u00ea que n\u00e3o via a import\u00e2ncia de saber a diferen\u00e7a entre homens e macacos (indicando que eu n\u00e3o tenho direito feito meu trabalho de divulgador) devia estar satisfeito. Mas se voc\u00ea quer solu\u00e7\u00f5es ainda mais aplicadas, ent\u00e3o lembre-se que uma quantidade enorme de medicamentos s\u00e3o testadas primeiramente em macacos antes de serem aplicadas em seres humanos. Eu ficaria contente apenas de compreender melhor os mecanismos como a evolu\u00e7\u00e3o atuou para separar essas esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Por exemplo, eles descobriram que com respeito aos leuc\u00f3citos e ao f\u00edgado, homens e chimpanz\u00e9s revelam-se sempre parentes muito pr\u00f3ximos, praticamente id\u00eanticos entre si e bastante diferentes dos orangotangos e dos macacos <span style=\"font-style:italic\">Rhesus<\/span>. No entanto, com rela\u00e7\u00e3o ao padr\u00e3o de express\u00e3o g\u00eanica do c\u00f3rtex cerebral dos chimpanz\u00e9s \u00e9 mais parecido com o dos macacos Rhesus do que com o dos humanos. Os resultados indicam que as altera\u00e7\u00f5es da express\u00e3o gen\u00e9tica no c\u00e9rebro ao longo da evolu\u00e7\u00e3o foram muito aceleradas na linhagem que deu origem ao homem do que na do chimpanz\u00e9.<\/p>\n<p>A equipa defende que a altera\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de express\u00e3o g\u00eanica sofrida pelo homem se deu muito recentemente na hist\u00f3ria evolutiva comum de humanos e chimpanz\u00e9s, sen\u00e3o outros padr\u00f5es de express\u00e3o tamb\u00e9m deveriam ser afetados. O que ter\u00e1 desencadeado este processo evolutivo \u00e9 que os cientistas n\u00e3o s\u00e3o ainda capazes de definir. Erros na duplica\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas que levam a acumula\u00e7\u00e3o de material gen\u00e9tico (a c\u00e9lula fica com o dobro da quantidade de DNA) e que causam os fen\u00f4menos de duplica\u00e7\u00e3o g\u00eanica observados em esp\u00e9cies tidas como mais evolu\u00eddas \u00e9 uma das principais hip\u00f3teses.<\/p>\n<p>Esclarecer as diferen\u00e7as de fen\u00f3tipo que separam as duas esp\u00e9cies ser\u00e1 mais f\u00e1cil quando o genoma do chimpanz\u00e9 for conhecido. O principal passo j\u00e1 foi dado, com a constitui\u00e7\u00e3o no Jap\u00e3o de &#8220;bibliotecas&#8221; de seq\u00fc\u00eancias gen\u00e9ticas do primata. Mas dado o custo muito alto do seq\u00fcenciamento completo, \u00e9 poss\u00edvel que ainda tenhamos de esperar muito at\u00e9 poder aumentar nossa compreens\u00e3o dessas diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea vier a It\u00e1lia e olhar para o teto da capela Sistina, ver\u00e1 o dedo de Deus que tocando a m\u00e3o de Ad\u00e3o d\u00e1 o &#8220;sopro&#8221; de vida que lhe anima a alma. Mas pode ter certeza que nosso octoporoteratavo foi a Chita!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois que o Watson descobriu com o Crick a dupla h\u00e9lice do DNA, ele perdeumuito do interesse que tinha nessa mol\u00e9cula e suas aten\u00e7\u00f5es voltaram-se parao at\u00e9 ent\u00e3o inc\u00f3gnito RNA. Ele acreditava (e estava certo no palpite) que essaera a mol\u00e9cula tinha papel fundamental na codifica\u00e7\u00e3o das prote\u00ednas, eportanto no funcionamento da c\u00e9lula. 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