{"id":328,"date":"2009-01-18T23:01:00","date_gmt":"2009-01-19T02:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2009\/01\/a-noite-do-padroeiro-parte-i\/"},"modified":"2009-01-18T23:01:00","modified_gmt":"2009-01-19T02:01:00","slug":"a-noite-do-padroeiro-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2009\/01\/18\/a-noite-do-padroeiro-parte-i\/","title":{"rendered":"A noite do padroeiro (parte I)"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SXPn4_-qT6I\/AAAAAAAAAo4\/XwatHImuZS0\/s1600-h\/guepardo.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;width:400px;height:286px;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SXPn4_-qT6I\/AAAAAAAAAo4\/XwatHImuZS0\/s400\/guepardo.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:justify\">Dia 19 de Janeiro \u00e9 sempre dia de festa no Rio de Janeiro. \u00c9 v\u00e9spera do dia do padroeiro da cidade, S\u00e3o Sebasti\u00e3o, e para aqueles que, como eu, n\u00e3o s\u00e3o devotos e n\u00e3o tem de acordar cedo no dia seguinte para a prociss\u00e3o, \u00e9 dia de ir para o forr\u00f3. Eu sei me virar na pista de dan\u00e7a, ent\u00e3o um forr\u00f3 \u00e9 sempre uma op\u00e7\u00e3o de divertimento e uma chance para conhecer garotas.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea \u00e9 &#8216;Solteiro no Rio de Janeiro&#8217;, sair a noite \u00e9 uma aula de ecologia. Um cara (ou uma garota) solteiro \u00e9 um <span style=\"font-style:italic\">predador<\/span> em potencial; sendo que todo o resto, todos os outros caras e garotas s\u00e3o <span style=\"font-style:italic\">competidores<\/span> ou <span style=\"font-style:italic\">presas<\/span>. E a rela\u00e7\u00e3o entre competidores, e entre predador e presa, s\u00e3o das mais interessantes em ecologia, que tem potencial para ilustrar muitas, muitas rela\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Uma presa \u00e9 um <span style=\"font-style:italic\">recurso<\/span>. Claro, nem todo recurso \u00e9 uma presa, mas toda presa \u00e9 um recurso. \u00c1gua \u00e9 um recurso e n\u00e3o \u00e9 uma presa. Cerveja e tequila tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>Um recurso \u00e9 qualquer subst\u00e2ncia que faz com que a popula\u00e7\u00e3o cres\u00e7a quando a sua disponibilidade no ambiente aumenta, porque ele \u00e9 consumido pelos organismos. Ou seja, um recurso \u00e9 necess\u00e1rio para a <span style=\"font-style:italic\">manuten\u00e7\u00e3o<\/span> e\/ou <span style=\"font-style:italic\">crescimento<\/span> do <span style=\"font-style:italic\">consumidor<\/span> e, ainda que o <a href=\"http:\/\/vocequeebiologo.blogspot.com\/2007\/09\/posologia.html\">excesso da subst\u00e2ncia ou fator leve a um efeito t\u00f3xico<\/a>, por defini\u00e7\u00e3o ele \u00e9 um <span style=\"font-style:italic\">nutriente<\/span>.<\/p>\n<p>Mas uma caracter\u00edstica importante para definir um <span style=\"font-style:italic\">recurso<\/span> \u00e9 que sempre que ele \u00e9 consumido, ele diminui, podendo se tornar um <span style=\"font-style:italic\">recurso limitante<\/span>.<\/p>\n<p>Naquela noite de 19 de Janeiro de 1999 tinha tequila e cerveja a vontade no forr\u00f3 do <span style=\"font-style:italic\">Lagoinha<\/span>. N\u00e3o foram fatores limitantes. Mas nem por isso foram consumidos em demasia, apenas o suficiente para deixarem os sentidos alertas. Ao contr\u00e1rio do que acreditam as autoridades de transito, o \u00e1lcool deixa os sentidos mais alerta. Alguns, em detrimento de outros, \u00e9 verdade. Justamente os sentidos que importavam naquela noite.<\/p>\n<p>Quando uma animal passeia por um ambiente em busca de alimento ou de um outro recurso qualquer, ele encontra, sequencialmente, presas em potencial. E a cada encontro ele se depara com a quest\u00e3o de perseguir aquela presa, o que gasta tempo e energia mas pode ser recompensado com a energia do alimento; ou procurar uma pr\u00f3xima presa, que pode ser mais interessante, seja porque a recompensa \u00e9 maior, seja porque o custo de persegui-la \u00e9 menor.<\/p>\n<p>Nem sempre \u00e9 f\u00e1cil decidir e justamente por isso, nem sempre a gente consegue decidir. Mas n\u00e3o decidir j\u00e1 \u00e9 uma decis\u00e3o, porque como eu disse, al\u00e9m de voc\u00ea e da presa, existem tamb\u00e9m os competidores. N\u00e3o consumir uma presa que aparece para voc\u00ea em um determinado momento significa, necessariamente, dar oportunidade a um seu competidor de consumi-la. Voc\u00ea pode ficar a ver estrelas.<\/p>\n<p>Mas como determinar qual \u00e9 a presa mais interessante? A gente costuma pensar que <span style=\"font-style:italic\">&#8220;a grama do vizinho \u00e9 sempre mais verde!&#8221;<\/span>, mas nem sempre isso \u00e9 verdade. Ent\u00e3o como decidir? Bom, a ecologia tem uma teoria que funciona incrivelmente bem, mesmo para qualquer situa\u00e7\u00e3o que um solteiro na noite do Rio de Janeiro possa encontrar.<\/p>\n<p><span style=\"font-style:italic\">Quando um predador encontra presas com uma frequ\u00eancia menor do que o tempo que ele leva para captur\u00e1-la, ent\u00e3o ele deveria consumir todas as presas que encontrasse. <\/span>Isso quer dizer, se voc\u00ea caiu em uma daquelas festas ciladas onde voc\u00ea olha para os lados e s\u00f3 encontra homem tomando cerveja, e ao ir at\u00e9 a varanda pra tomar um pouco de ar voc\u00ea encontra uma baranga que algum man\u00e9 deixou sozinha enquanto espera na intermin\u00e1vel fila do banheiro, voc\u00ea aborda e sai com a garota da festa. Sem ressentimentos: \u00e9 um mundo c\u00e3o.<\/p>\n<p><span style=\"font-style:italic\">Mas quando as presas s\u00e3o frequentes ele deve buscar a <\/span>presa \u00f3tima<span style=\"font-style:italic\">, porque em breve ele deve encontr\u00e1-la. <\/span>A melhor presa \u00e9 aquela que maximiza a rela\u00e7\u00e3o custo\/benef\u00edcio, entre o tempo e energia gastos para encontr\u00e1-la e captur\u00e1-la, e a energia adquirida com a ingest\u00e3o. \u00c9 a <span style=\"font-weight:bold\">&#8216;Teoria do Forrageamento \u00d3timo&#8217;<\/span>.<\/p>\n<p>Essas duas atitudes diferenciam o <span style=\"font-style:italic\">generalista<\/span> do <span style=\"font-style:italic\">especialista<\/span>. Como eu falei, a decis\u00e3o entre um ou outro pode nem sempre ser sua. Em um ambiente in\u00f3spito, voc\u00ea pode ser obrigado a ser um generalista. Mas tem gente que \u00e9 generalista porque gosta mesmo de qualquer coisa, ou porque \u00e9 meio pregui\u00e7oso, e gosta mesmo \u00e9 de pegar a primeira coisa que aparece pela frente.<\/p>\n<p>Eu nunca fui muito pregui\u00e7oso, ent\u00e3o naquela noite, circulava pelo <span style=\"font-style:italic\">Lagoinha<\/span> com todos os meus sentidos alertados pela cerveja e a tequila. Dan\u00e7ava um forr\u00f3 aqui, dan\u00e7ava um forr\u00f3 ali, at\u00e9 que a vi: Pele morena, uma blusa tomara-que-cai branca e o sorriso mais bonito da Terra.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight:bold\">Como um bom especialista, foquei no alvo e fui atr\u00e1s dele.<\/span> N\u00e3o via mais nada al\u00e9m daquele sorriso e ele tinha de ser meu. Chamei ela pra dan\u00e7ar e n\u00f3s dan\u00e7amos. O <span style=\"font-style:italic\">Lagoinha<\/span> fica no alto de Santa Tereza. O ar \u00e9 mais rarefeito l\u00e1 e a press\u00e3o \u00e9 menor, como no alto de qualquer montanha. Ou era isso, ou ela parecia dan\u00e7ar nas nuvens mesmo. &#8220;O que voc\u00ea faz?&#8221; ela perguntou. &#8220;Eu sou cientista&#8221;, respondi. Ela riu e saiu. Deu uma desculpa qualquer do tipo &#8220;N\u00e3o posso deixar minha amiga sozinha&#8221; e me deixou plantado sozinho no meio da pista. Mas n\u00e3o sem me deixar aquele sorriso maravilhoso de presente.<\/p>\n<p>A teoria do forrageamento \u00f3timo diz que se a recompensa de uma presa espec\u00edfica por unidade de tempo gasta para encontr\u00e1-la \u00e9 maior do que a m\u00e9dia das recompensas ganhas com diferentes presas (tamb\u00e9m medida por unidade de tempo gasto para encontr\u00e1-las), ent\u00e3o o animal deve se especializar nessa presa espec\u00edfica! Parece complicado, n\u00e3o \u00e9?! Mas voc\u00ea n\u00e3o precisa fazer contas para decidir. A frase acima significa que a especializa\u00e7\u00e3o compensa apenas quando as presas s\u00e3o abundantes. O que parece ser um paradoxo: <span style=\"font-weight:bold\">Quanto mais garotas bonitas, mais vale a pena voc\u00ea ficar com uma s\u00f3. Desde que ela SEJA a menina mais bonita. De todas! <\/span><\/p>\n<p>Naquela noite n\u00e3o fiz c\u00e1lculo de m\u00e9dia ou outro valor. Havia o trof\u00e9u: a menina mais bonita da festa. A menina mais bonita que j\u00e1 havia visto na vida!<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SXPn4-UQYZI\/AAAAAAAAApA\/I_Ocqu0su1Y\/s1600-h\/Untitled.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;width:385px;height:360px;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SXPn4-UQYZI\/AAAAAAAAApA\/I_Ocqu0su1Y\/s400\/Untitled.jpg\" alt=\"Se o Guepardo n\u00e3o tiver sucesso na sua investida, vira tapete!\" border=\"0\" \/><\/a><br \/><span style=\"font-style:italic\">Quanto mais especializado \u00e9 um animal, maior \u00e9 o seu compromisso com a ca\u00e7ada. <\/span>As vezes a escolha de uma presa \u00e9 um compromisso de vida ou morte. \u00c9 a <span style=\"font-weight:bold\">&#8216;S\u00edndrome do Guepardo&#8217;<\/span>. O Guepardo (ou chita) \u00e9 um felino africano, q<br \/>\nue alcan\u00e7a a incr\u00edvel velocidade de 110km\/h ao perseguir a sua presa, a Gazela (ou o Ant\u00edlope, como na foto). Mas a Gazela tamb\u00e9m \u00e9 r\u00e1pida, e n\u00e3o se entrega f\u00e1cil. A ca\u00e7ada \u00e9 dif\u00edcil, e ainda que em geral termine com a morte da gazela, isso n\u00e3o significa que o compromisso do Guepardo seja menor. Se a Gazela escapa, o Guepardo n\u00e3o ter\u00e1 energia para outra ca\u00e7ada e estar\u00e1 fadado a morrer de fome. \u00c9 dif\u00edcil dizer quem est\u00e1 certo e quem est\u00e1 errado nessa situa\u00e7\u00e3o. Acho que por isso a natureza nem tenta fazer o ju\u00edzo. <span style=\"font-weight:bold\">H\u00e1 o vencido e h\u00e1 o vencedor. H\u00e1 o que funciona e o que n\u00e3o funciona. <\/span>O que funciona, n\u00e3o precisa funcionar sempre. Por isso tamb\u00e9m, quem vence, n\u00e3o vence sempre.<\/p>\n<p>Juntei minhas \u00faltimas for\u00e7ar e chamei ela pra dan\u00e7ar de novo. Ela veio. S\u00f3 que dessa vez ela n\u00e3o escapou e dan\u00e7amos o resto da noite juntos.<\/p>\n<p>(Continua)<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia 19 de Janeiro \u00e9 sempre dia de festa no Rio de Janeiro. \u00c9 v\u00e9spera do dia do padroeiro da cidade, S\u00e3o Sebasti\u00e3o, e para aqueles que, como eu, n\u00e3o s\u00e3o devotos e n\u00e3o tem de acordar cedo no dia seguinte para a prociss\u00e3o, \u00e9 dia de ir para o forr\u00f3. 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