{"id":336,"date":"2009-01-26T05:16:00","date_gmt":"2009-01-26T08:16:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2009\/01\/sobreviver-e-adaptar\/"},"modified":"2009-01-26T05:16:00","modified_gmt":"2009-01-26T08:16:00","slug":"sobreviver-e-adaptar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2009\/01\/26\/sobreviver-e-adaptar\/","title":{"rendered":"Sobreviver e adaptar"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SX11m3KIhpI\/AAAAAAAAApo\/hfcYkPnkEdM\/s1600-h\/lili_1.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;width:400px;height:325px;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SX11m3KIhpI\/AAAAAAAAApo\/hfcYkPnkEdM\/s400\/lili_1.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>Quem j\u00e1 n\u00e3o se emocionou com <span style=\"font-style:italic\">Fern\u00e3o Capelo<\/span>, a gaivota que n\u00e3o se conformava com sua vida cotidiana? Passei o final de semana passado na casa dos meus pais que tem no seu quintal uma bela hist\u00f3ria de conforma\u00e7\u00e3o, adapta\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>A primeira vista, <span style=\"font-style:italic\">Lili<\/span> \u00e9 uma gaivota normal. N\u00e3o fosse o entorno, o quintal l\u00e1 de casa, voc\u00ea poderia at\u00e9 pensar <span style=\"font-style:italic\">&#8220;O que ser\u00e1 que ela tem de especial?&#8221; <\/span>Mas olhando a pr\u00f3xima foto, de perfil, voc\u00ea pode ver que a penugem negra desse lado \u00e9 um pouco menor. \u00c9 que ela n\u00e3o tem a asa direita.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SX11nBkD86I\/AAAAAAAAApw\/XkEpkVh1yvs\/s1600-h\/lili_2.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;width:393px;height:400px;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SX11nBkD86I\/AAAAAAAAApw\/XkEpkVh1yvs\/s400\/lili_2.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/><span style=\"font-style:italic\">Lili<\/span> \u00e9 uma sobrevivente. Minha m\u00e3e a encontrou enquanto passeava na praia, literalmente <span style=\"font-style:italic\">&#8220;arrastando uma asa&#8221;<\/span> para ela. A asa estava quebrada e pendurada apenas pela pele, infeccionada e a beira da necrose. Lembrando dos seus tempos de instrumentadora cir\u00fargica, minha m\u00e3e pegou <span style=\"font-style:italic\">Lili<\/span> na praia e levou pra casa. Sedou, cortou a pele, amputou a asa, suturou e medicou.<\/p>\n<p>Isso foi h\u00e1 6 anos e ningu\u00e9m acreditava que <span style=\"font-style:italic\">Lili<\/span> sobreviveria muito tempo. Mas ela n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1  viva at\u00e9 hoje, como goza de uma sa\u00fade invej\u00e1vel e est\u00e1 totalmente adaptada a vida no quintal: tem uma grande bacia de \u00e1gua na sombra onde se banha todos os dias e convive harmonicamente como <span style=\"font-style:italic\">Duque<\/span> e <span style=\"font-style:italic\">Baby<\/span>, os dois vira-latas da casa; com <span style=\"font-style:italic\">Loiro<\/span>, o papagaio e com o vai e vem dos humanos que circulam por ali. Mas \u00e9 s\u00f3: ai de um pombo se tentar pousar no quintal. Vai levar uma corrida!<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nenhum sinal \u00f3bvio que indique se <span style=\"font-style:italic\">Lili<\/span> \u00e9 uma gaivota macho ou f\u00eamea.  Tipo a crista dos galos. Ou pelo menos nada que apesar de eu ser bi\u00f3logo (e meio metido a saber tudo), eu reconhe\u00e7a. Mas como gaivota \u00e9 um substantivo feminino, vai ficar <span style=\"font-style:italic\">Lili<\/span> mesmo at\u00e9 que a gente descubra o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Depois de recuperada, o maior problema foi como alimentar uma gaivota? Felizmente ela se acostumou com peixe congelado, mas tem de ser fresco e inteiro. Os  pescadores da regi\u00e3o passam l\u00e1 em casa para entregar os peixes pequenos que eles separam <span style=\"font-style:italic\">&#8220;para a madame que tem uma gaivota no quintal&#8221;<\/span>. Al\u00e9m de ser exigente com o peixe, Lili tem todo um ritual para se alimentar. \u00c9 ela quem tem de vir at\u00e9 a comida,  que deve ser deixada na porta da cozinha. Ent\u00e3o ela sai da sombra da Bananeira, no canto esquerdo, anda paralela ao muro at\u00e9 a metade do quintal e faz uma curva de 90o para andar em linha reta novamente at\u00e9 a porta da cozinha, onde a espera seu almo\u00e7o de <span style=\"font-style:italic\">sardinhas<\/span>, <span style=\"font-style:italic\">cocorocas<\/span> e <span style=\"font-style:italic\">manjubinhas<\/span>. Curiosamente, <span style=\"font-style:italic\">Lili<\/span> n\u00e3o anda em diagonal.<\/p>\n<p>Apesar de ser uma gra\u00e7a, <span style=\"font-style:italic\">Lili<\/span> ainda \u00e9 arisca e muito assustada. Ningu\u00e9m pode se aproximar dela que ela fica super nervosa: primeiro tenta se afastar com seus passos mi\u00fados, as vezes vomita, mas se o perseguidor insiste, <span style=\"font-style:italic\">Lili<\/span> tenta instintivamente decolar com sua asa esquerda (apenas), em uma cena de partir o cora\u00e7\u00e3o, e que mostra toda a for\u00e7a do instinto e toda a fraqueza da mem\u00f3ria desse animai. <span style=\"font-weight:bold\"><span style=\"font-style:italic\">Lili<\/span> n\u00e3o &#8216;sabe&#8217; que n\u00e3o tem uma asa, mas inevitavelmente descobre toda vez que mais precisa dela.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SX11nEU-htI\/AAAAAAAAAp4\/c4VGbGv5Ggo\/s1600-h\/lili_uma_asa.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"text-align:center;cursor:pointer;width:400px;height:376px;margin:0 auto 10px\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_WuwYgETHu7A\/SX11nEU-htI\/AAAAAAAAAp4\/c4VGbGv5Ggo\/s400\/lili_uma_asa.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>Em poucos dias ouvi em dois locais diferentes a frase que coloquei no t\u00edtulo. Sobreviver e adaptar. A primeira de <span style=\"font-style:italic\">Amparo<\/span>, personagem do livro &#8220;<span style=\"font-weight:bold\">Rio das Flores<\/span>&#8221; de <span style=\"font-style:italic\">Miguel Souza<\/span> <span style=\"font-style:italic\">Tavares<\/span>, que terminei de ler esses dias, falando da sua heran\u00e7a cigana. A segunda da Sonia Rodrigues, no buteco, acho que tamb\u00e9m falando da sua heran\u00e7a cigana.<\/p>\n<p>Sobreviver e adaptar \u00e9 o que nos permite evoluir. As vezes isso significa lutar, outras vezes se <a href=\"http:\/\/vocequeebiologo.blogspot.com\/2007\/06\/inconformados.html\">conformar <\/a>com o quintal.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem j\u00e1 n\u00e3o se emocionou com Fern\u00e3o Capelo, a gaivota que n\u00e3o se conformava com sua vida cotidiana? 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