{"id":360,"date":"2009-06-27T16:22:06","date_gmt":"2009-06-27T19:22:06","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2009\/06\/quem_pode_falar_de_politica_ci\/"},"modified":"2009-06-27T16:22:06","modified_gmt":"2009-06-27T19:22:06","slug":"quem_pode_falar_de_politica_ci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2009\/06\/27\/quem_pode_falar_de_politica_ci\/","title":{"rendered":"Quem pode falar de pol\u00edtica cient\u00edfica?"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/boardcommittee_1188234_246910101.jpg\" alt=\"boardcommittee_1188234_24691010.jpg\" width=\"500\" height=\"250\" \/><\/span><br \/>\n<span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/som\/VQEB.audioedition_quem_pode_falar_politica_cientifica.mp3\"><img decoding=\"async\" class=\"mt-image-none\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/blog.falado2.png\" alt=\"blog.falado.png\" width=\"300\" height=\"103\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">Um dos primeiros textos que escrevi, em 2002, foi sobre a <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2002\/07\/o-encontro-dos-presidenciaveis-com-a-ciencia.php\">conversa dos presidenci\u00e1veis com cientistas<\/a>. Ou melhor, o mon\u00f3logo, j\u00e1 que apenas um dos presidenci\u00e1veis havia comparecido ao evento. No ano que vem teremos elei\u00e7\u00f5es novamente, ent\u00e3o acho que posso voltar a esse assunto.<br \/>\nO que os candidatos a presidente poderiam falar sobre ci\u00eancia aos cientistas? Tudo! A pol\u00edtica cient\u00edfica se tornou parte importante da realiza\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia e deveria ser parte fundamental da vida dos cientistas. De TODOS os cientistas. Sim, porque para muitos, apenas cientistas seniores (o que no Brasil significa pesquisador n\u00edvel 1 do CNPq) estariam aptos a opinar sobre pol\u00edtica cient\u00edfica. Principalmente para os pr\u00f3prios cientistas seniores, em uma endogamia de id\u00e9ias que muitas vezes atravanca o desenvolvimento da ci\u00eancia.<br \/>\nVejam, a pol\u00edtica cient\u00edfica de um pa\u00eds interfere com a vida dos cientistas desse pa\u00eds atrav\u00e9s das ag\u00eancias de fomento. No Brasil essas ag\u00eancias s\u00e3o principalmente o CNPq e a FINEP (vinculados ao MCT), a CAPES (vinculada ao MEC) e as FAP (funda\u00e7\u00f5es de amparo a pesquisa dos governos estaduais). S\u00e3o elas que criam os programas de fomento a pesquisa, que determinam os valores e prazos de financiamentos, al\u00e9m dos crit\u00e9rios e regras dos editais.<br \/>\nEssas ag\u00eancias tem a dif\u00edcil tarefa de avaliar os cientistas para decidir quais devem receber financiamento, bolsas e outros tipos de incentivos para a pesquisa. Por\u00e9m, essa n\u00e3o \u00e9, de forma alguma, uma decis\u00e3o tomada de forma cient\u00edfica: os crit\u00e9rios se aproximam mais da numerologia e do sobrenatural: n\u00famero de artigos publicados, n\u00famero de artigos publicados nos \u00faltimos 3, 5 ou 10 anos; n\u00famero de artigos publicados como primeiro\/\u00faltimo autor, n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es, fator de impacto da revista, <em>Qualis<\/em> da revista, \u00edndice de impacto do pesquisador, \u00edndice H&#8230;<br \/>\nClaro que precisamos de um sistema de avalia\u00e7\u00e3o. No seu v\u00eddeo <em>&#8216;A explos\u00e3o do saber&#8217;<\/em>, <em>Leopoldo de Meis<\/em> mostra que com a institucionaliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, o n\u00famero de cientistas no mundo que era de 150 no sec XVII (passou para 4500 em 1900 e) hoje esta estimado em mais de 30 milh\u00f5es. Os recursos para a ci\u00eancia n\u00e3o acompanharam esse n\u00famero um a determina\u00e7\u00e3o de um ranque \u00e9 inevit\u00e1vel.<br \/>\nMas ser\u00e1 que a os fatores de impacto s\u00e3o a melhor ferramenta? N\u00e3o poderia dizer que a avalia\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia por \u00edndices \u00e9 o pior sistema poss\u00edvel, mas definitivamente \u00e9 um sistema ruim o suficiente para ser extinto. O pr\u00f3prio <em>Eugene Garfield<\/em>, que inventou o fator de impacto em 1961, disse que ele n\u00e3o era apropriado para avaliar indiv\u00edduos. H\u00e1 uma infinidade de artigos, publicados exatamente nas revistas com os mais altos fatores de impacto (veja <em>&#8220;The politics of publication&#8221;<\/em> por <em>Lawrence PA<\/em>, na <em>Nature<\/em> 422: 259-261), questionando com argumentos fort\u00edssimos a &#8216;cienciometria&#8217; vigente.<br \/>\n<em>&#8220;N\u00f3s chegamos ao ponto de considerar a revista onde um artigo \u00e9 publicado mais importante do que a mensagem cient\u00edfica que ele traz&#8221;<\/em> faz uma <em>mea culpa<\/em> um dos principais editores da <em>Nature<\/em> (<em>Lawrence<\/em> no mesmo artigo citado acima).<br \/>\nMas porque nada, nada consegue livrar o sistema desse v\u00edcio?<br \/>\nA resposta \u00e9 simples: porque ele conv\u00e9m as pessoas que mais se beneficiam do sistema, que s\u00e3o as mesmas que criam as pol\u00edticas cient\u00edficas. E esses s\u00e3o os cientistas seniores. Os \u00edndices, quaisquer que sejam, beneficiam quem est\u00e1 fazendo ci\u00eancia h\u00e1 mais tempo. Em pa\u00edses como o Brasil, onde a verba para ci\u00eancia \u00e9 escar\u00e7a, vale o dito popular: <em>&#8220;Quem parte e reparte e n\u00e3o fica com a melhor parte ou \u00e9 tolo ou n\u00e3o tem arte&#8221;<\/em>.<br \/>\nEm outro coment\u00e1rio na <em>Nature<\/em> (423:585), <em>Robert Insall<\/em> da Universidade de Birmingham (Inglaterra) diz que <em>&#8220;Seria mais f\u00e1cil fazer frio no inferno que conseguir que cientistas mais velhos mudem alguma coisa, muito menos alguma coisa que beneficia muitos deles&#8221;.<\/em><br \/>\nA forte endogamia na ci\u00eancia dificulta a objetividade na avalia\u00e7\u00e3o da produtividade cient\u00edfica. Cientistas seniores convidam uns aos outros para participarem de comit\u00e9s e conferencias, distribuem pr\u00eamios uns aos outros e apoiam publica\u00e7\u00f5es mutuamente. Olhem os comit\u00e9s das ag\u00eancias de fomento (ok, n\u00e3o olhei todos, mas posso apostar a bolsa de produtividade cient\u00edfica que eu ainda n\u00e3o tenho): n\u00e3o h\u00e1 1 (um), nenhum, cientista com menos de 40 anos.<br \/>\nEi, mas vejam bem, esse texto n\u00e3o \u00e9 um lamento tendencioso de um cientista com (um pouco) menos de 40 anos para com seus pares seniores. O sistema \u00e9 sim pernicioso e a raz\u00e3o \u00e9 simples: <strong> \u00e9 mais f\u00e1cil criar bons indicadores do que fazer boa ci\u00eancia!<\/strong>. E \u00e9 por isso que deveria ser modificado.<br \/>\nCientistas, mesmo os n\u00e3o t\u00e3o bons, n\u00e3o s\u00e3o bobos (uma das poucas coisas que podem se gabar). Mesmo os jovens j\u00e1 perceberam que o importante n\u00e3o \u00e9 mais fazer boa ci\u00eancia e sim fazer bons &#8216;indicadores de ci\u00eancia&#8217; (j\u00e1 que na maioria das vezes n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa). No m\u00e1ximo, fazer boa ci\u00eancia enquanto faz bons indicadores de ci\u00eancia.<br \/>\nA \u00fanica sa\u00edda \u00e9 colocar &#8216;sangue novo&#8217; nas ag\u00eancias de fomento. \u00c9 definitivamente mais f\u00e1cil mudar a composi\u00e7\u00e3o dos conselhos deliberativos das ag\u00eancias que nominei no in\u00edcio desse artigo, do que a cabe\u00e7a dos cientistas seniores que participam desses mesmos conselhos. Enquanto n\u00e3o houver cientistas jovens participando das inst\u00e2ncias decis\u00f3rias da ci\u00eancia no Brasil, vamos continuar sofrendo dessa endogenia. At\u00e9 l\u00e1, as ag\u00eancias de fomento, assim como as revistas cient\u00edficas, poderiam pelo menos solicitar aos cientistas que declarassem algum tipo de conflito de interesse em suas propostas de projetos: Voc\u00ea de alguma forma est\u00e1 se beneficiando de contribui\u00e7\u00f5es que tenha feito na prepara\u00e7\u00e3o desse edital?<br \/>\nO interessante seria um &#8216;\u00edndice conflito&#8217; com base na resposta dessa pergunta.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos primeiros textos que escrevi, em 2002, foi sobre a conversa dos presidenci\u00e1veis com cientistas. Ou melhor, o mon\u00f3logo, j\u00e1 que apenas um dos presidenci\u00e1veis havia comparecido ao evento. No ano que vem teremos elei\u00e7\u00f5es novamente, ent\u00e3o acho que posso voltar a esse assunto. 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