{"id":406,"date":"2009-10-08T19:11:59","date_gmt":"2009-10-08T22:11:59","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2009\/10\/o_sexo_dos_anjos\/"},"modified":"2009-10-08T19:11:59","modified_gmt":"2009-10-08T22:11:59","slug":"o_sexo_dos_anjos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2009\/10\/08\/o_sexo_dos_anjos\/","title":{"rendered":"O sexo dos anjos"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"angeli.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/angeli1.jpg\" width=\"500\" height=\"374\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><\/span><br \/>\n<span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" style=\"border:0\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">H\u00e1 um tempo atr\u00e1s <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2008\/02\/sera-que-ele-e.php\">escrevi um artigo<\/a> sobre a import\u00e2ncia do ambiente hormonal durante a gesta\u00e7\u00e3o na determina\u00e7\u00e3o da sexualidade (e n\u00e3o do sexo) de um indiv\u00edduo.<br \/>\nA id\u00e9ia de que o corpo humano \u00e9, por padr\u00e3o, feminino e doses de testosterona (primeiro no utero e depois na adolesc\u00eancia) o masculinizam incomodou muita gente (especialmente meu pai). Todo mundo sabe que homens s\u00e3o XY e mulheres s\u00e3o <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/xisxis\/\">XX<\/a>, e que os &#8216;genes&#8217; v\u00eam antes do &#8216;corpo&#8217;. Ent\u00e3o como poderia um corpo padr\u00e3o feminino se desenvolver, mesmo que por um tempo (at\u00e9 receber as doses de horm\u00f4nio masculinizante), a partir de c\u00e9lulas com os cromossomos XY?<br \/>\nA resposta est\u00e1 publicada em uma revis\u00e3o sobre o tema que saiu esse ano e que, influenciada pela pol\u00eamica da atleta sul africana Caster Semenya, tamb\u00e9m foi publicada no <a href=\"http:\/\/www.the-scientist.com\/2009\/10\/1\/36\/1\/\">The Scientist<\/a> desta semana.<br \/>\nA natureza tem muitas, muitas formas de determinar o sexo de um indiv\u00edduo. E essas formas s\u00e3o t\u00e3o variadas quanto os organismos em si. Em alguns peixes (trutas por exemplo) se voc\u00ea enriquecer a alimenta\u00e7\u00e3o com um extrato de gonada masculina, todas as f\u00eameas viram machos. Na tartaruga <em>Trachemys scripta<\/em>, aquela que alguns de voc\u00eas podem ter num aqu\u00e1rio em casa, \u00e9 a temperatura que determina o sexo: se os ovos forem incubados a 26oC, todo os filhotes ser\u00e3o machos; se forem incubados a 31oC, todos os filhotes ser\u00e3o f\u00eameas. Em temperaturas intermedi\u00e1rias temos um pouco de um e outro.<br \/>\nN\u00e3o bastasse a estranheza dessas curiosas formas de escolher o sexo da pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o, ainda h\u00e1 a estranheza biol\u00f3gica evolutiva. Explico: coisas b\u00e1sicas na natureza dos seres vivos (por exemplo os genes que formam o cora\u00e7\u00e3o), e o sexo \u00e9 uma delas, t\u00eam genes semelhantes, independentemente de voc\u00ea ser um peixe, uma tartaruga ou um humano (as vezes guardamos semelhan\u00e7as at\u00e9 mesmo com as bact\u00e9rias). Mas no sexo \u00e9 tudo diferente. Pelo menos guardamos semelhan\u00e7a com os outros mam\u00edferos.<br \/>\nAinda h\u00e1 outra estranheza biol\u00f3gica. Durante o nosso desenvolvimento, passamos por um est\u00e1gio onde todos os nossos \u00f3rg\u00e3os ainda s\u00e3o pr\u00e9-\u00f3rg\u00e3os. Ainda n\u00e3o est\u00e3o completos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o podem se tornar mais nada al\u00e9m do que j\u00e1 foi determinado para ele. Ent\u00e3o um pr\u00e9-pulm\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 um pulm\u00e3o, mas n\u00e3o tem outra op\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser se tornar um pulm\u00e3o. A mesma coisa para um pr\u00e9-rim ou um pr\u00e9-cora\u00e7\u00e3o. A exce\u00e7\u00e3o \u00e9, novamente, a gonada: uma pr\u00e9-gonada pode virar tanto test\u00edculos quanto ov\u00e1rios. E agora vem a novidade: isso (virar gonada ou test\u00edculo) pode acontecer tanto em um indiv\u00edduo <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/xisxis\/\">XX<\/a> como em um XY.<br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o se perca, porque eu ainda vou entrar na parte complicada dos genes.<br \/>\nEnt\u00e3o, a pr\u00e9-gonada \u00e9 um tipo de &#8216;gonada-tronco&#8217; e ainda pode virar test\u00edculo ou ov\u00e1rio. E quem vai determinar isso s\u00e3o os genes. Mais especificmente os genes SRY, SOX9, FGF9 e WNT4. Calma, isso n\u00e3o s\u00e3o formulas matem\u00e1ticas pra voc\u00ea ficar assustado. Na verdade SRY \u00e9 a sigla em ingl\u00eas para <em>&#8216;regi\u00e3o determinadora do sexo no cromossomo Y&#8217;<\/em> (<strong>S<\/strong>ex-determining <strong>R<\/strong>egion <strong>Y<\/strong>); SOX9 \u00e9 um pouco mais complicado, mas resumindo \u00e9 a sigla de SRY BOX, ou seja, uma fam\u00edlia de genes que se ligam em SRY; FGF9 \u00e9 f\u00e1cil de novo, j\u00e1 que tamb\u00e9m \u00e9 uma sigla em ingl\u00eas para &#8220;fator de crescimento de fibroblastos&#8221; (que \u00e9 um tipo de c\u00e9lula do organismo) e WNT4&#8230; bom, essa dai n\u00e3o \u00e9 uma sigla intuitiva e o nome tem a ver com um v\u00edrus causador de tumores de mama em camundongos, por isso vamos deixar como est\u00e1 mesmo.<br \/>\nMas voltando aos genes, o primeiro a ser descoberto foi SRY l\u00e1 na d\u00e9cada de 90. \u00c9 um gene que est\u00e1 apenas no cromossomo Y e, adivinhem, \u00e9 a express\u00e3o dele que transforma a &#8216;mulher padr\u00e3o&#8217; em homem. Os pesquisadores fizeram um monte de experimentos bacanas transferindo o SRY para um dos X de um organismo <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/xisxis\/\">XX<\/a> que desenvolvia test\u00edculos, e quando tiravam o SRY do cromossomo Y de um organismo XY, ele desenvolvia ov\u00e1rios. Depois descobriram que a coisa era um pouco mais complexa, mas nada complicado. A pr\u00e9-gonada possui de um lado FGF9 e SOX9 e do outro WNT4. Ambos os genes s\u00e3o produzidos (expressos \u00e9 a express\u00e3o correta) na mesma quantidade. Se voc\u00ea for <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/xisxis\/\">XX<\/a> e nada de errado acontecer, ent\u00e3o em algum momento o produto de WNT4 acumula em maior quantidade e voc\u00ea desenvolve ov\u00e1rios. J\u00e1 se voc\u00ea for XY, na hora que SRY come\u00e7ar a produzir a sua prote\u00edna, ela d\u00e1 uma turbinada no SOX9, que por sua vez turbina o FGF9, for\u00e7ando a balan\u00e7a da pr\u00e9-gonada e gerando test\u00edculos.<br \/>\nEnt\u00e3o, qual o sexo dos anjos? N\u00e3o importa, porque com um pouco, realmente s\u00f3 um pouco de manipula\u00e7\u00e3o g\u00eanica, podemos escolher o sexo que quisermos, independente da gen\u00e9tica. Veja que eu falo g\u00eanica e gen\u00e9tica. Uma manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica levaria todas as c\u00e9lulas de um organismo a serem de um &#8216;jeito&#8217; ou de outro. Mas na verdade se ligarmos ou desligarmos SRY durante um per\u00edodo de tempo do desenvolvimento embrion\u00e1rio (na hora em que a pr\u00e9-gonada est\u00e1 para virar gonada), voc\u00ea poder\u00e1 escolher um menino ou menina independente do gen\u00f3tipo <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/xisxis\/\">XX<\/a> ou XY.<br \/>\nVai por mim, se bobear, d\u00e1 menos trabalho do que os outros truques, simpatias e artimanhas que eu j\u00e1 ouvi para escolher o sexo da crian\u00e7a.<\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Current+Opinion+in+Genetics+%26+Development&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1016%2Fj.gde.2008.11.004&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Blurring+the+edges+in+vertebrate+sex+determination&amp;rft.issn=0959437X&amp;rft.date=2008&amp;rft.volume=18&amp;rft.issue=6&amp;rft.spage=499&amp;rft.epage=505&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0959437X08001822&amp;rft.au=BARSKE%2C+L.&amp;rft.au=CAPEL%2C+B.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEcology%2C+Evolutionary+Biology%2C+Molecular+Biology%2C+Behavioral+Biology%2C+Biochemistry%2C+Biological+Anthropology%2C+Cognitive+Psychology%2C+Comparative+Psychology%2C+Career%2C+Education%2C+Policy\">BARSKE, L., &amp; CAPEL, B. (2008). Blurring the edges in vertebrate sex determination <span style=\"font-style: italic\">Current Opinion in Genetics &amp; Development, 18<\/span> (6), 499-505 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.gde.2008.11.004\">10.1016\/j.gde.2008.11.004<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um tempo atr\u00e1s escrevi um artigo sobre a import\u00e2ncia do ambiente hormonal durante a gesta\u00e7\u00e3o na determina\u00e7\u00e3o da sexualidade (e n\u00e3o do sexo) de um indiv\u00edduo. 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