{"id":410,"date":"2009-10-21T21:07:44","date_gmt":"2009-10-22T00:07:44","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2009\/10\/achados_e_perdidos\/"},"modified":"2009-10-21T21:07:44","modified_gmt":"2009-10-22T00:07:44","slug":"achados_e_perdidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2009\/10\/21\/achados_e_perdidos\/","title":{"rendered":"Achados e perdidos"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"fio_telefone.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/fio_telefone1.jpg\" width=\"500\" height=\"441\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">Um dia, assistindo <em>House<\/em> (1o epis\u00f3dio da 2a temporada), ouvi ele falar dos 5 est\u00e1gios da perda. Eram as etapas pelas quais passavam todos os pacientes que se deparavam, por exemplo, com uma doen\u00e7a terminal. S\u00e3o eles: <strong>nega\u00e7\u00e3o, raiva, barganha, depress\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o.<\/strong> Uau! Adoro quando a realidade vem assim, como p\u00edlulas de sabedoria, de forma simples e ineg\u00e1vel. Pensei logo que os 5 est\u00e1gios poderiam ser aplicados a qualquer perda, ainda as pequenas, e cheguei a conclus\u00e3o que o roterista de <em>House<\/em> era um g\u00eanio e corri para o computador para escrever a respeito.<br \/>\nMas n\u00e3o era bem assim.<br \/>\nDescobri ent\u00e3o que a autora da brilhante constata\u00e7\u00e3o era da <em>Dra. Elizabeth K\u00fcbler-Ross<\/em>, uma m\u00e9dica psiquiatra Su\u00edca, e que seu modelo dos 5 est\u00e1gios havia sido publicado no livro <a href=\"http:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/1\/21468629\/sobre+a+morte+e+o+morrer\/?franq=284021\">&#8220;Sobre Morrer e a Morte&#8221;<\/a> de 1965. Al\u00e9m disso, havia (e h\u00e1) uma quantidade enorme de material sobre a m\u00e9dica e seu modelo na internet e muitos deles j\u00e1 discutindo a possibilidade de aplica\u00e7\u00e3o a outros tipos de perdas. Deixei meu texto ent\u00e3o no forno, enquanto esperava outra deixa pra falar sobre o assunto.<br \/>\nMas desde ent\u00e3o vivo com os 5 est\u00e1gios na cabe\u00e7a (na verdade com alguns deles mais do que outros) porque \u00e9 impressionante quantas perdas experimentamos no nosso dia-a-dia (ainda \u00e9 assim que se escreve com a nova gram\u00e1tica?). Sendo que estou considerando <strong>&#8216;perda&#8217; como eventos cujos resultados s\u00e3o diferente das nossas expectativas.<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o ontem, enquanto preparava uma quest\u00e3o de prova sobre &#8216;sinaliza\u00e7\u00e3o celular&#8217;, me lembrei novamente do modelo Kl\u00fcber-Ross, mas n\u00e3o por causa de uma perda. Tudo que acontece dentro de uma c\u00e9lula (e olha, acontecem muitas, muitas coisas) \u00e9 resultado, ou resulta, de um sinal, que pode ser interno ou externo. Apesar da membrana celular possuir receptores bastante espec\u00edficos para um n\u00famero perto do infind\u00e1vel de mol\u00e9culas, existem basicamente uns quatro ou cinco &#8216;tipos&#8217; de receptores. Isso significa que apenas uma parte deles se modifica para poder reconhecer a mol\u00e9cula que ativar\u00e1 o sinal com especificidade, mas o mecanismo de gatilho que dispara o sinal a partir dai \u00e9 o mesmo em todos os receptores do mesmo tipo. Esses sinais podem ser super complexos, mas obedecem uma l\u00f3gica simples: uma prote\u00edna modifica outra, que modifica outra, que modifica outra, que modifica outra, que realiza uma tarefa. Como uma cascata. Mas apesar dessa bela met\u00e1fora, <a title=\"seria dif\u00edcil produzir um n\u00famero quase sem fim de mensagens usando um n\u00famero limitado de receptores e sinalizadores, al\u00e9m de um mesmo mecanismo de sinaliza\u00e7\u00e3o, a fosforila\u00e7\u00e3o, em um mecanismo linear\"> sinaliza\u00e7\u00e3o celular n\u00e3o \u00e9 linear<\/a>.<br \/>\nO que por alguma raz\u00e3o me remeteu aos 5 est\u00e1gios. Quando lemos sobre eles, parecem que vem sempre na mesma ordem, com a mesma intensidade e de maneira linear. Mas assim como os eventos entre a ativa\u00e7\u00e3o de um receptor na membra da c\u00e9lula e a express\u00e3o de um gene no n\u00facleo podem se espalhar horizontalmente, se cruzarem com outras vias de sinaliza\u00e7\u00e3o ou trocarem sinais com elas; n\u00e3o h\u00e1 necessariamente linearidade no modelo de Kl\u00fcber-Ross e a supera\u00e7\u00e3o de um dos est\u00e1gios n\u00e3o significa que voc\u00ea n\u00e3o pode voltar a ele. \u00c9 tudo, menos linear.<br \/>\nE podemos at\u00e9 mesmo ficar presos em <strong>ciclos de nega\u00e7\u00e3o-raiva-nega\u00e7\u00e3o, raiva-barganha-raiva, raiva-barganha-depress\u00e3o-raiva; sem nunca chegar a aceita\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nE para cada um de n\u00f3s essas emo\u00e7\u00f5es podem ter mais ou menos poder. Me lembro quando assisti &#8216;<em>Beleza Americana<\/em>&#8216; e o personagem de <em>Wes Bentley<\/em> fala para <em>Kevin Spacey<\/em> sobre a relut\u00e2ncia de seu pai em aceitar que ele trafica drogas:<em> &#8220;nunca subestime o poder da nega\u00e7\u00e3o!&#8221;<\/em><br \/>\nO caminho atrav\u00e9s dos est\u00e1gios deve se parecer mais como uma espiral, e da mesma forma que um fio de telefone, se enroscar em si pr\u00f3prio em um n\u00f3 superespiral dif\u00edcil de desatar.<br \/>\nPara deixar a situa\u00e7\u00e3o ainda mais complexa, da mesma forma que a c\u00e9lula envia diferente sinais ao mesmo tempo, e tamb\u00e9m em sequ\u00eancia, tamb\u00e9m n\u00f3s experimentamos diferentes perdas, de intensidades variadas, contemporaneamente e em sequ\u00eancia. E em um dado momento qualquer, vivemos um mosaico de diferentes perdas, cada uma em um est\u00e1gio do modelo.<br \/>\nE como pode ser o nosso estado de esp\u00edrito enquanto negamos uma coisa, temos raiva de outra, tentamos negociar uma terceira, estamos deprimidos com uma quarta, sentimos raiva pela terceira vez de uma quinta coisa, negociamos pela 4a vez uma sexta perda, negamos novamente uma s\u00e9tima depois de j\u00e1 termos passado duas vezes pela raiva e pela barganha; enquanto experimentamos apenas um pouco de paz por finalmente termos aceitado uma oitava frustra\u00e7\u00e3o?<br \/>\nFelizmente a vida n\u00e3o \u00e9 feita apenas de perdas e as nossas vit\u00f3rias, principalmente aquelas batalhadas, mas tamb\u00e9m, e porque n\u00e3o, aquelas fruto do acaso e da sorte, trabalham a favor da nossa autoestima (essa ficou sem h\u00edfen mesmo, n\u00e3o \u00e9?!). S\u00f3 que as vit\u00f3rias s\u00e3o s\u00f3 felicidade, ou algu\u00e9m tem dificuldade em aceitar uma vit\u00f3ria?<br \/>\nEsse <strong>&#8216;mosaico das perdas&#8217;<\/strong> se configura em n\u00f3s como uma impress\u00e3o digital m\u00f3vel, que nos caracteriza de uma maneira \u00fanica, mas que se modifica ao longo do tempo e com a aquisi\u00e7\u00e3o de cada nova perda e ganho; e assim determine, atrav\u00e9s de um modelo matem\u00e1tico ca\u00f3tico e complexo no melhor estilo &#8216;efeito borboleta&#8217;, como responderemos a uma nova perda: se ela, ainda que menor, despertar\u00e1 sentimentos de raiva e depress\u00e3o acumulados; ou se, ainda que maior, ser\u00e1 mais facilmente aceita.<br \/>\nMas, para o bem e para o mau, a realidade \u00e9 mais parecida com a par\u00e1bola do Rei Persa, que pede ao artista do reino uma obra de arte que o ajude a ficar feliz quando est\u00e1 triste e triste quando est\u00e1 feliz, e este lhe presenteia com um anel com os dizeres: <strong>&#8220;Tudo acaba&#8221;.<\/strong><br \/>\nQuanto mais r\u00e1pido aceitamos a perda, mais r\u00e1pido podemos come\u00e7ar de novo. Essa \u00e9 a beleza da vida.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia, assistindo House (1o epis\u00f3dio da 2a temporada), ouvi ele falar dos 5 est\u00e1gios da perda. Eram as etapas pelas quais passavam todos os pacientes que se deparavam, por exemplo, com uma doen\u00e7a terminal. S\u00e3o eles: nega\u00e7\u00e3o, raiva, barganha, depress\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o. Uau! 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