{"id":423,"date":"2010-01-07T20:08:10","date_gmt":"2010-01-07T23:08:10","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/vqeb\/2010\/01\/seu_cerebro_de_ostra\/"},"modified":"2010-01-07T20:08:10","modified_gmt":"2010-01-07T23:08:10","slug":"seu_cerebro_de_ostra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/2010\/01\/07\/seu_cerebro_de_ostra\/","title":{"rendered":"&quot;Seu c\u00e9rebro de ostra!&quot;"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\"><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"crassostrea.rhizophorae.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/crassostrea.rhizophorae1.jpg\" width=\"500\" height=\"392\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><\/span><br \/>\nJ\u00e1 ouvi pessoas fazendo esse tipo de ofensa umas as outras. Mas ser\u00e1 que \u00e9 realmente uma ofensa ter um c\u00e9rebro de ostra? Ou pior, ostra tem c\u00e9rebro?<br \/>\nA pergunta parece boba mas n\u00e3o \u00e9 simples de responder. Pelo menos 3 dos meus amigos maiores especialistas em neurobiologia, incluindo o Dr. <em>Stevens Rehen<\/em>, a Dra. <em>Mar\u00edlia Zaluar<\/em> e a maior especialista do mundo em sistema nervoso de invertebrados, a Dra. <em>Silvana Allodi<\/em>, n\u00e3o sabiam, de cara, a resposta. Tive ent\u00e3o eu que me virar pra descobrir.<br \/>\nA ajuda, mais demorada que inesperada, veio de um antigo livro de 1964 sobre (e entitulado) &#8220;A ostra americana <em>Crassostrea virg\u00ednica<\/em>&#8221; de <em>Paul Galsoft<\/em>. Essa \u00e9 a prima  norte americana da ostra de mangue, <em>Crassostrea rhizophorae<\/em>, que pode ser vista na foto acima e que eu tenho certeza que tantos de voc\u00eas apreciam na praia ou em restaurantes chiques. O livro traz um cap\u00edtulo inteiro sobre o sistema nervoso das ostras.<br \/>\nMas curiosamente, a primeira coisa que me chamou aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi a solu\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio. Foi  a linguagem do texto. Voc\u00eas, que como eu acabam lendo muito sobre ci\u00eancia, tamb\u00e9m n\u00e3o percebem a diferen\u00e7a gritante no estilo de escrita dos artigos e textos t\u00e9cnicos dos anos 40-60 para os atuais? Sem a press\u00e3o do &#8216;Publicar ou Percer&#8217; nas costas, os cientistas eram \u00f3timos contadores de hist\u00f3rias, e a ci\u00eancia era muito melhor comunicada. Os textos eram sim mais longos, mas n\u00e3o por isso prolixos. Eram contextualizados e tinham o necess\u00e1rio para serem fluidos, como uma legibilidade (aprendi ontem essa propriedade dos textos) dif\u00edcil de encontrar hoje em dia.<br \/>\nGalsoft come\u00e7a falando que o sistema nervoso \u00e9 bastante simples, com um g\u00e2nglio cerebral na parte anterior (perto da &#8216;dobradi\u00e7a da ostra, onde tamb\u00e9m est\u00e1 a boca) e um g\u00e2nglio visceral na parte posterior (onde a concha se abre e onde est\u00e3o tamb\u00e9moutros \u00f3rg\u00e3os importantes como as br\u00e2nquias, o m\u00fasculo adutor, intestinos, etc). Ambos est\u00e3o conectados por uma longa fibra nervosa e deles partem diversos nervos para as outras partes do corpo.<br \/>\nMesmo simples, ou talvez justamente por isso, \u00e9 um lindo sistema nervoso. N\u00e3o estou brincando&#8230; \u00e9 L-I-N-D-O! Veja o esquema abaixo. Se fosse uma tatuagem nas costas de uma menina na praia todos estariam perguntando quem teria sido o designer de um tribal t\u00e3o bacana (bom, talvez n\u00e3o usassem uma g\u00edria antiga como essa). Mas tenho certeza, que jamais imaginariam que eram os neur\u00f4nios da ostra.<br \/>\n<span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img decoding=\"async\" alt=\"sis_nerv_ostra_2.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/vqeb2\/wp-content\/uploads\/sites\/223\/2011\/08\/sis_nerv_ostra_2.jpg\" width=\"300\" height=\"575\" class=\"mt-image-center\" style=\"text-align: center;margin: 0 auto 20px\" \/><\/span><br \/>\nDiferente de outros bivalves, de vida (mais ou menos) livre, como mexilh\u00f5es e vieiras, as ostras n\u00e3o possuem p\u00e9 (sim, os mexilh\u00f5es tem p\u00e9) e olhos (sim, os coquilles tem olhos) e seus \u00fanicos \u00f3rg\u00e3os dos sentidos s\u00e3o m\u00ednusculos tent\u00e1culos na borda do manto.<br \/>\n<strong>Abre par\u00eanteses:<\/strong> o manto \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o dos bivalves com muitas fun\u00e7\u00f5es: secreta a concha, participa da reprodu\u00e7\u00e3o e ajuda a proteger os \u00f3rg\u00e3os internos. <strong>Fecha par\u00eanteses<\/strong><br \/>\nApesar de pequenos, os tent\u00e1culos s\u00e3o muito sens\u00edveis se retraindo com a passagem de sombras ou feixes de luz, e capazes de perceber m\u00ednimas quantidades de drogas, excesso de material particulado em suspens\u00e3o varia\u00e7\u00f5es de temperatura e de composi\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do mar.<br \/>\nEm uma se\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos, pouco frequente em um livro texto que n\u00e3o seja um manual, ele fala sobre a grande dificuldade de se estudar o sistema nervoso, e d\u00e1 uma receita para se observar os nervos explicando tamb\u00e9m o porqu\u00ea e o para qu\u00ea de cada passo, como minha querida amiga Cristine gostaria que fossem todos os protocolos.<br \/>\nEle diz: &#8220;Em prepara\u00e7\u00f5es bem sucedidas, o nervo violeta escuro \u00e9 vis\u00edvel contra a massa visceral semi-transparente.&#8221; E com uma impressionante sinceridade, imposs\u00edvel em um artigo nos dias de hoje, continua: &#8220;Na minha experi\u00eancia o m\u00e9todo se mostrou caprichosamente laborioso e n\u00e3o completamente confi\u00e1vel&#8221;.<br \/>\nMas o mist\u00e9rio mesmo da hist\u00f3ria do &#8216;c\u00e9rebro&#8217; das ostras \u00e9 o \u00d3rg\u00e3o Palial. Pequenino, no formato (e no tamanho) de uma v\u00edrgula, &#8211; como esta aqui que passou, s\u00f3 que com muitos c\u00edlios na cabe\u00e7a arredondada -, at\u00e9 1964 nenhum experimento tinha sido capaz de explicar a sua fun\u00e7\u00e3o ou o seu funcionamento. Por isso, as especula\u00e7\u00f5es iam desde &#8220;um importante papel no controle da frequencia da respira\u00e7\u00e3o&#8221; at\u00e9 a &#8220;detec\u00e7\u00e3o de perturba\u00e7\u00f5es mec\u00e2nicas&#8221; ou de altera\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas na \u00e1gua.<br \/>\nE foi tentando elucidar esse enigma que me deparei com o final feliz, que n\u00e3o est\u00e1 no sistema nervoso, mas sim no circulat\u00f3rio. Como nas ostras o manto, al\u00e9m das fun\u00e7\u00f5es que eu j\u00e1 listei, tamb\u00e9m d\u00e1 uma m\u00e3o na respira\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio um complexo movimento de vai-e-vem do sangue (na verdade hemolinfa) nas veias e art\u00e9rias dessa regi\u00e3o. E para controlar esse movimento, a ostra possui dois &#8216;cora\u00e7\u00f5es auxiliares&#8217;, que funcionam independente do cora\u00e7\u00e3o principal. Mas fraco no inverno, e como bom carioca, mais forte no ver\u00e3o.<br \/>\nEnt\u00e3o, se algum dia algu\u00e9m disser que voc\u00ea tem c\u00e9rebro de ostra, tor\u00e7a, pelo menos, pra ter cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. <\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 ouvi pessoas fazendo esse tipo de ofensa umas as outras. Mas ser\u00e1 que \u00e9 realmente uma ofensa ter um c\u00e9rebro de ostra? Ou pior, ostra tem c\u00e9rebro? A pergunta parece boba mas n\u00e3o \u00e9 simples de responder. Pelo menos 3 dos meus amigos maiores especialistas em neurobiologia, incluindo o Dr. Stevens Rehen, a Dra. 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